
Sou tão ignorante que não consigo perceber nada que não tenha um princípio e um fim. Desoriento-me. Faço birra e em casos extremos posso ser muito mal-educado.
Tomo, por isso, o partido dos chineses que olhavam espantados para o padre Matteo Ricci a tentar convencê-los de que o nosso planeta era um globo feito de terra e água e, pela sua natureza de globo, sem princípio nem fim. Os chineses desse longínquo século XVI entendiam que a Terra era plana e, se me pedirem opinião, à minha hérnia, francamente, dá-lhe mais jeito andar em superfícies lisinhas do que estar sempre em graves acrobacias circenses para não cair no espaço.
Ricci era um jesuíta, formado em Roma, que viu em Portugal – país de que aprendeu o idioma na obscura cidade de Coimbra – a plataforma para chegar ao Oriente que amava e à China que quase eroticamente perseguia.
Em Macau aprendeu chinês (escreveu o primeiro dicionário de chinês-português) e aventurou-se no Império do Meio. Durante perto de 20 anos, o jesuíta foi conquistando o direito a aproximar-se de Pequim. Quando lá chegou, com outros jesuítas, atiraram-no para uma masmorra, apesar dos presentes com que pretendia prestar tributo ao sempre oculto, quase invisível, Imperador. A Matteo Ricci a ruidosa sombra da morte gelou-lhe algumas noites. Salvou-o um relógio, uma pequenina, perfeita máquina, quase infantil.
Sim, entre as prendas ia um relógio com sininhos que tocavam sozinhos. O lúdico objecto avariou-se nas mãos inábeis do Imperador. Um eunuco veio ter com o estrangeiro a que chamavam Li Ma-tou e deu-lhe três dias para que a música voltasse aos sinos do bizarro aparelho. O tempo, sempre o tempo: três dias medidos a sol e lua, ponteiros de um relógio e a minúcias de artesão suíço.
O arranjo foi um sucesso e os eunucos que levaram de volta o tic tac de brinquedo passaram a aceder diariamente à presença do Imperador. Dos estrangeiros, em particular de Matteo Ricci, os artistas do palácio pintaram-lhe retratos que o Imperador contemplou para os conhecer sem quebrar as estritas regras da sua alta solidão.
Ricci queria chegar ao Imperador. Se o convertesse, converteria o imenso Império. Marcara pontos no palácio consertando um pequenino relógio. Pensou que se consertasse o “relógio cósmico” que os chineses traziam avariado o Imperador se lhe renderia.
O calendário lunar chinês, foi o que Ricci logo viu, andava com as luas trocadas. Não admira que os astrónomos do palácio — apesar de sofisticados - falhassem sucessivas previsões. No dia 26 de Junho de um ano do começo do século XVII os astrónomos previram um eclipse solar às 10 horas e 30 minutos com a duração de duas horas. O padre Ricci atreveu-se a contrariá-los prevendo que o eclipse ocorreria uma hora mais tarde e não duraria mais do que dois minutos. Como os mortos deste cemitério bem sabem, o suspense não é o meu forte. O sol recusou-se a obedecer ao comando dos astrónomos imperiais. Às 11 e 30, conforme adivinhação de Ricci, durante dois escassos minutos a China ficou às escuras.
A 27 de Junho de 1601 o palácio rendeu-se e com ele a China. O imperador, um Ming, queria que a sua vontade coincidisse com a vontade do céu, para que céu e imperador correspondessem à sua infalível natureza de céu e imperador. O Conselho de Sábios ajoelhou-se no pátio e o Imperador, provavelmente atrás de uma cortina de seda amarela, aceitou rever o calendário, sujeitando-se, por nem o sol o contestar, ao saber do padre bárbaro, adorador de um crucifixo a que estava pregado um homem semi-nu de carne em sangue.
E Ricci, mesmo sem nunca ter visto o Imperador, ofereceu ao Oriente a ciência do Ocidente: matemática, hidráulica, óptica, astronomia, mesmo um telescópio, quando, ironia das ironias, em Roma, o papado fazia Galileu passar por um processo regressivo e macabro. A China deve a Ricci um calendário certo e um relógio que lhe pôs o tempo na palma da mão.
O Padre Matteo Ricci (1562−1610) teve um papel relevante na introdução do catolicismo na China. Era matemático, astrónomo, geógrafo e cartógrafo. Vestia-se como um chinês e estudou profundamente o budismo e o confucionismo, sendo apontado como figura exemplar no diálogo entre culturas.

















Fantásticas, Manuel. Fantásticas mesmo.
A escolha e a narração dos extraordinários feitos deste jesuíta — que realizou o sonho de Francisco Xavier, o qual morreu literalmente à entrada da China, na ilha de Sanchuan (perto de Macau) em 1552, curiosamente no ano em que nasceu Matteo Ricci. Gostei muito de o conhecer, por sua mão.
E lembrei-me tanto, tanto de um outro jesuíta — my absolute favorite -, que andou por um outro oriente, também ele com uma extraordinária vida feita de diálogo entre culturas, também ele protagonista de uma extraordinária história centrada num relógio. Vou trazê-lo para aqui um dia destes. It´s a promise.
Gracias Juana! Que venga ese otro jesuita!
Esta magnífico relato faz-nos viver, quase que diria com alegria, a maravilha do encontro de civilizações e do seu reconhecimento mútuo, uma espécie de apogeu da condição humana neste Mundo em que vai sendo mais fácil e rotineiro apelar ao confronto do que à fraternidade.
No Museu do Milénio em Pequim Matteo Ricci é, juntamento com Marco Pólo, um dos dois estrangeiros reconhecidos como importantes na história da China. Nesse mesmo Museu realizou-se em 2005 uma exposição portuguesa sob o lema «Portugal Encontra a China», já que também faz parte da história comum dos dois países este aproximar de povos e de civilizações.
Obrigado Manuel, por mais esta magnífica lição, pela forma e pelo conteúdo. Dá gosto ler o que assim nos é servido em bandeja da mais fina porcelana.
Caro Fernando, vivi 18 anos, dos 5 aos 23, em Angola, e esse encontro de estranhos — I’m a stranger here myself — apaixona-me. Falar outra língua, tocar outra pele, vencer a resistência de um insólito prato ou viscosa bebida que nos oferecem, converter a tentação de matar num abraço de vida, consola-me. Mesmo quando é só uma película superficial e depois a dura realidade se impõe.
Obrigado pela sua gigantesca benevolência.
A minha ignorância desconhecia tudo de Matteo Ricci: possa haver sempre entre nós e nossa anulação um relógio. Nunca se sabe qual é a palavra que nos salva.
Eu acho que a Eugénia é um bocadinho imperatriz chinesa. Sempre velada, atrás de uma linda e oscilante cortina de seda vermelha e à procura de que o seu tempo coincida com um tempo cósmico que coincida com o seu que coincida com um tempo cósmico que coincida com o seu. A si, não a salva uma palavra, salvam-na todas.
Preciso de textos assim para rever os meus conceitos um tanto ignorantes e inflexíveis nesta área :o)
Manuel
Se não for você sua eminência a matar um jesuíta de quando em vez, arrisco-me a morrer eu, bárbaro e ignorante, confundindo matemáticos sinófilos com carteiras de senhora.
Só um relógio, Pedro. Nenhuma carteira! Thanks.