Uma semana de férias passada entre anéis anões trolls irmandade perseguições perigos elevados. Na altura, quase há 2 décadas, à força de interrails já conhecia meia Europa e uma ou duas terras mais exóticas. Mas percebi que naqueles dias tinha vivido a aventura maior, as melhores férias da minha vida. Ainda hoje, que já dei mais uns passinhos no globo e que a saga dos anéis enjoa toda a gente, acho difícil igualar a vibração, o espanto, o medo, a alegria infantil daqueles dias.
Demorei uma semana a devorar a saga, John Ronald Reuel Tolkien levou bem mais de uma década a compô-la. Aos bochechos, entre 1936 e 1949. Bebé em 1892, passou pelo quarto escuro de duas guerras mundiais. Mas diz que na narrativa não há alegoria, afiança que a guerra verdadeira não se assemelha em nada à sua guerra lendária. 
Quis criar um mundo privado e paralelo. Mas o que mais me espantava era ter feito isso para dar sentido a uma escrita antiga por ele inventada, do tempo em que “as línguas e as letras eram muito diferentes das de hoje — a obra é de inspiração essencialmente linguística e foi iniciada a fim de proporcionar os antecedentes históricos das línguas élficas”. 
Tinha eu tentado aprender russo — na crença adolescente de que havia de ler Tolstoi no original(!) — grega com o alfabeto, um ano inteiro para me entranhar no cirílico, outro tanto para ler textos de ‘será esta a nossa casa, a cave no sótão, o sótão na cave’, só tão eu, já mais do avesso que a russa casa. Sempre de boca aberta pela descoberta da arbitrariedade de símbolos e correspondência fonética, porquê esta letra para este som se os latinos escolheram outra? E depois vinha aquele lord deus e criava uma língua completa de raiz e um mundo que a traduzia.
Na altura pensava que o apego a esta invenção das runas era só meu. Apenas hoje, em pesquisa na net, vejo que já na época os escritos de Tolkien eram os preferidos do Reino Unido, arredoores e out doors. Quem se gosta solitária e descobridora primeira, torce-se a conceder que era apenas mais uma na manada.
No fim da saga e daquela semana do século passado, com talento profético a augurar auspiciosa carreira na adivinhação ou em concursos televisivos, saí para as ruas altas de Monsaraz, respiração contida sobre a planície verde ainda sem lago de Alqueva: “Ora aqui está uma história que nunca nada nem ninguém conseguirá alguma vez transpor para uma tela de cinema”…



















Teresa, só no título fiquei conquistada. Não foi férias que li, mas foi como se fosse. Ainda hoje ninguém me convence que a Terra Média não é real.
“Ora aqui está uma história que nunca nada nem ninguém conseguirá alguma vez transpor para uma tela de cinema”… :)
li os livros há muitos anos (mas só os dois primeiros) e também achei que seria dificil transpor um universo tão rico para filme, mas vi toda a saga no cinema e gostei mesmo muito.
Lembro-me de ter ficado com pena dos cortes que as aventuras tiveram de sofrer. No filme não houve lugar, por exemplo, para Tom Bombadil…
Bem pensado este morto. E entrou tão íntimo em cobertores alentejanos de lã. Confesso a minha culpa ignorante, ligeiramente disfarçada com leitura apressada e compra da trilogia para exibição na televisão. Fiquei mais seduzido agora. A ver se nos entendemos Lord Tolkien.
Marta, Anita, Manel, obrigada pelos comentários.
Antes de ter chegado ao cinema, imaginava que a trilogia era um prazer quase só meu. Depois de tão globalmente partilhado já me parece mais desbotado. Duvido que hoje conseguisse dar a mesma atenção à Middle Earth. O que preservo é a memória ainda forte dos dias de leitura e aventura. E a admiração pela criação.
Minha querida, recordo falares do Senhor dos Aneis como uma obra incrível, melhor, inacreditável. Lamento a preguiça da tenra idade que impediu a leitura perante os calhamaços que me apresentaste. Juro que me deliciei com o teu relato, suficiente para perceber que, mesmo agora, a riqueza do livro continua a superar o filme impressionante:)
Minha Cherry pequenina,
mas tu ainda estás em tenra idade!
Se te der umas ganas de leitura, garanto que te vou levar a trilogia a casa:)
Gostei muito que viesses aqui ter comigo.
Teresa, terei de ser redundante…és minha heroína mesmo, acho que desde aquelas primeiras aquarelas.Li Tolkien com a mesma dedicação no final da adolescência (fim dos anos 80).As runas eu já bem conhecia e na verdade acho que foram elas que me levaram à Tolkien e principalmente à Lothlórien.Até hoje tem quem ainda me chame de Galadriel..r.ss…
Ah… e também tentei, sem sucesso, aprender o russo e o japonês :o)
Turmalina (ou será mesmo Galadriel?)
minha querida, que bom ter mais essa cumplicidade consigo.
É como se nos encontrassemos lá atrás, adolescentes leitoras:)
Com certeza…se bem que hoje estou mais para Galantine do que Galadriel :o)
Tenho um lindo O Gnomo, tradução, vá, livre de The Hobbit, de 1969, adaptado para crianças.
Perdi a conta aos Lord of the Rings, em edições inglesas, baratas, de capa mole, que tive e perdi — um mistério. Li-os várias vezes. Acho que ainda tenho também uma edição portuguesa, de páginas ásperas, desagradável ao toque, da Europa América, do fim dos anos oitenta. Fartei-me de fugir para a Terra Média.
Que bom que trouxe o Tolkien, Teresa. O homem era um crâneo.
Ps: sabia que houve um dinossauro Therizinosaurus menina Terisia?
Eugénia,
não estava à espera de ser denunciada tão depressa, ainda por cima a bold!
Confesso: as escamas verdazuladas ainda me aparecem e desaparecem no corpo, mas apenas periodicamente (por acaso, agora que falo nisso, parece que coincide com os dias em que me esqueço de tomar os comprimidos…)
Acho que vou redobrar a dose.
Há coisas que não sei explicar. Uma delas é nunca ter lido Tolkien (o que é quase estranho para um apreciador da FC de Ursula Le Guin), e outra, talvez mais estranha ainda, é nunca me ter tentado ver os filmes. Logo…
O que eu gostei foi deste texto.
(Therizinosaurus, hein… bonito!)
António,
não acho assim tão estranho. Os universos da Le Guin e do Tolkien não são nada semelhantes.
E o dos Anéis é um senhor para ser conhecido na adolescencia ou pelo menos enquanto ainda não somos muito crescidos. Parece-me. Além disso, quando não nos atrai, não vale nada a pena insistir na leitura.
Mas sei de um livro sobre um certo dinossauro que ainda não foi escrito; todos o julgam desaparecido e eis que um dia…
Teresa, não tenho nada a acrescentar aos comentários já feitos. Também o tempo da leitura foi juvenil e lúdico, também pensava-me única e desbravadora, também acinzentou-se um tanto a Terra Média com tanta visita via filme. Eu queria mesmo era dizer do que a sua escrita me traz, uma sensação que me é tão cara quanto mais rara nestes últimos tempos. Procurei e procurei as palavras e só me vieram imagens. Tentei (quem sabe ainda faça) montar um pequeno vídeo, mas faltou-me tempo e tecnologia. Deixo a imagem, como os pedaços de pão de João e Maria: http://migre.me/4470o
Luciana, que foto linda! É o mais lindo comentário que poderia aqui deixar.
É uma imagem cheia de movimento, não sinto falta de vídeo.
E tem pedacinhos muitos para nos perdermos para muito longe.
Pois pronto, as paalvras que eu não tinha sobre a tua escrita: “É uma imagem (texto) cheia de movimento, não sinto falta de vídeo. E tem pedacinhos muitos para nos perdermos para muito longe.” Obrigada, sempre.
Fantásticos, Teresa, escolha e relato.
O Tolkien aqui por estas bandas gerou uma situação paradoxal que ainda hoje nos traz a todos perplexos: eu, a leitora-devoradora de todos os livros, várias vezes comecei e larguei The Hobbit, folheei e espreitei o Senhor do Anéis, mas por aí me fiquei; o meu irmão, relutante e recalcitrante leitor, devorou-os todinhos aos Tolkiens, de uma assentada, numa espantosa voracidade — à qual insinuei eu, então, maldosa, não seria alheio um jogo de computador que se baseava largamente na trilogia (Dungeons and Dragons, salvo erro …).
O filme encantou-me. Primeiro, confesso, comecei por achar graça aos patentes paralelismos com o Harry Potter — cuja autora só pode ter lido muito Tolkien. Mas rapidamente me rendi àquele fabuloso universo. Em especial a certos personagens: os hobbits, claro, e o corajoso, leal e generoso elfo Legolas, imbatível no seu arco e flecha.
Depois uma grande amiga, linguista, falou-me entusiasmada de tudo aquilo que no seu texto nos conta, sobre a criação de um novo idioma, com regras próprias …
Fiquei, finalmente, com vontade de ler os livros. Vai ser um dia destes.
Joana, sabe que o Pe Stillwell escreveu uma tese sobre a teologia de Tolkien?
Também concordo com a Teresa que é para se ler em tenra idade, mas o tema é intemporal: a luta da alma humana entre o bem e o mal.
Marta, não sabia e gostei muito de saber. How appropriate: um padre católico inglês, que decerto cresceu com Tolkien, ele próprio um católico devoto.
Apesar de não ter lido o meu Tolkien em pequena, como já contei lá em cima, sempre soube do seu catolicismo – influência da mãe, convertida já adulta e muito prematuramente morta com diabetes, o que o marcou para sempre – que por um triz não o fez perder o amor da sua vida (que acabou por converter-se ao catolicismo). Sabia, sobretudo, dos seus esforços, em parte bem sucedidos, para converter C.S. Lewis — que do ateísmo passou para … a Church of England!
Joana,
por aí se ver que o poder inspirador do senhor Tolkien não estava só na escrita.
(Agora esta conversa parece estar no caminho certo para diálogo sussurrado entre senhoras a tomar chá :)
Joana,
Eu mesma fui reler alguns parágrafos dos livros e agora não lhes achei muita graça. Os diálogos soavam-me a Enid Blyton — que deve ter bebido Tolkien também. Acho mesmo que há uma idade própria para entrar neles e ser voraz.
Quanto ao lado linguístico, é fascinante. Mas linguística é a matemática das línguas, pode ser fastidioso para quem não se entusiasma com a espinha sem carne dessa ística.
O Tolkien foi muito além da carne: criou não apenas um corpo, mas um universo inteiro.
O momento de Tolkien que mais me toca é a criação do Mundo pela Música descrita no Silmarillion. E há também Túrin Turambar, “mestre do destino pelo destino vencido”.
Há em Tolkien algo de espantoso, o nascimento do Sol do cristianismo nas paisagens da tradição Nórdica, o encontro das Eddas com o Evangelho.
Há ali algo de muito poderoso, que eu nunca consegui compreender, mas que sempre me apaixonou.
Panurgo,
obrigada por partilhar esses seus bocadinhos tocantes connosco. A forma como fala deles é inspiradora.
Permito-me discordar da autora deste excelente texto: Tolkien não é só na juventude ! Não é bem dos 7 aos 77, como Tintin, mas sem dúvida da adolescência até … sempre.
A descoberta de Tolkien na adolescência abre-nos as portas para um mundo de aventuras e de fantástico ímpar.
A leitura ao longo da vida traz-nos sempre qualquer coisa mais. O mundo de Tolkien (e não me refiro apenas ao Senhor dos Anéis, mas também ao Silmarillion) é de uma riqueza de mensagem que na adolescência não se compreende. É preciso ler e reler para ler o muito que há nas entrelinhas !
Claro, isto vindo de uma ávida fanática de Tolkien (sob todas as formas e feitios), que lê Tolkien todos os anos, religiosamente, há mais de vinte anos. A minha experiência também me diz que ou se ama ou não se consegue ler de todo e ambas as posturas são praticamente inexplicáveis.