Lengalengas e arte canalha

Lamentando circunspecto — verto mesmo uma lágrima de contrita aflição — por ver o rasteiro nível com que o António acanalhou o nosso ajardinado cemitério, recusei-me, é claro, a participar neste festival de vergonha e baixarias. Mas atendendo ao que isto já chegou, e solicitado por um amigo meu, (como última vontade, diz ele!) recordo – e foi o meu amigo a lembrar-me – que o meu adolescente bando da Vila Alice, em Luanda, se entretinha, em geral a cappella e em raros casos com singelo acompanhamento à guitarra, com esta lírica expressão: 

“Enterra a mão
enterra o punho
enterra o braço.
Aço, calhamaço,
os colhões a marcar passo.”

A elevação estética que caracterizava o grupo, e no qual devidamente me formei com distinção (uma espécie de doutoramento avant la lettre) incluía mesmo referências literárias e, de um poema de um grande poeta, adaptámos ao ocioso prosaísmo daqueles dias, dois versos dele. Serviam-nos para chatear os tipos que tinham a mania que sabiam tudo, e que falavam do que acontecera antes de terem nascido como se lá tivessem estado. Dizíamos-lhes:

“Vai-te lá … (neste ponto procurávamos qualificativo digno ou um verbo intransitivo, e continuávamos) nessa altura ainda andavas a saltar de colhão para colhão do teu pai a ver se escapavas a ser filho da puta!”

e depois era um arraial de bordoada e outros vigorosos cometimentos vernaculares.
Pronto, cumpri a obrigação que tinha com o meu amigo (e também respondi aos insistentes 20 telefonemas que o António me fez para que eu saísse da minha torre de marfim) mas não deixo de lamentar que os mortos deste cemitério se mostrem assim uns aos outros, no osso, diria. Peço que para se redimir, cada um dos culpados coloque já a seguir um nocturno de Chopin ou uma pinturinha de Fra Angelico.

Comentários a “Lengalengas e arte canalha” (10)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Vinte telefonemas, Manel?! Vinte e um!…, não sejas forreta.
    Muito bem, gostei imenso dos saltinhos testiculares (que também conhecia, diga-se, e a outra idem, claro…)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Nesta matéria, meu santo antoninho, a originalidade rareia. Só para designar os côncavos ou convexos pontos que substantivameste distinguem os dois sexos canónicos, encontrei mais de meio milhares de termos, quer para um, quer para outro. Já não há coisas novas debaixo do céu.

  2. Luciana diz:

    Manuel, assim eu me desgraço (roubando o termo, provavelmente de forma errônea, da sempre pertinente Joana). Logo cedo li este seu texto e, ao invés de temperar meus camarões, resfriar a cerveja e dar um jeito na casa para receber no jantar como previsto, passei bem mais de uma hora vasculhando, primeiro a memória e depois a net, pra encontrar este fragmento que, na verdade, só tangencia a questão (na qual obviamente estou do lado do António e até contribuí arriscando-me a ser banida):

    http://www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura/2010/02/01/%E2%80%9Cos-falsos-canalhas%E2%80%9D-fragmento-por-nelson-rodrigues/

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Muito bem, Lulu. Mas o termo é radicalizado no ser adulto, pois aqui em Portugal ainda há que use o termo canalha para se referir às crianças. Como lembra a magnífica Teresa Salgueiro, dos Madredeus: «São as voltas da canalha»…

    • Luciana diz:

      Caríssimo Antònio, estou agora mesmo encaminhando, à administração do cemitério, uma solicitação formal — em papel perfumado e com arabescos e grafismos em alto relevo — para que se determine por portaria que doravante me trates sempre por Lulu. O tanto que gostei!
      Quanto aos canalhas, no brasil temos de um tipo só, nelsonrodrigueanamente definidos.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Lulu serás para todo o sempre!…

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Um diz: mata, o outro vem e grita: esfola! Mas que rica prenda me saiu, Manuel Fonseca.

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