Como uma tela em branco

Chegara nos primeiros dias de Março. Arrendara a casa branca sobre as dunas, virada ao mar. Viera só, estava sempre só. E sempre de branco. Manhã cedo passeava na praia. Recebia poucas cartas e nenhumas visitas. Nas contadas vezes em que fizera compras na vila mostrara-se cordial mas distante. Era grande a curiosidade acerca daquela mulher pálida e frágil. O que a trouxera até ali? Desgosto, para muitos. De amor, claro. Tragédia, não era caso para menos, havia quem garantisse: tão nova e bonita, a vaguear como um fantasma naquele fim de mundo.   

Também entre os artistas, como eram conhecidos na terra, se comentara a misteriosa figura. Apesar da dor que prostrava muitos dos que ali se juntavam - os que vinham da cidade, mal surgia a Primavera, atrás daquela luz única e os que permaneciam o ano todo, enquanto o céu e o mar a mudavam de cor. Fora um Inverno gelado de inesperadas mortes. Primeiro a mulher de Tomás, a dar à luz a segunda criança de ambos, que também se não salvara. Semanas depois, o marido de Ana, numa queda de cavalo. O desespero de Tomás, o desamparo da sua filha, tão pequena, a apatia de Ana agravavam o desgosto da irmã e dos irmãos dos desaparecidos. As conversas morriam, os serões acabavam cedo. Uns retiravam-se, para longas vigílias sem sono. Outros ficavam a beber, noite adentro. Às vezes discutiam. Todos haviam deixado de pintar: as telas brancas trazidas pelos que iam chegando empilhavam-se por todo o lado.    

Mas a curiosidade é uma força poderosa. As deambulações matinais da mulher de branco não passaram despercebidas a uns quantos membros do desolado grupo que, do alto de uma falésia, começaram a observá-la e, logo depois, a desenhá-la. Numa visita à casa branca Ana e Luísa haviam descoberto que também ela pintava. A conversa fluira e, abandonando a sua reserva, mostrara-lhes os trabalhos em que ocupava as tardes. Na parede da sala, o retrato de uma criança loura, a mesma que aparecia em quase todas as fotografias. Ao canto, uma enorme casa de bonecas, montada, mobilada e habitada. Nenhuma ousara perguntar, mas quando dias depois Luísa regressara, trazia consigo a sobrinha, filha de Tomás. Fora imediata e intensa a ligação entre a mulher de branco e a criança. O tempo passara depressa, esta a brincar na casinha, aquela absorta a vê-la, enquanto escutava Luísa. Nessa noite, e pela primeira vez em meses Tomás sorriu, ao ouvir o relato da filha. Prometeu que no dia seguinte iria com ela ver tal maravilha. Foi e ficou a tarde toda. Um jantar de conversas e risos em casa de Luísa selou a entrada do novo membro no grupo. Dir-se-ia que a desanimada desconhecida a todos insuflara novo ânimo. A todos não.

Ana mantivera-se à margem do entusiasmo geral, desconfiada e ressentida. Sempre gostara de Tomás, resignara-se mal ao casamento dele com a sua melhor amiga, fora até feliz com o seu marido. Mas a morte quase simultânea de ambos vira-a como um estranho sinal – de que talvez tivesse chegado a altura de Tomás e ela ficarem juntos. Então aparecera a mulher de branco. Que dia a dia se libertava da densa tristeza que a tolhia e se revelava gentil, alegre e talentosa. Não achas estranho não sabermos nada sobre ela? É como uma tela em branco. Dissera-o varias vezes a Luísa, que ria e respondia. E que mal é que isso tem? Uma tela em branco pode vir a ser o que se queira! Escrevera a uma prima, que sabia sempre tudo sobre toda a gente. Quem seria ela afinal, que vida fora a sua, da qual não falava? Várias semanas passaram. Tomás recuperara o sorriso. Recomeçara a pintar. Ao lado, no terraço de casa dela, a mulher de branco sorria também. O branco do vestido já nada tinha de mortalha, iluminava-lhe os traços suaves e a figura esbelta. 

Era já Setembro. O almoço juntara-os todos, desta vez em sua casa, e prolongara-se pela tarde, em brindes e discursos. Arrefecia. Ana entrou  para buscar um agasalho. Na sala, a lareira já acesa. Sobre a mesa, o correio. A carta que esperava. Volumosa. Pegou nela. Reviu o sorriso de Tomás, de pé, no meio dos outros. A criança loura aninhada no colo branco, envolvida pelo braço dela. Ouviu o som dos copos a tinir e das gargalhadas, lá fora. Atirou a carta fechada para as chamas, pegou no xaile de lã e regressou ao seu lugar, na cabeceira da mesa.     

Comentários a “Como uma tela em branco” (20)

  1. Anita visita os mortos diz:

    Seja pela coincidência do nome, seja pela mal explicada compreensão do seu contido mundo interior, é para a Ana que o meu interesse converge. Não tanto pela sua história concreta, mas pelo que ela revela sobre a nossa capacidade de vivermos “fora do quadro”, nessa tensão entre interioridade e blending in com o mundo. Por vezes são os outros — próximos, atentos, sintonizados e vividos –que nos inserem na tela e nos revelam outros mundos que, afinal, sempre desejámos viver.
    Gostei muito. Tem o seu quê de Jane Austen :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Anita, mas que bem aparecida! E que acertada reflexão logo pela manhãzinha! Concordo contigo sobre (mais) este relevante papel que os outros têm na nossa vida, melhor dizendo, podem ter, se para tanto lhes dermos oportunidade e espaço, renunciando à tentadora e sempre enganosa auto-suficiência …
      Agradou-me muito especialmente a parte da Jane Austen — e não foi só pela coincidência do nome, como bem saberás …

  2. MARIA diz:

    Gostei muito deste passeio sobre a tela.Estava curiosa .Pois,a tristeza…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Maria, fico muito contente de saber que gostou. Era esta afinal a razão da tristeza da mulher sentada à cabeceira … mas que demorei um bocadinho a perceber, demorei! Estava longe de imaginar, quando pela primeira vez aqui a vi, trazida pela nossa Eugénia, quanta luta me iria dar esta luminosa imagem!

  3. Teresa Teixeira Motta diz:

    O que eu gostei desta sua short! Tem o dom, como nas outras, de me levar uma e outra vez a re-observar a imagem para nela rever o texto ou, simplesmente, recordar pormenores a que não tinha prestado tanta atenção.
    Tendo este seu texto despertado em mim sentimentos contraditórios — de tristeza e alegria — o balanço final é positivo, quer pelo bonito desenrolar de acontecimentos, quer pelo fantástico final.

    Na verdade é, por vezes, muito mais importante e enriquecedor o que se conhece das pessoas pela vivência comum do que o que delas se sabe ou pode saber através de relatos de outros.
    E que bem enquadrada ficou esta sua short na manhã de sol, calor e uma bonita luz que hoje temos! Bem que eu gostava também de poder ir passear a pé na praia…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Também eu, Teresinha, também eu …
      a) gostei muito deste seu comentário, cujo final tão bem complementa e enriquece a história da mulher e da criança vestidas de branco e dos pintores com as telas brancas por pintar;
      b) muito gostaria de poder passear na praia manhã cedo como a protagonista e, em permitindo o tempo, dar um belo dum mergulho … quão melhor me correriam o dia e o trabalho, estou certa …

  4. Joana
    deixou-me em suspenso até ao fim
    e não é que eu estava à espera que fosse um anjo

    moral da história
    não há nada como realmente

    gostei imenso

    • Joana Vasconcelos diz:

      Rita
      a mulher de branco na sua (dela) outra vida poderia ter sido um anjo, uma mártir, quite the opposite ou de tudo isto um pouco: nunca se saberá e ainda bem.
      So glad you liked it.

  5. Luciana diz:

    Gostei imensamente: da figura da tela em branco (e não é o branco todas as cores-luz em movimento?) para a não-nomeada recém-chegada e da sua presença/enzima catalisadora no restauro de alegrias, da volumosa e inexplorada carta e, claro, mais que tudo, da renúncia a la Doniphon. Ah, o bem maior, quanto custa se não for em trombetas.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Luciana, imensamente feliz fico eu de saber que gostou!
      O branco pode ser tudo – a soma de todas as cores, como bem lembra, o símbolo de todos os contrastes (luto e festa, morte e vida). E quanto mais olhava para a imagem a tentar decifrá-la mais aquele branco todo me interpelava!
      E, curioso, sabia que renúncia e, sobretudo, bem maior foram as exactas palavras que me ocorreram quando pela ultima vez reli o texto pronto?

  6. Marta Costa Reis diz:

    Joana, gostei imenso desta história de amor e redenção, com todos os detalhes tão bem cuidados. Realmente perdoar liberta sobretudo quem perdoa!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Marta, não posso concordar mais! Nada nos liberta mais que a renúncia e o perdão, num e noutro caso de nós próprios, que tantas vezes sem perceber nos deixamos prender e apertamos até mais os laços dos enredos em que a vida às vezes nos enrola… Que bom que gostou!

  7. José Navarro de Andrade diz:

    As meninas Vasconcelos deste blog deu-lhes um furor ultra românrtico, demodée, mas que só ele para tanta intensidade. Reclino-me e aprecio. Sobretudo aguardo ansiosamente o que por aí deve vir.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Zé, agradeço desvanecida, tirando a parte do demodé, claro: é vintage que agora se usa dizer e com o sentido irrefragável de “do mais estiloso que é possível” …

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, tem a certeza de que a carta ardeu? Quando Ana, xaile sobre os ombros, saiu, de quem era o vulto que, vindo de dentro, se colou à parede e, num salto súbito, se aproximou da lareira…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Não, claro que não tenho, Manuel! Nem de quem a apanhou. Mas deixe que lhe diga que é isso mesmo que me tem valido nestes dias desde que publiquei a short. É que nem imagina, desde que permiti que aquela desgraçada Ana atirasse a carta para o lume sem sequer a abrir que tenho vivido num desassosego de curiosidade, a imaginar que diria a dita… e só mesmo a certeza de que mais dia, menos dia hei-de descobrir tudo isso dizia me tem permitido trabalhar e fazer a minha vida com alguma concentração …

  9. Eugénia de Vasconcellos diz:

    É sempre uma respiração funda, bem respirada, a gravidade bem centrada quando, tendo escolha, se escolhe bem.

    É taoista o final da sua short, Jeanne, gostei também disso, a natureza segue a naturalidade do curso, nenhuma acção a interrompeu.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Eugénia, gostei muito dessa ideia do taoismo ínsito no final da short. Mais singelamente, lembrei-me, ao relê-la, do que sempre me dizia a minha avó Madalena: que o que tem de ser tem muita força …

  10. António Eça de Queiroz diz:

    A reorganização das vidas tem o estranho dom de também produzir vítimas. Já vi isto acontecer.
    Mas!… e o que é que estava no pacote???…
    Assim não vale!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Claro que vale, António! E tem muito mais graça.
      O que é que estava no pacote? Uma longa carta? Fotografias? Excertos de uma sentença judicial?
      E quem era a mulher de branco? Uma infeliz a quem morreu a família toda em circunstancias dramáticas e acidentais que não quer lembrar? Uma mulher caída em desgraça que por via de um mau passo perdeu toda uma confortável vida, incluindo a criança nascida do casamento? Uma mulher do mundo envolvida com um homem poderoso e evidentemente casado, de quem tem uma criança que é forçada a entregar a outrém para ser educada de modo a evitar um tremendo escândalo?
      Pois resolvi deixar inteiramente à sua imaginação … quem é super querida, quem é?

Comentar