
Peter Garfield, “Harsh reality III”, 2000
Por esta hora estarão os desfilantes da tarde de Sábado a sentir aquele misto de alívio e melancolia que costuma prevalecer depois das manifestações.
Alívio porque desabafaram as mágoas, fizeram-se ouvir, deram exposição pública aos seus desagravos. A confissão sempre foi uma forma de trazer paz ao espírito; quando acompanhada pela sensação de ter sido acarinhada, ainda mais conforto recebe a alma.
Melancolia porque já perceberam que ao acordarem na segunda-feira tudo estará na mesma. O protesto é um ato de profunda inutilidade porque não tem consequências para além da sua própria expressão. Pior que o protesto só mesmo a abjeta ideia do “direito à indignação”: como posso reivindicar um estado de espírito como um direito? De que modo conseguiria a PIDE, para usar um exemplo radical, impedir que me indigne?
“E o povo, pá? E o povo, pá? // Quer mais dinheiro para comprar um carro novo.”
Nenhum outro par de versos define tão bem a situação social portuguesa contemporânea. O povo (categoria que Marx, que não era nada parvo, execrava, por não ter qualquer significado enquanto classe social) é hoje abreviatura de “classe média”. Ora foi esta classe média que desfilou hoje Avenida abaixo, sem programa, sem ideologia, sem plano e sem perspectivas. Acabou de descobrir que está empobrecida e não quer acreditar que vai empobrecer ainda mais.
Podemos congratular-nos por não terem trazido as panelas, como no Chile em 1973 e por, ao contrário do que sucede com estas manifestações de “jovens” em latitudes mais civilizadas, as vitrines das lojas de luxo que bordejam a Avenida terem permanecido intactas após a manifestação.
Há dois problemas muito graves em Portugal: o desemprego e a falta de emprego.
O desemprego está a liquidar os subitamente desqualificados e os que têm idade superior a 50 anos.
A falta de emprego mata à nascença as hipóteses dos que têm menos de 30 anos.
Porque é que há desemprego? Porque uma economia baseada em mão de obra barata viu-se ultrapassada pela mão de obra ainda mais barata da Ásia. Os chineses estão a fazer aos portugueses aquilo que os portugueses fizeram a Birmingham nos anos 60.
Porque é que há falta de emprego? Porque a economia portuguesa não cresce há mais de 10 anos; pura e simplesmente é incapaz de absorver todos os que procuram emprego compatível com os seus certificados de habilitações.
Quais são as perspectivas? Nenhumas, enquanto os impostos forem altíssimos para as empresas e para o consumo, enquanto os tribunais não funcionarem (experimentem cobrar uma dívida judicialmente e logo verão) enquanto a iniciativa não for estimulada e premiada.
Nestes dias proclamou-se como verdadeira uma enorme mistificação. A saber: “esta é a geração mais qualificada de sempre em Portugal”.
Em comparação com miserável Portugal salazarista? Sem dúvida.
Em comparação com qualquer outro país Europeu? Claro que não.
É seguro que há uma franja de elite em Portugal, muito maior do que alguma vez existiu. Esses ocuparão os lugares disponíveis no mercado nacional ou emigrarão. No fundo, esteve o estado a gastar avultados recursos para fornecer gratuitamente os mercados de trabalho estrangeiros – rico serviço…
Mas também é seguro que existe, diria que uma horda, de licenciados e mestrandos cujos certificados de habilitações têm valor equivalente a papel higiénico em qualquer mercado de trabalho.
Sociólogos, antropólogos, animadores culturais, politólogos e especialistas em relações internacionais, designers de moda e de multimédia, peritos em estudos portugueses, ambientalistas, licenciados em relações empresariais, licenciados em artes do espectáculo, em educação social (“O Educador Social irá adquirir um conjunto de competências que lhe permitem a realização de funções profissionais na área da educação social, seja directamente em contacto com crianças, jovens ou adultos, seja nas fases de planeamento e intervenção da acção sócio-educativa.”), e outros tantos da mesma estirpe – nunca mais haverá emprego para estas aptidões…
Pode um novo governo melhorar “isto”? Não.
Façam o breve exercício de calçar os sapatos do Sr Passos Coelho e hão de constatar que só um alienado quereria assumir neste momento a governação, já que:
1) Não há outra forma de saldar a dívida pública senão a que tem sido seguida;
2) Não há outra questão a resolver de imediato senão a dívida pública;
3) Saldar a dívida pública continuará a atrofiar o crescimento;
4) Quem nos tutela não quer e não deixa que a gestão do Estado fique interrompida durante os mais de três meses que dura a mudança eleitoral de governo;
5) Quem nos tutela não permitirá qualquer desvio à linha que traçou para Portugal e não dirá a qualquer novo governo nada que não tenha já dito a este;
6) O PSD é um partido organicamente semelhante ao PS, ou seja, repleto de carreiristas políticos cujo obetivo é a mera conquista dos lugares de poder.
Nota final: tal como toda a gente também não sei qual será a solução.

















Gostei imenso de ler este post! As imagens que vi na televisão e internet espelhavam bem, a meu ver, a imbecilidade do manifesto dos organizadores do desfile.
Sendo um estado de espirito, a indignação acaba sempre por se manifestar. Mas, obviamente, não se trata de um direito.
A solução será aprender a conviver com o pagamento da divida publica, aceitando o empobrecimento que isso acarreta, durante…uma eternidade! Não há volta a dar. Esta a acontecer o que se sabia que iria acontecer mais cedo ou mais tarde.
CONCORDO !!! CONCORDO !!! CONCORDO !!!!
O que se pede emprestado terá de se pagar, dê lá por onde der !!!! Culpados: todos nós, que nos habituámos a viver “à grande” com o dinheiro dos outros.
Há 40 anos que se diz não devermos sacrificar as gerações futuras, esta é a primeira “geração futura”, outras se seguirão, que apanha de frente esta tsunami financeiro.
Temos uma guerra a vencer, a atitude tem de ser essa, ir ganhando batalha a batalha, no duro, (re)partindo do nível de vida de há 40 anos, mais coisa menos coisa.
No meio disto, esta produção sistemática de competências inúteis e de incompetências pretensiosas (com as excepções da praxe) ao longo dos anos tem sido, continua a ser, o maior erro histórico que Portugal cometeu desde o 25 de Abril…e a culpa maior não será dos que assim foram instruídos, foi sim dos que governaram e instruíram, da mediocridade reinante. AQUI NÃO HÁ INOCENTES !
Parabéns pela análise e pelo modo com a explicitou. Pela minha parte, OBRIGADO !
Não é verdade. Nem todos são culpados. Há milhões que viveram sempre dentro das suas possibilidades, poucas, obviamente, e estes nunca recorreram ao crédito, pior, colocaram as suas parcas economias a render a 2% e os banqueiros com esse dinheiro a emprestá-lo a 20. A banca lucra milhões, a Edp, a galp, a Pt também. Porque é que não baixam os seus preços? Claro, diminuam os dividendos.
Excelente post, Zé.
Partilho tudo, menos a desesperança. Julgo ser pacífico aceitar as previsões anunciando que a Europa vai perder ainda mais competitividade no futuro próximo e que Portugal pagará com língua de palmo os brutais reflexos que isso tem na bola de sabão que é a nossa economia. Mas continuo a acreditar que há caminhos e pode haver inovação na redução da despesa e na reanimação do nosso crescimento.
Precisamos de mudança nos actores e não vejo, por isso, problema nenhum na queda deste Governo — o cansaço e o encurralamneto político a que chegou não nos ajudam a focar no essencial. E sim, como dizes, ninguém aparecerá com “a solução” porque assim, final, ela não existe. São caminhos, muitos, do turismo às indústrias do mar, da inovação tecnológica às indústrias culturais, da redescoberta de outra agricultura às clássicas indústrias exportadoras.
Concordo totalmente com o ‘paisagem’ geral, mas também concordo muito com o José Manuel Faria:
além da questão bancária e afins, porque continuam a funcionar centenas de caríssimos e inúteis institutos «públicos» (que afinal são extremamente privados)?
Tens toda a razão Zé! Mas, para além do desastre económico, preocupa-me o desastre institucional. Sempre fui muito céptica em relação às constantes mudanças mas não tenho dúvidas de que precisamos hoje de uma profunda revisão constitucional (em relação à qual o Passos Coelho perdeu uma boa oportunidade para estar calado e fazer as coisas bem feitas). Estamos a ver o nosso sistema político a desmoronar a um ritmo ainda mais acelerado do que o desemprego cresce. Um novo governo não pode mudar grande coisa, mas pode mudar uma coisa fundamental, que se lia ontem no cartaz mais certeiro: “Respect”!
Quanto à educação, sei que sou um lírica, mas continuo a acreditar que o ensino superior não serve para criar técnicos nem para preparar ninguém para a “vida activa”. Serve — devia servir — para abrir as cabeças, expandir a imaginação e a criatividade, ensinar a pensar fora dos mecanismos habituais e a assumir responsabilidade pelas próprias escolhas (na possibilidade de optar por várias disciplinas), pelo próprio trabalho (ao assumir que a maior parte do estudo é feita em casa e não na aula), pelo próprio destino (as notas são resultado do esforço). O que se aprende é o menos relevante quando se pode aprender de tudo em todo o lado e quando quase todos acabamos por ter profissões diferentes ao longo da vida, muitas delas bem distantes do que estudámos na faculdade aos 20 anos.
Concordo de uma forma geral consigo, e com os comentários anteriores, mas ainda concordo mais com a Marta Reis. A verdade é que os jovens andam nas universidades, como se anda no “bairro alto”.
Enquanto que nos outros países os jovens encaram os estudos como algo majestoso que lhes poderá abrir portas para uma vida melhor, tanto a nivel intelectual como a nivel profissional, os nossos parece que nada lhes importa, e ainda fazem pouco de quem quer ser Alguém… mas depois invejam quem alcança os tais lugares ao sol, tao batalhados.
Eu julgo que a mentalidade portuguesa é que precisava de uma boa MUDANÇA, mas infelizmente já se perdeu a oportunidade de mudar isso… ja não vai lá com “revoluções de cravos” nem “manifestações de um dia”.
Estou descrente no futuro e nas gerações futuras =( , estamos nos a afundar dia para dia, e não há solução para dar volta a isto… o que mais me irrita é a “falta de vergonha” dos nossos politicos, e dos “boys empresariais”.…
Ora cá está mais uma a juntar ao grupo dos que muito gostaram deste teu texto, Zé.
Fantástico diagnóstico, de tão desassombrado e certeiro.
Definitivamente, não são só os jovens a estar “à rasca”.
E não posso estar mais de acordo contigo e com a Marta, quanto aos jovens licenicados e pós-graduados e mestres, à duvidosa, para não dizer nula, utilidade das suas qualificações, ao irrealismo de muitas das suas expectativas e atitudes quanto à “vida activa”.
um copy /paste com jeitos de corte e costura do post e comentários acima
tipo plágio com ’ sentido
1.
… já perceberam que ao acordarem na segunda-feira tudo estará na mesma
2.
Partilho tudo, menos a desesperança
3.
ensino superior não serve para criar técnicos nem para preparar ninguém para a “vida activa”. Serve — devia servir — para abrir as cabeças, expandir a imaginação e a criatividade, ensinar a pensar fora dos mecanismos habituais
4.
não são só os jovens a estar “à rasca”.
5.
institutos «públicos» .… afinal são extremamente privados
6.
A banca lucra milhões, a Edp, a galp, a Pt também
…
the last but not the least
7.
tal como toda a gente também não sei qual será a solução.
Caro JNA e ‘moribundos’ deste cemitério tão vivo
desculpem o retalho acima mas o post é tão lúcido e os comentários tão complementares que não resisti a fazer um patchwork anárquico …
lol