As Feiticeiras

Bruxas no Ar, Goya

Já há algum tempo que, neste cemitério, não passamos pelo vexame de uma lista ou pela provação de um desafio.
Lembrei-me de uma pergunta estranhíssima que uma vez me fizeram: qual foi “o mais estranho melhor livro” que já leste?
Não era o pior livro, nem um livro de que não tivesse gostado. Respondi então como respondo hoje: li, no final de 1975, em Angola, “As feiticeiras”, de Jules Michelet, e é esse o livro: “o mais estranho melhor livro” que já li.
Michelet nasceu no fim do século XVIII e morreu, com 76 anos, no século seguinte. Era um historiador, mas era, sobretudo, um prolífico e elegante escritor. A inspiração dele, diz-se, era um bocadinho menos elegante. Quando lhe escasseava, Michelet ia a um urinol público perto de casa, enchia o peito do ar fétido e voltava a correr para casa, para mais cem páginas.
“As feiticeiras”, publicado em 1862, é um livro metódico, de factos (os relatos dos julgamentos em massa e dos milhares de autos de fé de feiticeiras na Europa) e um livro de satânica exaltação da psicologia da feiticeira a quem, como diz Barthes, Michelet confere um sexo superlativo: casam nelas o poder do macho e o poder da fêmea.
Saint Beuve disse que Michelet era um chato.  Por mais humilde que seja a minha opinião, penso exactamente o contrário. Pelo menos em “As feiticeiras” não o é. Mostra-nos o cortejo de horrores a que elas foram sujeitas, mas mesmo quando as mostra nuas e meio-mortas, agarra na nossa mão e põe-na naquele sítio em que logo percebemos que a feiticeira é aquela que distrai Jesus da insipidez dos seus santos: “Deus nos livre – escreveu ele – de vivermos num mundo em que todos os rostos humanos, desoladoramente semelhantes, têm essa igualdade adocicada de convento ou de sacristia.
Michelet arrasta-nos para a delirante roda do sabbat com promessas de orgia e a certeza da dança. É provável que mesmo depois de lermos “As feiticeiras” continuemos sem saber o que é que, para além do humano, estas mulheres trazem dentro delas. E ainda menos: como é que entrou? E nem sequer: por onde é que entrou? Mas temos a certeza de que, por elas, vale a pena correr o risco das torpes labaredas de uma fogueira.
Num jogo de passa a dois e não aos mesmos, desafio a Marta Costa Reis e o António Eça de Queiroz a revelarem-nos qual foi “o mais estranho melhor livro” que cada um deles já leu. Depois de nos explicarem tudo podem então passar o desafio a outros dois mortos deste faz de conta cemitério.

Jules Michelet

Comentários a “As Feiticeiras” (12)

  1. Joana Eça de Queiroz diz:

    Estou a lê-lo agora: Breakfast of Champions, do Vonnegut. Prenda do pai, diga-se, mas a meu pedido.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Joana, venha cá contar-nos tudo do Vonnegut, quando acabar. Mas agora, é obrigação do pai vir defender a sua, dela, dama. Uma dqauqleas damas que primeiro se estranha e depois se entranha.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    «(…) obrigação do pai vir defender a sua, dela, dama.» (…)
    Tu andas é a meter-te comigo…
    O Eça gostava de e citou Michelet várias vezes.
    Vou ter de pensar bem, já li livros bem estranhos de facto, e vários deles bons…

  3. Marta Costa Reis diz:

    Monsieur Fonseca, aceito o repto! Apesar de um percalço informático me impedir de lhe responder já, já, não estou parada e tenho uma certa obra em mente… veremos, isto da estranheza tem muito que se lhe diga.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Mas, ó valha-me Deus, como é que eu deixei passar este post unnoticed? Ando a trabalhar demais, é o que é … Que coisa …

    LIIIIINDOOOOO!
    Um desafio do Manuel! E em versão passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo, só que desta vez em dose dupla!!!

    MARTA e ANTÓNIO, já lá vão quatro-dias-quatro e… NADA??? ATÃO???

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