
Ler livros é como pintar uma anafada Vénus na parede da caverna para ver se deixa de haver trovões.
Ler livros é um anacronismo obscurantista. Quase tudo o que precisamos de saber está já explicado em palavras simples e frases curtas. E está na net, gratuitamente. Melhor – ou pior ainda, ou nem uma coisa nem outra – a forma como o nosso cérebro sabe o que sabe, ou há-de saber o que deve saber, vai estar explicado, se é que não está já explicado, muito neurobiologicamente. Ou seja, a actual variante positivista jura que ler livros é pior do que ajoelharmo-nos a rezar na Sé de Braga.
E eu que não estou contra nada disto, contra haver livros, contra desobscurecer, e estou tão a favor de que se saiba tudo sobre as highways, circulares e todos os mapeamentos da massa mole, tão pouco al dente, que o nosso crânio protege, revolto-me e digo: vamos criar o movimento “ando sempre com um livro na mão”.
Porque é que lemos livros se está tudo (e cada livro) tão bem explicado e tão simples? Por uma razão: não nos basta nem ter tudo explicado simples, nem ter tudo simples explicado. Não nos dá nenhum prazer saber quem é Hamlet e que lhe mataram o pai e que ele bem sabe quem foi e que também sabe que algo está podre no reino da Dinamarca. Nenhum livro é uma explicação. Um bom livro é a delícia de uma digressão. Quando lemos Conrad ou Borges, e podem ser os fantasmas de Shakespeare ou uma cativa camoniana, tanto lemos para saber como para não saber. Deslizamos nas curvas das frases, esbarramos num sólido substantivo, tropeçamos num advérbio. Não lemos para avançar, lemos para demorar, não lemos para viver, lemos para não morrer. Fartos estamos nós de saber que viver é o caminho mais curto para se morrer.
Ninguém, nenhum leitor, quer explicar Hamlet; ninguém, nenhum leitor, agradece a síntese da tolstoiana “Guerra e Paz”. Leio, lemos. Hão-de sempre continuar a ler livros os que buscam a forma arbitrária com que neles se juntam palavras, os que sabem que cada livro é uma amante promíscua que a cada leitor oferece um sentido diferente jurando-lhe ser o verdadeiro, último e único. E agora, quero que se lixe, vou correr tudo a palavrões. O livro é irresistível porque é polissémico, parece que abre as pernas à hermenêutica, mas não se reduz a nenhuma diegética.
Come-se, perguntam? Come-nos e deixa-se indestrutivelmente comer!

















“ando sempre com um livro na mão”. — [2 membros]
Apoiado.
‘ganda posti’
Oh, até é bem pequenino
Grande ideia, Manuel Fonseca! Precisamos de um boneco para plasmar no blog, como um daqueles amanhados em redondo de pregar na roupa, a dizer “ETGM: ando sempre com um livro na mão.” Pregamo-lo lá cima, no cabeçalho ou assins. Boa?
Ando sempre com um livro na mão e fartei-me de gostar do seu último, vá, pornoparágrafo — sim, sei, é ternura obscena do amor.
É, de vez em quando um parágrafo livre não faz mal a ninguém. Thanks dear lady.
Ora aqui está o movimento:
http://www.facebook.com/pages/Ando-sempre-com-um-livro-na-m%C3%A3o/200124573341014?sk=wall
Como se faz para por esta bela ideia na nossa página, Marta? Não dá para partilhar…
Agora é que a arranjaste bonita, Marta. Páginas de facebook são um compromisso para a vida.
Movimento que é movimento tem que estar no Facebook! Se te fartares, podemos enterrá-lo.
Na, está muito bem. Deixa marinar que é para os livros terem ainda mais sabor.
“You will never be alone with a poet in your pocket.“
John Adams, Letter to John Quincy Adams (14 May 1781)
Nice quotation Francis Adams!
“Tanto lemos para saber como para não saber”. É isso mesmo, doutor.
Tu sabes melhor do que eu, young master: sai-te do pelo!
Extremely well done, Manuel! Ideia e texto.
Eu ando sempre com um livro na carteira. Leio enquanto espero no dentista ou no médico, no cabeleireiro e no trânsito (parado, claro), nos intervalos mais longos entre aulas e sempre que se proporciona. Divirto-me, faço render o tempo que tanto me escasseia e evado-me sempre que é preciso.
Um dos melhores anti-stress que conheço, a administrar junto com o ritmo do dia-a-dia.
Desculpe Joana, mas acredito em tudo o que escreveu menos no modesto parentesis. Tenho a certeza de que lê no trânsito sim, mas a guiar também. E não vale desmentir-me que tenho registos rodoviários…
Ó, eu enrolo um cigarro entre semáforos… Dá para um parágrafo ou dois, no mínimo.
Ando sempre com um livro. Gosto de livros. Deixo-lhe, Manuel, um texto de 2008 do meu blog:
Gosto de ler livros já lidos. Se não são emprestados, mas comprados em feiras-de-livro-usado ou requisitados à biblioteca municipal, gosto de imaginar quem já os leu. Uns dão para ficar a saber o nome do antigo proprietário e a data em que foi comprado ou ofertado; outros têm sublinhados e divago para além do sublinhado, outros têm notas e reconheço, pela letra, ou pelo comentário, se é homem ou mulher — adolescentes ou adultos-; se um livro se mantem aberto, sem ajuda das nossas mãos, em cima da mesa, sei que foi lido por alguém que costuma tomar as refeições a ler. Mas também me dá prazer, quando me enfio nos alfarrabistas, encontrar um livro onde tenha de usar a faca para o abrir. É gesto e som de infância.
Ana, os seus gostos de 2008 continuam a ser muito bons gostos em 2011: ler livros lidos, decifrar comentários alheios como quem rouba um segredo, salvar do silêncio dos alfarrábios um velho livro virgem. Tudo bem bom.
Eu amo livros, nunca conseguirei ler um sem ser em papel (não quero!). Gosto de todos os que são mesmo livros. Um livro é alquimia subtil, não entra directamente pelos sentidos como a pintura ou a música, passa sempre pelos nossos filtros mais privados e intransmissíveis.
Na mão não, mas à pega sempre.
Eu amo livros, nunca conseguirei ler um sem ser em papel (não quero!). [2 membros]
Eita, que estou engajada.
Grande ideia a sua a de criar o movimento “ando sempre com um livro na mão”!
O que eu gosto de ler e de levar comigo um livro. Pena é que os que sou obrigada a transportar com maior frequência sejam sob a forma de articulado, tão indigestos e pouco divertidos…
Sabe sempre muitíssimo ler um livro enquanto se espera por algo ou por alguém, numa esplanada em dias de sol ou acompanhado por um chá quentinho no Inverno. De manhã, à tarde ou à noite (por vezes mesmo de madrugada!) um livro é sempre uma companhia. E que óptima companhia faz em todos os momentos, dos mais alegres aos mais tristes…
Vou, pois, aproveitar a deixa e dedicar-me à leitura de um livrinho dos bons!
Grande ideia a sua a de criar o movimento “ando sempre com um livro na mão”!
O que eu gosto de ler e de levar comigo um livro. Pena é que os que sou obrigada a transportar com maior frequência sejam escritos sob a forma de articulado, tão indigestos e pouco divertidos…
Sabe sempre muitíssimo bem ler um livro enquanto se espera por algo ou por alguém, numa esplanada em dias de sol ou acompanhado por um chá quentinho no Inverno. De manhã, à tarde ou à noite (por vezes mesmo de madrugada!) um livro é sempre uma companhia. E que óptima companhia faz em todos os momentos, dos mais alegres aos mais tristes…
Vou, pois, aproveitar a deixa e dedicar-me à leitura de um livrinho dos bons!
(versão corrigida: faltavam duas palavras no comentário publicado acima)
Obrigado Teresa TM,
nem foi bem uma criação, foi mais um desabafo.
A mãe do movimento é a Marta, a quem, se quisessem que o país andasse para a frente, deveriam entregar a formação do próximo governo. Mas o que é que se há-de fazer, ela só pensa em ler.