Ab ovo usque ad mala

Ab ovo usque ad mala. Do ovo às maçãs. A expressão, atribuída a Horácio, refere-se aos lautos banquetes romanos, que começavam com uma entrada de ovos e terminavam com fruta, e significa do princípio ao fim, completude. Ocorre-me a propósito deste quadro, por causa do nome do seu autor — Egg, Augustus Leopold Egg (1816−1863) — e das maçãs que contém e que evoca. Mas também por ser o mesmo um pantagruélico festim de detalhes e simbologias que se conjugam diante de nós num expressivo e dramático relato.  

Past and Present 1 é o primeiro — e de longe o mais extraordinário – de um triptíco pela primeira vez exposto em 1858 na Royal Academy de Londres, e dedicado ao adultério feminino. Corresponde ao past do título por que ficou conhecido e representa o momento em que o marido descobre tudo - e em que a mulher literalmente cai em desgraça. Quando da primeira apresentação pública do conjunto, figurava no centro, como chave de leitura dos outros dois, que retratam o sombrio present, num engenhoso e, à data, surpreendente flashback narrativo.

Tudo neste quadro é significativo e concorre para intensificar o pathos do momento que capta. Em primeiro plano, the fallen woman, de mãos postas, dir-se-iam atadas, o rosto escondido – ciente do que a espera e que a porta da rua aberta reflectida no espelho deixa já entrever. Logo atrás, o marido, o rosto de pedra e, amarfanhada na mão, a carta reveladora. Anónima delação? Imprudência dos amantes, surpreendidos pelo seu intempestivo regresso (que a bagagem pousada no chão e o chapéu na mesa parecem sugerir)? Para o caso pouco importa, se já nada há a ocultar: nem sequer a identidade do outro, cujo retrato-miniatura o pé marital esmaga. Há ainda a maçã vermelha. Metade caída no chão, metade sobre a mesa, a faca nela espetada — sinal da divisão causada, do rude golpe inflingido pela traição da mulher. A própria facada no matrimónio. Mas a maçã remete-nos também para Eva, of course. E se dúvidas restassem quanto a este ponto, um mero relance para a parede do fundo da divisão dissipá-las-ia: à esquerda, sobre o retrato da até aí dona da casa, a reprodução de uma cena bíblica: expulsão do Paraíso, what else? Last but not the least, as duas meninas, tão angelicais quanto sinistras – veja-se o desproporcionado tamanho das louras cabecinhas … -, uma a mirar fixamente a cena, a outra absorta no castelo de cartas que acaba de ruir, como tudo à sua volta, needless to say.

Foi grande o impacto deste tríptico junto da crítica da época. O tema e a forma crua como era tratado causaram incómodo: como disse um outraged critic, “there must be a line drawn as to where the horrors that should be painted for public and innocent sight begin, and we think Mr. Egg has put one foot at least beyond this line”. Ainda assim, passou por moralista, como advertência contra os males associados ao adultério feminino na sociedade vitoriana: a destruição do lar, as filhas a crescer sem mãe, a degradação moral da mulher. A verdade é que a closer look abala a certeza de uma tal leitura. Aquela mulher para sempre caída tem a fragilidade da vítima, suscita, mais que a reprovação, a compaixão – que as poignant scenes que completam o triptíco as desamparadas filhas a recordá-la e a própria, debaixo de uma ponte, abandonada pelo amante com o fruto dos seus ilícitos amores nos braços mais não fazem que acentuar. É bem provável que Egg, amigo e admirador de Balzac e de Dickens tenha, como estes, na literatura, ou como Watts, na pintura, procurado expor as limitações e a injustiça do modelo burguês de casamento de conveniência que propiciava o adultério de parte a parte, da dureza dos códigos sociais e legais que baniam e lançavam na miséria e na degradação a mulher prevaricadora. E que o tenha feito habilidosamente, através de uma cuidada mise-en-scène que, numa aparente e insuspeita colagem às convenções vigentes, consegue, entre o quase absurdo do primeiro e a desolação dos demais, uma densidade dramática capaz de suscitar emoções e conjecturas inesperadas à desprevenida assistência. Ou não fosse Egg também um talentoso actor de teatro, com créditos bem firmados como encenador.    

  

Comentários a “Ab ovo usque ad mala” (17)

  1. Teresa Teixeira Motta diz:

    O que eu gostei deste seu post! Tanto do quadro como da forma como nos vai guiando (e quanto a mim, enganando bem enganadinha!) pela mensagem que este parece transmitir e que afinal… é outra bem diferente!
    Não deixa de ser engraçada a forma como Egg consegue, através de um quadro aparentemente insuspeito e conforme com as convenções sociais da época, pôr a descoberto problemas de então! Confirma a ideia que tenho há alguns anos de que nem todas as mensagens têm que aparecer “escancaradas”, podendo ser subliminares e, ainda assim, muitíssimo certeiras!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Teresinha, gosto de saber que foi bem levada pelo Egg e por moi: era essa a ideia!
      Egg foi, antes de mais arrojado, quando decidiu retratar neste tríptico aquilo que na realidade acontecia, mas que segundo as convenções da época não era suposto falar-se e menos ainda exibir-se em manifestações artísticas. Depois foi habilidoso e, claro, subtil, ao reproduzir a realidade nua e crua das situações de marginalização e miséria a que eram votadas as mulheres adúlteras — tidas como impenitentemente depravadas e imorais, merecedoras de repúdio e de reprovação. Ora um mero olhar lançado sobre este tríptico, se não suscitou a comiseração geral, pois eram bem arreigadas as convicções e as convenções nelas suportadas, a alguns decerto terá dado que pensar …

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Rita, fico contente: escrever sobre quem bem desenha e pinta é o gozo que resta a quem não tem tais talentos ;)

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Pode parecer que não tem nada a ver. And yet. Foi por causa destes double standards que me chateei com Proudhon na altura em que já tinha planeado ser uma grandessíssima anarquista e lailailailai… Enfim, ainda não namoriscava e uma rapariga tem de se ocupar com alguma coisa.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fez bem Eugénia, que não era caso para menos: não pode ser-se tão à frente na defesa do operariado e tão patriarcalmente careta nestes outros domínios!

      Extraordinária essa sua ideia de planear — meticulosamente, I presume — vir a ser uma gransessíssima anarquista. Bem sei que já aqui nos falou disso, com os óculos escuros postos. Mas acho que vai ter mesmo de contar mais, um dia destes.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, as meninas do quadro-mãe, se assim lhe podemos chamar, poderiam ser da Paula Rego. Têm com as figuras dela um certo ar de família.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel foi exactamente Paula Rego que me ocorreu da primeira vez que vi este quadro — as meninas, sim, mas também a respectiva mãe: aquele penteado, aquela roupa, o grotesco da figura feminina tombada no chão causam-me uma inequívoca (ainda que atípica, porque retrospectiva), sensação de dejá vu

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Sim, sim, a mãe também. Podia ser uma das figuras do Crime do Padre Amaro que Paula Rego reinventou do Eça. Julgo que há mesmo uma saia castanha praticamente igual…

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Gostei muito, já conhecia o quadro mas confesso que nunca o tinha ‘lido’ assim. Gosto particularmente dos outros dois, gosto da pintura um pouco difusa e ‘past and present’ é muito contrastado.

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, que bom que gostou.
      É de facto impressionante como na primeira imagem o uso de cores fortes e contrastantes acentua ainda mais a tensão e o dramatismo de toda a dramática cena.
      Já reparou que nos dois outros quadros a lua com a nuvenzinha, que as filhas já crescidas e a mãe contemplam é exactamente a mesma?

  5. teresa conceição diz:

    Joana,
    foi uma delícia ir acompanhando a sua descrição e os pormenores dos quadros, e ir de revelação em revelação, como numa peça de teatro, até ao acto final. Relato habilidoso e de cuidada mise-en-scene:)
    Se a pintura fosse sempre tratada assim — a retirar-lhe a redoma de vidro e a aproximá-la do observador — teria muito mais adeptos…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Teresa, que bom que gostou!
      Eu também me diverti imenso a explorar o quadro — com o qual tivera mais que um encontro imediato que me deixou sempre muito impressionada e que aproveitei para mirar demoradamente neste meu último salto a Londres — e a tentar montar um suspensezinho … nada de comparável ao emocionante dramatismo que Egg, um verdadeiro mestre das artes cénicas, consegue imprimir a todo o tríptico!

  6. Joao Tomas Castro Melo diz:

    Fiquei com vontade de ver os quadros deste Egg!! É o que dá quando alguém escreve bem sobre o trabalho dos outros.… :-))

    • Joana Vasconcelos diz:

      JT, fico tão contente de saber que gostaste e que ficaste com vontade de mais Egg!
      Vale a pena explorar: o dito teve uma vida curta, mas produtiva e se nem todas as obras que produziu têm a carga emocional deste Past and Present 1, 2, e 3, tem quadros verdadeiramente deliciosos, como o cáustico Queen Elisabeth discovers she is no longer young …
      E já que estou em maré de sugestões, sobre este tema, muito pesado mas muito pertinente, vê,surgidos mais ou menos na mesma altura, Found Drowned, de Watts, The Awakening Conscience, de Holman Hunt e Found, de Dante Rossetti.

  7. Ana Vidal diz:

    Fantástica análise, Joana. Parabéns. A crítica implícita no quadro é de uma subtileza incrível, mas está lá para quem quiser vê-la. Até na aparente indiferença das meninas — mesmo na que olha a cena — perante o drama da mãe. E também me lembrou a Paula Rêgo.

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Muito obrigada, Ana. Fico muito contente de saber que gostou!
    O quadro sobressalta e desconcerta, primeiro pelo excesso, de cor, de pistas, de absurdo (muito Paula Rêgo, indeed), depois pelo que cada vez mais nitidamente dele se desprende até se tornar inequívoco…

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