Crónica publicada no Expresso, no dia 12 de Março. Para este sábado prometo Marilyn e o espelho de Marilyn.

Leio os jornais, mesmo os que escorrem sangue de paixões mal-amadas, e tenho de concordar que os portugueses raptam pouco. Rapta-se desde as Sabinas. Mesmo antes, Páris raptou Helena e deu no que deu, a homérica guerra de Tróia. O melhor rapto amoroso português é nos Lusíadas: os cansados marinheiros do Gama carregam aos ombros ninfas semi-nuas. Mas, hoje, raptamos pouco. Também, por amor, há tão pouca gente que nos dê vontade arrebatada de meter lá em casa.
No cinema, sim, apetece muito. Já me explicaram que é do escuro e de um tipo (pardon my french) ter as mãos nos bolsos. É escuro e os grandes planos dão-nos olhos rasgados a luz, sorrisos de um marfim mais fino do que uma lâmina e aparece-nos uma turbina no lugar do coração.
Em Luanda, uma vez, no lendário N’gola Cine, cinema ao ar livre entalado no musseque, com palco para variedades e um ecrã maior do que uma baliza de Wembley, navegavam as imagens de um peplum, como depois aprendi que se chamava a filmes que metiam túnicas, mais romanas do que gregas.
Não sei se o filme era Hércules e a Rainha da Lidia ou O Filho de Spartacus. Tanto podia ser um como outro porque o herói de ambos foi Steeve Reeves, Mister Universo, montanha de músculos no tempo em que os músculos faziam de um homem um deus. A plateia africana, em que se aconchegava este rapaz branco e os amigos mulatos, uivava como um cachorro feliz, língua de fora aos cometimentos épicos.
Mas houve um momento de calma e apareceu uma princesa. Com as aias. Caminha até à fímbria do mar, um plano americano mostra-lhe as pernas nuas e peças de roupa desamparadas caem-lhe aos pés. A túnica, digo eu, e já me estou a arrepiar. No plano seguinte, por mal que conhecêssemos a gramática cinematográfica ou pelo tanto que escondiam a princesa, bem sabíamos que estava nua, um plano picado a mostrar-lhe os alvos e carnudos ombros, a cara inteira linda nos sete metros de tela e o mar a cobrir o resto, linha de água a coincidir com o nível mais baixo do ecrã. Uma perceptível embriaguez correu pelas cadeiras. Um mais velho de refinada sensibilidade levantou-se, saltou ao palco e atirou-se contra o ecrã a tentar em urgente desespero olhar para baixo da linha de água a ver se lhe via o redondo e macio pecado. O alívio tomou conta da plateia. Risos, gritos, bonés pelo ar: “Mais velho à toa, mais velho à toa, o mais velho é salaiko!” E ríamos nele o que, uns segundos antes, gemíamos em surdina.
Uma princesa banhava-se nua em águas mediterrânicas e uma estrepitosa plateia africana saudava o patético mas sincero raptor da nudez dela. E agora invento que só podia ser a Sylva Koscina, a Sylva Koscina de olhos em azul eastmancolor e peito generoso mas não materno. Por estranho que pareça é por causa desse azul, desses ombros e desse mar que acho que vale a pena amar o cinema. Azul, ombros e mar que fazem um “mais velho” levantar-se e, movido a adolescente fé erótica, querer que lhe dê o ecrã o que a vida lhe tira ou talvez nunca lhe tenha dado.
ps — O mais próximo que consegui encontrar no you tube foi esta cena cuja incorporação não está autorizada.

















Rondei e rondei por aqui na peleja pra fazer um comentário minimamente compreensível que não se torne uma novela. Na minha família há uma histórica tradição de raptos por amor. Ia contar, mas fica sempre muito extenso. Um deles, só pra não sonegar tudo, começa com dois irmãos conversando — o mais velho divorciado, um tanto desiludido, regresso de São Paulo onde deixou esposa e filhos, refazendo no sertão seu legado…e o mais novo lhe pergunta: “Manel, quer casar com uma santa?” e daí vem uma narrativa com madrugada sem lua, 8 pessoas dentro de um carro velho e olhe que nem conto aqui dos 17 anos nem da lisa pele e esplendoroso busto que ainda ostenta até hoje…
No mais, o meu amor pelo cinema passa um tanto menos pelos ombros, mas deles não se esquiva. Tem-se renovado nestes sábados ressurgidos a meio de semana. No aguardo de Marilyn.
Luciana, sei que respondi a este seu comentário, mas não o devo ter gravado e só agora me dei conta da minha má-criação.
Disse-lhe, na altura, ou queria dizer-lhe, que esses raptos familiares com que nos acena, deveriam ser contados e são, certamente, muito mais dramáticos e poéticos do que o anedótico do meu relato. Avise-nos quando os contar no seu blogue.
A Marilyn, na 5ª feira que vem, visita-nos, de certeza. Obrigado pelo gentil comentário.