A obrigação de ser feliz

Uma das coisas de que mais gosto em Matt Damon é que muitas das suas personagens fazem rir as mulheres que contracenam com ele.
Está escrito, bem sei. Pelo argumentista, acrescenta o Pedro Marta Santos, e ele sabe. Mas está escrito por estar escrito para ele. Há em Matt Damon um modo de incarnar a masculinidade que, do belíssimo Good Will Hunting ao batoteiro Adjustment Bureau em exibição, obriga os argumentistas a dar-lhe cenas em que faz as mulheres felizes. Fuckin’ Matt Damon.
Hoje, já não sei onde, li que a felicidade não é um direito, é uma obrigação. Admiro a disponibilidade com que Damon encara a obrigação dele, fazendo-se feliz ao fazer as suas mulheres felizes. E ainda gosto mais de Minnie Driver que, em Good Will Hunting, tem sempre a certeza de que a sua obrigação de ser feliz também passa por saber como é que se faz rir um homem.

 

Comentários a “A obrigação de ser feliz” (32)

  1. Turmalina diz:

    Apesar de tudo, daquela teoria toda, dos padrões técnicos e estéticos, acho que o que mais gosto mesmo nos filmes é do faz de conta.Faz de conta que todo mundo pode ser assim…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Como o Matt Damon e a Minnie Driver? Mas quem é que não é Turmalina? Somo todos iguais a eles. Às vezes, um bocadinho melhores, ou julga que a vida não é um grande filme!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Há pouco tempo li um estudo sobre isto: concluía que as mulheres riem mais quando estão apaixonadas e para quem as apaixona. Batatas, pensa você, Manuel Fonseca, toda a gente sabe disto. O que o estudo acrescentava é que as mulheres, tal como os bebés, riem também para quem as apaixona para serem gostadas. E fazem muito bem. Há lá coisa mais verdadeira que o riso de um bebé — ou o choro? As mulheres precisam de sentir que são amadas, saber não lhes chega. Isso é o que as faz felizes e risonhas. Diz o estudo.

    Uma vez o nosso PMS perguntou pelos rapazes gostáveis do cinema. Não disse. Digo agora. Eu gosto do Matt Damon.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sim, sim, sim, mas, conte lá Eugénia, como é que as mulheres fazem para que um homem, nas suas imortais palavras, sinta ser gostado?
      Ainda bem que gosta do Damon. Até lhe mandava fazer um candomblé se não gostasse. E da Driver, não diz nada?

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Estou a falar chinois, eu, Manuel Fonseca?! É a coisa mais fácil do mundo, somos felizes dele! Rimos. Porque somos felizes e porque queremos continuar a ser. Se for caso disso choramos, mas só porque queremos ser felizes.

        Olhe que acho muito piada à Driver, tem nervo.

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Eugénia, foi a primeira vez que percebi chinês. Percebi lindamente. Rir e chorar é ser feliz para fazer feliz. Já viu que me converteu num confuciano?!

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            E veja lá se me agradeceu a confuciana epifania…

            • Manuel S. Fonseca diz:

              Quer ver que agora é a Eugénia que não sabe falar chinês…

              • Eugénia de Vasconcellos diz:

                Mas que implicância que você tem comigo! Conversão não é sinónimo de obrigada. Ou tenho de ir buscar o Priberam à net?! Custava-lhe muito dizer, vá, assim de repente, um mercizinho de nada: Eugénia, agradeço-lhe desfeito em vénias pela sua extraordinária sabedoria e excelsa bondade em partilhá-la comigo, homem mau e, direi mesmo, particularmente implicativo para consigo que só merece a minha penitência. Custava-lhe?! Pois vou-me embora e não lhe digo boa noite.

                • Manuel S. Fonseca diz:

                  E julga que eu trocava o plácido sossego de um merci por este seu bailado de Cyd Charisse e Priberam? Have a good night sleep!

  3. Ana Vidal diz:

    Desde o Talentoso Mr. Rippley que sou uma fã incondicional do Matt Damon.
    E sim, rir é o melhor remédio (já dizia a sabedoria Digest). Para tudo, ou quase.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Já muitas mulheres me fizeram rir, ó se fizeram! E chorar também, claro. O contrário é igualmente verdade.
    O risco é a minha profissão, não hajam dúvidas.
    O Damon é fixe.

  5. cruzei-me com o Matt Damon num Hotel
    ele filmava perto e tinha levado a familia
    simpático sem vedetismos andava de um lado para o outro a brincar com uma criança
    simples
    se eu já gostava dele
    passei a gostar mais um b’cadinho

  6. pedro marta santos diz:

    Para o De Niro, que sabe um bocadinho do que fala, o grande actor da sua geração não é o Di Caprio, nem o dramaturgicamente subestimado Brad Pitt (embora este seja da idade do Sean Penn e do Daniel-Day Lewis, que também sabem do que falam), é o Matt Damon. Para além da exalante simpatia, o Damon transmite um pouco do que, cada um ao seu estilo e substância, o Gary Cooper, o J. Stewart e o Joel McCrea transmitiam: um frágil mas rigoroso sentido de integridade.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      That’s the point. E devias ter dito — dei-te a deixa — que o Matt Damon (e o Ben Affleck) foi o argumentista deste filme. Há no filme dois ou três speeches de cair para o lado. Na famosa cena do bar, em que o Damon se confronta com um pretensioso jovem universitário, o remate dele é notável:
      “You come into a bar. You read some obscure passage and then pretend — you pawn it off as your own, as your own idea just to impress some girls and embarrass my friend? See, the sad thing about a guy like you is in 50 years, you’re gonna start doin’ some thinkin’ on your own and you’re gonna come up with the fact that there are two certainties in life. One: don’t do that. And two: you dropped a hundred and fifty grand on a fuckin’ education you coulda got for a dollar fifty in late charges at the public library…”

  7. pedro marta santos diz:

    (sorry: quando digo “sua geração” não é a do De Niro, mas a do senhor Damon)

  8. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Eu, que não percebo nada de cinema, gosto do Matt Damon. Foi ver um filme há uns dias só porque ele entrava. Mas por acaso não gostei muito do filme. Gosto imenso de uma série de dois ou três filmes em que ele entrou e em que, no fundo, era um agente da CIA ou coisa do género a quem tinham mexido no cérebro e agora, que não sabia quem era, queriuam matar (não me lembro do nome). Sempre que esse filme aparece vejo-o. Sobretudo por causa deste actor.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Gonçalo, foste ver o Adjustment Bureau? Em que uma espécie de anjos com chapéus controlam o destino das pessoas pondo em causa a nossa ideia de livre arbítrio? Também não morri de amores.

      • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

        Foi Manuel, exactamente esse. No entanto, o facto de o tema do livre arbítrio e da sua relação com Deus ser explicitamente tratada em cinema é de ressalvar (certamente não sabes, mas o tema da minha tese de doutoramento, caso a venha a acabar a tempo, é justamente sobre o livro de Luís de Molina que trata esse assunto — Concordia liberi arbitrii cum gratiae donis, divina praescientia, providentia, praedestinatione et reprobatione ad nonnulos primae partis divi Thomae articulos -, a partir do qual tentarei mostrar a originalidade do pensamento que então se desenvolveu na Península Ibérica, o qual culminou em Suárez).

  9. Joana Vasconcelos diz:

    Manuel, não desfazendo, claro, no tão solar retrato retrato do wholesome, boy-next-door Matt Damon que aqui nos deixa, aradou-me especialmente a ideia de que ser feliz, mais que um direito, é uma obrigação. Fiquei a pensar, andei a cuscar e descobri esta quote atribuída a Robert Louis Stevenson: “there is no duty we so much underrate as the duty of being happy”. Indeed.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      De acordo consigo, como sempre, Joana. Uma ressalva: não façamos dessa obrigação um peso tão grande que acabemos esmagados por ele.

      • Joana Vasconcelos diz:

        You’ve got a point there, Manuel. Concordo, claro. Mas uma tal obrigação, as I see it, de modo algum implica a esforçada e extenuante busca de patamares e etapas a que não raro se associa a felicidade — antes simplificar, descomplicar, descontrair, desfrutar, gozar e por aí fora. E mesmo no que a isto respeita, sempre sem prejuízo do inalienável direito de se ter, aqui e além, um really bad hair day, em que simplesmente (era o que me diziam quando eu era pequena) se acorda com os pés de fora …

    • Luciana diz:

      Manuel, gosto de muito neste seu post. De fazer lembrar Minnie Driver que é alegremente encantadora — pra mim — desde Return to me.
      Gosto de nos interpelar à felicidade (eu, que sempre digo que tenho vocação pra ser feliz, respondo alvoroçada).
      E gosto, claro, de nos trazer Matt Damon, que é um daqueles que me faz sair do P&B e gozar dos novos filmes. E, creio, muito desta atratividade que ele exerce foi desvelada por esse comentário do Pedro Marta Santos aí em cima: o senso de integridade (escrevo e lembro do Green Zone, um quase “porcorn movie” onde os princípios de damon parecem urrar e empurram o filme na direção de um mais sério filme). E rio, porque no meu Top 3 de Damon, o nada escrupuloso Ripley se sobressai. Isto, penso, é talento.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        A Minnie devia filmar mais. E o Matt Damon ainda seria melhor se o Pedro Marta Santos escrevesse para ele. E sim, há um talento para a felicidade. Thanks Luciana.

  10. pedro marta santos diz:

    Ó Manel, não me deixes da cor da bonita framboesa do conto do Zé Navarro. A cena de que falas é uma categoria. “How do you like them apples?”

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Pedro! Ontem à noite revi um filme que de vez em quando revejo e me faz feliz sem obrigação nenhuma: Rio Bravo — lá estavam as mesmas famosas maçãs de que hoje fala nessa cena fabulástica.

      Ps: gosto muito do Rio Bravo, da Feathers e da Leigh Brackett que traduz a cabeça das mulheres em linguagem para homem entender. Quando é que nos manda ao cinema?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Uma corzinha não te faz mal, ó meu Murnau de só saíres à noite. E vê mas é se te despachas com o desafio da Eugénia.

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