Arquivo | Março de 2011


Um bando de terroristas

os dois melhores terroristas

Era um bando de terroristas. Trabalhavam na clandestinidade e no negro escuro do cinema. Incendiaram redacções e mulheres de grandes olhos apaixonaram-se por eles.

Falo de cinco rapazes franceses, tantos como os dedos de uma mão: Truffaut, Godard, Rohmer, Rivette e Chabrol.

Nos anos 50, converteram uma revista amarela numa lenda e num escândalo. Nos Cahiers du Cinéma foram devotos do cinema americano mais do que a irmã Lúcia da Senhora de Fátima. A intelectualidade europeia lia então por uma cartilha neo-realista, uma espécie de enteado estético do comunismo soviético. Redimindo alguns cineastas comprometidos, a fina flor literária via nos filmes americanos um lixo industrial escapista com que infelizmente o povo se emocionava e divertia.

Os cinco terroristas desataram a escrever blasfémias. Escreviam como quem sonha. Em westerns e filmes de gangsters descobriram equivalentes de Ilíadas e Odisseias.

Não se pode escrever sobre cinema, poesia ou pintura, sem se arrancar vibração ao baixo-ventre, sem pôr uma sala em pé e fúria. Como quem junta gasolina e cinco fósforos, o bando juntava sublevação, anarquia e alta cultura.

Quem se lembraria de proclamar a genialidade de Chaplin invocando como prova três passagens do Evangelho de São Mateus? O agnóstico Truffaut, pois claro.

O inimigo acusou de declínio senil os filmes americanos de Jean Renoir. De cima da Torre Eiffel, Rohmer responde aos gritos e prova que nenhum génio autêntico declina no fim da vida: tal como as últimas obras de Ticiano, Rembrandt e Beethoven, o último filme do genial Renoir é obra-prima, o mais belo dos seus filmes.

Escreviam como quem sonha. Puseram leitores em êxtase ao obrigaram Deus a ter ciúmes da metafísica de Hitchcock. E de roxos ciúmes ficou o Diabo quando disseram que o Man of the West de Anthony Mann “reinventara o western com o lápis de Matisse, o traço de Piero della Francesca”.

Os terroristas geralmente estão contra o poder. Contra o pequeno poder que era o modo comunista de ver a arte nas redacções dos jornais dos anos 50, este bando dos cinco foi o exército aliado do poder do cinema americano. Dispararam a sua artilharia estética fazendo subir aos céus o imaginário universal de Hawks e Nicholas Ray, musicais, melodramas, suspense e cinemascope. Dizendo “isto é o cinema!” aliaram Ford, Wilder, Hitchcock a Bergman, Dreyer e Rosselini. Aliaram a Europa e a América: foi a última vez.

Repudiando a vulgaridade ordinária dos críticos, Godard, esse Átila infantil, provou que Griffith inventara o cinema com as mesmas ideias com que Shakespeare inventara o teatro e que o cinema lavou os olhos do século XX reabrindo-os à pintura do Quatrocentto a Picasso, ressuscitando o lascivo desejo de narrativa de Homero a Joyce, desflorando ouvidos para sonoridades sublimes de Bach a Stravinski.

Terroristas, ensinaram-nos que, com o cinema, a América devolveu à Europa em sonho o que a Europa lhe emprestara em vida.

Publicado no “Expresso” a 26 de Março. No próximo sábado não me admirava nada que aparecesse Dean Martin e um chapéu.

D. Ana de Sousa, rei incontestado de Matamba e mãe de todos os jingas

Não obstante a sua avançada idade, o rei gostava de se enfeitar com garrida elegância o que causava admiração a quem a via e lhe dava um ar ameninado, graças à sua franzina e gentil estatura.

Arrancada assim a seco do meio da narrativa esta frase parece, mais gralha menos gralha, a descrição dum real efebo com tendências galhardamente feminis – o que seria bem avançado para uma África ainda muito medieval e bravia, neste seu ano de 1656.
No reino de Matamba a rainha Jinga – que se declarava rei para que ninguém lhe contestasse o poder – prepara-se para receber na sua embala os embaixadores do governador Luis Martins de Sousa Chichorro, apresentando-se num luxuoso vestido de corte e tecidos europeus, e bem adornada de pulseiras de ouro e colares onde brilham as mais variadas pedrarias. Belos tapetes de várias proveniências e estilos cobrem o chão térreo, conferindo ao espaço a dignidade acentuada pela grande cadeira de espaldar onde a rainha se irá sentar e presidir aos acontecimentos previstos.
Contradizendo bastante a imagem que dela fazem os que conhecem a fama de Jinga N’Gola M’Bandi, os seus 73 anos de idade parecem ter amaciado um pouco, ou talvez muito, a mais admirável e temida rainha sub-sahariana de todos os tempos.
Não se pense que simplesmente me deixei seduzir pelo texto bem épico de Jinga – Rainha de Matamba*, obra homónima de J. M. Cerqueira de Azevedo de que já aqui falei antes. É claro que sim, e até o estilo Império da mobília e dos bibelots nele presentes me agrada, porque é aí mesmo, no espanto do narrador do lado de cá, nas reacções dos personagens (que se fartam de andar a reboque das incríveis manigâncias de Jingamãe dos Jingas), que se apercebe o impacto desta mulher verdadeiramente ímpar na sua época.
Para trás ficavam mais de 40 anos de guerras contínuas com os portugueses e com os sobados inimigos, recheadas de vitórias, derrotas e muitos mortos, entre as linhas do Cuanza, Ambaca, Massangano, ou mesmo no refúgio natural de Pungo Andongo. Os raptos retaliatórios, as traições multidireccionais, a aliança falhada com os batávios (pois senhores, são holandeses), e mesmo a fé radical na divindade jaga Tem-ban-Dumba parecia esmorecer de ferocidade com a presença contínua de missionários jesuítas e capuchinhos nas suas terras e zonas de influência. Os quiluvia bestialmente carnívoros – sempre seguidos de magníficas orgias sexuais onde toda a gente trocava de parceiro várias vezes, e onde a própria Jinga se empenhava – rareavam cada vez mais, dedicando-se agora a rainha a reformar o reino de Matamba com legislação dirigida e agora (outra contradição) sempre muito bem aceite pelos seus régulos e séculos, e sempre com o aplauso do povo, ao qual se juntavam já alguns brancos notoriamente cafrealizados.
Na embala de Jinga há mesmo uma pequena igreja, construída a seu pedido pelo português padre Sequeira, onde a rainha guarda um grande crucifixo de madeira que lhe fora entregue anos antes por um dos seus generais mais aguerridos (o seu futuro cunhado e seu golambola, D. António Carrasco Mani Dongo), após um saque numa missão que decorrera particularmente animado pelas febras bem tostadas dum religioso mais azarado. Agora, a rainha queria acabar com isso. Decidia-se finalmente por readoptar a religião cristã, num acto que muito tinha de estratégico.
E com isso havia discordância entre os maiores de Matamba. A discussão centrava-se nesta simples questão: o amável  e misericordioso deus dos brancos (e só os portugueses eram assim tratados) era mais poderoso que a irada e guerreira Tem-ban-Dumba! Os resultados estavam à vista: apesar de anos e mais anos de feroz oposição aos portugueses, por parte dela e de uns quantos sobas relativamente instáveis (alguns, não poucos, traíram-na), o facto é que o poder deles só tinha aumentado.
Curiosamente, segundo o frade italiano Cavazzi, que confessou Jinga várias vezes e a quem daria a extremunção (o que o torna no seu mais abalizado biógrafo de proximidade pois muito escreveu sobre ela), não havia apenas política nestas questões: a poderosa e arrogante rainha terá tido grandes conflitos interiores de cariz religioso.
Coisas da guerra e da fé daqueles tempos – que em Portugal eram de Restauração.
Jinga agora quer a paz, e os portugueses também. E apesar da oposição que lhe tentam fazer os seus régulos e macotas, D. Ana de Sousa (o seu nome católico) parece pender cada vez mais para uma reforma religiosa profunda – que será total em bem pouco tempo.
Os embaixadores do governo de Angola trazem-lhe de volta a sua irmã Cambi (ou D. Bárbara, por baptismo) – prisioneira há mais de nove anos em Luanda (e com todo o gosto porque sempre foi tratada com todos os cuidados e liberdades) – e querem agora estabelecer as pontes necessárias a um entendimento duradouro.
No final da troca de galhardetes, e para espanto geral, Jinga dirige-se à sua capela, ajoelha-se e tenta relembrar as orações há muitos anos aprendidas em Luanda – quando ali estivera em serviço diplomático ao serviço do seu irmão N’Gola Kia M’Bandi, o rei usurpador do Dongo, de quem mais tarde se vingaria cruelmente. Sim, o passo estava dado, mas ninguém sabia se aquele comportamento era a sério ou apenas mais um dos múltiplos truques políticos que sempre soubera usar com maestria.
O que se segue pode confinar numa certa aculturação interior, pois a rainha já fazia as suas refeições mais oficiais sentada à mesa numa cadeira de espaldar alto e em baixela de prata (com o resto do pessoal todo a assistir de cócoras, claro!), além de ter casado cristãmente (aos 75 anos) com um jovem guerreiro plebeu que bem podia ser seu filho, e que depois do enlace será tratado apenas pelo seu nome cristão: D. Salvador.
No entanto, apesar deste sinais de aparente submissão, a sábia rainha de Matamba estava bem longe de ter perdido o seu génio, como adiante se irá perceber.
Porque, já sob os auspícios de D. João IV, subsistem antigos tratados de paz por confirmar pelas partes. A descrição que Cerqueira de Azevedo faz do crucial momento, apoiada em documentação da época, mostra bem porque todos os que temiam e admiravam a fibra da rainha/rei de Matamba – e foram muitos e confessos – lhe destacavam como principal qualidade a  fina inteligência O conselho do governo, presidido por Luís Martins de Sousa Chichorro, aprecia e discute a resposta de Jinga às alterações a introduzir no tratado há muito a ser negociado. Principia ela ratificando o prazer que tinha na realização de uma aliança com o rei de Portugal, seus súbditos e vassalos, e declarando obrigar-se, sob compromisso de palavra de rainha, a respeitar o que se estabelecesse. Manifesta o seu desejo de estreitar mais intimamente as relações entre ambos os reinos, e pede sacerdotes para catequizarem as almas do seu povo e fazê-las tomar o caminho da religião que julga ser a verdadeira. Compromete-se, ainda, a restituir os escravos portugueses, refugiados nos seus domínios e, com rodeios subtis, esforça-se por manifestar a estranheza que lhe causara a exigência da entrega dos jagas Calanda – que tinha fugido do presídio de Ambaca – e Cabuco Candonga, por julgar não ser próprio de uma rainha independente, como é, ver-se obrigada a cercear a liberdade de quem, nos seus estados, por questões políticas, procurou abrigo para viver sob a sua protecção. Fará tudo quanto for possível para os convencer a regressarem ao território português, caso o governador lhe garanta que não os perseguirá, ou então, que se retirem para terras mais distantes do reino de Matamba, empresa esta que não lhe parece fácil visto ambos os chefes jagas disporem de muitos milhares de arcos bem adestrados nas guerras. Acrescenta, também, que se não a atendessem, procuraria outra solução airosa, só para evitar meter-se em guerras, visto sentir-se velha e cansada para aventuras dessa natureza.
Como, em nome do rei, o governador se compromete a restituir-lhe algumas terras do Dongo, acha que tal gesto é muito gentil e simpático, todavia, se lhe restituísse as províncias que lhe pertenceram, nada mais faria do que praticar um acta generoso, justo e, sobretudo, cristão.
Ainda que muito ao de leve, Chichorro, na sua proposta, tivesse incluído uma cláusula pela qual a rainha de Matamba deveria passar a concorrer para a corôa de Portugal com um pequeno tributo, Jinga insurge-se dignamente, alegando ter nascido e vivido sempre senhora e que tributos só a Deus pagaria, agora que se tinha tornado cristã.
Para amenizar, um pouco, a altivez com que repudiara aquela parte do tratado, oferece o que exista nos seus estados e que, por qualquer forma, possa ser útil ao governador, sem quebra do seu prestígio. Quanto às restantes condições D. Ana de Sousa aceita-as, frisando, com orgulho, que o fazia livremente.”

E assim os acordos são adiados sine die, embora as relações entre os governos de Luanda e de Matamba sejam agora muito mais distendidas.
Jinga irá viver até aos 80 anos. Nesses últimos cinco anos de vida imporá o cristianismo nas suas terras, mandará construir uma grande igreja pública e criará legislação bem mais benévola para os seus súbditos. Por fim, num acto marcadamente político, envia ao papa Alexandre VII uma missiva onde anuncia que se submete à fé cristã, reclamando benevolência. E este irá responder em carta lacrada com as armas do Vaticano.
A resposta do Papa, recebida com grande surpresa e no maior segredo, gera imediata reacção de Jinga, que rapidamente promove uma cerimónia especial para a leitura do  breve pontifical. Os que assistem à passagem do cortejo não o compreendem; os missionários outro tanto e a rainha, misteriosa e impenetrável, quando isso lhe dá na real vontade, não se digna prestar qualquer explicação.
Dentro da igreja faz muito calor. O templo regurgita de europeus e de negros, os mais categorizados de Matamba que não se encorporaram no séquito da soberana. À porta aguardam-na os capuchinhos que a conduzem até junto do altar-mor. Aí, a rainha reza por algum tempo, de joelhos. Finda a oração levanta-se e tira da bolsa de seda o breve de Sua Santidade e uma pequena imagem da Virgem, que oferece ao padre perfeito da missão. A seguir a esta cerimónia dá-se começo ao santo sacrifício da missa, a que a rainha assiste, e, logo que o sacerdote profere o ite, missa est, o secretário de estado entrega-lhe a carta do Papa que, do altar, depois de quebrados os sêlos de lacre e de aberta, a lê muito pausadamente, traduzindo-a do latim para português e o língua para ambundo:
Rainha de Matamba
Nós respondemos com singular e paternal afecto à devoção filial expressa por sinais tão evidentes em vossa carta, por forma a que aqueles que a grande distância separa, os una o amor de Cristo pelo laço da caridade Cristã. Como penhor desta benevolência (que será muito útil às vossas empresas) vos enviamos as indulgências constantes do documento junto e vos damos a benção apostólica que com o maior afecto concedemos à vossa Magestade, à vossa côrte e a todos os fiéis do vosso Reino.
Assinava-a o Santo Padre e levara, pela data que tinha de 19 de Junho de 1660, do sexto ano do pontificado de Alexandre VII, mais de dois anos a chegar ao sertão africano!
Os europeus assistiram à leitura com recolhido respeito e os indígenas no meio da maior abstracção. No entanto o reverendo Gaeta esforça-se por fazer compreender aos assistenntes a alegria que o Papa sentiu quando soube que sua magestade, a poderosa Jinga, voltara ao grémio da igreja católica pelo que a exortava na perseverança pela religião de Cristo, de forma a tornar-se a guia dos seus súbditos.”

Não é certo que a rainha tenha ficado completamente satisfeita com a resposta papal, apesar do justo tratamento majestático. Afinal aquele papel apenas consagrava aquilo que ela já sabia e sempre fora. Ainda assim Jinga beijou e guardou respeitosamente a missiva, ao que se seguiriam luxuosas festividades.
Pouco menos de um ano mais tarde, pelo meio dia de 17 de Dezembro de 1663, o já íntimo frei Cavazzi assiste, só, aos últimos momentos da única rainha dos reinos de Angola que nunca se submeteu ou negociou qualquer tipo de submissão aos portugueses.
Com o seu fim terminaria também, anos mais tarde, essa independência, e Matamba (território que compreendia então a actual Lunda) acabaria por integrar a imensa e rica colónia de Angola até Novembro de 1975.
Não é mito mas o tempo transformou-a num. Biografias e romances, nacionais e estrangeiros, tentam-nos com possíveis aproximações à sua realidade. Mas na verdade, eu – que nasci tarde e por isso sou um anacronismo insolúvel – o que gostava mesmo era de a ter conhecido pessoalmente.

ps (Em certos textos que consultei nota-se que os seus autores tentam reescrever um facto histórico, o de que Jinga terá lutado pela libertação de escravos. Tal não é verdade porque se fartou de aprisionar guerreiros, transformando-os em escravos que depois negociava ou incluía nas suas fileiras. Deu de prenda de casamento a D. Salvador nada menos de quinhentos. A escravatura, no século XVII, era comum a todas as culturas)

* (livro editado em 1949)

Glossário
embala — povoação
golambola — capitão das guardas
macotas — ministros
quiluvia — sacrifício
régulo — potestade local
séculos — velhos

Entardecer

Lembro-me sempre daquele dia. Todos alegres, todos  juntos… não voltou a acontecer assim.

Pedira  à nanny para me vestir as meias cor-de-cereja. Tenho sempre meias cor-de-cereja agora porque são a cor dessa felicidade.  A felicidade que há no fim da tarde.  As horas passadas à mesa a contar e ouvir histórias. A luz do sol que não acaba nunca. O calor que vai escorrendo sobre nós e as sombras que nos acolhem. A mãe e as tias. Os tios e os amigos… e o meu pai.  Este é o retrato da minha infância. Tinha 5 anos.  No dia seguinte tornei-me adulta.  Eu não queria, mas aconteceu assim, ninguém teve culpa — talvez — , não foi por mal… mesmo se o amaldiçoei vezes sem conta, mesmo se fiquei fechada num fim de tarde, numa mesa sempre posta mas onde não encontro alimento, nos sorrisos que de alegres passaram a baços, na confiança perdida entre as folhas. Tenho este quadro em casa. Mandei-o fazer de uma fotografia e pintei-o com as cores da memória. Sei que adormeci. Provavelmente deitei a cabeça no colo da mãe e deixei-me embalar pelos risos. Alguém me terá levado para a cama, para o quarto onde já dormia o meu mano. Dormi tranquila, sem saber que no jardim os risos passavam a gritos. Os gritos passaram a punhos e um deles derrubou o meu pai. Quando acordei o dia era noite. Morte imediata ouvi nos sussurros. Foi o pescoço chorou a cozinheira. A mãe tornou-se um espectro. Pouco a pouco os amigos, os tios e as tias desapareceram. A comida sabia sempre a sal e a nanny vestia-me de preto.

Dos risos nasceu o silêncio. E eu nunca mais encontrei o caminho de regresso à minha vida.

Asseio

Ângelo de Sousa, “Sem título (10 quadros para o ano 2000)”, 1986

Sempre quis ter um quadro de Angelo de Sousa. Não fui eu que pedi, foi a pintura dele que me chamou.
Quando vejo uma tela dele, vejo logo que é dele e fica tudo mais claro e simples em redor – deve ser do branco e das cores limpas. Pressinto também uma emboscada: a de acreditar que estou diante de um exercício de pureza, de uma procura do que é essencial ou ainda – o que seria mais ingénuo – de ouvir a música de Mondrian no equilíbrio das formas.
“Pureza”, “essência”, “Mondrian”, “equilíbrio”– nada disso acontece nesta pintura. Há uma alegria sem sombras, sim, donde o poder que ela tem sobre a nossa atenção, capaz de franquear a nossa disponibilidade. Haverá alguma ironia sem sarcasmo, porque as tais formas grandes que enchem o espaço da tela não partem de nenhum centro de gravidade, nem se acomodam entre si com as inocências da harmonia. É tudo muito liso e direito e no entanto parece que se move como um glaciar. Apenas não sabemos para onde quer ir.
Mas aquilo que mais afasta Ângelo de Sousa do formalismo é o desprendimento, o qual, como se sabe, não quer dizer descuido. Depois de verem o que ele faz, oiçam-no: “Não quero salvar ninguém. Se for preciso empurrar, empurro, faço o melhor possível. Mas não tenho a ideia de que vou salvar o mundo, não tenho ideias de apóstolo.”

Ângelo de Sousa, “1-II-5-g”, s.d.

Como uma tela em branco

Chegara nos primeiros dias de Março. Arrendara a casa branca sobre as dunas, virada ao mar. Viera só, estava sempre só. E sempre de branco. Manhã cedo passeava na praia. Recebia poucas cartas e nenhumas visitas. Nas contadas vezes em que fizera compras na vila mostrara-se cordial mas distante. Era grande a curiosidade acerca daquela mulher pálida e frágil. O que a trouxera até ali? Desgosto, para muitos. De amor, claro. Tragédia, não era caso para menos, havia quem garantisse: tão nova e bonita, a vaguear como um fantasma naquele fim de mundo.   

Também entre os artistas, como eram conhecidos na terra, se comentara a misteriosa figura. Apesar da dor que prostrava muitos dos que ali se juntavam - os que vinham da cidade, mal surgia a Primavera, atrás daquela luz única e os que permaneciam o ano todo, enquanto o céu e o mar a mudavam de cor. Fora um Inverno gelado de inesperadas mortes. Primeiro a mulher de Tomás, a dar à luz a segunda criança de ambos, que também se não salvara. Semanas depois, o marido de Ana, numa queda de cavalo. O desespero de Tomás, o desamparo da sua filha, tão pequena, a apatia de Ana agravavam o desgosto da irmã e dos irmãos dos desaparecidos. As conversas morriam, os serões acabavam cedo. Uns retiravam-se, para longas vigílias sem sono. Outros ficavam a beber, noite adentro. Às vezes discutiam. Todos haviam deixado de pintar: as telas brancas trazidas pelos que iam chegando empilhavam-se por todo o lado.    

Mas a curiosidade é uma força poderosa. As deambulações matinais da mulher de branco não passaram despercebidas a uns quantos membros do desolado grupo que, do alto de uma falésia, começaram a observá-la e, logo depois, a desenhá-la. Numa visita à casa branca Ana e Luísa haviam descoberto que também ela pintava. A conversa fluira e, abandonando a sua reserva, mostrara-lhes os trabalhos em que ocupava as tardes. Na parede da sala, o retrato de uma criança loura, a mesma que aparecia em quase todas as fotografias. Ao canto, uma enorme casa de bonecas, montada, mobilada e habitada. Nenhuma ousara perguntar, mas quando dias depois Luísa regressara, trazia consigo a sobrinha, filha de Tomás. Fora imediata e intensa a ligação entre a mulher de branco e a criança. O tempo passara depressa, esta a brincar na casinha, aquela absorta a vê-la, enquanto escutava Luísa. Nessa noite, e pela primeira vez em meses Tomás sorriu, ao ouvir o relato da filha. Prometeu que no dia seguinte iria com ela ver tal maravilha. Foi e ficou a tarde toda. Um jantar de conversas e risos em casa de Luísa selou a entrada do novo membro no grupo. Dir-se-ia que a desanimada desconhecida a todos insuflara novo ânimo. A todos não.

Ana mantivera-se à margem do entusiasmo geral, desconfiada e ressentida. Sempre gostara de Tomás, resignara-se mal ao casamento dele com a sua melhor amiga, fora até feliz com o seu marido. Mas a morte quase simultânea de ambos vira-a como um estranho sinal – de que talvez tivesse chegado a altura de Tomás e ela ficarem juntos. Então aparecera a mulher de branco. Que dia a dia se libertava da densa tristeza que a tolhia e se revelava gentil, alegre e talentosa. Não achas estranho não sabermos nada sobre ela? É como uma tela em branco. Dissera-o varias vezes a Luísa, que ria e respondia. E que mal é que isso tem? Uma tela em branco pode vir a ser o que se queira! Escrevera a uma prima, que sabia sempre tudo sobre toda a gente. Quem seria ela afinal, que vida fora a sua, da qual não falava? Várias semanas passaram. Tomás recuperara o sorriso. Recomeçara a pintar. Ao lado, no terraço de casa dela, a mulher de branco sorria também. O branco do vestido já nada tinha de mortalha, iluminava-lhe os traços suaves e a figura esbelta. 

Era já Setembro. O almoço juntara-os todos, desta vez em sua casa, e prolongara-se pela tarde, em brindes e discursos. Arrefecia. Ana entrou  para buscar um agasalho. Na sala, a lareira já acesa. Sobre a mesa, o correio. A carta que esperava. Volumosa. Pegou nela. Reviu o sorriso de Tomás, de pé, no meio dos outros. A criança loura aninhada no colo branco, envolvida pelo braço dela. Ouviu o som dos copos a tinir e das gargalhadas, lá fora. Atirou a carta fechada para as chamas, pegou no xaile de lã e regressou ao seu lugar, na cabeceira da mesa.     

“ando sempre com um livro na mão”

Ler livros é como pintar uma anafada Vénus na parede da caverna para ver se deixa de haver trovões.
Ler livros é um anacronismo obscurantista. Quase tudo o que precisamos de saber está já explicado em palavras simples e frases curtas. E está na net, gratuitamente. Melhor – ou pior ainda, ou nem uma coisa nem outra – a forma como o nosso cérebro sabe o que sabe, ou há-de saber o que deve saber, vai estar explicado, se é que não está já explicado, muito neurobiologicamente. Ou seja, a actual variante positivista jura que ler livros é pior do que ajoelharmo-nos a rezar na Sé de Braga.
E eu que não estou contra nada disto, contra haver livros, contra desobscurecer, e estou tão a favor de que se saiba tudo sobre as highways, circulares e todos os mapeamentos da massa mole, tão pouco al dente, que o nosso crânio protege, revolto-me e digo: vamos criar o movimento “ando sempre com um livro na mão”.
Porque é que lemos livros se está tudo (e cada livro) tão bem explicado e tão simples? Por uma razão: não nos basta nem ter tudo explicado simples, nem ter tudo simples explicado. Não nos dá nenhum prazer saber quem é Hamlet e que lhe mataram o pai e que ele bem sabe quem foi e que também sabe que algo está podre no reino da Dinamarca. Nenhum livro é uma explicação. Um bom livro é a delícia de uma digressão. Quando lemos Conrad ou Borges, e podem ser os fantasmas de Shakespeare ou uma cativa camoniana, tanto lemos para saber como para não saber. Deslizamos nas curvas das frases, esbarramos num sólido substantivo, tropeçamos num advérbio. Não lemos para avançar, lemos para demorar, não lemos para viver, lemos para não morrer. Fartos estamos nós de saber que viver é o caminho mais curto para se morrer.
Ninguém, nenhum leitor, quer explicar Hamlet; ninguém, nenhum leitor, agradece a síntese da tolstoiana “Guerra e Paz”. Leio, lemos. Hão-de sempre continuar a ler livros os que buscam a forma arbitrária com que neles se juntam palavras, os que sabem que cada livro é uma amante promíscua que a cada leitor oferece um sentido diferente jurando-lhe ser o verdadeiro, último e único. E agora, quero que se lixe, vou correr tudo a palavrões. O livro é irresistível porque é polissémico, parece que abre as pernas à hermenêutica, mas não se reduz a nenhuma diegética.
Come-se, perguntam? Come-nos e deixa-se indestrutivelmente comer!

História de um amor e duas canções
trânsfuga

Nem é tanto a especialização. O que me enerva mesmo é a exclusão. Os que só lêem sci-fi, os que só conseguem chamar pintura ao que for figurativo, os que nem admitem ouvir um bolero. Posso perceber, mas não vejo paixão, vejo medo.

Talvez, por isso, admiro os trânsfugas. Gosto que Miles Davis toque o “Nature Boy” (e acho que ele só puxa do trompete para extasiar o nosso Eça), gosto do desenho quase ingénuo de Don Pablo no período azul (e tenho a certeza de que só pintou assim para futuramente comover o nosso Navarro que finge ser incomovível), gosto de Joyce a escrever, tão narrativo e praticamente folhetinesco, o “Dubliners”  (com que ele só queria secretamente dialogar com as poéticas rupturas da nossa João que é Eugénia).

Gosto que o que está certo não esteja assim tão certo. Convenço-me de que o que está certo só está certo quando pode também não estar certo.

“História de un Amor” é uma daquelas belas canções a que é muito fácil fazer fine bouche. É tão bonita que passa por pirosa. Escrita nos anos 50 por Carlos Eleta Almaran, um compositor panamiano, quando ao seu irmão morreu a mulher amada, foi cantada em filmes mexicanos, depois por mil intérpretes, hoje na China.

Já se sabe que este tipo de sucesso não alimenta a barriga do culto. Mas insisto: é uma canção belíssima. E fui facilmente desmentido, quando o New York Trio, com o seu mentor, Richard Galliano, ao acordeão, Larry Grenadier no baixo acústico e Clarence Penn na bateria, me provaram que mesmo um superlativo pode ser escasso, é certamente inadequado e nunca absoluto para classificar a alegria de certas descobertas.

Pior, “História de un Amor” é uma canção tão livre que não admite dono. Parece um daqueles contorcionistas que de tão dobrado já não sabemos se tem quatro pernas ou quatro braços. Com duas vozes e pouco mais do que umas congas já é outra canção.

 

O gato esfolado


Quando o funeral de Eça de Queiroz entrou no Rossio, lá estava ele à esquina da Rua Augusta, de gravata bem vermelha, num garrido insulto ao pesar exibido compungidamente por todas as solenidades.
Ele era Fialho de Almeida, auto-arvorado em nemesis de Eça pela raiva que lhe tinha. Esta figura, menoríssimo escritor, pois o que lhe sobrava em verve e recorte estilístico faltava-lhe em ânimo literário, quem mais fez por não a esquecer foi Raul Brandão, sempre piedosamente enternecido pelos rancores, pelo ressentimento eivado de ciúme (donde o ódio a Eça), pelo vitríolo verbal que derramava sobre “a sociedade” – “o nervo” de Fialho de Almeida.
A vida e a obra ou não-obra de Fialho de Almeida é de muito proveito e exemplo aos dias de hoje.
Nasceu remediado, filho de um áspero mestre de escola de Vilar de Frades, na Vidigueira, mas cresceu pobre, interno num colégio e depois ajudante de boticário já em Lisboa, acabando por se formar a pulso em medicina, aos 38 anos.
Ou não lhe valeu de nada o canudo ou Fialho o terá desprezado em nome das letras e, sobretudo, a favor de uma vida insalubre de boémia e carrascão, as tardes no Martinho, as noites arrastadas até de madrugada pelas ruas mais ordinárias da cidade, com um bando de compinchas de igual nota à arreta. De vez em quando iam ao teatro, lá para cima para o galinheiro, donde lançavam chufas sobre os comediantes e os autores até que a guarda viesse expulsa-los de chanfalho em riste.
O mau vinho, a má vida, o mau carácter garantiram a Fialho de Almeida o estatuto de má rês das letras de Lisboa, “um misto de cavador e boémio”, como resume Brandão, espumando contra os êxitos alheios, merecidos ou comprados, sempre encarniçado contra alguém por qualquer motivo e nunca deixando de exibir um acirrado despeito social, não de revolucionário mas de revoltado. E o que deu isto? Deu em panfletos, artigos e peças mordazes, sobre tudo opinando, de espírito agudo e prosa letal, capazes de fazer rir, chorar e ranger os dentes, manipulando com maestria as emoções do leitor.
Tendo escrito um grosso punhado de generalidades genialmente bem escritas, Fialho de Almeida nunca escreveu o livro que prometia conseguir e nunca alcançou. Ficaram “Os Gatos”, um par de contos, nenhum romance.
Assim sobreviveu o escritor até casar com uma menina lá da terra de algumas posses latifundiárias da qual enviuvou dez meses depois. A seguir o medo da miséria levou-o a enterrar-se de volta em Vilar de Frades e em Cuba do Alentejo a tratar das propriedades e de um irmão epilético (“profundamente doente”, como à época se julgava) e virou conservador, mas não menos acrimonioso.
O Alentejo donde Fialho emergiu era por ele odiado com palavras tão azedas como as de Brandão quando, tempos depois da morte do amigo, foi em romaria a Cuba, visitar a casa em que vivera:
“Não passa ninguém nas ruas, que exalam uma tristeza mesquinha e fétida. (…) Sinto-me perto do inferno em que [Fialho] viveu. Saio com a impressão de que todas as almas banais do mundo se juntaram aqui nesta pequena terra concentrada, pesando sobre ele a asfixia e a morte.”
Um exagero de Brandão, influenciado pela amargura de Fialho? Talvez não, pois até Manuel da Fonseca, o mais alentejano de todos os alentejanos que houve, deixou um dia cair este epigrama fulminante: “isto por cá é de enredos teimosos e ódios lentos”.
Fialho de Almeida morreu faz este ano 100 anos redondos. Um exemplo consumado de talento inútil e de qualidades desperdiçadas, ou de como desfazer é não fazer.

Com philosophia não há arvores: há ideias apenas

Frase num pára-choques de caminhão em Florianópolis, Sul do Brasil

 

 

Pessoa Diria

 

 

No último semestre de 2010, mais de 200.000 pessoas passaram pela exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo. A exposição esteve em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. E ora segue para o Rio.

 

Pessoa é uma obsessão no Brasil. Seria em qualquer país. Mas no Brasil é mais. Cada vez mais. Não há um único poeta brasileiro do século passado mais amado, citado, cobrado em exames, imbricado na vida, no seguir dos dias, no preço do abacate do que Pessoa. Isso deve ter enervado alguns. Os grandes. Há ciúmes. Explícitos. Drummond, por exemplo, escreveu um “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, que é assim:

 

Onde nasci, morri.

Onde morri, existo.

E das peles que visto

muitas há que não vi.

 

Sem mim como sem ti

posso durar. Desisto

de tudo quanto é misto

e que odiei ou senti.

 

Nem Fausto nem Mefisto,

à deusa que se ri

deste nosso oaristo,

 

eis-me a dizer: assisto

além, nenhum, aqui,

mas não sou eu, nem isto.

 

 

Não é o melhor Drummond. Mas revela no incontornável do ressentimento a pitada da admiração. Especialmente ao brincar tão “levianamente” com as antinomias pessoanas.

 

Também recentemente lançou-se, no Brasil, uma sibérica biografia de Pessoa [Pessoa, Quase uma Biografia, Ed. Record, 736 ps.]. Foi escrita por um conceituado advogado de Pernambuco, que ainda leva Cavalcanti no nome. Talvez só essa de bacharel & letras desperte alguma desconfiança. E biografias, bem, às vezes pesam mais do que valem. E embora os dez anos da pesquisa, as teses defendidas não são convidativas. Ou mesmo outras. Os fatos não reluzem um Ano Novo. Que na vida pessoal Pessoa fosse tímido, que a seu dia-a-dia faltasse qualquer pitada de heroísmo, que sua relação com Ophélia Queirós não se tenha consumado, que houvesse uma suposta homossexualidade, que o ocultismo lhe atraísse… Quês e mais quês e mais quês não dão um queijo. E há muito fôlego para eles. Mas todos esses quês parecem cafés pequenos, tomados ao largo da Brazileira. Um cardápio de assuntos que não desvela muito.

 

Muito mais misteriosa [e re-ve-la-do-ra!] é a poesia de Pessoa. Ou os próprios nomes: Pessoa, Ophélia, Caeiro, Orpheu, Sá-Carneiro… Muito mais misterioso é o fascínio que a poesia de Pessoa exerce num país carnavalesco, barroco, grotesco e minimalista, derramado e concretista; todo retorcido, contrastado, nada afeito à reflexão. E, aqui, poder imaginar Pessoa torcendo pelo Vasco da Gama, nas arquibancadas de São Januário. Ou assoviando um samba de Noel, num boteco – perto dos Arcos da Lapa ou em Santa Teresa – entre uma e outra caipirinha. Pessoa é nosso à fração que se fez palavra. É nosso e pronto. Como a batida da bossa-nova, as redondilhas dos cantadores do Nordeste, o falsete de Milton Nascimento, o humor de Carmem Miranda, a capoeira, a arquitetura de Niemeyer, os dribles de Neymar.

 

No íntimo, bom é pensar que Pessoa gostaria disso. Por que quem não gosta de ser gostado? Em quase qualquer lugar? Em todos?  Ou de se saber numericamente tão reivindicado no país para o qual enviou o mais clássico de seus heterônimos. Milhões. Em latitudes. Em atitudes várias. A ler Pessoa. Nutrir-se dele. Todo um mundo. Em toda parte.

 

* * *

 

Por que, por vezes, Portugal prefere pensar pequeno? Ou opta por? Como não pensar que um país que produziu alguém assim – pessoa diria de outra forma (?) – não pode sair, de pés próprios de eventuais percalços?

 

* * *

 

Sem título

p.s. E se fossemos todos visitar a exposição do Zan que está, até 18 de Abril, no Clube dos Jornalistas?

Calado. Olho e fico calado. É bom. Os olhos ficam contentes quando a boca não desata a embaraçá-los. Os olhos, como disse o Zan, sabem que “anda tudo atarefado nas lides de ficar quieto”. Vejo.

Se fechar os olhos, e fecho-os, parece-me ouvir o Zan dizer que há um “som bom  para esboçar imagens”. Ouço.

# quadro sem título, de Zan
## Jon Hassell por sugestão de Zan

2010: o regresso

Não cheguei a comentar a escolha dos melhores filmes que vi em 2010 — valha lá isso o que valer. Como não gosto de deixar as coisas a meio, aqui vai:

1 – “Un Prophète”, Jacques Audiard

Jacques, filho de Michel Audiard, um dos grandes dialoguistas do cinema europeu de todas as épocas, sobe um degrau depois de “Sur mes Lèvres” e “De Battre Mon Coeur s’est Arrêté” (o remake de “Fingers” que supera o original) e, sozinho, revitaliza o polar e o filme de gansters francês. O fantasma de Jean-Pierre Melville está vivo.

 

2 – “El Secreto de sus Ojos”, Juan José Campanella

Um magnífico melodrama, que atravessa as juntas militares argentinas, o sufoco dos “niños sin madre”, os derbies de Buenos Aires e as vinganças amorosas com uma segurança e um fulgor que muitos julgavam desaparecidos. O filme que o cinema português poderia aspirar a ser.

 

3 – “The Killer Inside Me”, Michael Winterbottom

De uma insuportável misoginia, violento como Chandler sugeriu e Ellroy mostrou, ressuscita nos escombros do cinema negro americano e oferece um mundo à beira do Apocalipse – não é por acaso que termina nesse fogo que todos consome, de prevaricadores a vítimas. Tem o mais ignóbil protagonista dos últimos anos, no rosto e nos gestos de um actor (Casey Affleck) que parece não fazer mal a uma mosca.

 

4 – “Io Sono l’ Amore”, Luca Guadagnino

Equidistante de Visconti e Antonioni – a que erradamente lhe atribuíram a filiação – Guadagnino tornou-se a maior esperança do cinema italiano com um conto de luxo e luxúria, feito de sabores, tecidos, folhagens, insectos, castiçais e piscinas trágicas, simultaneamente marmóreo e escaldante como o sol de Verão nos planaltos da Ligúria. E tem Tilda Swilton…

 

5 — “The Messenger”, Oren Moverman (2009, DVD Região 1)

Um retrato exemplar da guerra no Iraque sem tirar o pé de território norte-americano. É o complemento possível, na sua contemporânea secura, ao elegíaco (e muitas vezes esquecido) “Gardens of Stone” de Coppola. E tem Samantha Morton…

6 — “Des Hommes et des Dieux”, Xavier Beauvois (2010, nos cinemas)

A intolerância e o medo do Outro como raíz de todos os males civilizacionais. De uma surpreendente contenção para um realizador que trabalhara nos códigos do policial em “Le Petit Lieutenant”. Para ver com a solene serenidade das missas.

 

7 — “Inception”, Christopher Nolan (2010, Blu-Ray nacional)

Por vezes demasiado inteligente para o seu próprio bem, é um mergulho labiríntico que se dá com gosto e peito aberto, acrescentando alma – Marion Cottilard – ao trabalho excessivamente cerebral de um criador inegavelmente talentoso, mas pouco disposto a cartografias humanas. Prova que um “blockbuster” com neurónios não é uma contradição em termos.

 

8 — “The Box”, Richard Kelly (2009, Blu-Ray Região 2)

Conto moral de execução matematicamente apaixonada a partir de um texto sci-fi, erradamente entendido como prolongamento banal da série “The Twilight Zone”. Venham mais banalidades destas.

 

9 — “Walk the Line”, versão alargada, James Mangold (2005, Blu-Ray nacional)

Um dos raros artesãos do cinema “mainstream” capaz de ombrear com os Fleischer e Frankenheimer da última fase do período clássico, realizador talentoso em todos os géneros (o western em “3:10 to Yuma”, tão bom como o de Delmer Daves, o policial em “Copland”, o thriller em “Identity”, o melodrama em “Heavy”), Mangold supera as regras do biopic sem nunca as quebrar, oferecendo – sobretudo nesta “director’s cut” — uma visão das sombras que tintam a cabana do espírito humano através dos anos-charneira da vida de Johnny Cash. Dá vontade de comprar os álbuns todos e continuar por Loretta Lynn, Linda Ronstadt e Kris Kristofferson.
10 — “Cranford:Complete BBC Series”, 1º episódio, Sue Birtwhistle e Suzie Conklin (2007, DVD Região 2)

Um perfeito objecto televisivo que os trocistas do “selo de qualidade da BBC” deveriam ser obrigados a enfiar como supositório. É como abrir o mostrador de um relógio suiço enquanto se bebe chá com muffins (cuidado com as migalhas).
11 — “Le Conseguenze dell’ Amore”, Paolo Sorrentino (2004, DVD nacional)

Um dos melhores valores da última geração transalpina, numa fita com um protagonista sorumbático e insone que, ao despertar para o amor, só consegue celebrar pela violência.
12 — “Somersault”, Cate Shortland (2004, DVD Região 2)

Fresco, triste, de uma honestidade desarmante, mostra a iniciação à vida de uma mulher-criança (Abbie Cornish, inesquecível) na “low class” do interior australiano.
13 — “Boomerang!”, Elia Kazan (1947, DVD Região 2, edição espanhola)

Kazan em velocidade de cruzeiro num “courtroom drama” esquecido é de agilidade superior a qualquer perú estufado, cheio de técnica e efeitos, do actual cinema de géneros. A recriação do testemunho-chave deve ter sido vista por Kurosawa antes de imaginar “Rashomon”.
14 — “Last Train Home”, Lixin Fan (2009, exibição no doclisboa, disponível em DVD em Fevereiro)

Para os que manifestam algum sentido de admiração pelo modelo de desenvolvimento chinês (há-os, e crescem todos os dias), é favor ver este documentário sobre o maior fluxo migratório sazonal do planeta. Todos os anos, milhões de chineses abandonam mulher, marido, filhos e fazem milhares de quilómetros para obter o privilégio de trabalhar, com a vida a perder-se lentamente em cada viagem.
15 — “Sous le Sable”, François Ozon (2000, DVD Região 2, edição espanhola)

Tão enigmático como “Swimming Pool”, e tão fascinante.

 

16 — “The Ghost Writer”, Roman Polanski (2010, DVD nacional)

Ninguém filma a desolação da paranóia como Polanski.
17 — “Medium Cool”, Haskell Wexler (1969, DVD Região 1)

O docudrama inventado para filmar as tenebrosas hesitações do congresso de 1968 do Partido Democrata, pelo director de fotografia de “Who’s Afraid of Virginia Woolf?” e “Bound for Glory”.
18 — “Klute”, Alan J. Pakula (1971, DVD Região 2, edição espanhola)

Jane, Jane. Já vos falei dela?

 

19 — “The Kids are Alright”, Lisa Cholodenko (2010, nos cinemas)

Sem manigâncias ideológicas ou choradinhos sobre as minorias, é um melodrama de primeira água. Curiosamente, a interpretação superior é a de Ruffalo, não as de Benning ou Moore.

 

20 — “Le Concert”, Radu Mihaileanu (2009, nos cinemas)

Um filme simples e despretensioso que contraria os anátemas sobre as co-produções europeias. Não ficaria mal na casta da comédia de costumes italiana, e a lagrimazita final faz todo o sentido numa arte que se quer, antes de mais, celebratória.

 

21 — “Winter’s Bone”, Debra Granik (2010, DVD Região 1)

Glacial, traçando o mapa de uma América blue-collar pouco conhecida, é a revelação indie do ano ao lado do britânico “Monsters”, de Gareth Edwards.

 

22 — “A Single Man”, Tom Ford (2009, DVD nacional)

O designer de moda Ford, que me tem dado vontade de assaltar um banco para comprar a Gucci, vai muito além da elegância e oferece um filme maduro sobre um dia na vida de um professor de inglês no Verão dos sixties californianos, à procura de um alívio para a dor após a súbita morte do amante. Se querem apreciar as subtilezas, sempre em “low key”, do jogo dramático de Colin Firth, procurem aqui, não em “The King´s Speech”, papel tecnicamente fácil e que o actor devora com uma perna às costas.

 

23 — “In the Loop”, Armando Ianucci (2009, DVD Região 2)

Uma divertidíssima sátira política aos esquemas negociais apreciados em Washington e Downing Street. Inédito nas salas portuguesas.

 

24 — “The Believer”, Henry Bean (2001, DVD Região 2, edição espanhola)

Um neo-nazi de superior inteligência luta contra a sua condição judia, acabando por implodir. Ryan Gosling nunca mais foi tão impressivo (apesar de “Blue Valentine” sugerir o regresso à boa forma).

 

25 — “The Unknown”, Tod Browning (1927, “Lon Chaney Collection”, DVD Região 1)

Umas das obras-primas do cinema mudo, profundamente pessoal, obra de um realizador mais talentoso do que James Whale e, hoje, muito menos celebrado (com a excepção de meia-dúzia de fanáticos de “Freaks”). Browning prossegue obsessivamente o tema da Monstruosidade como doença interior, pegando em Lon Chaney para o entregar às sevícias de uma Joan Crawford reptilínea.

 

26 — “The Rapture”, Michael Tolkin (1991, DVD Região 1)

Uma mulher (Mimi Rogers) perdida na troca de casais e no sexo auto-punitivo é abordada por uma seita de adventistas e troca o orgasmo da carne pelo orgasmo da fé, sacrificando a filha no caminho. Deus como beco sem saída num dos filmes americanos mais importantes dos últimos 20 anos, dirigido pelo guionista de “Changing Lanes” e “The Player”.

 

27 — “Senso”, Luchino Visconti (1954, Blu-Ray em — magnífica — edição francesa)

Um dos raríssimos filmes capaz de ombrear com as criações de Tintoretto, Velásquez, Goya ou Rembrandt.
28 — “Tyson”, James Toback (2008, DVD Região 1)

Um retrato da imensa fragilidade de um animal de ringue, por um dos esquecidos da geração “Easy Riders, Raging Bulls”.

 

29 — “Vendredi Soir”, Claire Denis (2002, DVD Região 2, edição francesa)

Uma das provas da grande arte de Denis, traça os pontos que unem dois desconhecidos durante algumas horas na noite de Paris, sem álibis psicológicos, armadilhas narrativas ou clichés, só uma silenciosa atenção à cumplicidade.

 

30 — “The Pervert’s Guide to Cinema”, Sophie Fiennes (com Slavoj Zizek, 2006, DVD Região 0, NTSC)

Zizek enfia no forno Jean Baudrillard, David Lynch, Freud, Kierkegaard, Deleuze e Hitchcock para nos oferecer um bolo fofo e louco, de sabores tão familiares como inesperados.

 

31 — “The Road”, John Hillcoat (2009, Blu-Ray nacional)

O australiano Hillcoat prossegue o caminho árido, inviolável, de “The Proposition” e “Ghosts…of the Civil Dead” e compõe uma foto que não se esquece, coberta de cinzas, da relação entre pai e filho nos destemperos da catástrofe.

 

32 — “John Adams”, mini-série tv, Tom Hooper (2008, DVD edição espanhola)

É como assistir ao vivo à construção de uma nação – do ideal de uma nação – pelo mais lúcido e legalista dos “founding fathers”.

 

33 — “The Servant”, Joseph Losey (1963, DVD nacional)

Parábola da luta de classes levada ao paroxismo. A carga ideológica envelheceu muito, mas o filme permanece em todo o seu cínico poder.

 

34 — “Vincere”, Marco Bellocchio (2009, DVD nacional)

O melhor filme de Bellochio ao lado da obra de estreia, “I Pugni in Tasca” (o que não é dizer pouco).

 

35 — “The Mortal Storm”, Frank Borzage (1940, DVD Região 1, muito difícil de encontrar — posso emprestar, sob protesto, a minha cassete VHS)

A luta anti-nazi e a arte melodramática de Borzage no zénite de “7th Heaven”, “Man’s Castle” e “Strange Cargo”.

36 — “The Walking Dead”, série tv, episódio-piloto, (escrito e realizado por) Frank Darabont (2010, nos canais cabo)

Zombies na mais saborosa – afinal, trata-se de carne humana – das séries estreadas em Portugal no ano passado. O piloto, pelo autor de “The Shawshank Redemption” e “The Mist”, é de antologia. Romero lives!

 

37 — “Gainsbourg, Vie Heroique”, Joann Sfar (2010, nos cinemas, DVD edição francesa)

Houve quem não gostasse do tom alegórico ou dos traços grossos (Sfar é autor de BD) da farsa. Para mim, o universo excessivo, infantil, transgressor, contraditório, iconoclasta de Gainsbourg não poderia ter melhor exposição.

 

38 — “The Fallen Idol”, Carol Reed (1948, DVD Região 1 da Criterion)

A perda da inocência num exercício com ritmo de mestre.

 

39 — “Madame Curie”, Mervin LeRoy (1943, outra cassete velhinha)

LeRoy, que não era o melhor cineasta do mundo, consegue dar emoção e textura dramática a um elemento invisível — a radioactividade.

 

40 — “XXY”, Lucía Puenzo (2007, DVD edição espanhola)

Com poucos meios e menos palavras, a filha de Luis Puenzo – “La Historia Oficial”, “La Puta y la Ballena” — capta a complexidade do despertar sexual de uma adolescente hermafrodita. Vale a pena espreitar (upps…)

 

Bons filmes.

Para cavalgar tempestades

Lembrar-se alguém solta logo todas as lembranças. O Diogo lembrou-se e a lembrança dele lembrou-me a mim. Jim Morrison cantou estes cavaleiros em dias que não eram a tempestade que, dizemos nós, são as tempestades dos nossos dias. Our life will never end.