Não cheguei a comentar a escolha dos melhores filmes que vi em 2010 — valha lá isso o que valer. Como não gosto de deixar as coisas a meio, aqui vai:
Jacques, filho de Michel Audiard, um dos grandes dialoguistas do cinema europeu de todas as épocas, sobe um degrau depois de “Sur mes Lèvres” e “De Battre Mon Coeur s’est Arrêté” (o remake de “Fingers” que supera o original) e, sozinho, revitaliza o polar e o filme de gansters francês. O fantasma de Jean-Pierre Melville está vivo.
Um magnífico melodrama, que atravessa as juntas militares argentinas, o sufoco dos “niños sin madre”, os derbies de Buenos Aires e as vinganças amorosas com uma segurança e um fulgor que muitos julgavam desaparecidos. O filme que o cinema português poderia aspirar a ser.
De uma insuportável misoginia, violento como Chandler sugeriu e Ellroy mostrou, ressuscita nos escombros do cinema negro americano e oferece um mundo à beira do Apocalipse – não é por acaso que termina nesse fogo que todos consome, de prevaricadores a vítimas. Tem o mais ignóbil protagonista dos últimos anos, no rosto e nos gestos de um actor (Casey Affleck) que parece não fazer mal a uma mosca.
Equidistante de Visconti e Antonioni – a que erradamente lhe atribuíram a filiação – Guadagnino tornou-se a maior esperança do cinema italiano com um conto de luxo e luxúria, feito de sabores, tecidos, folhagens, insectos, castiçais e piscinas trágicas, simultaneamente marmóreo e escaldante como o sol de Verão nos planaltos da Ligúria. E tem Tilda Swilton…
Um retrato exemplar da guerra no Iraque sem tirar o pé de território norte-americano. É o complemento possível, na sua contemporânea secura, ao elegíaco (e muitas vezes esquecido) “Gardens of Stone” de Coppola. E tem Samantha Morton…

6 — “Des Hommes et des Dieux”, Xavier Beauvois (2010, nos cinemas)
A intolerância e o medo do Outro como raíz de todos os males civilizacionais. De uma surpreendente contenção para um realizador que trabalhara nos códigos do policial em “Le Petit Lieutenant”. Para ver com a solene serenidade das missas.
7 — “Inception”, Christopher Nolan (2010, Blu-Ray nacional)
Por vezes demasiado inteligente para o seu próprio bem, é um mergulho labiríntico que se dá com gosto e peito aberto, acrescentando alma – Marion Cottilard – ao trabalho excessivamente cerebral de um criador inegavelmente talentoso, mas pouco disposto a cartografias humanas. Prova que um “blockbuster” com neurónios não é uma contradição em termos.
8 — “The Box”, Richard Kelly (2009, Blu-Ray Região 2)
Conto moral de execução matematicamente apaixonada a partir de um texto sci-fi, erradamente entendido como prolongamento banal da série “The Twilight Zone”. Venham mais banalidades destas.
9 — “Walk the Line”, versão alargada, James Mangold (2005, Blu-Ray nacional)
Um dos raros artesãos do cinema “mainstream” capaz de ombrear com os Fleischer e Frankenheimer da última fase do período clássico, realizador talentoso em todos os géneros (o western em “3:10 to Yuma”, tão bom como o de Delmer Daves, o policial em “Copland”, o thriller em “Identity”, o melodrama em “Heavy”), Mangold supera as regras do biopic sem nunca as quebrar, oferecendo – sobretudo nesta “director’s cut” — uma visão das sombras que tintam a cabana do espírito humano através dos anos-charneira da vida de Johnny Cash. Dá vontade de comprar os álbuns todos e continuar por Loretta Lynn, Linda Ronstadt e Kris Kristofferson.
10 — “Cranford:Complete BBC Series”, 1º episódio, Sue Birtwhistle e Suzie Conklin (2007, DVD Região 2)
Um perfeito objecto televisivo que os trocistas do “selo de qualidade da BBC” deveriam ser obrigados a enfiar como supositório. É como abrir o mostrador de um relógio suiço enquanto se bebe chá com muffins (cuidado com as migalhas).
11 — “Le Conseguenze dell’ Amore”, Paolo Sorrentino (2004, DVD nacional)
Um dos melhores valores da última geração transalpina, numa fita com um protagonista sorumbático e insone que, ao despertar para o amor, só consegue celebrar pela violência.
12 — “Somersault”, Cate Shortland (2004, DVD Região 2)
Fresco, triste, de uma honestidade desarmante, mostra a iniciação à vida de uma mulher-criança (Abbie Cornish, inesquecível) na “low class” do interior australiano.
13 — “Boomerang!”, Elia Kazan (1947, DVD Região 2, edição espanhola)
Kazan em velocidade de cruzeiro num “courtroom drama” esquecido é de agilidade superior a qualquer perú estufado, cheio de técnica e efeitos, do actual cinema de géneros. A recriação do testemunho-chave deve ter sido vista por Kurosawa antes de imaginar “Rashomon”.
14 — “Last Train Home”, Lixin Fan (2009, exibição no doclisboa, disponível em DVD em Fevereiro)
Para os que manifestam algum sentido de admiração pelo modelo de desenvolvimento chinês (há-os, e crescem todos os dias), é favor ver este documentário sobre o maior fluxo migratório sazonal do planeta. Todos os anos, milhões de chineses abandonam mulher, marido, filhos e fazem milhares de quilómetros para obter o privilégio de trabalhar, com a vida a perder-se lentamente em cada viagem.
15 — “Sous le Sable”, François Ozon (2000, DVD Região 2, edição espanhola)
Tão enigmático como “Swimming Pool”, e tão fascinante.
16 — “The Ghost Writer”, Roman Polanski (2010, DVD nacional)
Ninguém filma a desolação da paranóia como Polanski.
17 — “Medium Cool”, Haskell Wexler (1969, DVD Região 1)
O docudrama inventado para filmar as tenebrosas hesitações do congresso de 1968 do Partido Democrata, pelo director de fotografia de “Who’s Afraid of Virginia Woolf?” e “Bound for Glory”.
18 — “Klute”, Alan J. Pakula (1971, DVD Região 2, edição espanhola)
Jane, Jane. Já vos falei dela?
19 — “The Kids are Alright”, Lisa Cholodenko (2010, nos cinemas)
Sem manigâncias ideológicas ou choradinhos sobre as minorias, é um melodrama de primeira água. Curiosamente, a interpretação superior é a de Ruffalo, não as de Benning ou Moore.
20 — “Le Concert”, Radu Mihaileanu (2009, nos cinemas)
Um filme simples e despretensioso que contraria os anátemas sobre as co-produções europeias. Não ficaria mal na casta da comédia de costumes italiana, e a lagrimazita final faz todo o sentido numa arte que se quer, antes de mais, celebratória.
21 — “Winter’s Bone”, Debra Granik (2010, DVD Região 1)
Glacial, traçando o mapa de uma América blue-collar pouco conhecida, é a revelação indie do ano ao lado do britânico “Monsters”, de Gareth Edwards.
22 — “A Single Man”, Tom Ford (2009, DVD nacional)
O designer de moda Ford, que me tem dado vontade de assaltar um banco para comprar a Gucci, vai muito além da elegância e oferece um filme maduro sobre um dia na vida de um professor de inglês no Verão dos sixties californianos, à procura de um alívio para a dor após a súbita morte do amante. Se querem apreciar as subtilezas, sempre em “low key”, do jogo dramático de Colin Firth, procurem aqui, não em “The King´s Speech”, papel tecnicamente fácil e que o actor devora com uma perna às costas.
23 — “In the Loop”, Armando Ianucci (2009, DVD Região 2)
Uma divertidíssima sátira política aos esquemas negociais apreciados em Washington e Downing Street. Inédito nas salas portuguesas.
24 — “The Believer”, Henry Bean (2001, DVD Região 2, edição espanhola)
Um neo-nazi de superior inteligência luta contra a sua condição judia, acabando por implodir. Ryan Gosling nunca mais foi tão impressivo (apesar de “Blue Valentine” sugerir o regresso à boa forma).
25 — “The Unknown”, Tod Browning (1927, “Lon Chaney Collection”, DVD Região 1)
Umas das obras-primas do cinema mudo, profundamente pessoal, obra de um realizador mais talentoso do que James Whale e, hoje, muito menos celebrado (com a excepção de meia-dúzia de fanáticos de “Freaks”). Browning prossegue obsessivamente o tema da Monstruosidade como doença interior, pegando em Lon Chaney para o entregar às sevícias de uma Joan Crawford reptilínea.
26 — “The Rapture”, Michael Tolkin (1991, DVD Região 1)
Uma mulher (Mimi Rogers) perdida na troca de casais e no sexo auto-punitivo é abordada por uma seita de adventistas e troca o orgasmo da carne pelo orgasmo da fé, sacrificando a filha no caminho. Deus como beco sem saída num dos filmes americanos mais importantes dos últimos 20 anos, dirigido pelo guionista de “Changing Lanes” e “The Player”.
27 — “Senso”, Luchino Visconti (1954, Blu-Ray em — magnífica — edição francesa)
Um dos raríssimos filmes capaz de ombrear com as criações de Tintoretto, Velásquez, Goya ou Rembrandt.
28 — “Tyson”, James Toback (2008, DVD Região 1)
Um retrato da imensa fragilidade de um animal de ringue, por um dos esquecidos da geração “Easy Riders, Raging Bulls”.
29 — “Vendredi Soir”, Claire Denis (2002, DVD Região 2, edição francesa)
Uma das provas da grande arte de Denis, traça os pontos que unem dois desconhecidos durante algumas horas na noite de Paris, sem álibis psicológicos, armadilhas narrativas ou clichés, só uma silenciosa atenção à cumplicidade.
30 — “The Pervert’s Guide to Cinema”, Sophie Fiennes (com Slavoj Zizek, 2006, DVD Região 0, NTSC)
Zizek enfia no forno Jean Baudrillard, David Lynch, Freud, Kierkegaard, Deleuze e Hitchcock para nos oferecer um bolo fofo e louco, de sabores tão familiares como inesperados.
31 — “The Road”, John Hillcoat (2009, Blu-Ray nacional)
O australiano Hillcoat prossegue o caminho árido, inviolável, de “The Proposition” e “Ghosts…of the Civil Dead” e compõe uma foto que não se esquece, coberta de cinzas, da relação entre pai e filho nos destemperos da catástrofe.
32 — “John Adams”, mini-série tv, Tom Hooper (2008, DVD edição espanhola)
É como assistir ao vivo à construção de uma nação – do ideal de uma nação – pelo mais lúcido e legalista dos “founding fathers”.
33 — “The Servant”, Joseph Losey (1963, DVD nacional)
Parábola da luta de classes levada ao paroxismo. A carga ideológica envelheceu muito, mas o filme permanece em todo o seu cínico poder.
34 — “Vincere”, Marco Bellocchio (2009, DVD nacional)
O melhor filme de Bellochio ao lado da obra de estreia, “I Pugni in Tasca” (o que não é dizer pouco).
35 — “The Mortal Storm”, Frank Borzage (1940, DVD Região 1, muito difícil de encontrar — posso emprestar, sob protesto, a minha cassete VHS)
A luta anti-nazi e a arte melodramática de Borzage no zénite de “7th Heaven”, “Man’s Castle” e “Strange Cargo”.
36 — “The Walking Dead”, série tv, episódio-piloto, (escrito e realizado por) Frank Darabont (2010, nos canais cabo)
Zombies na mais saborosa – afinal, trata-se de carne humana – das séries estreadas em Portugal no ano passado. O piloto, pelo autor de “The Shawshank Redemption” e “The Mist”, é de antologia. Romero lives!
37 — “Gainsbourg, Vie Heroique”, Joann Sfar (2010, nos cinemas, DVD edição francesa)
Houve quem não gostasse do tom alegórico ou dos traços grossos (Sfar é autor de BD) da farsa. Para mim, o universo excessivo, infantil, transgressor, contraditório, iconoclasta de Gainsbourg não poderia ter melhor exposição.
38 — “The Fallen Idol”, Carol Reed (1948, DVD Região 1 da Criterion)
A perda da inocência num exercício com ritmo de mestre.
39 — “Madame Curie”, Mervin LeRoy (1943, outra cassete velhinha)
LeRoy, que não era o melhor cineasta do mundo, consegue dar emoção e textura dramática a um elemento invisível — a radioactividade.
40 — “XXY”, Lucía Puenzo (2007, DVD edição espanhola)
Com poucos meios e menos palavras, a filha de Luis Puenzo – “La Historia Oficial”, “La Puta y la Ballena” — capta a complexidade do despertar sexual de uma adolescente hermafrodita. Vale a pena espreitar (upps…)

Bons filmes.