Syd Barrett (1946−2006) – By the way, which one is pink?…
Queridos Mortos

É estranho como me sinto estranho a escrever algo sobre Syd Barrett. Porque estranha foi também a atracção que senti por este personagem quando o conheci formalmente, três ou quatro anos depois de pela primeira vez ter ouvido o som dos Pink Floyd.
Nos idos de Setenta pouco me interessavam os músicos da minha eleição, ou sequer o que lhes ia acontecendo. Lembro-me das mortes de Morrison, Hendrix e Joplin, por exemplo, mas entendia isso como natural casualties duma actividade que continha em si certos riscos: o rock e as drogas estavam associados num pacto cada vez menos secreto, que eu ia conhecendo melhor ou pior, mas o que gostava era de ouvi-lo – enquanto tentava atravessar mais ou menos ileso o fim da adolescência e me preparava (não preparava nada, bem entendido) para entrar na vida adulta pela estranhíssima e ogival porta d’ armas.
Porque foi realmente em Angola que tive um contacto mais permanente com aquela música enigmaticamente brilhante, executada, parecia, por músicos duma outra galáxia. E de certo modo os Pink Floyd eram músicos de outra galáxia.
No entanto os primeiros LP’s que ouvi deles foram alguns dos que já não contavam com a participação de Barrett – que em boa verdade só fora objectivamente activo no primeiro (The Piper at the Gates of Dawn) e em algumas peças avulsas integradas nas colectâneas Relics e Masters of Rock (como Apples and Oranges, Arnold Layne e See Emily Play). Para Angola levei no meu bornal Atom Hearth Mother e o à época absolutamente inquestionável The Dark Side of the Moon.
Realmente só em 1976 ouvi falar de forma objectiva deste mago que um dia desistiu de o ser, e das suas duas obras a solo – The Madcap Laughs e Barrett, álbuns baseados em alguns textos de 65/66 e gravados com a participação de alguns dos seus ex-companheiros de grupo (Roger Waters e David Gilmour, por exemplo). O que então ouvi foi o que já toda a gente ouvira: tinha flipado de vez por ter tomado ácido a mais. Coisa que eu achava perceber por duas razoáveis razões: já tinha tido umas trips bem esquisitas, e já tinha visto os estragos que o LSD podia fazer quando lidado como um mero garraio: desdobramentos de personalidade, ou antes a personalidade desmascarada por si própria?… Talvez.
Continuo a achar a segunda hipótese mais exacta, embora tenha a certeza que uma droga poderosa como esta tem efeitos mais devastadores numas pessoas do que noutras. Não se trata do azar casuístico duma bad trip, mas antes o desmoronar de referências tidas por boas até há pouco e o despontar de sincretismos cada vez mais nebulosos para quem não conhece semelhantes territórios (e até para quem conhece, pois nesta matéria cada pessoa é um caso aceitavelmente único).
Barrett criou duas obras-primas distintas: a primeira foi o grupo Pink Floyd – desde o nome (que resulta da fusão dos nomes de dois bluesman americanos, Pink Anderson e Floyd Council) até à fórmula especifica do seu som, de que o grupo irá ficar refém para todo o sempre; por fim, escreveu oito das 11 músicas que compõem esse hino psicadélico completo que é The Piper at the Gates of Dawn.
Quando pela primeira vez ouvi Astronomy Domine, algures em 1976, ouvi também pela primeira vez falar de algo que já me tinha acontecido:

Lime and limpid green, a second scene,
A fight between the blue you once knew.

http://www.youtube.com/watch?v=HWXLDkNsoAk

«Uma luta no meio do azul que um dia conheceste»…

Como não me reconhecer por trás da lente olho-de-peixe, observando a tensão crescente na velha sala repleta de objectos mágicos, a guerra personalizada particularmente entre dois dos protagonistas que se conheciam de longa data, e a certeza absoluta do que significava cada gesto, cada palavra, cada mal-entendido! E, já na ressaca descendente, a minha surpresa total quando o terceiro (um amigo de sempre) me confrontou com o «facto» de não podermos continuar a sê-lo – nunca percebi o porquê disto e acho que ele próprio também não, já que mal secas ficaram as águas do rio que cruzáramos de novo voltámos à velha amizade de sempre…
Depois de muito disto e doutras coisas, já na versão Pink Floyd, Barrett torna-se errático, descrente acho eu, estraga concertos com a sua atitude inconsistente em palco. Por fim, em 1968, afastam-no do grupo. Ou terá sido ele quem se foi afastando, num propósito que ainda não se reconhecia como tal? E ele, Roger Keith de seu nome mas Syd desde os 14 anos, o Piper, o Crazy Diamond que meros três anos antes criara a gig mágica dos Floyd e os atirara para o estrelato, enceta a fase mais crítica da sua vida londrina antes de, em 1978, voltar à sua natal Cambridge. Para trás ficavam The Madcap Laughs (1969) e Barrett (1970), obras que a meu ver (e no de muita gente, imagino bem) retratam um pouco a sua posição de rejeitado do grupo e muito mais a sua relação, presume-se que tempestuosa, com as suas namoradas em geral e com Lindsey em particular.
Mas são músicas belas, duma beleza perigosa, sombria – como a mata profunda à hora em que o dia se compõe de penumbras. Em Octopus, por exemplo:

Isn’t it good to be lost in the wood
isn’t it bad so quiet there, in the wood
meant even less to me than I thought
with a honey plough of yellow prickly seeds
clover honey pots and mystic shining feed…
well, the madcap laughed at the man on the border (…).


Barrett nas tintas


Consta que fez as 60 milhas (quase cem quilómetros!) que separam Londres de Cambridge a pé. Estava gordo, de cabeça e sobrancelhas rapadas, quando entrou em casa.
Passou a pintar e a fazer jardinagem, de que era verdadeiro fanático.
Recusou ser star ou mesmo shooting star. O seu sucessor nos Pink Floyd, David Gilmour, disse dele que nunca conseguiria conviver com as imposições que o sucesso fatalmente acarreta. A mim parece-me uma óptima explicação para o sucedido.
Por vezes voltava a Londres, para ver exposições de arte e de plantas, e também ia frequentemente com a irmã à praia. Irritavam-no os paparazzi, mas a quem não?…
Tinha diabetes e morreu de cancro no pâncreas aos 60 anos.

Mas a sua vida continua a ser um filme.

Comentários a “Syd Barrett (1946−2006) – By the way, which one is pink?…” (26)

  1. Bárbara diz:

    Felicitações pelo digno enterro deste “querido morto”!
    Nasceu génio, viveu louco e morreu brilhante.
    “Shine on.…you crazy diamond!…”

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Não estranhei que te sentisses estranho a escrever sobre o estranho Syd. Ficaram sobretudo luminosas e sinceras as rimas entre o que viveste e o que ele terá vivido. Rimas ácidas de personalidades e máscaras. Nice trip.
    Uma nota mais melancólica: o tempo não lhe fez bem à música. Ou então: pus-me a pensar que faz falta ouvi-la (e à cósmica dos Pink Floyd) no escuro da densa mata africana, no coração escuro de uma noite escura. Hoje, no desritualizado urbanismo europeu, quase nenhuma emoção.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Percebo muito bem o que dizes, Manuel.Mas acho que a cósmica PF largou o surrealismo de Barrett para entrar num realismo de pouca emoção. Particularmente quando Waters tomou conta da barca em definitivo (a partir de The Wall). Para mim a «história» terminou com Wish you were here — um disco que o próprio Barrett classificou de «um pouco velha»…

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Belo post António. Os Pink Floyd são, para mim, uma banda extraordinária. Mostra-o bem o facto de pormos hoje a tocar um disco seu (deles) e não ser velho: nem no som, nem no estilo, nem nos arranjos… São muito bons. E por sinal, ainda daquele tempo em que a música era profundamente humana, com mensagens (letra, silêncio e música) profundamente existenciais e metafísicas. As trips e afins, boas e más, vieram à mistura, mas não eram o essencial. Infelizmente fizeram vítimas. Muitas. Algumas conhecidas, como as que referes no post. Mas outras houve, muitas outras, que foram também com elas. Tudo isso hoje é passado neste mundo de indiferença em que vivemos. Mas basta pôr a tocar um disco destes senhores (e aí não sou esquisito, vou do Ummagumma ao The Wall) para imediatamente nos lembrarmos de que somos mais do que a globalizada contabilidade do dia-a-dia. Obrigado.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gostaste, Gonçalo. E estou de acordo quando dizes que a música deles é um caso particular. Ummagumma é um disco extraordinário, dos meus preferidos (ainda tenho o vinil), tal como Animals.
    Um abraço.

  6. Alberto Nogueira diz:

    As coisas que tu sabes sobre os nossos grandiosos companheiros de guerra!!!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Tens grande razão, Alberto, eles foram verdadeiramente nossos companheiros de guerra — o que seria de nós sem a música?… Acendia-se um charro, bora Dark Side, e lá íamos nós até aos astróides disponíveis… Lembras-te dos Savage Rose, do ‘Jeu de Massacre’ e ‘Wild Child’, que levei para Malange? Se quiseres mando-te isso (tenho vários exemplares…)
    Grandes tempos!

    • Alberto Nogueira diz:

      Claro que me lembro, claro que quero. Os Savage Rose deixaram-me na altura pensativo, sem palavras. Peças que se encaixavam inesperadamente naquele puzzle diabólico que viviamos.
      Mas grandes tempos, também acho!

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Tempos únicos, Alberto, inesquecíveis.
    Segue encomenda.

  9. José Navarro de Andrade diz:

    Perdoai que discorde, srs. Manuel e António. Depois de os ter ouvido e tripado nos idos de 70, ao Dark Side e ao Wish, passei adiante. Sucede que, por mão do professor de guitarra da minha filha, fui compelido a regressar ali. A miúda está confusa: o quê? havia música antes do Justin Bieber e da Hannah Montana? Confesso, que redescobri isto, que é a vantagem do esquecimento. E nunca gostei tanto deles como hoje. São vidas.

  10. António Eça de Queiroz diz:

    Zé, discordar do MSF ainda percebo porque ele tem gostos um pouco fundamentalistas (que não apenas musicais, como é sabido…). Eu apenas disse que «percebo» o comentário dele, que é consentâneo com o de certos ‘puristas’ mais atrevidotes. Já eu nunca disse que não gostava de «nada» feito depois de Barrett — disse apenas que eram coisas diferentes (em particular The Wall, que quase só é Waters, embora tenha umas quantas músicas fabulosas). Mas gosto muito de The Animals, por exemplo. Já Final Cut me deixou nostálgico — porque foi isso mesmo, um fim em si. Com Gilmour aos comandos da gig (Waters tornou-se demasiado neurótico, a meu ver), gosto imenso de A Momentary Lapse of Reason, que tem músicas lindíssimas, não tanto de Division Bell.
    Continuo a gostar tanto deles como sempre gostei, com variantes que têm a ver com as alterações de set que ciclicamente aconteceram. Continuo a ouvi-los muito, e vou recomprar Dark Side (versão original), Ummagumma e Echoes, que só tenho em vinil.

  11. Marta Costa Reis diz:

    LINDOOOOOO!!! Acertei mesmo !!! Eu só gostei deles nos anos 80, mas gostei e ainda gosto, embora conceda que, com selva africana e calor nocturno, pudesse gostar ainda melhor. Bom morto, belo enterro!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Pois acertou, Marta, mas conceda que deixei pistas qual bruxa má deixa biscoitos para catar criancinhas larocas ao entardecer…
      E vou-lhe dizer um segredo: em África tudo é melhor e maior.

      • Marta Costa Reis diz:

        Homessa! Então estava tão aflito, tão aflito, sem saber do morto, quando afinal já nos estava a embrulhar em bruxedos e malvadezas? Veja lá não lhe saia uma moura encantada no biscoito!

        • António Eça de Queiroz diz:

          Confesso, Marta, são coisas que não controlo realmente. Isso (os bruxedos e malvadezas) e a moura encantada no biscoito: é que sai sempre!…

  12. Teresa Font diz:

    Belo post, António.
    E, valha o que valer a habilidade, só por mim não valerá muito, levou-me a ouvi-los, com ‘ouvidos de gente’ outra vez. O PF foram musica da minha, mas não sobreviveram aos 25anosidadeda razão, de onde só ficou Janis, Cohen e coisas assim. Chick music — dizia-me um amigo a propósito do Cohen — estou farto do Cohen, fartei-me de levar com ele nas orelhas. Bem.
    Os PF eram mais Apocalypse Now português. E a lenda Syd ‘Crazy Diamond’ Barrett.
    Ouvi tudo outra vez, tive as devidas saudades e gostei. Do “The Wall” não gosto muito, irrita-me, mesmo cantavel.Ou talvez por isso.
    Miss you Syd. Wish you were here.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Obrigado, Teresa, ainda bem que gostou. Sabe que em relação à sobrevivência dos PF tive ciclos: por uns tempos fartei-me do Dark Side, depois fartei-me do Whish you were here, comecei por não gostar do Animals, idolatrei por momentos The Wall… O Piper é que nunca caiu. E todos foram ficando, readmirados geralmente, criticados em certas coisas, mas sempre presentes. Tenho um CD ‘juke box’ no carro com 3 PF, 2 Barrett, 2 Savage Rose, Electric Ladyland, Can, Faust e Paco de Lucia/de Meola/McLaughlin — mais de 4 horas de música; está sempre em random. Como sou surdo como uma porta oiço aquilo aos berros e adoro.
      Mas eu sou uma antiqualha…

  13. pedro marta santos diz:

    O “Final Cut” caiu na minha adolescência que nem rebuçado em goela de criança. Todo aquele desespero crepuscular dava para beber o último copo da alvorada e fingir a veterania dos adultos. Não sou fã do Syd, mas é personagem bem-vinda ao cemitério. Ab

    • António Eça de Queiroz diz:

      Percebo a tua ideia, Pedro, Final Cut representa bem uma época específica (a guerra das Malvinas) entre muitas outras coisas, claro.
      Abraço.

  14. Joana Vasconcelos diz:

    A minha história com os Pink Floyd começou com e durante muito tempo limitou-se a The Wall.
    Devia ter uns 13–14 anos quando apareceu e claro que achei graça, claro que aprendi de cor, claro que em diversas ocasiões muito catarticamente me vali do Another Brick in the Wall, aos berros ou em surdina (não fosse a setora mandar-me para a rua). Mas enough is enough e deixei simplesmente de poder ouvir aquilo.
    Depois, fui percebendo que eram dos Pink Floyd várias músicas de que gostava. Eu e toda a gente, porque era — é — impossível não gostar.
    A grande surpresa, essa estava ainda para vir. Quando muito recentemente, pasme-se, descobri e fiquei (continuo) fascinada com The Piper at the Gates of Dawn. Lançado, como o Sgt Pepper’s, no ano em que nasci. Aquilo definitely mexeu comigo, como nenhum outro som dos Pink Floyd before.
    Desconhecia por completo, como por completo desconhecia a figura e a vida de Syd Barrett, afinal the soul of it all.
    Gostei muito de o contemplar através do seu sentido olhar, António. Muito bom mesmo.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Fico muito contente com isso, Joana. Sabe que o Piper foi gravado nos estúdios de Abbey Road, tal como o Sgt. Pepper? Os Pink Floyd são para mim, e há muito tempo, um case study.

  15. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Querido Antoine, ainda gastei a agulha do gira discos com esses rapazes. Ainda os assisti ao vivo duas ou três vezes. E ao filme, claro.

  16. António Eça de Queiroz diz:

    Ma cher Impératrice, eu gastei a agulha do gira e os ouvidos da cabeça — e, hélas, nunca os vi (por burrice minha, diga-se).
    São grandiosos, continuam a ser.

  17. Marcos Neves diz:

    Fantástico o que o Pink Floyd desperta em cada um que curte e compreende as peculiaridades do Rock. Tem muita história carregada nas letras, sons, capas dos discos, e principalmente nos seus protagonistas. Sempre foi uma banda que me despertou fascínio e curiosidade, desde os meus 16, 17 anos. Nessa época, sempre me sentia meio “louco”, pois quase ninguém curtia ou até conhecia o Pink Floyd, cujo som sempre foi “diferente” de tudo o que era divulgado. Hoje, já com meus 47, permanece o mesmo fascínio quando ouço “Arnold Laine”, “Apples and Oranges”, “See Saw”, “Lucifer Sam”, entre tantas outras.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ainda bem que gosta, Marcos, é mais um na legião de fãs — e somos muitos.
      Não conhece os discos “autónomos” do Barrett? São diferentes de PF mas muito interessantes também.
      Cumprimentos.

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