6 de Fevereiro de 2011

Antes de me julgarem imploro-vos que me oiçam. Bem sei que é grave dar como morto nesta coluna um ser humano ainda vivo. Mas tenho boas razões para o nomear e espero que no fim do que vos vou contar, me ilibam de qualquer culpa.
Gostam de nos convencer que a vida é feita de decisões, mas não é bem verdade. A maior parte das decisões que tomamos são minúsculas e servem para deixar as coisas como estão. Apesar de as amaldiçoarmos, as rotinas são imprescindíveis à nossa sobrevivência. Percebemos isso muito bem quando, por exemplo, chegamos a uma cidade desconhecida sem mapa – estou longe do centro? Para que lado sigo? Onde irá dar esta rua? É a velha história dos náufragos numa ilha deserta que só ao fim de semanas percebem que do outro lado da floresta de coqueiros havia um resort…
Das decisões maiores que somos levados a tomar, o mais das vezes empurrados pelas circunstâncias, uma boa porção são como que “negativas”. Travar o carro a tempo evitando atropelar a velhinha, permitiu que a nossa vida não sofresse um desvio brutal; mas precisamente porque nada aconteceu, depressa nos esquecemos da enormidade do que poderia ter acontecido.
Decisões monumentosas, de vida ou de morte, com azar passaremos por elas menos do que uma mão cheia de vezes no curso de uma vida. Por outro lado, quanto maiores podem ser as repercussões daquilo que decidimos, maior é a sua abstração e, em consequência, maior a nossa distância emocional. Deve ser tremendo para um general ordenar o bombardeamento de uma cidade, mas seria pior pôr-lhe uma faca nas mãos e mandar: “mata aquele homem”.
Isto escrito assim no recato de um ecrã luminoso é assaz pedestre, mas peço-vos a indulgência de sentirem, mas do que racionalizarem, o dilema.
Em Setembro de 1983, as relações entre os EUA e a URSS atingiram um nadir só comparável à crise dos misseis de 1962. No dia 1 desse mês caças soviéticos haviam destruído em pleno voo um avião de passageiros sul coreano que entrara no secretíssimo espaço aéreo do Kamchatka, sem como nem porquê – o que ainda hoje está por saber. A Guerra Fria gelara.
Na noite de 20 de Setembro de 1983, foi contrariado e bocejante que o tenente coronel Stanislav Petrov, em vez de ir para casa, se viu obrigado a preencher a falta de um camarada que deu baixa por doença. A sua missão era simples e aborrecida: comandar a monitorização e rastreio do sistema com o nome de código OKO, num bunker subterrâneo em Sepurkhov-15, lugarejo nos arrabaldes de Moscovo. À sua frente e dos homens que ele supervisionava, cintilavam ecrãs com imagens de satélite dos silos de mísseis norte americanos.
Pouco passava da meia noite quando as sirenes romperam num uivo e os ecrãs a piscar a vermelha palavra Запуск. Primeiro um, depois outro, mais três, cinco mísseis americanos tinham sido lançados. Em 12 minutos as principais cidades russas iam ser aniquiladas pelo fogo nuclear. As instruções de como o tenente coronel Petrov deveria proceder eram claras: premir o grosso botão encastrado na sua secretária dando o alerta ao Estado Maior do Exército Vermelho de modo a que fosse desencadeada resposta imediata: uma chuva de mísseis sobre os Estados Unidos.
Penetre agora o leitor na pele de Stanislav Petrov; o barulho aterrador, o halo vermelho intermitente a flamejar na sala, as caras angustiadas dos subordinados à espera de um gesto seu, o tempo a latejar no peito – que fazer?
Passaram 12 segundos enquanto leu este parágrafo.
Em que pensou Petrov? Decerto que não na Humanidade, esse mero conceito, indiscriminado, incontável e difuso, de todo inócuo numa aflição. Talvez vislumbrasse os corpos calcinados dos filhos, as searas da sua Rússia em cinzas, as eternas florestas da Sibéria carbonizadas. Nunca mais poder beber um trago de vodka com os amigos – coisas assim, pequenas, domésticas, decisivas.
Mais 15 segundos.
Petrov olhou para os radares, reparando que o raio verde não assinalava pontos luminosos nas suas rápidas voltas – mas podiam ter sido avariados. Perscrutou as imagens de satélite e nelas não se distinguia nenhuma actividade extraordinária em volta dos silos, cujas tampas pareciam fechadas – mas os americanos poderiam ter sabotado essas imagens.
Já decorreu quase um minuto desde o início da crise.
Discorreu: se quisessem lançar um ataque, teriam ejectado apenas meia dúzia de mísseis? Não seria mais lógico que o primeiro golpe fosse desferido com toda a força do arsenal nuclear, para ganhar uma vantagem decisiva logo na jogada inicial? Concluiu que se tratava de um falso alarme. E decidiu esperar se mais algum sistema confirmava o rebate do computador que governava o OKO.
Agora já não havia tempo para retaliar. A única sensação que Petrov recorda destes momentos é o frio húmido que lhe cobriu o corpo.
Contou o tempo e ao fim de 12 minutos o bunker não estremeceu, nenhum clarão assombrou Moscovo, a sirene silenciou e os monitores extinguiram o vermelho.
Depois de reportar o incidente aos seus superiores o tenente coronel foi sujeito a um minucioso interrogatório. Não o puniram por ter desobedecido a ordens tão claras, nem o premiaram, porque isso obrigaria a reconhecer a existência de falhas no sistema militar soviético. Stanislav Petrov foi transferido para um posto menos crítico, teve uma grave depressão nervosa e reformou-se prematuramente. Só 25 anos depois o mundo soube o que se passou naquela noite.
Petrov ainda vive. E a Humanidade também.

















Que coisa fantástica, Zé! Estava a ler e a ver «1983» e não conseguia lembrar-me de nada de particularmente grave. Afinal só se soube há três anos — e que herói tão inesperado, que racionalismo positivamente sensato!
O gajo salvou-nos a todos e ainda está vivo, logo foi muitíssimo bem enterrado porque merece.
Parece-me irrepreensível, e o teu texto é dramaticamente divertido.
O meu sincero parabém.
Obrigado António
Esta fragilidade que une o Bem e o Mal, tão própria do Homem, a opção decisiva sempre presente e fácil de qualificar “a posteriori”, a angústia do guarda redes antes do penalty, para a esquerda ou para a direita ? Grande Petrov, que evitou como poucos o golo programado.
Neste momento de História decisivo, para mim desconhecido até me ser trazido de forma tão apelativa, cabe inteira nem sei bem o quê, a mão de um Deus bom desconhecido ?
Obrigado ao Stanislav Petrov e a quem mo apresentou. Parabéns, caro JNA.
“A mão de um deus desconhecido” Ora aqui está uma frase que invejo não ter sido eu a escrevê-la.
Ufa…ainda bem que alguns homens confiam na sua intuição.
Intuição, mesmo. Mas: e se…?
Belo Morto! Fartei-me de gostar.
Obrigado Eugénia
Zé, que história arrepiante! Ainda bem que o morto estava bem vivo naqueles 12 minutos em que confiou. Fascinam-me este heróis anónimos. Gostei muito que o tenhas trazido para o cemitério.
PS — Mas a que informações tens tu acesso para saberes estas coisas? Muito suspeito! :)
Essa da infotrmação tem piada, ou seja, como me ocorrem cosias destas? lembrei-me um dia vagamente da situação e depois foi googlar até encontrar. O sr. tem página wiki o que é sempre um ótimo ponto de partida (nunca de chegada, obviamente).
Fantástica histórica, fantasticamente contada, Zé.
Impressinante o discernimento deste homem. E, sobretudo, a coragem para a tremenda decisão de o seguir, contrariando ordens, regras e procedimentos inderrogáveis e expondo-se a riscos que só de imaginar gelam…
Joana: Que bela discussão poderíamos ter. Não sei se é discernimento, se outra “coisa mental” mais chegada à intuição. É de certeza uma grande irresponsabilidade, mas virtuosa; será uma suspensão do juízo próxima da desistência, felizmente de consequências positivas. A única coisa de que estou seguro é que um momento desses é um abismo onde me parecem impossíveis abstrações com “a humanidade” — só é possível imagens muito cocnretas, como a família, proe xemplo.
«(…) a suspensão do juízo próxima da desistência…». É bem capaz de ter sido qualquer coisa do tipo encontrar justificações lógicas para um «isto não faço!», que se baseará fundamentalmente nos afectos de proximidade e não no amor ou cuidado pela espécie.
Bem visto.
Uma história do caraças, de gelar o sangue, muito bem contada. Vou investigar o senhor, e prestar homilias.
Obrigado, Pedro.
Zé como gosto destas histórias. Tens que contar mais e mais vezes.
abr V.
Lembrei-me agora da história de uns Nazis à solta no Far West Americano que se não conheces acho que irias gostar. Quando tiver tempo venho aqui conta-la.
Outro abr V.
Eh pá, essa só pode ser boa! O cavalheiro não terá ainda reparado na seção “história particular da infâmia”? Faça o favor de escrever para lá o que diz que vai contar. Aguardo com ansiedade.
Gostei muito. Bela história e bela história de : ‘what if?‘
Brrrrr.