
A Cidade Ideal, Bartolomeo di Giovanni Corradini
O diálogo que o estimado Gonçalo e eu protagonizámos é, diga-se, parte do ar do tempo. Um actualizadíssimo ar do tempo, note-se. E deixem-me dizer que às vezes a surpresa – e uma certa brisa – vem donde menos se espera. Nos meios científicos e de história da ciência, há quem considere que o sentimento teológico, ou para sermos simples, a crença em Deus, tem uma função evolucionista absolutamente decisiva. A crença em Deus, acrescentam, é um princípio que permite ao animal humano estabelecer um sentido pessoal e cósmico e conferir ordem e justiça ao mundo, seguindo-se o desejo de imortalidade, num todo harmónico que empresta razão ao mais cacafónico dos incidentes do nosso dia a dia. A crença em Deus é um apetrecho vigoroso, uma enzima que nos dinamiza.
Assumindo a minha ignorância, com promessa de o “estudar” melhor, reduzo o tema a uma simplicidade de café para dizer que o Gonçalo, com a sua crença, se mostra mais bem apetrechado para garantir a sua sobrevivência, e com ele a da humanidade, do que este animal agnóstico e hesitante que eu sou, enredado num novelo de que não sei como sair. Só agora vejo o animal perigoso que sou.
Ps – Os ateus não entram nesta história: vão colados aos crentes porque crentes como os crentes são.

















Aqui vai mais uma citação, a juntar às restantes: “aquele que procura a Verdade, procura Deus, ainda que não o saiba”. De uma das Santas do séc. XX, Edith Stein.
gosto destas discussões.
Forma gentil de dizer que há quem (meia-humanidade, porventura) nem do que anda à procura saiba.
Eu, sendo pessoa de bastante fé mas pouca dada à devoção, o que me dá uma certa incapacidade religiosa, tendo a concordar: o apelo pela transcendência — seja qual for o nome ou nomes — essa “busca de sentido pessoal e cósmica”, ordem, justiça, harmonia e — porque não — imortalidade, é uma marca (talvez literalmente genética) da humanidade.
O Gonçalo saberá melhor do que eu, mas creio que Marx não estava a ser depreciativo quando comparou religião com ópio! :)
E já agora, enredados no novelo andamos mais ou menos todos…o agnosticismo pode ser saudável, ter muitas certezas sobre tudo é que se tem tornado bastante perigoso, embora normalmente mais para o próximo do que para o próprio, é certo.
Daqui de longe (Póvoa de Varzim), uma breve intervenção para actualizar essa frase de Marx. Diz-se que na Rússia de hoje a versão actualizada é “o ópio é o ópio do povo”.
Marta, parece mesmo que não, que Marx não queria ser depreciativo, ou pelo menos tão simplista como a populrização da citação veio a sugerir. Seja como for, Onésimo, a actualização da célebre frase parece-me adorável.
Se dúvidas sentimento-teológicas tivesse, Manuel Fonseca, hoje havia de as ter perdido: não viu o Cardozo a persignar-se depois de ter dançado a galinha?! Converta-se, ó águia de pouca fé.
Eugénia, benze-me ainda me benzo, mas dançar assim é que não consigo mesmo.
Belo de profundis, senhor Manuel Quase-Santo Fonseca, gostei imenso porque sobre estes assunto sempre tive uma sensação semelhante àquela que tão bem escreveste aqui. Nunca a soube dizer, o máximo que atingi foi este sincretismo quase regular: o Tempo é a carne de Deus.
Estou com a Eugénia (ainda te estou a ver de turíbulo armado incensando à direita e à esquerda, quase com ferocidade…)
A discussão foi óptima, sem dúvida.
Ó, a carne do tempo…
Manuel, lendo as suas palavras li as que disse tantas vezes. Li-me. E quantas vezes não quis acreditar também. Mas nada me move em relação aos que acreditam com a devoção da procura, a beleza dessa procura, como faz o Gonçalo. Já quanto aos vendedores dos templos, a conversa é outra. São verdadeiramente perigosos porque intolerantes, e em relação a isso é preciso estar muito atento, vivemos um tempo incerto, e nada está ganho, muito menos a tolerância.
~CC~
Creio que nunca nada está ganho, mas a tolerância já teve tempos muito piores, responde-lhe o optimista que trago no bolso.