Mimesis


– O que te disse ela quando te viu entrar?
– “I’m bored to death”. Morreu 3 semanas depois, corroída pela leucemia. O invólucro ficou intacto e tolerou bem o lustro da maquilhagem fúnebre.
Susan quis sorrir mas ficaram-lhe lábios de Mona Lisa. Estendeu-se de costas com as mãos atrás da cabeça e divagou o olhar. Uma pessoa só vai para a cama por doença, sono ou sexo, de resto deita-se por cima dos lençóis.
O interesse de uma fotografia não está naquilo que mostra mas naquilo que quer mostrar. É um ato de vontade, uma decisão. Se torceres o tempo e trocares os termos, pondo a causa no lugar da consequência e o objecto onde estava o sujeito, dirás que uma fotografia mostra aquilo que quer. Mas repara que estás a dizer a mesma coisa – a fotografia é uma realidade, não é o real. Terás sempre que distinguir entre a natureza das coisas e aquilo que conseguimos ver e saber dessa natureza – e dessas coisas.
– Não é preciso inventar histórias, Susan, elas estão à nossa frente, à espera de serem colhidas.

 Candy, doce Candy, querida Candy Darling.
O teu momento era alcançares uma imitação tão imperfeita que se visse logo nela a arte de imitar. Imagine-se a réplica de um quadro de Cézanne melhor do que o próprio Cézanne, precisamente por não copiar o original ao imitá-lo. A verdadeira arte do falsário é subverter toda a autenticidade, criar dúvidas sobre a ideia de originalidade, provocar hesitações diante do que se diz verdadeiro.
Nunca deixavam de ter perseguir com duas frases:

Não és isso!                                                
                                                                           ou                                               
                                                                                                                                  Que exagero!Candy teve o privilégio de nascer James, assim descobrindo desde muito cedo a sua vocação para se libertar das imposições da natureza; não quis ser rapaz e fez-se mulher. Cresceu em Long Island o que lhe permitiu imaginar e simular o glamour de The Hamptons, embora vivesse na parte popular – eufemismo de pobre – da ilha. Numa das noites de “Glamour, Glory and Gold” foi vista pelo mago Warhol e assim emergiu das caves da hora do lobo da Village para A Fábrica. Só quem quer muito ser uma star se poderá transformar numa Superstar e se não há seda seja com chita, e do espumante se faça champagne; é uma forma de permanecer perpetuamente num estado sublime, sem concessões ao trivial.
Paródia (“não és isso!”) ou culto (“que exagero!”)?
Tudo.
O supremo triunfo, Candy, alcançaste-o quando já abandonavas a superfície da terra e no teu cortejo fúnebre se destacou por entre a multidão Gloria Swanson, saudando o teu caixão.


– Tu és difícil, Peter – proferiu Susan – “a fotografia converte o mundo todo num cemitério” e “os fotógrafos são os anjos que registam a morte”.
– Quando se mente é difícil acertar. – Retorquiu Peter sentado nu numa cadeira, corpo a três quartos e olhar de frente – Sabes que mais? Eu vou morrer de SIDA em 1987 e tu vais morrer de cancro em 2004, cada um de nós vai morrer com mais 20 anos que o outro: a Candy com 30, eu com 53 e tu com 71.
Haverá algum sentido escondido nisto?

Comentários a “Mimesis” (7)

  1. Turmalina diz:

    Você foi longe, longe, longe, José, embora tão perto da imagem da fotografia.E que perfeita teia nos apresentou.Não gostei, adorei!

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Isto é para ir cada vez mais longe, caríssima. Se assim não fosse nunca teríamos chegado ao Brasil (rsrsrs). Obrigado.

  3. Luciana diz:

    Zé, eu não sei se é de agradecer ficar assim tão desolada. Porque suas palavras viraram cancro em mim, penso, e se multiplicam desordenadamente e me roem de dentro pra fora.
    Não é preciso inventar histórias, foi Peter, tu ou eu mesma — como Ismália na torre — que sabia isso? Pois agora vão, fotografias e letras, para meu álbum de retratos: http://www.youtube.com/watch?v=YdRH3D8fkU4&feature=player_embedded

  4. José Navarro de Andrade diz:

    De Elis também haveria muito que contar. Mas só inventei o que se poderia ter passado naquele momento em que Peter (Hujar), Susan (Sontag) e Candy se cruzaram nesta fotografia.

  5. Turmalina diz:

    Falando em Sontag e Aids, vejo a foto com outros olhos. Ela reflete muito do que Susan escreve no seu livro sobre o tema.Não fiz a ligação, nunca pensei que sua Susan fosse Sontag.Ela ganhou muito mais força agora!
    E a frase “Uma pessoa só vai para a cama por doença, sono ou sexo, de resto deita-se por cima dos lençóis.” ficou perfeita no contexto.
    “A doença é a zona noturna da vida, uma cidadania mais onerosa. Todos que nascem têm dupla cidadania, no reino dos sãos e no reino dos doentes. Apesar de todos preferirem só usar o passaporte bom, mais cedo ou mais tarde nos vemos obrigados, pelo menos por um período, a nos identificarmos como cidadãos desse outro lugar.” ( Susan Sontag, em Aids e suas metafóras)

    • José Navarro de Andrade diz:

      As frases que referes, Turmalina, são do texto que Susan Sontag escreveu para o único livro de fotos que Peter Hujar publicou em vida. Já agora: a pose de SSontag descrita é a da foto que ele lhe tirou e a descrição dele sentado nu, é de um auto-retrato. Os factos são todos verdadeiros (espero…).

  6. António Eça de Queiroz diz:

    O final numerológico é duma ironia inacreditável! Se o AW lesse isto perguntava-te logo se lhe fazias uma chamadinha para o Céu (a pagar no destino, claro).
    A mise-en-scène é perfeita, e para mais real nos tais factos que esperas verdadeiros.
    Olha, Zé Navarro, se não são deviam ser e isso é que interessa.

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