E se fosse aqui? E se fosse agora?

O Gonçalo e o Manuel foram partilhando connosco, ao longo da semana que passou, as suas reflexões muito pessoais e muito sentidas sobre aquela que é uma das mais belas passagens do Evangelho e uma das que mais fortemente me interpela – o Sermão da Montanha, na versão de Mateus (5, 1–12). Revi-me, impossível não o fazer, em todos os textos que um e outro publicaram. Com o Gonçalo partilho essa dimensão incontornável da esperança e da certeza que nos dá a fé, a noção de que estamos a caminho, rumo a uma felicidade futura, com as bem-aventuranças como coordenadas de GPS. Tal como ao Manuel, fascina-me a profunda humanidade deste desafio, tão revolucionário quanto actual, feito por um homem a mulheres e homens que ali tinham ido para o ouvir – gente comum, tão comum como cada um de nós, não especialmente virtuosos, espirituais ou heróicos. Mas a verdade é que a leitura que do Sermão da Montanha há já tempo faço e procuro pôr em prática não coincide exactamente com a que fazem um e outro. Por isso decidi trazê-la aqui, tão explicada e curta quanto consegui, para não causar nos que tiverem a bondade de me ler até ao fim uma desagradável overdose de Bem-Aventuranças.  

Como crente, sei que Deus tem para mim um projecto de felicidade. Sei que me espera um final feliz, eternamente feliz, uma vez fterminada a minha passagem por este mundo e sei também que esta faz já parte desse projecto. Talvez por isso, pouco me inquiete a pensar no que se segue e me centre na vida que me é dado viver aqui e agora, procurando fazê-lo o melhor possível. E é  justamente neste contexto que ganham pleno sentido as Bem-Aventuranças. Como projecto de felicidade terrena e, por via desta, de santidade.

As Bem-Aventuranças são antes de mais um projecto de felicidade – bem-aventurados significa, numa linguagem mais corrente e acessível que aquela a que nos habituaram a tradução e a tradição dos textos bíblicos, felizes. O projecto de uma felicidade quotidiana e acessível. Que nos liberta do que desnecessária e quantas vezes incompreensivelmente nos prende e nos tolhe, que nos centra no essencial, que nos abre e nos liga ao outro, que nos faz autênticos e inteiros.

É neste sentido que se é tanto mais feliz quanto mais se é pobre ou manso, quando mais se chora ou se é perseguido. Em momento algum este texto faz a apologia do sofrimento ou até da busca dele como via de melhoramento, de crescimento ou — o que seria -, de felicidade. Sofrer é sempre mau. Sempre. Pior, às vezes é causa de males maiores: todos temos, com mais ou menos nitidez, a experiência de que a dor que a uns tempera, fortalece e suaviza a outros revolta, azeda e torna mesquinhos (tal como a felicidade a uns faz empáticos e generosos e a outros insensíveis e indiferentes para com os menos afortunados).

É definitivamente diferente, bem mais rico e estimulante o desafio que encerram estas nove exortações, de todos tão bem conhecidas. Que com um coração de pobre vivamos com a simplicidade, a sobriedade e a contenção que nos permitem desfrutar de tudo o que é material, acessório, às vezes supérfluo, sem excessos que nos complicam a vida. Que chorando, sempre que a vida nos dá motivo para tal, sejamos verdadeiros, mostrando-nos frágeis e necessitados, pedindo e aceitando ajuda, confiando e agradecendo, libertando-nos da orgulhosa auto-suficiencia que desvaloriza e dispensa o outro. Que sendo humildes não deixemos que o nosso saber, as nossas certezas e o nosso desejo de impressionar e de brilhar nos impeçam de ouvir, de aprender, de mudar, de dar ao outro razão e valor. Que recusemos a dureza e a insensibilidade de um coração de pedra, que julga e condena e nos torna incapazes de sentir e de sofrer com o outro, de pesar as suas razões e de relativizar, relevar e perdoar. Que por mais que vivamos e vejamos, façamos por manter inteiras a limpidez do olhar e das intenções, a confiança e o optimismo no outro e neste nosso mundo. Que em todos os planos em que actuamos procuremos construir em vez de destruir, aproximar em vez de dividir, acrescentar em vez de diminuir. Poderia continuar mas prometi ser breve. E misericordiosa com o leitor. Adiante, pois.

É uma proposta ousada e exigente, esta. Cristo dirigiu-a à multidão, na qual nos incluímos, e não a um conjunto de eleitos, especialmente vocacionados ou dotados para a perfeição. O Sermão da Montanha é um luminoso apelo a que coloquemos a fasquia mais alta, a que nos transformemos e a este nosso mundo, mas sempre — e é isso que o torna extraordinário -, no horizonte do humanamente possível e atingível, fazendo prevalecer o que o ser humano tem de melhor, para lá das suas limitações e insuficiências. Se o fizermos, ligaremos, na nossa frágil e singela humanidade, a terra e o céu. E atingiremos a santidade, a santidade que está afinal ao alcance de todos. Aqui e agora.

Comentários a “E se fosse aqui? E se fosse agora?” (20)

  1. Turmalina diz:

    Que lindo Joana…pensas como eu. Embora eu acredite no céu e na terra, no corpo e no espírito, não mais acredito nos homens da Igreja Apostólica Romana, que dizem falar em nome de Deus. Tive, em vários momentos da minha vida, provas contundentes de que muitos dos homens da Igreja não aplicam o que pregam em seus sermões, muito pelo contrário.Talvez se considerem um grupo privilegiado, os tais “eleitos, vocacionados para a perfeição”. É muita soberba para o meu gosto, que não tem nada de simples nem de inocente, mas é extremamente verdadeiro e transparente, como todos deveriam ser.
    Mas isso não me desviou do meu caminho evolutivo, talvez tenha até o fortalecido para que eu não cometesse os mesmos erros que aqueles que eu critico cometeram e continuam cometendo.
    Assim eu sigo, feliz, guiada pela minha própria crença e consciência. E é desta maneira que todos deveriam seguir!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Querida Turmalina, o que justamente torna único e espantoso o Sermão da Montanha é o ser dirigido a toda uma multidão de homens e mulheres tão diferentes – muito, pouco ou nada crentes, simplesmente curiosos, decerto desiludidos ou magoados. E de a todos e a cada um fazer a mesma proposta — de através de um viver em pleno da sua humanidade, limitada, é certo, mas infinitamente boa na sua essência, ir mais além da mediania, chegar mais longe, tão longe quanto possível: à perfeição, à felicidade, à santidade, quem sabe se ao encontro com Deus.

      E é claro que estamos em sintonia, nesta como em tantas outras coisas! :)

  2. Joao Tomas diz:

    olá prima! Gostei do teu texto, e sinto-o brotar de uma verdade íntima que é a tua, contudo leio outros textos, diametralmente opostos no sentido que transmitem, e também eles parecem brotar de alguma centelha divina que habita os seus autores. É fascinante ver a inteligência humana revelar-se por meio das palavras, mas há um momento, e acho que quase todos concordam com isto, em que não existem mais palavras. Dá-me ideia que aquilo que gostaríamos de ver escrito é exactamente aquilo que não pode ser dito. Acho que a fé não se presta a uma luta de argumentos, e só por isso tem já um lugar seguro; aquilo que normalmente funciona com tudo, aqui, no domínio do crer, encontra um domínio de excepção.
    Há muitas questões para as quais nao encontro resposta. O que leva uns a preocuparem-se com a sua religião, a sua fé, e a indagarem sobre a origem daquilo em que supostamente acreditam? O que leva outros a negar essa fé, a ostensivamente proclamar que deus não existe, e que tudo são efabulações humanas? E ainda outros, que na aparente paz das suas vidas, vivem (aparentemente) indiferentes a toda e qualquer questão religiosa?
    Este meu comentário tem um sabor infantil, bem o sei, mas muitas vezes as questões básicas acabam por ser silenciadas com receio de fazermos má figura, por pura vergonha ou incapacidade de formular a pergunta sem resposta. Se não tem resposta para quê perguntar?
    Ainda ontem, num jantar a que fui, ouvi um tipo, na casa dos trinta, que dizia assim “É tudo material! Nós nascemos e morremos, e eu quero aproveitar esta vida aqui pois a seguir não há mais nada! Tenho é de aproveitar estes anos que me foram dados, e agradecer à minha querida mãe por me ter posto neste mundo…” Uma pessoa ouve isto e pode pensar — mas que grande imbecil me saiu este!” mas logo a seguir vê que não tem nada de precioso que possa acrescentar, quero dizer, nada que tenha uma lógica aparente, algo com o qual o meu interlocutor possa concordar, e eventualmente mudar a sua opinião. E assim permanecemos em silêncio, esperando que ninguém nos leia o pensamento.
    Feud diz algures que cada um tem de procurar salvar-se a si próprio, e eu pergunto-me se será esse o caminho? Quando pomos em causa o nosso próprio acreditar as coisas complicam-se, e de que maneira! Acredito porquê? Em quê? Em quem? Mas sabemos como é importante acreditar para que nasça a obra, para que algo aconteça. No meio do evangelho encontramos Jesus dizendo -” Foi a tua fé que te curou”. E quem não tem fé? Não é curado?
    Este comentário já vai demasiado longo, e diz demasiado pouco, mas que sirva ao menos para que nos possamos ir conhecendo melhor.
    bj do primo JT

    • Joana Vasconcelos diz:

      Joãozinho, que bom é (re)encontrar-te e (re)descobrir-te por aqui!

      Concordo em absoluto contigo: a fé não se demonstra, não se argumenta, não se obtém à custa de muito ler ou sequer de muito a buscar. É por isso que é um dom: disseram-mo na catequese, como decerto a ti, mas confesso que só muitos anos depois percebi o significado de tal afirmação. E sim, por mais que escrevas e que tentes expressar o que sentes, ficas sempre aquém. Quanto ao que dizes acerca das diferentes atitudes que podemos observar relativamente à fé, dir-te-ei somente, com base na minha experiência e citando o Gonçalo, que estamos todos a caminho. E que no caminho que é a história de cada um se sucedem fases de grande tranquilidade e comunhão, fases de inquietação e de dúvida, fases de indiferença e de desligamento. E é assim quer te definas como crente ou não crente.

      Já os que buscam e se inquietam, sempre achei que algo, alguém, haveriam de encontrar. Talvez por cedo me ter apercebido dessa angústia no meu Avô (daquele que não era também o teu) de quem sempre fui tão próxima – lembras-te dele? A terminar, deixo-te com Mateus (7, 7–10): “Pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis (…) pois quem pede, recebe, quem procura, encontra”. Um beijo

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Joana, gostei muito deste seu prisma tão particular, tão bem exposto através das Bem-Aventuranças.
    Mas também eu me coloco muitas vezes no local de que o seu primo dá coordenadas: e quem não teve a graça da fé?… Vive o karma de a não ter?
    E aqueles casos em que a fé parece trair por caminhos insondáveis o crente, que assim perde a sua crença, o seu esteio mestre?
    Tenho para mim que os mistérios da fé são-no também do indivíduo em si, que a tem como um código secreto, um algoritmo mágico que ameniza as agruras e dá forças — mas pouco traduzível por palavras.
    E por isso ler um livro sagrado não nos faz desaguar directamente na fé (embora admita que ajuda se o leitor estiver predisposto a isso).
    Ps: (não se assuste que não foi nenhum testamento, lê-se bem corridinho)

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, a graça da fé simplifica-nos muito a vida a maior parte do tempo. Mas às vezes não. Quando nos adormece e entorpece, numa certeza tão infantil quanto infundada que nos estagna e nos torna totalmente imprestáveis como sal da terra. E também quando nos parece falhar ou se dissipa a pontos de deixar entrar a inquietação, a dúvida e até a zanga. É um belo de um sobressalto que – por mim falo – quando finalmente passa faz dar ainda mais valor à tranquila certeza da proximidade de Deus que nos dá a fé.

      Mas se este é o caminho seguro que muitos seguem, não creio que seja o único: existem outros e bons percursos, porventura menos lineares, mas nem por isso menos bem direccionados.

      Gostei, comme toujours, que tivesse gostado, e mais ainda do comentário escorreitinho :)

  4. Luciana diz:

    Joana, seus textos são sempre, aos meus olhos, comoventes, porque tão autenticamente seus, tão verdadeiramente você (e eu sei que as palavras sempre revelam, até quando escondem, mas as suas são de uma beleza translúcida). São, também e quase sempre, textos convocatórios. Eles raramente me deixam em passiva admiração, eles chamam para a conversa. Uma conversa boa, entre xícaras de café (ou chá). E é por assim sentir que vou lhe contar da minha fé e do meu milagre preferido. Eu não tenho nenhum interesse metafísico e, francamente, nenhuma expectativa pós qualquer coisa. Mas os anos de Teologia da Libertação tinham que marcar de alguma forma e ficaram na forma de reinvenção: o milagre da multiplicação dos pães e peixes. Tornou-se belo pra mim quando o ouvi assim: Lu, ninguém sai de casa para grandes viagens ou para passar tempo fora sem levar algo, por simples que seja — um pedaço de queijo, um pão, um pouco de dinheiro, o que for próprio à classe e hábito. Pois bem, também naquele tempo. E não há concetrações que não atraiam, também, pequenos comerciantes. Então, estavam todos lá, cada um com sua comida, por pouca que fosse. Mas o homem tem seus egoísmos e receios: de ser roubado, de ser “mangado”…cada um encastelado em seu mundo, preferindo a fome à exposição. Até que há o exemplo e a exortação à partilha. Daí, numa espécie de piquenique, cada um repartindo o que havia levado, a comida rendeu (e quantas vezes eu já vi isso nas minhas próprias viagens e piqueniques).E aí o meu milagre, o que me dá certezas e põe calor no peito, vem não da multiplicação material de peixes e pães, o milagre é o da partilha, da entrega ao Outro, da confiança, da reciprocidade. Como na canção tão bonita de Gonzaguinha: http://www.youtube.com/watch?v=IHpuJ0ulvkM

    PS. Não sei se ficou claro, é mais fácil contar que escrever estas histórias. Quem sabe um dia, com café/chá de verdade…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Querida Luciana, esse seu comentário deixou-me, como sempre, encantada e bastante sem jeito diante da sua transbordante gentileza.

      Concordo em absoluto com o que diz e tão belamente ilustra, através da sua narrativa, acerca da partilha e da entrega ao outro. A verdade, porém, é que, cusca impenitente que sou, que o que me aguçou a curiosidade para a tal boa conversa, com chá, café ou outra bebida que venha a propósito, foi a sua alusão, bem no meio do texto e logo depois de se asumir totalmente desligada destas coisas da religião … aos seus anos de Teologia da Libertação e à marca que eles lhe terão deixado?!? How interesting

      • Luciana diz:

        Tratemos, tratemos..deixo nomes aqui de isca: Pastoral da Juventude do Meio Popular, Comunidades Eclesiais de Base, Coordenação de Crisma, representante da PJMP junto à Regional II, palestrante no EJC…tenho bagagem e, por vezes, pesa (mas é útil, é útil).

  5. Fernando Vale diz:

    Joana, a perspectiva de Vida que apresenta é em si fonte de serenidade e harmonia. Essa Paz interior traz-me à lembrança uma mulher já velhinha, de cabelos de prata e de uma beleza invulgar que há alguns anos vi numa Igreja; tudo o que fizera na vida tinha sido decerto bem feito, estava pronta para Deus.
    Sendo certo que se Cristo voltasse a nós seria de novo condenado à morte pelos Caifás e Pilatos que por aqui, por ali e além mal escondem a sua condição de Arautos da Nova Ordem, sim, o seu “aqui e agora” deve ser o caminho.
    Como diz, bem, “é uma proposta ousada e exigente”, daí João Paulo II ter exortado na sua primeira litúrgia dominical como Papa : “non abbiati paura”.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fernando, é mesmo de serenidade e de harmonia que é feita a minha experiência de crente. Sem grandes sobressaltos e sem rupturas com este nosso mundo onde, no matter what, continuo a achar que se pode viver muito bem — tanto mais quanto mais fizermos por isso, crentes ou não crentes, nisso residindo boa parte da ousadia da proposta. Oxalá nos não nos faltem a vontade e o ânimo.

      A encantadora mulher de idade que refere surgiu-me como o vivo retrato da minha Avó e madrinha, que ao longo de uma vida de quase um século soube viver em pleno este “aqui e agora”, tão intensamente imersa em tudo o que era deste mundo quanto próxima de Deus e dos muitos, entre filhas, pais e irmãos, que para junto dele foi vendo partir.

      Gostei muito de saber que gostou e da forma sentida como mo transmitiu.

  6. Teresa Teixeira Motta diz:

    O que eu gostei deste seu lindo post!!!
    Gosto do modo como o título inevitavelmente nos interpela — naquela que é, pode ou deve ser uma interpelação constante de crentes e não crentes. Gostei também muitíssimo da perspectiva — tão sua! — que nos dá das bem-aventuranças e do modo como estas são projecto de felicidade. Guiam a nossa vida para uma felicidade maior (plena, mesmo!) que, sendo também crente, acredito que virá mais tarde, sem esquecer, porém, que, antes disso — aqui e agora (dia-a-dia) -, devemos procurá-la.

    O Sermão da Montanha é das passagens do Evangelho de que mais gosto. Agrada-me sobretudo a exortação à simplicidade e à verdade — porque no fundo, e a meu ver, todas as nove bem-aventuranças conduzem à verdade (essencial para atingir a felicidade em cada momento).
    Sem querer alongar-me demasiado, direi apenas ainda que me parece importante que as bem-aventuranças sejam a cada dia recordadas e que guiem a vida de cada um, pois se, num Mundo cada vez mais rápido em tudo — em que os dias passam a correr, as pessoas mal se vêem e a pressa é elemento constante do espírito de cada um -, não tivermos em conta a nossa ligação ao próximo e a alegria e privilégio que é poder partilhar (dar e receber), então a felicidade será difícil de alcançar…

    Muito obrigada pelo lindo texto! Gostei imenso!

    • Joana Vasconcelos diz:

      O Sermão da Montanha é um texto belíssimo, que por mais que se revisite, não deixa nunca de nos tocar. Mas é sobretudo um texto extraordinário, por todos os motivos que tão bem refere, Teresinha: o apelar a crentes e a não crentes, o apontar a simplicidade e a autenticidade como vias para atingir a felicidade, o revelar que esta a todos é oferecida, na vida de todos os dias, e por todos é alcançável, com esforço e empenho, é certo, mas com resultados imediatos e visíveis, em cada um e na parte do mundo que lhe cabe transformar.

      Também eu agradeço o lindo comentário, de que muito gostei!!!

  7. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Querida Joana: como concordo com tudo, tenho que discordar quando diz que não concordamos. :)
    Apesar de visões pessoais e, por isso, diferentes, julgo que as nossas perspectivas são muito semelhantes. Quando diz que eu digo que as bem-aventuranças nos põem a caminho para uma felicidade futura, quero esclarecer que digo futura como etimologicamente se diz futura, quer dizer, aquilo que há-de ser: mas que há-de ser aqui e agora, que se mostra já no presente. Por isso digo no meu texto futura, ou melhor, perfeita. De resto, dizemos o mesmo, embora você diga melhor. :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Querido Gonçalo, de facto não divergimos assim tanto.

      A não ser num ponto crucial: aquela-parte-do-qual-de-nós-diz-melhor-o-mesmo-que-ambos-dizemos. Porque é o seu texto, não o meu, que de tão bela e arrebatadamente elevado, nos transporta mais longe e mais alto. :)

  8. Redonda diz:

    “Tens em ti, um pedacinho de Deus”…
    Que forma tão simples e tocante de viver a vida que Deus nos propõe.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Redonda, acho que este é o primeiro comentário cantado que aqui recebo! E o que me encanta esta música, que aprendi com as minhas filhas!

      Fico feliz por saber que gostou!

  9. JP Guimarães diz:

    Cara Doutora Joana,
    Gostei muito deste seu texto. E gostei especialmente porque, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista — e curiosamente — me recordou que para ser “bom”(absolutamente latu sensu) não é preciso ter fé. Com efeito, se a prática de determinada vida e actos pode ter por base ensinamentos que decorrem da imersão em determinada religião, não é menos verdade que a mesma vida pode ser orientada — e os mesmos actos praticados — apenas porque neles se identifica uma forma mais humana de viver. E o que é uma forma mais humana de viver? Lembrei-me a propósito de uma possível resposta nas palavras do cineasta Manoel de Oliveira (que não sei se é ou não crente): “rejeito todas as acções que sejam prejudicais ao Homem”. Não é preciso mais. O mesmo pensamento, penso, está em si quando diz que se prefere centrar no aqui e agora.
    Gostei muito também porque me recordou que é possível, todos os dias, recomeçar e fazer melhor. Cada dia abre a porta à possibilidade de um novo olhar sobre o mundo e sobre os outros. É uma visão de esperança. E esta ideia está para mim bem expressa numa frase de Rabindranath Tagore na qual refere (qualquer coisa como) que o nascimento de uma criança (de todas as crianças) representa a garantia de que Deus não perdeu a fé (no futuro) da raça humana (no Homem, em suma). Também esta é uma visão de esperança e optimismo. E, vá lá saber-se porquê, sempre que leio ou me lembro desta frase fico a pensar que todas as crianças se poderiam chamar Boaventura trazendo no nome, desde logo, essa mesma visão de felicidade e optimismo (diria que na proporção inversa das que se chamam Tristão).
    JP Guimarães

    • Joana Vasconcelos diz:

      Caro JP,
      Também eu gostei muito de saber que gostou e, sobretudo, do seu comentário, que com sense and sensibility aprofunda e completa o que neste meu texto procurei transmitir.

      Nasci numa família com tantos crentes como não crentes – sendo que de um dos lados os crentes eram (são ainda) excepção e do outro justamente o contrário. E desde sempre me foi muito claro que nem a fé torna as pessoas melhores, nem a falta dela as diminui, pois o que verdadeiramente releva é o modo como se vive. A prová-lo, os meus avós, tios e primos, tão distantes em matéria religiosa e tão próximos nessa “forma mais humana de viver” que de forma tão bela refere e concretiza.

      E é isso que muito me agrada no Sermão da Montanha, que a todos iguala na proposta que faz e na possibilidade que oferece de crescer na bondade e, por tal via, na felicidade. E também, claro, o muito que nele perpassa de optimismo e de esperança — no homem comum e nas suas capacidades (normais e, afinal, extraordinárias) e no futuro que começa em cada novo dia. Nestes assuntos da bondade, como em tudo o mais na vida, vivo na mais firme e feroz convicção de que nunca nada está perdido, de que sempre se pode (re)começar, (re)construir, tentar de novo e, naturalmente, conseguir: fazer melhor, fazer bem ou simplesmente fazer…

      Gostei muito da citação de Rabindranath Tagore, que não conhecia. Lembrei-me do que, de forma bem mais terra-a-terra, mas não menos terna e positiva, dizem os espanhóis: los niños llegan siempre con um pan debajo del brazo. E achei deveras divertida a sua ideia de povoar este mundo de pequenos Boaventuras – dele banindo os bisonhos Tristões e, de caminho, também as sofredoras Marias das Dores, da Soledade, da Cruz e afins (felizmente, acho, a cair em desuso). Estas, mandasse eu, seriam todas recicladas em Marias da Alegria, nome muito lá das minhas paragens beirãs, por via de uma padroeira (num honroso ex aequo e pelos mesmos motivos, com Maria dos Remédios, que em criança me fazia a maior das confusões …).

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