Dia do namorado

Carnaval — Lorenzo Mattotti 2005

Durante semanas acariciou-lhe os lábios com escarlate. O bico dos seios com púrpura. A menina dos olhos com azul celeste. Agora amava-a. Sabia-o com toda a força e certeza. Sempre tinha gostado de mulheres grandes e cheias. Achava que aquilo de que se gosta se deve ter tanto de. E aquela era sua. Só sua. Nesse dia levou-lhe flores. Um gigantesco maço de girassóis. Mas ela tinha-se ido embora. Fugida com o circo que deixara a cidade. Para o outro lado do mundo tinha ido, a desgraçada. Nesse dia partiu-se-lhe o coração. Nessa noite, jurou que nunca mais.

No dia seguinte comprou fio de ferro e cartão e cola, e trouxe de novo as suas tintas.

Percebera que tinha cometido um erro de escala. Precisava de fazer uma ainda maior.

Comentários a “Dia do namorado” (9)

  1. Luciana diz:

    Gostei muito, Vasco. Posso propor a trilha sonora? http://www.youtube.com/watch?v=0UGPWl0GyBo&feature=player_embedded

    E como uma coisa leva a outra, lembrei-me do meu coração doído pelo samba mais triste, (e, espero, mais valente) no Sambódromo este ano devido ao incêndio na Cidade do Samba.

    • Vasco Grilo diz:

      Obrigado Luciana. Era mesmo uma mentirosa essa cabrocha que o nosso pobre amigo tanto amou…

      Obrigado também por me dar a conhecer o Zeca mas mais ainda o Benito di Paula e o seu “samba jóia” dos anos 70!

  2. Gostei imenso. Palavras imersas em cores tornam-se tão facilmente sinfonias de emoções.

    • Vasco Grilo diz:

      Um seu criado, Rita…:)

      PS: Tenho-me esquecido de lhe dizer que gosto muito do seu walter e do seu ego.

      • i blush
        WE blush

        o Walter é fã deste cemitério. vem aprender montes de coisas e depois obriga-me a estudar os assuntos para lhe explicar o que ele não percebe.
        eu às vezes também fico às ‘aranhas’ mas nessa altura ele põe-me a mão no ombro e diz-me …
        – don’t worry … who cares …

        :-)
        thank u

  3. José Navarro de Andrade diz:

    De como uma punch line faz toda a diferença.

  4. ccf diz:

    Deveria ser de obrigatória leitura para adolescentes.
    Elas não acham que é possível ser-se gorda e grande e ser amada.
    ~CC~

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