Não é frequente, como é de resto salutar, mas concordo com Tudo o que a Eugénia diz no seu belo Cinema, mais abaixo.
O “Madame De” não é sobre o casamento e a infidelidade. O Ophuls não se podia estar a marimbar mais para o casamento. E a infidelidade é para ele uma consequência natural do carrossel dos afectos. Os filmes de Ophuls — como os da restante pandilha de Viena, incluindo Billy Wilder, Edgar G. Ulmer e Robert Siodmak — são atravessados por um profundo pessimismo, o pessimismo que ajudou a tecer as sombras do film noir.
Ophuls, sendo o mais lírico do quarteto — não tem a vertigem da morte de Ulmer, não tem a destemperança de Siodmak, não tem o cinismo de Wilder -, refuta o absoluto do amor, e os seus filmes são acima de tudo sobre a eterna circularidade das relações humanas, essa circularidade mimetizada nos travellings que assaltam os master shots como saltimbancos à procura de uma carruagem. Tudo é elusivo, fugidio, encenado, teatral, embora intenso pelo tempo da chama de uma vela.
Em sete anos, de 1948 a 1955, o alemão de Saarbrucken dirigiu “Letter to an Unknown Woman” (um dos meus filmes de ilha deserta no Pacífico), “La Ronde”, “Le Plaisir”, o “Madame De” e, finalmente, “Lola Montés”.
Sete anos e cinco filmes para viver de boca aberta e olhos embaciados. Que outro artista desta arte provocou tantas emoções em tão pouco tempo?
Como homenagem ao eterno retorno de Ophuls, a valse triste que abre no fim o coração às alegrias terrenas, proponho uma nova secção espiritual – e espírita – do ETGM:
Uma vez por mês, um dia por mês, uma noite por mês, todos veremos o mesmo filme. Cada um no seu sofá, cama, poltrona, maple, vão de escadas, copo de leite, whisky na mão, chá celebratório. Nessa semana, comentaríamos aqui as nossas impressões sobre o que vimos, com a liberdade suprema dos nossos esqueletos, sem sinais vermelhos a interromperem o curso do olhar. Que vos parece?
P.s. : Eugénia, tem razão, o “Cisne Negro” não é sobre bailado, nem sobre o Lago dos Cisnes, nem sobre uma bailarina. É sobre uma impossível, porque impossivelmente tardia, passagem da adolescência à idade adulta. 
P.s. 2: tem outra vez razão quanto ao final de “Hereafter”. Clint Eastwood é o cineasta da verdade emocional. É diferente da maioria porque as suas composições, os seus movimentos de câmara, o modo como os actores se movimentam, tudo é sintetizado de modo harmonioso, traduzindo uma verdade das emoções. Acreditamos no que estamos a ver, submergirmos-nos nessa crença, e somos incapazes de recuar para sair da emoção e entrar no pensamento lógico, percebendo que há alguém entre nós e o que vemos, a filmar.
A cena final de “Hereafter” rompe essa verdade, e essa crença. De repente, o actor Matt Damon e a actriz Cécile de France abraçam-se e beijam-se, os violinos fazem-se ouvir, entra o make-up da câmara lenta, e surge um travelling circular que Max Ophuls abominaria.
Produz-se um efeito, escrevendo-se o romantismo a traço grosso, e a verdade da crença quebra-se em mil pedaços.
Não devia, mas acontece aos melhores.
P.s. 3: Ninguém paga umas férias longas ao Woody e à afilhada?




















Pedro,
1 — Espero que me perdoes mas eu já tinha reservado a Carta para a minha Ilha deserta.
2 — Apoio entusiasticamente essa ideia do filme visto em simultaneo. Pode ser no chão? E pode ser vodka?
3 — Se eu tivesse muita lata dir-te-ia que Clint porque se armou em Shyamalan. E o resultado foi deplorável, do principio ao fim.
À parte de comentário que fiz sobre críticos de cinema, do Francisco d’América: evidentemente que há bons críticos, seja de cinema, pintura, música ou literatura e desporto — por exemplo.
O que está escrito acima prova essa realidade irrefutável.
A cinemateca do ETGM.
O filme do mês.
Count me in!
Discordar é bom, dá-nos olhos multifacetados como os das moscas: é sempre melhor ver também pelos olhar dos outros antes formar a imagem final. O não fica mais depurado e o sim tem mais largueza. Gosto disso. E muito da ideia de irmos todos juntos ao cinema cada um para seu canto. Já nos escolheu o filme de Fevereiro?
(estou de água na boca. tralala)
Fantástica ideia, Pedro.
Alinho, completamente, com Porto e chocolate preto.
Quando começamos?
Eu também alinho! Que ideia magnífica! No sofá e com gelado e/ou whisky, depende do enredo.
Gentis comparsas, brevemente seguirá sugestão para a noite de abertura da primeira Cinemateca virtual e mediúnica dos blogues portugueses.