Bem-Aventurados!?


Ando ultimamente absorto com tanta coisa para fazer que pouco tempo me sobra para ler e pensar. Entre um livro que teimo em acabar de escrever e um doutoramento que tenho que concluir (ora aqui está aquilo a que se chama um eufemismo), a minha vida intelectual anda cansada e posta à prova. No meio de tudo isto, porém, as leituras das missas dos últimos domingos ecoam suavemente dentro de mim. Que belo é aquele capítulo 5 do Evangelho de São Mateus, conhecido pelo nome das bem-aventuranças. Sem querer maçá-los, ou convertê-los, deixem-me partilhar convosco alguns destes ecos do divino.
O capítulo começa assim: «Ao ver a multidão, [Jesus] subiu a um monte e, depois de se ter sentado, aproximaram-se dele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los.» Voltarei daqui a pouco a esta encenação inicial do sermão, que me parece importante para bem compreendê-lo. Para já, no entanto, tentemos imaginar como realmente tudo se terá passado.
Jesus tinha começado a pregar há pouco tempo. Acabara de escolher e de reunir à sua volta alguns discípulos. Nesta ocasião, provavelmente, ter-lhes-á perguntado: Quem pensam vocês que são, entre os homens, os felizes? Quem sãos os bem-aventurados? Como qualquer aluno, os futuros apóstolos quiseram impressionar o seu professor e, atropelando-se uns aos outros, foram respondendo o que julgavam saber:
Mestre – disseram –, bem-aventurados são os cultos, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados são os que riem, porque estão satisfeitos; bem-aventurados são os ricos, porque possuem muitos bens; bem-aventurados são os poderosos, porque conseguem para si a justiça; bem-aventurados são os que presidem aos cultos, porque estão mais perto de Deus; bem-aventurados são os heróis e os famosos, porque participam das delícias desta vida; etc.
Ora, todos nós sabemos, como eles sabiam então, que tudo isto era e é verdade. Jesus, porém, respondeu-lhes, professando algo com que certamente não contavam: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa justiça, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa nos céus…»
É possível imaginar aquilo que alguns – se não todos – dos apóstolos então pensaram. O mínimo que se poderá dizer é que não era desta felicidade que julgavam andar à procura quando decidiram ir atrás deste homem. O que o seu mestre lhes propunha, com efeito, logo numa das suas primeiríssimas lições, era serem pobres em espírito, sofredores, mansos, ou melhor, tansos, crédulos numa justiça igual para todos, misericordiosos, generosos, puros, altruístas, pacíficos, abnegados, perseguidos, insultados, caluniados, maltratados, etc. E quando assim for – concluía o Nazareno – alegrai-vos, pois será grande a vossa recompensa.
Qualquer observador imparcial que, por acaso, ali passasse, pensaria, com razão, que aquela primeira aula seria provavelmente a última e que aquele homem, com aquela doutrina, não haveria de ter muitos seguidores. E, no entanto, os discípulos permaneceram fiéis e os seguidores foram crescendo cada vez. O segredo, penso eu, está na mudança do tempo verbal (trata-se, é bom lembrá-lo, de um verbo que se fez carne), que nos transporta de uma felicidade presente para uma felicidade futura, ou melhor: de uma felicidade parcial e incompleta, para uma felicidade total e perfeita.
É nesta mudança do tempo que, quanto a mim, se joga a medida da fé. Bem-aventurados os que reconhecem as suas falhas e limitações, pois nesse reconhecimento lhes é dado o horizonte da sua esperança. Quem se reconhece triste põe-se perante o desejo da alegria. Quem se reconhece imperfeito põe-se perante o desejo da perfeição. Entre o agora da tristeza e o depois da alegria está um caminho, que, embora surgindo como impossível, nos é dado para que o percorramos. E o princípio de qualquer caminho é acreditar que ele é possível.
É esse sentido de perfeição concretamente emprestado á vida pelo despojamento que dá acesso à fé que faz dos homens o sal da terra. Esse sentido que saborosamente experimentamos, no entanto, não é invenção nossa. Se o sal se corromper, não mais o saberemos salgar. Se a luz em nós se extinguir, já não conseguiremos iluminar. Por isso Jesus subiu a um monte, onde se estabeleceu (se sentou) como exemplo para a multidão que o olhava, cá de baixo, convidando-os a olhar, a ver, a desejar, a querer… e a caminhar.
Jesus não era um revolucionário, não vinha para mudar os sistemas do mundo e as suas leis. Respeitando a lei e o mundo, Jesus veio chamar os homens para o alto, lembrando que de nada vale cumprir exteriormente as regras e os preceitos se interiormente não estivermos em verdadeira paz. Não nos interessa o que de nós vêem os olhos dos outros, pois que eles não nos vêem a alma. Só nós sabemos se é ou não verdade o que os nossos gestos dão a ver. O nosso olhar, portanto, deve sentar-se bem alto, naquele monte que Jesus nos dá a imaginar, e a partir dele dirigir a nossa vida, dando sabor e sentido ao mundo.
Ao começarmos os nossos caminhos, porém, parecer-nos-á quase sempre impossível responder à violência com amor. Mas é aí que intervém a fé – continuamos. Choramos, pedimos, acreditamos. E aquela pequenina e inspirada palavra, que era tudo o que nós tínhamos, ao começar, vai-se tornando misteriosamente poderosa. Abre caminhos, onde parecia não haver lugar. Inspira outros, que se metem também a caminho. É-nos devolvida, quando queremos desistir. Ultrapassa-nos, quando erramos. Continua, quando paramos.
Os poderosos deste mundo têm força para se nos impor durante toda uma vida e às vezes até durante duas ou três. Depois são esquecidos e transformam-se indiferentemente em pó. Aqueles, porém, que se despojaram de tudo o que tinham e se entregaram inteiramente ao mundo, ao qual deram sabor e sentido, continuam a motivar-nos e a inspirar-nos e a transformar-nos passados mais de mil e de dois mil e de três mil anos. Dir-me-ão: sim, mas o melhor é que esses dois poderes se encontrem e que essas duas felicidades se conjuguem. Estarei de acordo. Até lá, porém, elevemos o nosso olhar para o alto e, a partir de aí, «sejamos perfeitos, como é perfeito o nosso pai celeste.»

Comentários a “Bem-Aventurados!?” (8)

  1. Bonina diz:

    Fantástico! E há lá melhor mote para começar a semana? Sejamos perfeitos, pondo o melhor de nós — pondo tudo de nós — em cada coisa que fazemos. Deixando marcas por onde passamos, fazendo diferença na vida dos que se cruzam connosco, fazendo essa diferença, nem que seja, por sermos generosos num sorriso, genuínos num bom dia.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Exactamente Bonina. Conseguiu dizer em quatro linhas o que tive de dizer em muitas mais. Obrigado :)

  3. Turmalina diz:

    Só hoje pude ler seu texto e achei-o cativante. Não tenho lá muito afinidade com os templos e com aqueles que dizem falar em nome de Deus.
    O que tenho como fé me foi passado por avós e pessoas que eu respeitava e respeito muito.Li a Bíblia, sozinha, e algumas vezes por curiosidade.
    E o que encontrei de mais verdadeiro é que se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, não é preciso buscar lá fora a perfeição porque ela já está em nós.E independentemente do que dizem eu considero virtudes o despojamento, o altruísmo e a generosidade. E não porque alguém escreveu ou outro alguém pregou, mas sim porque tive exemplos assim e acredito que assim deva ser.
    Obrigada!

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Eu é que agradeço Turmalina. E juntando a este seu comentario o outro que deixou no post do Manuel, parece-me que acreditamos todos na mesma “coisa”. :)

  5. Panurgo diz:

    “Para já, no entanto, tentemos imaginar como realmente tudo se terá passado.”

    Fiquei aqui. A minha pergunta é: hã?

    Tinha a ideia de que o Evangelho não era uma espécie de Diário de Notícias, mas tudo bem.

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Caro Panurgo, podia bem ter continuado.É que o evangelho é justamente um relato de boas notícias. :)

  7. Panurgo diz:

    Não concordo muito com a definição… mas essa foi muito bem metida :)

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