A maior felicidade do homem é a de parecer feliz e de logo morrer…


Nos últimos posts muito se falou aqui sobre aquilo que é o homem (homem e mulher, bem entendido), tendo todos, de algum modo, concordado que ele é um ser à procura e a caminho. Apesar do acordo geral, sendo este um assunto difícil, enredado em tradições e contradições que tantas vezes o obscurecem, lembrei-me de aqui trazer um especialista: Sófocles, que porventura como nenhum outro deu conta da tragicidade própria da existência humana.
Ouçamo-lo no Rei Édipo, onde a progressiva descoberta da identidade de Édipo, centro de toda a acção, vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Ora, o terrível crime de Édipo, que o desenrolar da acção irá mostrar, foi justamente o de ter querido, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim pudesse escapar à tragicidade própria da sua existência: ter querido, portanto, ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer… em ambos os casos, ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O ser humano, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (…) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio logos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego, símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Com efeito, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, própria do ser, tal como vinha expressa na Grécia já desde os poemas homéricos, que se constituem como uma fabulação pela qual se mostra a acção do povo grego que, por causa de um crime, ou traição, se encontra e reúne, face a um inimigo comum, esforçando-se por, finda a guerra, regressar à sua perdida casa. Édipo, com efeito, é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo logos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, no entanto, o homem tem de escolher: ser livre, é esse o seu destino.

Comentários a “A maior felicidade do homem é a de parecer feliz e de logo morrer…” (5)

  1. Como eu gostei do seu texto, Gonçalo!

    Nos poemas homéricos e depois no “Agamémnon” de Ésquilo, a expedição a Tróia pode ser vista como o braço armado de Zeus, pela ofensa à leis da hospitalidade e consequentemente a Zeus Hospitaleiro perpetrada por Páris. Na tragédia sofocliana o Homem está abandonado, pelos deuses nunca visíveis mas sempre presentes, à sua intrínseca tragicidade: a de ser Homem e elo de uma cadeia de crimes/culpas/expiações que o condenam a um destino que, e apesar da apropriação fortificante do logos, intenta a difícil reordenação de um mundo em desarmonia. Antígona (anti-gonê –a que nasce contra a natureza), a filha das “vergonhosas núpcias” continuará sem sucesso a necessidade de restituir ao mundo o lugar das coisas. Os Labdácidas, quem diria, descendem de Cadmo e Harmonia. Creio que é a essa matriz que intentam retornar. E “maravilhosa coisa é o Homem”, diz Sófocles no coro da Antígona.

    (Sorry, isto saiu demasiado longo!)

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Olá Ivone e obrigado pelo seu comentário, que, ao contrário do que diz, saiu é demasiado curto. :)
    Sabe, se eu tivesse que escolher um só poeta, um só escritor, julgo que pouco hesitaria em escolher Sófocles, mesmo lido em português e vinte e cinco séculos depois.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Digo, repito, digo, o muito que se aprende por aqui (andei muito fugido aos clássicos, com breves excepções…).
    Grande texto e excelente comentário

  4. Turmalina diz:

    Foi muito o que aprendi por aqui hoje do princípio ao fim.

  5. Panurgo diz:

    E muitas vezes tenho pensado que o enigma da esfinge estava no seu suicídio e não no seu canto.

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