
Perdoem-me a presunção. Mas tive a mais feliz de todas as infâncias que se querem felizes.
O meu Mundo, babilónico, amazónico, labirintico de felicidade, era um Infinito bem no centro de Lisboa. De um lado ressonava esse universo tropical e sombrio, inexplorável de tão verde, que era o Jardim Botânico da Escola Politécnica que veio a ser, por artes da República, Faculdade de Ciências. Araucárias, chorões, cedros, cicadácias, um observatório astronómico de onde podia imaginar-se o Tudo. Que de resto era também, mais coisa menos coisa, o tamanho da rua das palmeiras que pintou o jardineiro Daveau. Do outro lado da minha galáxia, mesmo em frente à casa assombrada e assombrosa que foi o útero abobadado onde cresci, espraiava-se, majestático, o Jardim do Princípe Real. O jardim e o famoso “cupressus Lusitanea Miller” que é cipreste e não cedro, e que é a sombra mais sombra de todas as sombras da Europa. Era esse, aliás, o mais Mundo dos meus Mundos. Explorei-o, de fio a pavio, do lago oitavado à casa do jardineiro que se fez casa de chá, do quiosque perdido à esquina aos bancos de sueca, dias sem fim, de uma alegria pegada e pegajosa, protegido no colo protector da minha mãe ou sob o olhar à prova de todos os monstros que era o olhar de menina doce dessa terrena Maria que também me foi Mãe. Mais à frente, logo ao virar da esquina, ficava o limite do mundo que cartografei. A seguir ao Miradouro de São Pedro de Alcântara era a Terra que mergulhava no Nada. Comprávamos um cartucho pardo de milho, a minha mão minúscula na mão sempre quente do meu pai, os pombos faziam as vezes de anjos e eu, que me tornava senhor deles, ficava simultaneamente no fim e no centro de um Mundo que, no tempo doce que era o tempo de então, girava serenamente à minha procura.
O Deus deste meu firmamento, o Júpiter deste meu Olimpo, falta dizê-lo, fazia as vezes de meu avô e já vos contei que não sei de ninguém que mentisse tão fabulosa e tão extravagantemente. Caçávamos todos os elefantes de África, todos os leões, rinocerontes e palancas negras gigantes que assombravam as Terras do Fim do Mundo. Atravessávamos todos os rios, nadámos todos os desertos, guiámos todos os vapores, enfrentámos todos os pavores. Ensinou-me os mistérios do chocolate suiço e os daquele armário envernizado, delirante de gavetas e fundos falsos. Sonhou-me com Paris, com a Roça D. Augusta, apresentou-me o Xá da Pérsia e fez-me, por correspondência, amigo do seu avô que também tinha sido o seu particularíssimo Deus. Mas o que é mais de tudo, amava-me tão completa e tão incondicionalmente que fazia da minha vida um lugar seguro. E do futuro um destino luminoso de tão risonho.
Tive, repito, a mais doce de todas infâncias. Só eu sei porque morreu. Mas um dia destes talvez vos confesse o dia, a hora e o número da frisa no cinema Tivoli onde a vi pela última vez.

















Ó Pedro, trazer este morto para o cemitério vai pôr Tudo em alvoroço. Vamos deixá-lo correr entre as campas, dar-lhe brinquedos e obrigá-lo a lanchar que está a crescer e precisa de se alimentar. Mas já ninguém vai dormir a sesta: a vontade que cada um de nós já tem de lhe ouvir as histórias e “ah, o meu Avô disse” e dar milho aos pombos e “é o meu Pai que está a chamar”.
Sentidíssimo texto, vai ter o infante de escrever muito mais antes de o autorizarmos a ir sozinho ao cinema.
Aliás, Manuel, o infante nunca foi sozinho ao cinema. E mesmo de pois de crescido devem contar-se pelos dedos de uma mão..
Que evocação tão doce, Pedro! E o que gostei da viagem a essa infância encantada e feliz. Obrigada por nos levar lá. Como diz o Manel, fica aqui bem guardada, a brincar neste mundo quase tão onírico, assombroso e assombrado como o que viveu. É uma alegria acolher a sua criança…temos histórias para lhe contar, espero que ela goste e se sinta em casa.
Obrigado “tia” Marta!
Gostei muitíssimo. Dos jardins, o dormente e o acordado, do pequeno comandante em chefe das hostes celestes disfarçadas de pombos. De saber que há muito mais por escrever — que bom. E de Júpiter.
Bonito texto para passear: também ele jardim.
E que bonito comentário! Nunca me teria ocorrido dizer de um texto que ele é bonito para passear. Obrigado.
Pedro,
Lembro-me muito bem do teu Avô. Consigo, ainda hoje, vê-lo com absoluta nitidez — como se estivesse ao meu lado, agora mesmo. E lembro-me também de muitas dessas histórias ainda que contadas nos degraus da piscina de S. João do Estoril (nos intervalos das arremetidas furiosas do famoso “Miqué”).
Um abraço
JP
JP,
E é desses lembrares partilhados, dessas memórias que são só uma, que se fazem as belas amizades.
Grande abraço.
Que maravilha Pedro.
Este seu texto em que tudo é luminoso e doce e quente — da certeza da mais feliz das infâncias à mão pequenina (sempre) na mão grande, do esvoaçar dos pombos-anjos ao fascínio por tão imenso e extraordinário avô.
E a certeza que fica, ao lê-lo, de que uma infância assim nunca morre nem nunca é passado, só presente e futuro, tão forte e felizmente nos molda, nos marca, nos explica e nos preenche.
Imenso e extraordinário. Era mesmo isso que ele era. Gostava que o tivesse conhecido. Ia fartar-se de divertir-se.
Que bom ler este texto-os seus lugares são os lugares que todos lembramos quando crescemos, mesmo que tenham outros nomes e outras geografias. Diz-se que é mais dificil sobreviver a uma infância feliz do que a uma infeliz. Percebo, mas não concordo. Quem teve estas certezas e este calor leva-os pela vida fora, parece-me.
Teresa, concordo em absoluto consigo. Penso, devo confessá-lo, com alguma melancolia nesses tempos em que tudo era luminosamente feliz. Mas tenho consciência do privilégio que foi vivê-los.
Bem, suponho que se segue o número da frisa — ou estou enganado?
É que se estou é uma pena, apetecia ler já.
Isso é que era bom, caro António. Um homem dá a mão e o meu amigo vem logo reclamar o braço! Deixe lá a frisa porque as infâncias morrem todas de maneira demasiado ridicula para ser contada.
Abraço.
Uma infância que desconheço tão absolutamente e, no entanto, em calor e certezas, pareceu-me a minha. Sentir amor, dado e recebido, faz de qualquer época da vida, a mais feliz das. Mas, na infância, parece-me, dá um lustro extra. Grata por lembrar-me. Fui logo tratar de ligar aos meus pais e dizer um sonoro: eu amo e sonhar com meus avós.
Que optimo, Luciana. Fico feliz. Mas com um pouco de inveja: quem me dera poder decidir o que vou sonhar logo à noite!
Pedro, para além de ter gostado do texto, tanto como todos os que acima já o disseram, queria dizer-te duas coisas A primeira é que não acredito que a tua infância esteja morta e enterrada. Julguei-o há um tempo da minha e ando agora a reencontrá-la. A segunda é que a tua infância não teria sido assim possível se na altura já existisse o PDM, o que, mal ou bem, nos deve fazer pensar. :)
Tens toda a razão em relação ao PDM. Quanto ao retorno da minha fantasmagórica infância, também não posso negá-lo. Volta e meia, aparece.
Nunca mais aparece o texto sobre o Tivoli…
Olha-me outro! Mas neste blog os mais curiosos são os homens?
Pedro, que memorias tão bonitas! bjs com saudades
Lindo!
Que maravilha Pedro! quanto ao meu querido tio manel é esse mesmo, tal qual assim que recordo, e que vive um pouco em todas as nossas infancias!
Bem… que sorte a de quem receba cartas do Pedro Norton… :)
Pedro,
Quando entramos em choque por uma tragédia profunda que nos aconteceu, sem nos apercebermos como, atrasamo-nos na vida. Foi o que me aconteceu no tempo de leitura do teu artigo A infância. Não posso deixar passar, embora atrasada, esta oportunidade de também lembrar o teu avo, como grande amigo que fui dele, pois tive a felicidade de o conhecer tão bem.
Poder escrever sobre o teu avo é retroceder a uma vida que foi de tão bons momentos.
Era muito simpático, leal, bondoso, humilde, justo, sério, honrado, inteligente, sensato e extraordinariamente amigo de toda a família particularmente um marido, um pai e um avô fantástico, em quem, em toda a sua vida se concentrou. Tive a oportunidade de por muitas vezes ter participado em assuntos da família com ele, alguns complicados, e aí, para meu espanto, além das qualidades que evidenciei, apareceu me um Tio Manel, que estava fora das empresas desde o 25/4,com uma imaginação, lucidez e actualização à vida empresarial, mais concreta e realista, que a de muitos que acompanhavam as suas empresas no dia-a-dia, ou seja, de uma perspicácia invulgar, apresentando soluções e não criando problemas.
Ele que já tinha um grande orgulho em ti, se cá estivesse, a pessoa feliz que já era, torná-lo-ia ainda muito mais e seria aquilo que nunca foi, vaidoso.
Tive por ele uma grande amizade, o seu desaparecimento foi para todos uma grande perda e um grande desgosto. Nunca me esquecerei, na noite da sua morte no Hospital da Cruz Vermelha, o Zé Miguel passou por mim, deu me uma palmada nas costas e disse me: perdeste um grande amigo. E assim foi. Hoje passados 16 anos e uns meses , sinto-o no fundo do coração. Que bom é recordá-lo.
Resta nos fazer, na medida do possível, que os seus ideais sejam continuados, em toda a linha.
Um grande abraço com muita admiração do
AFA
Caro Migas,
O meu avô guarda agora, no jardim das nossas memórias, o Lourenço e o Tiago.
grande abraço,
Pedro