Arquivo | Fevereiro de 2011


E se fosse aqui? E se fosse agora?

O Gonçalo e o Manuel foram partilhando connosco, ao longo da semana que passou, as suas reflexões muito pessoais e muito sentidas sobre aquela que é uma das mais belas passagens do Evangelho e uma das que mais fortemente me interpela – o Sermão da Montanha, na versão de Mateus (5, 1–12). Revi-me, impossível não o fazer, em todos os textos que um e outro publicaram. Com o Gonçalo partilho essa dimensão incontornável da esperança e da certeza que nos dá a fé, a noção de que estamos a caminho, rumo a uma felicidade futura, com as bem-aventuranças como coordenadas de GPS. Tal como ao Manuel, fascina-me a profunda humanidade deste desafio, tão revolucionário quanto actual, feito por um homem a mulheres e homens que ali tinham ido para o ouvir – gente comum, tão comum como cada um de nós, não especialmente virtuosos, espirituais ou heróicos. Mas a verdade é que a leitura que do Sermão da Montanha há já tempo faço e procuro pôr em prática não coincide exactamente com a que fazem um e outro. Por isso decidi trazê-la aqui, tão explicada e curta quanto consegui, para não causar nos que tiverem a bondade de me ler até ao fim uma desagradável overdose de Bem-Aventuranças.  

Como crente, sei que Deus tem para mim um projecto de felicidade. Sei que me espera um final feliz, eternamente feliz, uma vez fterminada a minha passagem por este mundo e sei também que esta faz já parte desse projecto. Talvez por isso, pouco me inquiete a pensar no que se segue e me centre na vida que me é dado viver aqui e agora, procurando fazê-lo o melhor possível. E é  justamente neste contexto que ganham pleno sentido as Bem-Aventuranças. Como projecto de felicidade terrena e, por via desta, de santidade.

As Bem-Aventuranças são antes de mais um projecto de felicidade – bem-aventurados significa, numa linguagem mais corrente e acessível que aquela a que nos habituaram a tradução e a tradição dos textos bíblicos, felizes. O projecto de uma felicidade quotidiana e acessível. Que nos liberta do que desnecessária e quantas vezes incompreensivelmente nos prende e nos tolhe, que nos centra no essencial, que nos abre e nos liga ao outro, que nos faz autênticos e inteiros.

É neste sentido que se é tanto mais feliz quanto mais se é pobre ou manso, quando mais se chora ou se é perseguido. Em momento algum este texto faz a apologia do sofrimento ou até da busca dele como via de melhoramento, de crescimento ou — o que seria -, de felicidade. Sofrer é sempre mau. Sempre. Pior, às vezes é causa de males maiores: todos temos, com mais ou menos nitidez, a experiência de que a dor que a uns tempera, fortalece e suaviza a outros revolta, azeda e torna mesquinhos (tal como a felicidade a uns faz empáticos e generosos e a outros insensíveis e indiferentes para com os menos afortunados).

É definitivamente diferente, bem mais rico e estimulante o desafio que encerram estas nove exortações, de todos tão bem conhecidas. Que com um coração de pobre vivamos com a simplicidade, a sobriedade e a contenção que nos permitem desfrutar de tudo o que é material, acessório, às vezes supérfluo, sem excessos que nos complicam a vida. Que chorando, sempre que a vida nos dá motivo para tal, sejamos verdadeiros, mostrando-nos frágeis e necessitados, pedindo e aceitando ajuda, confiando e agradecendo, libertando-nos da orgulhosa auto-suficiencia que desvaloriza e dispensa o outro. Que sendo humildes não deixemos que o nosso saber, as nossas certezas e o nosso desejo de impressionar e de brilhar nos impeçam de ouvir, de aprender, de mudar, de dar ao outro razão e valor. Que recusemos a dureza e a insensibilidade de um coração de pedra, que julga e condena e nos torna incapazes de sentir e de sofrer com o outro, de pesar as suas razões e de relativizar, relevar e perdoar. Que por mais que vivamos e vejamos, façamos por manter inteiras a limpidez do olhar e das intenções, a confiança e o optimismo no outro e neste nosso mundo. Que em todos os planos em que actuamos procuremos construir em vez de destruir, aproximar em vez de dividir, acrescentar em vez de diminuir. Poderia continuar mas prometi ser breve. E misericordiosa com o leitor. Adiante, pois.

É uma proposta ousada e exigente, esta. Cristo dirigiu-a à multidão, na qual nos incluímos, e não a um conjunto de eleitos, especialmente vocacionados ou dotados para a perfeição. O Sermão da Montanha é um luminoso apelo a que coloquemos a fasquia mais alta, a que nos transformemos e a este nosso mundo, mas sempre — e é isso que o torna extraordinário -, no horizonte do humanamente possível e atingível, fazendo prevalecer o que o ser humano tem de melhor, para lá das suas limitações e insuficiências. Se o fizermos, ligaremos, na nossa frágil e singela humanidade, a terra e o céu. E atingiremos a santidade, a santidade que está afinal ao alcance de todos. Aqui e agora.

Em viagem

A giesta é o Van Gogh das auto-estradas.

A infância


Perdoem-me a presunção. Mas tive a mais feliz de todas as infâncias que se querem felizes.

O meu Mundo, babilónico, amazónico, labirintico de felicidade, era um Infinito bem no centro de Lisboa. De um lado ressonava esse universo tropical e sombrio, inexplorável de tão verde, que  era o Jardim Botânico da Escola Politécnica que veio a ser, por artes da República, Faculdade de Ciências. Araucárias, chorões, cedros, cicadácias, um observatório astronómico de onde podia imaginar-se o Tudo. Que de resto era também, mais coisa menos coisa, o tamanho da rua das palmeiras que pintou o jardineiro Daveau. Do outro lado da minha galáxia, mesmo em frente à casa assombrada e assombrosa que foi o útero abobadado onde cresci, espraiava-se, majestático, o Jardim do Princípe Real. O jardim e o famoso “cupressus Lusitanea Miller” que é cipreste e não cedro, e que é a sombra mais sombra de todas as sombras da Europa. Era esse, aliás, o mais Mundo dos meus Mundos. Explorei-o, de fio a pavio, do lago oitavado à casa do jardineiro que se fez casa de chá, do quiosque perdido à esquina aos bancos de sueca, dias sem fim, de uma alegria pegada e pegajosa, protegido no colo protector da minha mãe ou sob o olhar à prova de todos os monstros que era o olhar de menina doce dessa terrena Maria que também me foi Mãe. Mais à frente, logo ao virar da esquina, ficava o limite do mundo que cartografei. A seguir ao Miradouro de São Pedro de Alcântara era a Terra que mergulhava no Nada. Comprávamos um cartucho pardo de milho, a minha mão minúscula na mão sempre quente do meu pai, os pombos faziam as vezes de anjos e eu, que me tornava senhor deles, ficava simultaneamente no fim e no centro de um Mundo que, no tempo doce que era o tempo de então, girava serenamente à minha procura.

O Deus deste meu firmamento, o Júpiter deste meu Olimpo, falta dizê-lo, fazia as vezes de meu avô e já vos contei que não sei de ninguém que mentisse tão fabulosa e tão extravagantemente. Caçávamos todos os elefantes de África, todos os leões, rinocerontes e palancas negras gigantes que assombravam as Terras do Fim do Mundo. Atravessávamos todos os rios, nadámos todos os desertos, guiámos todos os vapores, enfrentámos todos os pavores. Ensinou-me os mistérios do chocolate suiço e os daquele armário envernizado, delirante de gavetas e fundos falsos. Sonhou-me com Paris, com a Roça D. Augusta, apresentou-me o Xá da Pérsia e fez-me, por correspondência, amigo do seu avô que também tinha sido o seu particularíssimo Deus. Mas o que é mais de tudo, amava-me tão completa e tão incondicionalmente que fazia da minha vida um lugar seguro. E do futuro um destino luminoso de tão risonho.

Tive, repito, a mais doce de todas infâncias. Só eu sei porque morreu. Mas um dia destes talvez vos confesse o dia, a hora e o número da frisa no cinema Tivoli onde a vi pela última vez.

Deixem-se de partes gagas e riam!

Nota introdutória:

(Iniciei este post metendo a imagem em primeiro lugar, no exacto momento em que o meu filho passava por trás de mim; resultou disso que ele me dissesse: lá estás tu a meter-te com o MSF… À boa maneira sueva devia ter-me virado para trás e corrido o cusca com um pontapé na bunda, dizendo-lhe, por exemplo, que não me chamo Maria… Não, este post não é para me meter com o Manuel — nem que seja porque aguardo oportunidade óptima para fazer isso de forma eficaz e gratificante para ambas as partes. Porque, como dizia alguém que já não me lembro, se algo tem de ser feito então que seja bem feito)

A razão de ser deste post é apenas e só divertir e fazer rir, porque acho esta uma das grandes benesses com que se pode agraciar o próximo.
Tenho ideia que pelo menos uma vez, aqui, consegui alguns bons sorrisos (e, quem sabe, alguns points for score junto do sorridente Deus que a todos observa por de trás das nuvens).
Como a primeira fórmula funcionou razoavelmente bem, voltei ao grande Jiří Kylián, coreógrafo do Nederlands Dans Theater , desta vez no seu projecto CAR MEN.

Espero que gostem.

A maior felicidade do homem é a de parecer feliz e de logo morrer…


Nos últimos posts muito se falou aqui sobre aquilo que é o homem (homem e mulher, bem entendido), tendo todos, de algum modo, concordado que ele é um ser à procura e a caminho. Apesar do acordo geral, sendo este um assunto difícil, enredado em tradições e contradições que tantas vezes o obscurecem, lembrei-me de aqui trazer um especialista: Sófocles, que porventura como nenhum outro deu conta da tragicidade própria da existência humana.
Ouçamo-lo no Rei Édipo, onde a progressiva descoberta da identidade de Édipo, centro de toda a acção, vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Ora, o terrível crime de Édipo, que o desenrolar da acção irá mostrar, foi justamente o de ter querido, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim pudesse escapar à tragicidade própria da sua existência: ter querido, portanto, ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer… em ambos os casos, ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O ser humano, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (…) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio logos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego, símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Com efeito, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, própria do ser, tal como vinha expressa na Grécia já desde os poemas homéricos, que se constituem como uma fabulação pela qual se mostra a acção do povo grego que, por causa de um crime, ou traição, se encontra e reúne, face a um inimigo comum, esforçando-se por, finda a guerra, regressar à sua perdida casa. Édipo, com efeito, é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo logos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, no entanto, o homem tem de escolher: ser livre, é esse o seu destino.

Deixemo-nos de partes gagas!

 


Ansel Adams



Ansel Adams



1 – A moção pode ser contra a direita, a esquerda, o futebol do Sporting, a desflorestação da selva amazónica ou a invasão do país pelos marcianos. Podem existir derrapagem orçamental, medidas estruturais ou falta delas e o que mais se queira sugerir ou inventar. Pode vir o FMI ou o rancho folclórico da baixa Sildávia. A moção pode partir do Bloco, do PCP ou de um repente de um qualquer Paulinho das feiras. Mas será assim tão difícil perceber que é o sonho, perdão, as sondagens que comandam a vida politica? Será assim tão difícil perceber que só das sondagens pode depender o imprescindível apoio do PSD a uma qualquer moção de censura ao governo? Será que é difícil entender que é fundamental que surjam, primeiro, estudos de opinião consistentes sobre uma vitória clara da direita em cenário de antecipação de eleições? Até lá, como diria a minha avó, vamo-nos deixar de partes gagas, está bem?

2 – Alexandre Soares dos Santos chegou, e bem, n’ “o Sócrates”.  Sem paninhos quentes, acusou o Primeiro Ministro de ser especialista em “truques”.  E a coisa, como todas as coisas bizarras, fez-se notícia. Sem tirar qualquer mérito à frontalidade com que o patrão da Jerónimo Martins decidiu afrontar o governo, retiro do episódio uma pequena lição: o tento na língua dos empresários portugueses é inversamente proporcional à percentagem dos lucros gerados no território nacional. No país das maravilhas que é a nossa ensandecida pátria, o ensurdecedor silêncio de todos os demais, que é o que verdadeiramente faz do desabafo uma notícia, é uma demonstração eloquente do grau do seu aprisionamento ao estado.

3 – Perdoem-me se não resisto e se volto ao tema. Mais de 20% dos jovens até aos 24 anos estão desempregados. São quase um em cada quatro. Quase 100.000. Pode gostar-se ou não do fenómeno Deolinda e da geração que representa. Podemos chamar-lhes geração rasca ou, hipótese que me parece apesar de tudo mais justa, geração “à” rasca. Gostos não se discutem. Mas o que me deixa verdadeiramente pasmado é ver esta discussão feita ao contrario. Ver tanta gente inteligente, à esquerda e à direita, entrincheirada de forma maniqueísta em posições ideologicamente trocadas. Eu sei que o mundo está louco mas neste caso, quer parecer-me, o erro é de mero diagnóstico. E é por precipitação que o debate se faz de pés para o ar. Explico melhor: ao contrario do que muitos querem fazer crer, a causa dos jovens desempregados não é a causa dos que, imobilistas e garantistas, querem uma vida feita de facilidades e um emprego para a vida. É a causa de todos quantos querem (ou deviam querer) precisamente o contrario. Porque é obviamente dos nossos empregos para a vida, da insustentabilidade das garantias que fomos abocanhando, da ortodoxia dos nossos sindicatos (que, é bom recordá-lo, são sindicatos de empregados e não de desempregados) que nascem as vidas sem emprego de que muito justamente podem queixar-se os jovens excluídos do actual sistema. Não será inteligente ofender simultaneamente a esquerda e a direita mas parece-me cristalinamente óbvio que “Parva que sou” é um brilhante manifesto liberal.

Publicado na Visão em 24.2.2011

PS: O editorial — por definição inspiradíssimo — do nosso Manuel Hoxha Fonseca é muito claro: a política não mora neste cemitério. Se me atrevo a trazer até aqui este texto é porque recebi ordem — não menos categórica — da nossa Eugénia Luxemburg Vasconcelos. Como não sei por qual dos dois tenho mais respeitinho, optei por obedecer a quem me prometesse que nunca, mas mesmo nunca, nos ia trair com um semanário de referência. Ah pois é…


And the winner is: Nuno Maló

 

Os Prémios de Excelência da Música para Cinema em 2010 foram ontem atribuídos. E o Nuno Maló foi um dos vencedores da noite, ganhando o Prémio de Compositor Revelação do Ano. Ou, como se diz no comunicado da Associação Internacional de Music Film Critics: “Continuing their tradition to highlight lesser known but vital world talents, the Association awards the Breakout Composer of the Year to Portuguese composer Nuno Malo for AMÁLIA.”

Amália, o Filme” estava também nomeado para a Melhor Banda Musical em Drama Film. O vencedor da categoria foi o “Discuso do Rei”, cujo compositor foi também o vencedor do Compositor do Ano.

Um gigantesco abraço ao Nuno Maló. Parabéns, congratulations e parabéns outra vez.

Os descrentes estão em risco

A Cidade Ideal, Bartolomeo di Giovanni Corradini


O diálogo que o estimado Gonçalo e eu protagonizámos é, diga-se, parte do ar do tempo. Um actualizadíssimo ar do tempo, note-se. E deixem-me dizer que às vezes a surpresa – e uma certa brisa – vem donde menos se espera. Nos meios científicos e de história da ciência, há quem considere que o sentimento teológico, ou para sermos simples, a crença em Deus, tem uma função evolucionista absolutamente decisiva. A crença em Deus, acrescentam, é um princípio que permite ao animal humano estabelecer um sentido pessoal e cósmico e conferir ordem e justiça ao mundo, seguindo-se o desejo de imortalidade, num todo harmónico que empresta razão ao mais cacafónico dos incidentes do nosso dia a dia. A crença em Deus é um apetrecho vigoroso, uma enzima que nos dinamiza.


Assumindo a minha ignorância, com promessa de o “estudar” melhor, reduzo o tema  a uma simplicidade de café para dizer que o Gonçalo, com a sua crença, se mostra mais bem apetrechado para garantir a sua sobrevivência, e com ele a da humanidade, do que este animal agnóstico e hesitante que eu sou, enredado num novelo de que não sei como sair. Só agora vejo o animal perigoso que sou.


 Ps – Os ateus não entram nesta história: vão colados aos crentes porque crentes como os crentes são.


A duquesa, o homem sem cabeça e o colar de pérolas

Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos lurid details causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos sixties e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan. 

 Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os affaires que ao longo de vários anos foi tendo. Pior, guardava entre os seus mais prezados recuerdos uma extraordinária colecção de fotos Polaroid. As imagens, captadas na sumptuosa casa de banho art deco do seu apartamento de Mayfair, mostravam-na dressed in nothing but three strands of pearls, performing o que o juiz do divórcio qualificou como disgusting sexual activities num homem de quem pouco mais se vê que o torso. Outras havia de um homem sozinho, engaged em lewd practices, também ele shown from the neck down. Estas últimas fotos exibiam ainda salacious comments, a si dirigidos, manuscritos em jeito de dedicatória.  

Que fique, contudo, bem claro que nada disto, só por si, justifica a minha decisão de trazer Margaret Campbell, the Duchess of Argyll, para este infame recanto do nosso cemitério e de aqui a enterrar.

O motivo principal é outro — bem outro e bem mais prosaico. Pérolas. Um colar de pérolas. Um belíssimo e bem-comportado colar de pérolas de três voltas que, por culpa de Margaret, passou a ser símbolo de decadence and debauchery. Numa verdadeira traição a todas as mulheres – nas quais eu me incluo — que desde que o mundo é mundo gostam muito de pérolas e confiam na sua luminosa e límpida beleza para realçar encantos e para exprimir feminilidade e sedução. 

Ethel Margaret Whigham nasceu em 1912, filha única de um milionário escocês. Viveu e estudou em Nova Iorque, onde o seu pai tinha negócios. De regresso a Londres, e como era costume na época, foi apresentada em sociedade mal completou 18 anos. Foi imediato e duradouro o sucesso: a sua beleza e a sua fortuna fizeram dela a debutante of the year de 1930, a sua elegância e a sua exuberante personalidade tornaram-na figura central da social scene de então. Seguiram-se um sem número de pretendentes e de romances, o noivado, anunciado e logo desfeito, com um aristicrata inglês, o casamento com um jogador de golf americano, o divórcio deste e mais um sem número de pretendentes e de romances. Até que em 1951 casou com Ian Douglas Campbell, the 11th Duke of Argyll.  

Um match made in heaven para Margaret – ela própria o reconheceu mais tarde:  “I had wealth, I had good looks. As a young woman I had been constantly photographed, written about, flattered, admired, included in the Ten Best-Dressed Women in the World list. I had become a duchess and mistress of an historic castle. Life was apparently roses all the way”. Só que Margaret não fora feita para a sombria pacatez das scottish highlands, pelo que depressa rumou a Londres, deixando marido e castelo para trás.

O escândalo rebentou em 1959, quando o Duke of Argyll propôs uma acção de divórcio contra Margaret. Como prova das suas acusações de adultério — concretizadas numa extensa e variada lista de 88 supostos amantes, a qual incluía dois ministros, vários actores de Hollywood e três membros da família real -, o marido queixoso apresentou em tribunal os diários de Margaret e as referidas fotos Polaroid, obtidos numa busca ao seu boudoir, levada a cabo pela sua enteada.   

Foi tremendo o escândalo, explosivas as revelações e acusações de parte a parte e desmedida a curiosidade quanto àquele a quem o juiz se referia no processo como the Man Without a Head e que a imprensa da época crismou também como the Headless Lover. Dos vários candidatos apontados, dois havia que se perfilavam como altamente prováveis: o político Duncan Sandys e o actor Douglas Fairbanks Jr., ambos casados, to make matters worse.

Porque Duncan Sandys, além de genro de Winston Churchill, era então Minister of Defence e porque — poor timing indeed, o de Lord Argyll – o julgamento deste infamous divorce coincidiu com os depoimentos na House of Commons e a subsequente demissão de John Profumo, Secretary of State for the War, que se desgraçara também por sexual indiscretions, foi pedido ao magistrado que conduzira o inquérito a este caso que averiguasse quem era the Man Without a Head. O relatório final da investigação ilibou Duncan Sandys, mas foi em tudo o mais inconclusivo — ou seja, nada adiantou quanto à identidade do Headless Lover, que ficou por desvendar durante décadas.

 Sabe-se hoje que o misterioso Headless Man não era um — mas dois. Justamente os dois de que mais insistentemente se falava: Douglas Fairbanks, “apanhado” à época por um exame grafológico (a sua caligrafia correspondia à das “dedicatórias” apostas nas lewd photos) e Duncan Sandys, subtilmente denunciado mais tarde pela própria Margaret que, pouco antes de morrer, confidenciou a um amigo que “the only Polaroid camera in the country at this time had been lent to the Ministry of Defence.

Quanto a Margaret, nunca houve a menor dúvida. Era ela, só podia ser ela. Porque era sua a casa de banho onde haviam sido tiradas as fotos. E por causa do colar. Que distintamente se via nas sexually explicit images e que era a sua signature jewel, indissociável da sua exquisitely elegant imagem que enchia as society pages e as gossip columns, onde tinha lugar cativo. Nunca saberemos porque não o tirou on that occasion: the reason why is left entirely to our imagination. Igualmente não o fez, continuando a apresentar-se, impeccable and defiant in three strands of pearls, durante as audiências de julgamento do divórcio e mesmo depois de a sentença que lhe pôs termo a ter publicamente exposto como a completely promiscuous woman, one who has ceased to be satisfied with normal sexual activities. Tinha estilo e tinha nerve, quite a nerve, há que reconhecer.

Mas que bem podia ter deixado as pérolas fora disto, podia.  

Sábio, na verdade, é aquele que busca Deus

O meu querido amigo Manuel Fonseca leu este meu post e, enchendo-me de mimos que não mereço, escreveu este outro, a que chamou «bem-aventurados os descrentes.» O objectivo daquele meu post, como anunciei logo ao início, não era converter ninguém, mas partilhar uma experiência inspirada na leitura do capítulo 5 do Evangelho de São Mateus. Fiel a este princípio, não vou aqui discordar das crenças do Manuel, embora, em alguns pontos, não sejam concordes com as minhas. Vou, no entanto, chamar-lhes crenças – e não descrenças – pois que aí já julgo haver razão para discórdia.
Na verdade, só se assumirmos que na origem das nossas acções está, mediata ou imediatamente, um conjunto de crenças num determinado fundamento da ordem é que poderemos pensar e comunicar essas nossas acções e crenças. Esta crença na razão, aliás, é própria do Ocidente, grego e judaico-cristão, e sobre a extraordinária história do seu desenvolvimento já eu e o Manuel uma vez aqui concordámos.
Não me choca, portanto, muito pelo contrário, que o Manuel acredite num homem que vive separado dos deuses, os quais, «calados e preguiçosos do Mundo, [vivem] fechados num condomínio de marfim, amoral e impiedoso.» Julgo aliás, que esta sua crença é consentânea com o que sente, com o que diz, com o que faz e com o que escreve. E todos nós, aqui, sabemos (embora, por dentro, só o Manuel realmente o saiba) o bem que o Manuel sente e diz e faz e escreve.
Nem sequer sei, devo dizê-lo, se este Deus que eu procuro não será exactamente aquele de que faz experiência o Manuel. Fazendo uso de um pouco mais do que os 21 séculos de história a que o Manuel nos cingiu neste seu post, gostaria de dizer que, pela minha parte, a única objectivação a que Deus parece deixar submeter-se é a do seu nome. «Ó Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra», lê-se no Livro dos Salmos (8, 1), muito antes de Jesus ter ensinado que a nossa relação com Deus (que apenas podemos imaginar como nosso pai, isto é, como origem amorosa da qual intimamente brotamos) passa por manter puro e inviolado e santo este seu nome (Mt. 6, 9).
É com este fragilíssimo fio de Ariadne que nós andamos, por este mundo afora, à procura de sentido e de sabor – dizia eu naquele meu primeiro post, a propósito do Sermão da Montanha. Creio, porém, que, no meio dos infinitos desencontros a que esta inobjectivação essencial de Deus se presta, há algo em que quase sempre nos encontramos, ou podemos encontrar: nessa experiência interior de uma procura que nos põe sempre a caminho. Porque sábio, na verdade, é aquele que busca Deus (Sl. 13, 2).

Syd Barrett (1946−2006) – By the way, which one is pink?…

É estranho como me sinto estranho a escrever algo sobre Syd Barrett. Porque estranha foi também a atracção que senti por este personagem quando o conheci formalmente, três ou quatro anos depois de pela primeira vez ter ouvido o som dos Pink Floyd.
Nos idos de Setenta pouco me interessavam os músicos da minha eleição, ou sequer o que lhes ia acontecendo. Lembro-me das mortes de Morrison, Hendrix e Joplin, por exemplo, mas entendia isso como natural casualties duma actividade que continha em si certos riscos: o rock e as drogas estavam associados num pacto cada vez menos secreto, que eu ia conhecendo melhor ou pior, mas o que gostava era de ouvi-lo – enquanto tentava atravessar mais ou menos ileso o fim da adolescência e me preparava (não preparava nada, bem entendido) para entrar na vida adulta pela estranhíssima e ogival porta d’ armas.
Porque foi realmente em Angola que tive um contacto mais permanente com aquela música enigmaticamente brilhante, executada, parecia, por músicos duma outra galáxia. E de certo modo os Pink Floyd eram músicos de outra galáxia.
No entanto os primeiros LP’s que ouvi deles foram alguns dos que já não contavam com a participação de Barrett – que em boa verdade só fora objectivamente activo no primeiro (The Piper at the Gates of Dawn) e em algumas peças avulsas integradas nas colectâneas Relics e Masters of Rock (como Apples and Oranges, Arnold Layne e See Emily Play). Para Angola levei no meu bornal Atom Hearth Mother e o à época absolutamente inquestionável The Dark Side of the Moon.
Realmente só em 1976 ouvi falar de forma objectiva deste mago que um dia desistiu de o ser, e das suas duas obras a solo – The Madcap Laughs e Barrett, álbuns baseados em alguns textos de 65/66 e gravados com a participação de alguns dos seus ex-companheiros de grupo (Roger Waters e David Gilmour, por exemplo). O que então ouvi foi o que já toda a gente ouvira: tinha flipado de vez por ter tomado ácido a mais. Coisa que eu achava perceber por duas razoáveis razões: já tinha tido umas trips bem esquisitas, e já tinha visto os estragos que o LSD podia fazer quando lidado como um mero garraio: desdobramentos de personalidade, ou antes a personalidade desmascarada por si própria?… Talvez.
Continuo a achar a segunda hipótese mais exacta, embora tenha a certeza que uma droga poderosa como esta tem efeitos mais devastadores numas pessoas do que noutras. Não se trata do azar casuístico duma bad trip, mas antes o desmoronar de referências tidas por boas até há pouco e o despontar de sincretismos cada vez mais nebulosos para quem não conhece semelhantes territórios (e até para quem conhece, pois nesta matéria cada pessoa é um caso aceitavelmente único).
Barrett criou duas obras-primas distintas: a primeira foi o grupo Pink Floyd – desde o nome (que resulta da fusão dos nomes de dois bluesman americanos, Pink Anderson e Floyd Council) até à fórmula especifica do seu som, de que o grupo irá ficar refém para todo o sempre; por fim, escreveu oito das 11 músicas que compõem esse hino psicadélico completo que é The Piper at the Gates of Dawn.
Quando pela primeira vez ouvi Astronomy Domine, algures em 1976, ouvi também pela primeira vez falar de algo que já me tinha acontecido:

Lime and limpid green, a second scene,
A fight between the blue you once knew.

http://www.youtube.com/watch?v=HWXLDkNsoAk

«Uma luta no meio do azul que um dia conheceste»…

Como não me reconhecer por trás da lente olho-de-peixe, observando a tensão crescente na velha sala repleta de objectos mágicos, a guerra personalizada particularmente entre dois dos protagonistas que se conheciam de longa data, e a certeza absoluta do que significava cada gesto, cada palavra, cada mal-entendido! E, já na ressaca descendente, a minha surpresa total quando o terceiro (um amigo de sempre) me confrontou com o «facto» de não podermos continuar a sê-lo – nunca percebi o porquê disto e acho que ele próprio também não, já que mal secas ficaram as águas do rio que cruzáramos de novo voltámos à velha amizade de sempre…
Depois de muito disto e doutras coisas, já na versão Pink Floyd, Barrett torna-se errático, descrente acho eu, estraga concertos com a sua atitude inconsistente em palco. Por fim, em 1968, afastam-no do grupo. Ou terá sido ele quem se foi afastando, num propósito que ainda não se reconhecia como tal? E ele, Roger Keith de seu nome mas Syd desde os 14 anos, o Piper, o Crazy Diamond que meros três anos antes criara a gig mágica dos Floyd e os atirara para o estrelato, enceta a fase mais crítica da sua vida londrina antes de, em 1978, voltar à sua natal Cambridge. Para trás ficavam The Madcap Laughs (1969) e Barrett (1970), obras que a meu ver (e no de muita gente, imagino bem) retratam um pouco a sua posição de rejeitado do grupo e muito mais a sua relação, presume-se que tempestuosa, com as suas namoradas em geral e com Lindsey em particular.
Mas são músicas belas, duma beleza perigosa, sombria – como a mata profunda à hora em que o dia se compõe de penumbras. Em Octopus, por exemplo:

Isn’t it good to be lost in the wood
isn’t it bad so quiet there, in the wood
meant even less to me than I thought
with a honey plough of yellow prickly seeds
clover honey pots and mystic shining feed…
well, the madcap laughed at the man on the border (…).


Barrett nas tintas


Consta que fez as 60 milhas (quase cem quilómetros!) que separam Londres de Cambridge a pé. Estava gordo, de cabeça e sobrancelhas rapadas, quando entrou em casa.
Passou a pintar e a fazer jardinagem, de que era verdadeiro fanático.
Recusou ser star ou mesmo shooting star. O seu sucessor nos Pink Floyd, David Gilmour, disse dele que nunca conseguiria conviver com as imposições que o sucesso fatalmente acarreta. A mim parece-me uma óptima explicação para o sucedido.
Por vezes voltava a Londres, para ver exposições de arte e de plantas, e também ia frequentemente com a irmã à praia. Irritavam-no os paparazzi, mas a quem não?…
Tinha diabetes e morreu de cancro no pâncreas aos 60 anos.

Mas a sua vida continua a ser um filme.

Bem-aventurados os descrentes

Sermão da Montanha, E. Thor Carlson

Li este post do Gonçalo. E os posts do Gonçalo não me deixam indiferente. Agradeço-os por me fazerem pensar. Tocam sempre os 21 séculos que eu já levo de ver, ouvir e ler, de rezar, blasfemar e ter esperança, de procurar sentido ou de me perder na devassidão de não haver nada a não ser gozar os sentidos. Levo eu, leva ele e levamos todos nós. 21 séculos: de pensamento e fogueiras; de caridade e inquisição; de perdão e vingança.
Como o Gonçalo, comovo-me com a humanidade do Sermão da Montanha. Ao contrário do Gonçalo, não lhe encontro nenhum eco divino e nele só escuto a negação da re-ligião, a exposição da sua nudez moral.
O Sermão das bem-aventuranças é um texto poético exaltante. Jesus, o Galileu que o terá dito, juntou ao sentido poético um grito de revolta e de mudança. Na boca de um homem é um discurso sublime, ético e de coragem. Se o dissesse um deus, se o dissesse O ubíquo omnipotente seria um discurso cobarde e cínico, a roçar a infâmia. Nada autorizaria o todo poderoso a causticar assim os pequenos poderosos da Terra; nem a moral consentiria ao todo Arrogante, àquele que quer que todos o glorifiquem, mas que é todo alheio, todo silencioso, dizer às potestades regionais que façam o que não faz a Potestade universal.
Foi um homem sedento de justiça e prenhe de caridade que, do cimo de uma colina falou às multidões miseráveis de cabelos crespos e peles tisnadas.  Só um homem e, lá longe onde estivessem, em silêncio, os Deuses. Calados, preguiçosos do Mundo, fechado num condomínio de marfim, amoral e impiedoso.