
ser igual: não há maior glória
Ando com saudades de uma lista. E prefiro uma má lista a lista nenhuma. Faço esta, irreflectida, das coisas que me dão um intenso prazer. Gratuito, indesculpável. Que se lixem as atenuantes. É para ser culpado? Sou.
Dá-me um intenso, rubro, prazer:
Que alguém saiba Matemática. Eu sei que não sei, mas reconheço com prazer a superioridade alheia. Se fosse preciso pagava um Barca Velha ao Jorge Buescu só para o ouvir falar de números irracionais ou, se ou houver, transcendentais.
Saborear, de olhos fechados, queijo da serra.
Acreditar em coisas que sei que não existem ou que não são como eu as penso ou digo. Deixar-me levar por narrativas fantasiosas. Exaltar-me com a descrição do sistema legal, ritos de acasalamento e estrutura de parentesco da Atlântida ou de qualquer outro lugar imaginário. Render-me ingénuo a urban legends. Ou, para voltar a John Ford, when the legend becomes fact, print the legend. O exemplo supremo é a suprema fantasia de Jorge Luis Borges em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.
Olhar para Michelle Pfeiffer.
Deixem-me interromper só para me lembrar, a mim mesmo,
que estou a falar do que me dá um intenso, rubro, prazer.
E é:
A hipótese da universalidade. Fico possuído de um sentimento de avassaladora fraternidade se um chinês se delicia a ouvir Mozart, se um africano se deslumbra com Conrad, um europeu se comove a ouvir um coro de mulheres etíopes. A hipótese da universalidade.
A alegria da multidão. A multidão que canta “Rule Britania” na Last Night of the Proms. Um a um são desconhecidos, solitários; juntos suspendem toda a descrença, toda a dúvida. Confio numa multidão que sorri e canta.
A nua confiança de uma mulher.
Ler. Devia ser possível viver-se sem fazer outra coisa que não fosse ler. Escrever é um ersatz paupérrimo e penoso ao pé da forma sublime como as palavras que leio constroem, numa parte incerta de mim, que é física e mental, entre o estômago e a vaga alma, acções violentas, amores sublimes, sons tremendos. Estremeço a pensar que no princípio era o Verbo.
Os pequenos movimentos orquestrados dos espectadores numa sala de cinema. Ter a certeza de que disfarçadamente roçam a face com o punho limpando uma salgada gota de água deslizante. Ter quase a certeza de que há uma sala inteira à beira do choro. Como eu. O que me confirma como membro da família. Ser igual: não há maior glória.
Um happy-end.

















Manuel Fonseca, na vertigem das listas.
Vertigem e queda com estampanço no asfalto. Aventura é aventura.
«Olhar para Michelle Pfeiffer.»
check.
Right! Done.
E Olhar para Uma Thurman: http://bp2.blogger.com/_fZYKawWb-KA/SJVsy5SsVJI/AAAAAAAABOM/0L7b1dE2geY/s400/uma-thurman-12.jpg
Também. Com segundas intenções. As primeiras são para a Michelle.
Áh, mas eu gostei de olhar foi para a tua lista. Só confio na tua multidão confiante.
E eu de me sentar a olhar para a tua reconstrução dos Painéis do Nuno Gonçalves!
Excepcional post, magnífica escrita, notável recombinação de evocações (só tenho pena de ter utilizado adjectivos). Obrigado.
Obrigado pela visita, caro As Folhas Ardem!
eu … suspiro …
:-)
Fica-lhe bem, Rita. E um suspiro é o máximo de som que um cemitério se pode permitir. Suspiros e sussurros.
Quando era muito pequena, pré escolar, quando gostava muito do aroma das flores, aloendros, peónias, laranjeira… encostava-as o mais perto e dava-lhes beijos. A minha avó dizia: esta miúda é do mais sensitivo!
Escreveu tão bonitamente a submissão aos rubros, intensos prazeres.
Aos beijos a peónias e laranjeiras! Bem me parecia ver em si um certo pendor panteísta.
Thanks pela gentileza.
Caro Manuel, um intenso prazer em ler este seu post, rubro de olhar a magnífica Michelle, as saudades da Ava Gardner e da Rita Hayworth a levarem-me a memórias de territórios proibidos, o saborear o queijo da serra (sim, de olhos fechados ) com um Vintage de rezar, como é bom (não) estar morto !
Fernando, fiquemos pelo bom queijo da serra… acho melhor não juntarmos a Pfeiffer, a Ava e a Rita. Metem-se as aurículas pelos ventrículos e é o cabo dos trabalhos.
Caro Manuel, essa de se meterem as aurículas pelos ventrículos é de génio…GOSTEI !
Manuel,
Admitindo que não conseguimos arregimentar a nua confiança da pfeiffer para escrever neste nosso cemitério, oferço-me para rachar a barca velha se convencermos o Jorge.
Pedro, por acaso matei uma (BV) há dias, mas ainda me sobrou outra. Mas tenho um sítio onde podemos ir bebê-las em conta (considering!). Seja como for, não acha melhor dizermos qualquer coisa à Pfeiffer? E como é matemática pode ser que a Eugénia queira vir… desde que não traga o Marco.
Rapazes violentos: um quer rachar a barca, o outro diz que a matou. É sempre a mesma coisa, que mata e esfola!
Ps: ó Manuel Fonseca, já não lhe basta humilhar a minha pobre tabuada, ainda me faz passar uma vergonhaça do pior? Olhe que mal conheço o rapaz…
Quando se tem gostos assim há uma rigorosa tendência para a felicidade.
Peter, jovem violinista, não me dês música e desembrulha lá a tua lista! Mostra-nos a tua vestida (haja Deus) confiança!
Que lista delicada e intensa ao mesmo tempo, Manuel.Fiquei aqui perdida entre acreditar nas coisas que sei que não existem, olhar para Michelle Pfeiffer, a hipótese da universalidade, a sala de cinema e o happy end.Acho que dá prá vislumbrar de tudo um pouco.