Poder-se-ia definir como um verdadeiro albergue de gente morta. Situado em plena Palmer Square, é o centro gravitacional de Princeton e da sua Universidade e como tal, já ali dormiu muito ilustre defunto. Sob o pórtico da entrada pode-se ler:
“Rest Traveller, Rest, and Banish Thoughts of Care;
Drink to Thy friends and Recommend Them Here”
Chama-se The Nassau Inn, existe desde 1769 e nota-se. A recepção trepida sob a vibração das caldeiras instaladas na cave do edifício e de noite, a velha estrutura emite deseperados e tétricos lamentos fazendo ranger as suas madeira centenárias e uivar os seus fantasmas residentes. E estes não são poucos. Não sou certamente um ilustre intelectual ou académico mas esta semana também lá passei uma noite e digo-vos que pouco consegui dormir. Numa sequência interminavel de sustos, fui visitado no meu quarto por um rol de personagens fantasmagóricas que tendo lá dormido em vida se recusaram até hoje a fazer o check-out e a pagar a conta. Primeiro foi o Bob Hope que me cantou o “Thanks for the Memory” até eu adormecer. A seguir, entrou o F. Scott Fitzgerald que me acordou e sentando-se na borda da minha cama me contou uma estranha historia de gente rica e morta. Tinha claramente bebido demais, lá em baixo, no bar do Yankee Doodle. Devo ter adormecido de novo pois de repente e esbaforido, apareceu o JFK que entrou no meu quarto seguramente convencido que era o da Grace Kelly. Foi-se embora com um ar desconsolado. Pela uma e meia da manhã apareceu o Walter Cronkite que trazia um capacete do exercito Americano com a escrita Born to Kill e um microfone na mão. Estava bastante desorientado pelo que tive que o conduzir até à porta. No corredor, abandonada, estava uma cadeira de rodas com as iniciais FDR. Desisti de dormir pelas duas. E fiz bem. Dez minutos depois entrou-me o Albert Einstein pelo quarto, a esvoaçar a uma velocidade surpreendente. Seguiram-se o George Washington e o Paul Revere, que entraram de carabina em punho, me perguntaram se escondia algum Inglês e voltaram a sair sem mais uma palavra. Por fim entrou o Robert Oppenheimer que andava à procura do Einstein. Parecia ter qualquer coisa de explosivo para lhe contar. Pelas três da manhã decido ir à casa de banho e descubro um sari pendurado atrás da porta. Curioso, verifico que, bordado a seda na etiqueta, está o nome da Indira Gandhi. Para terminar as excitações da noite, quando regresso ao quarto constato para minha surpresa que a Grace Kelly se meteu na minha cama (convencida certamente que eu era o JFK.) Resolvi deixá-la viver a sua ilusão e ali ficou até de manhã.
Que noite, amigos, que noite.
PS: Um dos pontos altos do The Nassau Inn é também este mural, pintado por Norman Rockwell para o Yankee Doodle Tap Room e onde, a seus pés, bebi anteontem um potente copázio de Southern Comfort (um dos mais intragáveis mas característicos Burbons do mundo). Cheers!



















Por acaso até nem desgosto do Southern Confort, por isso a inveja é dobrada.
Adoro edifícios com história e histórias, e o mural é o máximo — muito animado!
Por acaso, caro António, não minto quando te digo que pensei em ti quando ali bebi o dito SC. É coisa que te imagino a beber de manhã, sentado numa amurada, à vela pelo mar da China.
Ó Vasco, só te perdoamos a longa e sofrida (por nós) ausência, por nos teres, agora e com este texto, metido no quarto, na cama (aos cavalheiros com a loira e, consta, fervente Grace; às senhorinhas com promessas de happy bithday Mr. President), nesta sinistra e exaltante estalagem. Que bom que deve ser o Inverno na Nassau Inn!!!
É um grande foróbódó este Inn, é o que é. Acho que seria um bom sítio para um dos nossos jantares. Se lá dormissemos todos uma noite, imagina a qualidade e variedade de post no dia seguinte, após uma noite de portas a abrir e a fechar.….
eh eh eh
adivinhei o final
tinha a certeza que a Grace não ía resistir …
:-)
vou repetir as palavras do ilustre acima
‘que bom deve ser o inverno na Nassau Inn’ … (com ou sem Grace Kelly )
(risos)
Rita,
Vou-lhe contar um segredo.
O fantasma da Grace Kelly ressona horrivelmente. O que que me valeram foram os tampões para os ouvidos que tinha trazido do avião. Foi um alívio quando pelas 6:30 da manhã foi para o quarto ao lado arrepiar um outro hóspede.
Enfim, tudo figuras de uma cultura alienígena à nossa, mas que fica sempre bem referirmos como exemplo da nossa mundanidade.
Alienígenas à minha, não com certeza, caro Táxi. Talvez a “nossa” a que se refere seja a “sua” e não a “minha”. Onde vive? Na Ilha da Páscoa? Em Plutão?
Abr. Vasco
Uau , que festa!
Que lindo o sari da Indira, vermelho, não é? Nem vou perguntar o que vestiu Grace na manhã seguinte.…espero que não tenha sido o vestido de casamento.
Pelos vistos o Southern Confort até ressuscita os mortos! Gostei imenso do relato desta sua noite fantasmagórica e a estalagem parece um esplêndido sitio para albergar os nossos ossos. Que regresso tão auspicioso!
A Grace, bem se pode ver pelas boas noites que antes tinha dado ao Vasco, é de ideias fixas.
Eugénia, que má! Isto é de deixar um infeliz morto a ganir baixinho.
ps (que má a Grace, claro…)
Dormiste com a gélida kelly na cama? Hás de ter acordado com os pés tão frios que nem o SC te pode aquecer. Bela casa, não haja dúvida.
Se bem me lembro, essa coisa dos fantasmas estava prometida para um romance que ias escrever sobre Lisboa. Ou sou eu que alucino?
Um romance! Que miragem! Que Shangri La! Talvez quando aos 85 anos,(idade de reforma que nos espera) tiver tempo e talvez mais talento, meu caro Pedro…