Presenteado logo pela manhã com um vídeo singular, enviado por mail pelo meu mais velho amigo (conhecemo-nos, se bem me lembro, desde os dois anos), sobreveio uma epifania regressiva que muito me perturbou.
Explico já de seguida: é que em 1947 eu, AEQ, ainda não era nascido; logo devia ser tecnicamente impossível lembrar-me dos acontecimentos (de todos, estava lá!) que este excelente filme denuncia com pormenor e eloquência.
Acontece que ao clicar no dito, que logo começou a correr como manda a pêga da lei, tive uma epifania regressiva: era, afinal, um jovem cantor da Jimmie Lunceford Orchestra, amante da querida tia Evita (sim, a Perón!, tratava-a assim porque ela era um pouco mais velha do que eu…), com quem me encontrava em Lisboa para despistar o palerma do marido — que a julgava em plena diplomacia paralela; e morri quando tentava provar que o meu querido amigo Jimmie tinha sido
envenenado por um peixeiro racista de Seaside – afinal, o mesmo sacana que acabou em definitivo com a minha ainda bem jovem tosse cerca de ano e meio mais tarde (o que por um lado foi bom pois assim não assisti à dolorosa sublimação do Anjo dos Descamisados…).
E sim, sei que o Varguitas me plagiou uns anos depois.
Mas voltemos ao presente – porque foi no presente que encontrei o catalisador necessário a esta viagem a memórias desencarnadas (gostei imenso desta tirada, tipo David Luís!).
Como alguns de vós estarão lembrados, há cerca de uma semana coloquei aqui (e aqui também) uma teoria sobre os Painéis de S. Vicente. Num ataquinho de simplicidade que não me é nada próprio julgava a teoria inédita. Mas a simplicidade em excesso pode pregar grandes partidas, como adiante se verá – naquele que foi certamente um dos primeiros filmes a cores feito em Portugal.
Vejam apenas até ao ponto em que aparecem os ditos Painéis de S. Vicente (são só dois minutos, vá, aproveitam e vêem a querida Eva, ao lado da D. Gertrudes!…). Aparecem destacados um do outro e são apresentados (em 1947!) como os dois Trípticos de Nuno Gonçalves.
Embora sejam cópias, uma delas particularmente má (o Painel do Arcebispo é uma simples prova de espelho), não deixam de testemunhar qual a sua disposição em pleno Estado Novo.
Logo entenderão a natureza do meu efipânico rewind transmigratório.
É ou não é a prova cabal de que já tinha visto aquilo em algum lado?!…
Mas assim levanta-se-me outra questão, que é esta: se os painéis já estiveram nesta organização (que não é exactamente a minha, como se percebe pela versão que acabei de montar ainda agora sob os auspícios dos rapazes do Património Nacional dos tempos de Salazar – que se fartaram de fazer asneiras, diga-se em abono da verdade) o que terá levado alguém a achar que o acavalamento das pranchas todas é que era bom?… E quando foi isso, no pós 25 de Abril?…
Adorava que alguém me soubesse explicar isso.

Como também gostava de saber se a obra alguma vez foi radiografada ou se alguma da sua tinta foi sujeita a testes de isótopos com Carbono 14.
Aposto que não.


















Boa pergunta, Benedito! E que eram dois, eram mesmo. Gostei do video, bem didático.
E devia ter uma boa resposta, Turmalina. O video é um documento excelente, como diz.
Ainda bem que gostou.
O cortejo é fantástico. A locução familiar. É um filme fantástico. A questão do plágio (que, em rigor, não se põe, pois na altura não eras nascido e ainda não havia o YouTube) não retira um milímetro ao brilho da tua descoberta. E, por fim, o bispo lá estava, desde esta altura, naquela sua posição tão desgraçadamente alemã… :)
Concordo, Gonçalo, aquilo do plágio foi excesso de zelo da minha parte — e realmente não é por isso que a teoria sai beliscada, acho que se pode dizer que sai comprovada. O filme é excelente, sem dúvida, Leitão de Barros em technicolour!
E acho que a posição alemã é uma espécie de câimbra para a vida — deve ser terrível. Já imaginaste o que é comer carapaus naquele estado?!…
Deve ser um horror.
Acho que se deviam amanhar estas perguntas e enviá-las ao senhor curador dos painéis de lailailailai. Boa?
Boérrima, Eugénia — mas como se faz tal coisa?
Sou um ignorante profundo em passos oficiais…
Faz-se uma carta bonita e civilizada, curta, expõe-se objectivamente as dúvidas e pergunta-se o desconhecido. Afirma-se o genuíno interesse em saber. Depois espera-se. Alguém há-de fazer gosto em responder. Caso ninguém responda, se se tiver tempo e meios, investiga-se, quando não arruma-se no lugar das coisas sem resposta. Não tem mal. As mesmas perguntas tendem a ser feitas muitas vezes ao longo dos tempos.
Tem razão, Eugénia, há até perguntas perfeitamente cíclicas.
Mais uma boa ideia, obrigado.
Eu não sei do que gostei mais neste filme — se dos chapéus excelentíssimos das esposas, se dos corvos a sério (coitados, estariam amarrados ou teriam vindo emprestados da Torre de Londres?), se dos carros de bois, se do, valha-me Deus, passeio dos Painéis do Infante, debaixo do sol quentinho …
… e não é que não me sai mesmo da ideia que bom deve ser subir a Av. da Liberdade assim reclinadinha numa rede, bem ao abrigo do inclemente sol …
Isso são gostos de romana decadente, Joana! Não queria também dois escravos com leques gigantes de plumas?
Que coisa…
António Benedito, sempre, sempre a pensar no meu bem …
Os dois escravos com leques gigantes de plumas acho que passo. Isto de uma pessoa se dedicar ao Direito do Trabalho limita muito, já viu o mau aspecto se se soubesse … teria de os contratar, nem que fosse a recibos verdes, um despesão … E aquela cena das plumas era bem capaz de largar fiapos, ainda me causava um ataque de espirros, nada dignificante, com tantos “representantes do povo” a assistir à parada!
Já a parte da romana decadente me parece encerrar outras potencialidades … cachos de uvas, tipo triclinium … não me parece mesmo nada mal. Pensando melhor, morangos ou framboesas, que têm a vantagem de não ter grainhas nem pés … Só boas ideias, as suas, é o que é!!!
Claro que são!
Estava à espera de quê?.…
Boa tarde
Permitam-nos que apresentemos a nossa tese publicada no livro “Os Painéis em Memória do Infante D. Pedro” que se encontra disponível em http://www.bubok.pt (pesquisar por “painéis”).
Defendemos nesta obra que os Painéis de S. Vicente de Fora foram executados em memória do infante D. Pedro, cuja imagem tinha sido denegrida pelos seus opositores logo a seguir à subida ao poder de D. Afonso V. Reflecte também o perdão mais tarde concedido por este rei aos partidários e familiares do antigo regente de Portugal falecido na batalha de Alfarrobeira
O facto de termos identificado uma série de indícios e pistas relacionados o Infante D. Pedro levou-nos a esta conclusão. Vejamos alguns:
•O “judeu” onde visualizamos um doutor em leis, beneditino, oriundo da Borgonha que só pode ser Jean Juffroy embaixador enviado pela duquesa D. Isabel com a missão, entre outras, de protestar contra o enterro vergonhoso dado ao corpo de D. Pedro, após o seu falecimento na batalha de Alfarrobeira. Chama-se a ainda atenção para o pormenor do indicador direito daquela personagem estar a apontar precisamente para o seu nome (em latim) no livro “ilegível”. A presença desta figura prova que os Painéis são uma evocação de D. Pedro, não havendo outra justificação para esta personagem estar ali.
•O caixão e o peregrino formam um conjunto cuja leitura nos conduziu também ao Infante: um caixão aberto a significar que apesar dos sucessivos enterros dos seus restos mortais, todos estes foram em vão; um peregrino idoso a simbolizar os anos e as viagens feitos pelos ossos de D. Pedro.
•A decifração no livro aberto do painel do Infante de uma pergunta “quem é o pai?” e a respectiva resposta “o pai…está à direita”, isto é, está a dar indicações ao observador da pintura onde se encontra o pai da rainha D. Isabel (a jovem), que localizamos na personagem com um joelho no chão do painel do Arcebispo.
•Uma proposta, praticamente inédita, para a figura santificada baseada nas cenas e interações que vemos nos painéis centrais
•E outros mais onde se incluem identificações para os seus familiares e apoiantes mais próximos.
A publicação deste trabalho visa contribuir e abrir novas pistas de investigação, de modo a se poder descortinar um pouco mais o mistério que envolve os Painéis de S. Vicente de Fora.
Cumprimentos
Clemente
(www.clemente-baeta.blogspot.com)