Diógenes e Alexandre


O pensamento dos cínicos é normalmente desvalorizado como se fosse uma mera contestação da ordem social estabelecida (contestação que, na sua origem, se referia à desagregação da civilização grega sentida pelos próprios sobretudo nos séculos IV e III a. C.). No entanto, ele contém, ainda que apenas de um modo latente, a intuição daquilo que essencialmente subjaz a essa ruptura do seu tempo: a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.
Eis uma lição geral a tirar da história. Mesmo aqueles que, como por exemplo Nietzsche, se sentem numa determinada época obrigados a fazer filosofia à martelada, transportam no interior da sua terrível desconstrução um princípio essencialmente construtivo. Assim acontece, do meu ponto de vista, também com os cínicos. E essa é a segunda lição – esta concreta – que aqui quero também propor: o pensamento dos cínicos pressente e anuncia a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.
Defendo, na verdade, que, contrariamente àquilo que nos é ensinado nas escolas, a relação entre o poder temporal e o espiritual, longe de caracterizar somente a estrutura mental que funda e justifica a realidade social da Idade Média, é uma relação natural e historicamente estruturante em todas as sociedades humanas. Mais: essa relação vem à consciência na Grécia, estabelece-se durante o império romano e, passada a época medieval, é ainda a partir dela que há-de vir mais amplamente a compreender-se a modernidade nos seus avanços e nos seus recuos. Esta história, porém, como num outro lugar já escrevi, encontra-se ainda por fazer.
Contra o senso comum, porém, que reage sempre violentamente quando pretendem iluminar de um outro modo as opiniões que tem por devidamente esclarecidas, podem sempre ir-se apresentando alguns episódios que, quase sem se dar por isso, vão contestando o que temos por aprendido. É aqui o caso das conhecidas histórias de Diógenes de Sinope, o mais famoso dos discípulos de Antístenes, e sobretudo daquela que narra o encontro de Alexandre, o grande, com Diógenes, em Corinto, segundo a qual, tendo o rei perguntado ao filósofo, que se encontrava deitado no chão, de frente para o sol, se haveria algo que pudesse fazer por ele, este lhe terá apenas pedido que se desviasse um pouco para o lado, para assim deixar passar a luz da grande estrela. Admirado com a altivez da resposta e do filósofo, Alexandre terá então ordenado a todos aqueles que o acompanhavam que parassem de fazer troça daquele homem, pois que se ele não fosse Alexandre, certamente seria Diógenes.
Ora, para além do facto de que esta oposição entre Alexandre e Diógenes é expressa e repetidamente referida tanto na Vida e Opiniões dos Mais Ilustres Filósofos, de Diógenes Laércio, como nas Vidas Paralelas, de Plutarco, bastará lembrarmo-nos de que, não muitos anos antes, Platão prosseguia ainda, na teoria como na prática, o ideal do rei filósofo, para imediatamente percebermos a ruptura que aqui se estabelece: Alexandre e Diógenes, com efeito, não podem já pensar-se como um só. Concorrendo embora para um mesmo fim – o bem dos homens, das cidades e do género humano –, eles são agora radicalmente distintos, como distinta é a sua acção: o rei age politicamente, a partir da esfera exterior do poder, enquanto o filósofo age espiritualmente, a partir da sua esfera interior, não havendo entre estas duas esferas uma relação nem proporcional, nem directa.
Como tantas outras conquistas civilizacionais que os seres humanos fizeram na história, esta noção de uma relação autónoma e diferenciada entre os poderes temporal e espiritual deve ser conhecida e valorizada. A sua história está por fazer e ela é fundamental para compreender o nosso mundo actual. A sua emergência à consciência, porém, começou na Grécia, no momento mesmo da sua desagregação, sem o que, aliás, após os quase dois séculos de guerra ininterrupta que se seguiu à morte de Alexandre, Roma não poderia, ao mesmo tempo, ter conquistado materialmente a Grécia e ter sido espiritualmente conquistada por ela.

Comentários a “Diógenes e Alexandre” (7)

  1. Panurgo diz:

    Ah… lindíssimo, Gonçalo.

    Foi pena não ter referido a resposta de Alexandre: “- Não sou eu que te faço sombra.” Este momento ofusca qualquer Política de Platão.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Obrigado Panurgo, ainda bem que gostou. Diógenes é um mestre contado em anedotas… mas vale bem a pena lê-las todas. Quanto a Platão, é preciso dizer que muitas vezes esta referência de Diógenes ao sol é explicada a partir da alegoria da caverna, de Platão. E Alexandre era também (ou pelo menos assim foi lembrado) um homem de grande cultura. A resposta que aqui lembra é muito boa. Obrigado.

  3. Panurgo diz:

    Há só uma pequena coisa que me custa aceitar e até compreender, a conquista espiritual de Roma pela Grécia. O que eu vislumbro é uma contrafacção de fraca qualidade, e uma certa contra-alquímia: o ouro de Atenas desembocou em pedra e latão (o porco epicurista Horácio, um Lucrécio, etc.) nas garras dos lobos romanos, que cresceram e multiplicaram-se até aos dias de hoje.

    Sendo o Magno discípulo de Aristóteles, aprendiz de toda a tradição grega, quase um herói homérico; o Cão faz-me recordar os poetas pré-socráticos, envoltos naquele véu divino: se Empédocles era filho dele próprio, Diógenes é filho dos próprios deuses, e martelou à farta em Platão, para meu grande deleite. Aos meus olhos Alexandre e Diógenes são o último suspiro do espírito heróico da Grécia; e até acredito que eles se vissem como um só — também se conta que morreram no mesmo dia. E a Grécia morreu com eles.

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      Meu caro Panurgo, concordando em parte consigo, fui buscar ajuda para lhe responder. Desculpe-me, no entanto, a extensão despropositada da resposta.
      Como diz Jaeger (e nós aqui estamos, em parte, de acordo), «o clímax do desenvolvimento progressivo [da mentalidade grega] foi alcançado nas escolas de Platão e de Aristóteles. O Sistema dos Estóicos e dos Epicuristas, que se lhes seguiram na época helenística primitiva, são um anti-clímax e mostram um declínio do seu poder filosófico criativo, (…) [que cessará, mais tarde,] num cepticismo heróico, que negava radicalmente toda a filosofia dogmática do passado e do presente e, muito para além disso, declarava a sua completa abstenção de qualquer afirmação positiva acerca do verdadeiro e do falso, não só em relação à especulação metafísica, mas em relação igualmente à ciência matemática e física.» (JAEGER, Werner, Cristianismo Primitivo e Paideia Grega, Ed. 70, Lisboa, 1991, págs. 59–60)
      Quanto ao declínio do espírito grego durante o período helenístico estamos, portanto, de acordo. «A morte política do helenismo, (…) [de facto, que pode historicamente situar-se no séc. II, representa uma] decadência política não se processa sem afrouxamento da actividade intelectual. (…) O helenismo, no entanto, fará dentro em breve parar o seu declínio. A partir do século I a. C., (…) um verdadeiro renascimento artístico e filosófico será no mundo helénico a consequência da paz romana. Os Estados gregos já não existirão, mas perdurará a civilização grega com as suas qualidades essenciais, isto é, a brandura dos costumes, o gosto pelas coisas da inteligência, o espírito crítico e o sentido artístico. (…) Espalha-se cada vez mais a ideia da igualdade entre os homens e a tendência para um estado de coisas em que todos gozariam, sem distinção de nacionalidade, os benefícios da civilização, graças ao declínio da ideia de cidade, à facilidade das comunicações e ao êxito de certas doutrinas filosóficas. (…) Este estado de espírito influiria na mentalidade e na política romanas, [de tal maneira que] Roma sentir-se-á dentro em breve em condições de realizar de forma grandiosa esta grande comunidade que os gregos sonharam e pressentiram. A ideia de império mundial, sob a direcção do Senado, dominará cada vez mais o pensamento dos homens de Estado romanos. Ela não é, no entanto, como frequentemente se diz, o móbil da conquista dos estados gregos, mas a consequência do contacto que, depois desta conquista, se estabeleceu de maneira permanente entre a Grécia e Roma.» (HATZFELD, Jean, História da Grécia Antiga, op. cit., cap. XXXVII, págs. 354–356)

  4. Panurgo diz:

    Gonçalo, é um prazer lê-lo e aprender com a sua ajuda. Só me resta agradecer tê-la trazido aqui :) embora continue a não ver essa ponte permanente entre a Grécia e Roma, que Hatzfeld vê. No século II, no Burro do Ouro, o Lucius queixa-se de que não ouve grego aos romanos. Não acredito num renascimento do que está profundamente doente. O Toynbee chamou de “abandono” ao século I, se não estou enganado. Mas não quero ser teimosamente ignorante, ou cego.

    Que pena foi o Jaeger ter começado esse estudo tão tarde. E quão grande foi a nossa perda com a sua morte. Enfim.

    Obrigado mais uma vez.

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Eu é que lhe agradeço a leitura e a ajuda. Continue a aparecer e a comentar, se faz favor. De qualquer modo, o meu ponto era só este: a relação entre os poderes temporal e espiritual faz essencialmente parte da sociedade humana. Diógenes era o exemplo (apesar de os relatos serem feitos mais tarde pelo outro Diógenes e por Plutarco) de como a consciência dessa relação emergiu na Grécia (ainda que negativamente) após a batalha de Queroneia. Um abraço e obrigado.

    • Panurgo diz:

      A mim interessa-me outra coisa, que ou dá origem a essa relação, ou dela nasce: o ideal de Homem.

      Porque não faz o Gonçalo essa história? É necessária, sem dúvida. E alguém tem de a fazer.

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