E dei-lhes meus olhos para ovos!


Mais vale tarde do que nunca, diz o povo, provavelmente com razão. Dito isto, já quase com um ano de atraso, venho responder ao magnífico pedido do Manuel Fonseca para que aqui apresentássemos a lista dos nossos melhores primeiros versos. Como já confessei, porém, sou poeticamente inculto. Não tenho memória de tal lista e não a saberia fingidamente fazer. Tenho, no entanto, uma lista de um primeiro verso. E quanto mais procuro mais este fica sozinho e mais este fica primeiro. O poema, que o envolve, também é, para mim, primeiro. Já não sozinho, já não único, mas, por agora, sim, primeiro. Aqui ficam os dois:

Pus-me a contar os alciões chegados
(Minha memória era água, água…)
Fez-me mal aquela alta tristeza
De bicos vagabundos,
Mas não chorei os alciões desterrados.

Sempre gostei de aves e de lágrimas.
Lágrimas, agora, não podia,
mas podia os alciões
– E dei-lhes meus olhos para ovos
(Que as fêmeas estavam cansadas
E vinham de terra fria).

Firme e condescendente,
Fechei as pálpebras pesadas
De contradição e de poesia
– E um mundo novo de alciões novos,
Esse era o meu quando as abria.

Vitorino Nemésio

Comentários a “E dei-lhes meus olhos para ovos!” (5)

  1. Teresa Font diz:

    Ainda bem que vim aqui, limpar a cabecinha da estupidez que estou a ver e a ouvir na televisão.
    Lá por ser um post jogado pelo seguro, Nemésio rima tão bem como prosa, nem por isso é menos bom, Gonçalo.
    Se tem só um poema, este é um grande poema para se ter.

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      Tenho mais, Teresa, tenho mais. Como por exemplo aquele que diz que os aqueus, assim que se levantava a aurora, dos róseos dedos, viajavam pelos líquidos caminhos… Mas assim verdadeiro, verdadeiro, agora, tenho só este (não contando com o pai-nosso, mas isso é uma outra história).

  2. teresa conceição diz:

    Obrigada por nos ter trazido o Nemésio, Gonçalo.
    Estive a lê-lo há pouco em prosa, soube-me tão bem. Está tão esquecido. Não conhecia nada da poesia dele e este foi mesmo um bom começo.

  3. Turmalina diz:

    Fui buscar como eram os alciões e gostei do que encontrei:
    As halciônides ou alciônides (Ἁλκυονίδες, halkyonídes, em grego) eram sete ninfas filhas de Alcioneu, rei dos gigantes. Quando Héracles matou Alcioneu, elas se jogaram no mar e foram transformadas por Anfitrite em alcíones ou alciões (aves também conhecidas como martins-pescadores, pica-peixes e guarda-rios).
    E aí que o poema ficou mais bonito ainda!

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Obrigado, Teresa e Turmalina. Os alciões são (realmente ou não, pouco importa) aves que fazem os seus ninhos no mar. Sem sabê-lo, de facto, não se percebe o poema. Que é belíssimo. Ainda bem que gostaram.

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