O que se esconde por trás dos olhos de Miss Ruth Elizabeth Davis?
Há quem diga que é a maldade. Outros dizem ser puro génio, esse génio dos irascíveis, ou um outro, o dos sobredotados. Afinal, Miss Davis nasceu durante uma tempestade, no meio da ressonância dos trovões. Ela própria será um, vindo de estrela distante para nos mostrar que, afinal, o espírito tem razões que o corpo desconhece.
Certo é haver um animal inquieto, aprisionado atrás daqueles olhos, nos passos em volta de uma jaula de vidro, inviolável. Podemos admirar a besta, mas se olharmos fixamente viramos estátuas de pedra (a Inclemência), de mármore (a Frigidez), de madeira (o Despeito), jade (o Ciúme), onix (a Compaixão), bronze (a Vingança), espuma (a Hipocrisia). Miss Davis foi a única actriz – a única mulher? — capaz de ser o que todas as mulheres aspiram ser: as mulheres todas numa só.
O talento vinha tanto de uma perseverança devastadora como do engenho congénito, aquecidos nas faíscas do divórcio dos pais e do abandono paterno. Praticou ambos: o divórcio – quatro vezes – e o abandono – não há conta para os tipos que deixou sozinhos num restaurante –, na metodicidade própria a quem conhece demasiado bem o seu destino. “Nenhum dos meus maridos foi homem suficiente para se tornar Mr. Bette Davis” (num testemunho em tribunal, o primeiro deles, o músico Harmon Oscar Nelson Jr, viu provada a alegação de ‘crueldade mental’ infligida por Bette como motivo de divórcio).
A carreira e a arte eram o mais importante de tudo. A corrida de Miss Davis foi sempre uma corrida solitária. Contra os estúdios – foi o intérprete, masculino ou feminino, que mais lutou para se libertar dos contratos a longo termo da “Idade de Ouro” hollywoodiana. Contra o machismo — “o ego dos homens é elefantino”, dizia, não escondendo ter sido fisicamente agredida por cada um dos seus quatro maridos. Contra os ideais canónicos de beleza – Carl Laemmle Jr., o director da Universal que quase acabou com a carreira dela antes de ela a ter começado, disse que “um protagonista ficar com Bette no final do filme é tudo menos um ‘happy end’”. Contra, ainda, as outras actrizes da época, que tinham pavor de Miss Davis como as gazelas e as impalas têm pavor dos tigres. As suas quezílias com Miriam Hopkins ou Susan Hayward ficaram famosas, mas a guerra de três décadas com Joan Crawford, outro felino, tornou-se lendária. De Crawford disse, no sublime veneno que as suas veias bombeavam, “não lhe mijava em cima nem que ela estivesse a arder”. Génio, mau ou bom, mas sempre génio.
O animal por trás dos olhos, e atrás da jaula de vidro, trocava de forma todas as noites, mudando a pele. Em “Of Human Bondage” (John Cromwell, 1934), era um gato quente em telhado de zinco, essa prostituta com coração de enxofre que desgraça o sempre desgraçado Leslie Howard (recebeu a primeira de dez nomeações ao Óscar). Em “Jezebel” (de William Wyler, talvez o homem que mais amou – ele era casado e, pois claro, nunca deixou a mulher -, 1939), era um lobo com pele de cordeiro na antecâmara da Guerra da Secessão, depois arrependido por tanto manipular Henry Fonda – há algum vestido a preto-e-branco mais vermelho do que o usado por Miss Davis no baile central de “Jezebel”?
No “Dark Victory” de Edmund Goulding (1939) é um tigre subitamente exausto, a menina do jet-set diagnosticada com um tumor cerebral incurável, mas em “The Letter” (outra vez Wyler, 1940), transforma-se em coruja, ocultando a frustração e o desejo no calor impossível das plantações malaias. Com “The Little Foxes” (ainda Wyler, 1941, “with a little help from Lillian Hellman”) mostra-se tarântula, comendo os restos de uma família sulista na viragem do século passado, enquanto a solteirona Charlotte Vale de “Now Voyager” (Irving Rapper, 1942, com guião de Casey Robinson) passa de lagarta a borboleta pela varinha mágica de Claude Rains — “why ask for the moon when we have the stars?”. Os filmes, as grandes cenas, os números superiores de Miss Davis não param até meados dos anos 40, na melhor série consecutiva de interpretações por uma “leading lady” que Hollywood jamais conheceu.
Há depois um hiato, que só termina no popularíssimo “All About Eve” de Mankiewickz (1950), essa derradeira “bumpy ride” de um cisne negro disposto a não ceder o passo à nova rainha dos lagos, falsa inocente preparando a trapaça. A partir daí, faz um pouco de tudo para sobreviver: westerns de segunda, thrillers de vão de escada, melodramas de série B e até um par de incursões no mais puro grand guignol — o que é “What Ever Happened to Baby Jane?” (ao lado da velha rival Crawford, a quem fez a vida preta durante a rodagem) senão o preâmbulo do giallo?
É nos papéis de filmes menores, de meados dos anos trinta até ao final da década seguinte, que Miss Davis mostra o passo completo da cegonha. Os realizadores, ou os guiões, pouco importam face à evidência. Bette salta entre a caridade de Henriette Deluzy, crismada por uma França intolerante em “All This, and Heaven Too” (Anatole Litvak, 1940), e o narcisismo da Fanny Trellis de “Mr. Skeffington” (Vincent Sherman, 1944) com o desprendimento próprio à Natureza.
Os seus instintos são de peito feito, rugindo, grandiloquentes, mas o tom é igualmente certo, e os olhos tanto dão vontade de chorar por ela como de chorar dela. Quando desce as escadas da mansão no último acto de “Mr. Skeffington” (vi-a com onze anos e lembro-me como se fosse hoje), sente-se nos “Bette Davis Eyes” a fragilidade de uma vida entregue às aparências, e mesmo pelos setenta anos, no “Death on the Nile” de John Guillermin, aquelas pupilas, fabricadas nos trovões, metem medo.
Muitos só lhe viram o excesso e o egocentrismo. Só ouviram a gargalhada, ignorando o rigor, o controlo da energia, o milagre da metamorfose. Claro que o animal Bette Davis sempre devorou tudo: os planos, o guião, a decoupage, a contracena e a jaula de vidro de onde, ainda hoje, procura fitar-nos. Mas para a adorar é preciso adorar a febre, a faca, a flama, a fúria, a gente maior do que a vida. Para adorar Bette Davis é preciso adorar-se, e adorar o cinema.


















Não sendo eu cinéfilo concordo em absoluto com a sua última frase. Por isso talvez (ou também) não adore Miss Davis embora a considere uma actriz fantástica. Infelizmente sobrevive a repulsa que sempre me suscitou — que, curiosamente, me agradou imenso na Morte no Nilo (acho que tive um sentimento primário do tipo «em velha fica-lhe bem»).
Gostei particularmente do pormenor “ígneo” em relação à Crowford, que também me incomodava um pouco, diga-se de passagem.
Belo e didático enterro!
Pedro, nunca apreciei muito Bette Davis, apesar de gostar da música panegírica da Kim Karnes, mas o seu texto e o título dessa melodia pop, despertaram-me a curiosidade e lá fui eu ver algumas imagens da dita, olhando-lhe nos olhos, e consultando outra referência– o signo astrológico.
Numa análise muito light, pode-se dizer que Bette Davis oscila entre um olhar doce, quase angélico e um cortante de tão frio, transpira uma força interna capaz de arrastar uma pirâmide do Egipto e o seu signo é Carneiro, o que revela uma coerência fenomenal. Os Carneiro (pensamento indutivo) detêm uma força interior assustadora, pois é um signo muito ligado à terra e aos instintos. Confere (só faltaria o ascendente :).
Se teria sido má? Banal não era e a maldade está, quase, sempre associada à banalidade– são raras as criaturas que, sendo maléficas, não são banais– têm de ser completamente negras, logo, muito raras como as completamente douradas ou alvas, conforme a iconolatria :)
Mas, tb, não lhe perscruto a Beleza Interior de Marilyn (se calhar é porque estou a ser facciosa :), o que está bem expresso nessa citação de BD, que referiu, sobre Joan Crawford. Ora JC era Carneito tb e é impossível juntar duas mulheres Carneiro no mesmo palco sem termos uma
luta carneiricida :)- são de “um ego elefantino” e não admitem a partilha das atenções masculinas — são tão territoriais como os Escorpiões (tb com um ego desmedido, mas um bocadinho piores pois, quando sentem o território invadido, nem que seja por mera paranóia, são capazes de cometer harakiri em menos de uma tenaz, perdão, fósforo:)
Ora, algumas partes da letra (http://www.youtube.com/watch?v=EPOIS5taqA8)- ” she´s ferocious” and “she´s pure as New York snow”- lembram-me quase um soneto de Camões pleno de antíteses, mas revelador de uma tendência do ser humano para mitificar o que desconhece quando, por vezes, os mitos urbanos não passam disso — imagens que os outros projectam nos outros, de acordo com os seus próprios códigos de reconhecimento do mundo, que não são bons nem maus, são distintivos e, tantas vezes, sem sentido algum…
partilho deste seu gosto. magnífico texto, o seu.
curiosamente, contudo, não apreciei a sua última frase. não me adoro porque adoro a bette davis — ela é muito mais e muito mais diferente de mim, e por isso a minha adoração; adorar bette davis está para além de adorar cinema, seja porque haverá quem o adora e não a ela, seja porque, ao contrário, adorar cinema faz adorar-nos todos os que sejam adoráveis nele: não é exclusivo dela.
prefiro assim imaginar que o texto termina na última frase, forte e bombástica como bette davis foi e é.
Pedro,
Se há algum texto, para além da admiração, que eu inveje letra por letra e, ainda mais, a idéia, é esse. Bette Davis é referência e afeto. Nas minhas mais remotas lembranças de embevecimento, lá está ela, lá estão suas interpretações intensas. Adoro mesmo (e que precisão de linguagem voc~e alcançou!): a febre, a faca, a flama, a fúria, a gente maior do que a vida.
“She did it the hard way”, mas admirá-la fez minha vida mais fácil.
Uma bela “bumpy ride” este texto, mesmo de “fasten the seat belt”.
Pedro, texto fantástico. Li-o todo às 4 da manhã nas chegadas do aeroporto Charles De Gaulle. Estavam 0 graus e vim fumar um cigarro cá fora. O fogo que emana do texto fez-me voltar para dentro para me poder refrescar. E com tudo isto deixaste mais uma lista temática para seguir.
Abr V.
Agradeço muito os vossos comentários, companheiros. A sua análise holística é muito interessante, Origami. Volte sempre, por favor.