And after many a summer dies the swan

Ainda não percebi  se me divirto ou não nestas festas. E quando é em minha casa é pior ainda. Gosto que me venham visitar mas já sei que é sempre a mesma coisa. Eles até se portam bem, não costuma haver desastres, mas estou farto de crianças. Claro que, para mim, são todos crianças.  Há anos ainda fazíamos encontros entre nós, os poucos que sabemos o que é ter esta idade, mas foram rareando. Fartámo-nos uns dos outros, as conversas, as queixas eram iguais. Perdemos a capacidade de nos surpreender. Vimos tudo, fizemos tudo, vivemos mil vidas numa só. Já não há novidades. Já não há… sabor, acho que é sabor o que falta.

Estão tão habituados a mim que nem reparam nas nossas diferenças…a verdade é que são incapazes de compreender a nossa real diferença.  Não se faz mais o que eu fiz. Quando  perceberam as consequências, o negócio acabou, os laboratórios foram selados e nunca mais se soube de nenhum caso. Ninguém quis voltar a tentar… acho que sobrevivemos  uns mil.  É o que dizem, mas talvez seja exagerado. Eu conheço 20 pessoalmente e sei de mais uns cem. O processo tinha as suas complicações. E nem todos aguentaram ficar com este aspecto. A mim é-me indiferente agora. No princípio era mais difícil, mas a transformação foi lenta. Demorou tanto que a memória do que erámos antes perdeu-se.…é claro que sabiamos que podia haver “efeitos secundários”. Como foram surgindo pouco a pouco foi quase natural. Para cada geração era como se tivessemos sempre sido assim… já cá estávamos. Eu não me esqueci, mas faço por isso…não sei se as festas ajudam ou não. Tento.

Eles são todos bonitos, feitos para a perfeição física e intelectual, nunca envelhecem, não perdem capacidades. Apagam-se quando chega a hora deles e, se quiserem mesmo, apesar de ser proibido, até podem saber quando é a tal hora. Todos sabem. Todos arranjam maneira de descobrir. É essa a grande diferença entre nós. Eu não sei, nunca vou saber. Nem sei se um dia…um dia… Ninguém conhece a verdade sobre nós, nem nós mesmos, humanos. Somos os primeiros e os últimos…os imortais.

 

Nota: Título de um conto de Aldous Huxley, inspirado num verso do poema Tithonus de Alfred Tennyson, ambos sobre a imortalidade

Comentários a “And after many a summer dies the swan” (6)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Somos os primeiros e os últimos e sempre fora desta ordem: a imortalidade não é outra coisa se não uma perigosa desordem.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Tem muita graça, para mim, já ter sonhado uma coisa seriamente parecida — até a sugestão, chamemos-lhe, entrópica.
    Manuel: sim, fora desta ordem, mas porquê perigosa? Não será tão perigosa como qualquer outra?
    E lembrei-me a propósito das ‘naturalidades’ da Eugénia,que encaixam aqui tão bem (parece-me…)

    • Marta Costa Reis diz:

      Foi sonho mesmo? Não deixa de ser uma coincidência engraçada. A foto levou-me logo para este imaginário. Impressionou-me realmente a naturalidade em cena tão pouco “natural”, como é que ser tão estranho ali pertence tão bem, mas simultaneamente torna tudo tão irreal.

  3. mario silva diz:

    Interessante o seu post. Procurar que os outros nos surpreendam, não é uma forma de preguiça, de chegarmos a nós com pouco esforço?

    • Marta Costa Reis diz:

      Suponho que os outros são sempre uma forma de chegarmos até nós, com ou sem surpresa, não tenho a certeza é que o esforço seja menor.

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