Findo que está o primeiro mês de 2011, é tempo de fazer o balanço das nossas resoluções de ano novo: importa apreciar a sua bondade e adequação para, sendo o caso, corrigir o rumo traçado. Como? Pois detendo-nos a avaliar o estado do seu cumprimento, melhor dizendo, da falta dele, que por esta altura deverá ser já uma realidade. E, a ser assim, um excelente indício. Estranho? De todo.
As resoluções de ano novo exprimem um ideal de disciplina, controlo e harmonia que, se cumprido, ainda que só em parte, faria de nós modelos inquestionáveis de perfeição. Mas seguramente não de felicidade — tão contrariados, aperreados e tensos andaríamos. Algo verdadeiramente nefasto, a evitar a todo o custo.
Para que servem então tais intenções e objectivos que, ano após ano, vamos reiterando, de forma mais ou menos explicita? Não decerto para nos pressionar, culpabilizar ou diminuir: para isso bem basta o que de sofrimento e aborrecimento a vida nos traz, sem que o possamos evitar. É outro o sentido destas resoluções: lembrar-nos que não somos, que nunca seremos, perfeitos, completos, exemplares. E é justamente nessa medida que contribuem para fazer de nós melhores pessoas — porque mais humildes, realistas e razoáveis no que exigimos de nós próprios e dos outros.
Que assim é mostra-o bem o facto de raras dessas resoluções respeitarem a aspectos verdadeiramente essenciais da nossa maneira de ser e de viver: do que se trata é de pormenores, quando não de meros retoques. Uma espreitadela à lista das Top 10 Commonly Broken New Year´s Resolutions, publicada na edição online da Time confirma esta minha tese: adquirir uma excelente forma física, fazer uma alimentação mais saudável, aprender algo novo, viajar para novos lugares, tornar-se voluntário, não stressar tanto… cherries to top the cake, nem mais, nem menos. Porque a verdade é que as grandes e definitivas mudanças (como deixar de fumar ou de beber) se devem em regra a razões bem mais prementes, que o singelo ano novo, vida nova…
Por tudo isto, as resoluções de ano novo serão tanto mais adequadas quanto mais inatingíveis, tanto mais bem escolhidas quanto mais difíceis de cumprir. O que vale por dizer que tudo o que seja fácil, exequível, agradável até, não vale. Para este efeito, claro.
Pela minha parte, o balanço não pode ser melhor: logo na primeira semana do ano recaí no péssimo hábito de roer as unhas, que por ora mantenho; ainda não fui ao ginásio e não sei quando o farei; a média diária de cafés excede o que mandaria o bom senso, as horas de sono, passado o estado de excepção que antecedeu a discussão da tese, têm vindo a decrescer para os lamentáveis níveis do costume. E não, não faz parte dos meus planos para as próximas semanas (leia-se meses) arrumar o que quer que seja aqui por casa. Pode dizer-se que comecei e estou a ir realmente bem.
Se, contudo, é outro o vosso caso, se estão a conseguir cumprir, no todo ou em parte, as vossas resoluções de ano novo, pois há que rapidamente arrepiar caminho: estas não servem. Urge substituí-las, quanto antes, por outras, bem fora do vosso alcance. Quais? Pois cada um saberá de si. A razão de tanta pressa? Aproxima-se o início de um novo ano — no calendário chinês, que o dedica ao Coelho. Uma ocasião a não perder: têm exactamente três dias.


















Ah, pronto, Joana, agora compreendi tudo e senti-me acompanhada. Julgava eu que não atingir os objectivos que a cada ano novo formulo intimamente, enquanto finjo que não é nada comigo, se devia às minhas incapacidades. Bem, há-de dever-se e muito, mas pensar que o problema não está só em mim, mas na inatingibilidade dos ditos propósitos, já me consola um pouco.
Ivone, rejubile: seja porque na parte das incapacidades e das limitações nos vamos todos acompanhando e compreendendo, o que é sempre bom, seja, sobretudo, pela constatação da sua reiterada e (agora) atestada mestria na escolha de propósitos, excelentes poque inatingíveis! Está no bom caminho, pelo que pode bem passar sem o Coelho …
Jeanne,
este ano, à meia noite, nem as malfadadas passas. Nem imagina a satisfação que tive, a não desejar sequer meia pevide, enquanto via da varanda os fogos com o Cão. Para a ano que se aproxima, chinês, farei, então, pedidos da China. Mas só 3 ou 4 porque em homenagem à circunstância vou acompanhá-los de líchias.
Eugénia, esses seus pedidos da China deixaram-me realmente impressonada – por tudo o que evocam de minúcia, pormenor, paciência, impossibilidade, em suma – e, needless to say, curiosíssima!
PS – Não desfazendo nas suculentas e requintadas líchias … não seria apropriado o consumo de também de cenouras, atendendo ao orelhudo bicharoco que é suposto festejar-se?
Não imagina a alegria que tive a ler este seu texto e tão feliz que fiquei por saber que, não só não sou a única absolutamente incapaz de cumprir as resoluções de ano novo, como, para mais, tal incapacidade de cumprir é normal e, ainda por cima, desejável!!! E eu que sempre me zanguei comigo por não conseguir cumprir…
Esclareça-me por favor, informadíssima que está sobre o tema, se esta regra de incumprimento reiterado — mas saudável! — de resoluções de ano novo vale também para aquela, muito típica, do início de Setembro (sim, aquele momento em que prometo a mim mesma, cheia de boas intenções, que “Este ano vou começar a estudar todas as cadeiras no início do ano e vou deixar de ser tonta e andar aflita na época de exames!”). É que também nunca a consigo cumprir… (salvo honrosas excepções de cadeiras que me entusiasmam tremendamente)
Enfim, persistente que sou continuarei a tentar cumprir as impossíveis resoluções para este ano, mais desassombrada, porém, face à tremenda dificuldade em fazê-lo :)
Ó Teresa, então a menina, sempre tão simpática e bem-disposta, zanga-se consigo própria, sempre tão idem? Que coisa mais horrível, muito pior que roer as unhas ou baldar-se reiteradamente à ginástica!
E claro que esta regra se aplica ao início de Setembro e aos excelentes, porque inalcançáveis, propósitos que por essa altura se formulam! Trata-se de um patente caso de interpretação extensiva, a qual carece de ser complementada com uma interpretação actualista e totalmente adaptada a Bolonha e à semestralização das cadeiras dos curricula universitários: ou seja, vale também para o chamado semestre de Verão, que começa já a 15 de Fevereiro. E constitui entendimento pacífico, claro, que se aplica, não apenas a alunos, mas também a professores…
O texto é tranquilizador mas como psicóloga diria que estás a tentar reduzir a dissonância cognitiva. Palavrão que define o estado psicológico em que ficamos quando as nossas acções não são congurentes com os nossos pensamentos/ os nossos valores/ as nossas convicções. Também se identifica bem quando deviamos por exemplo estar a estudar e damos connosco no cinema… Rapidamente nos assalta o seguinte diálogo interior: “ainda bem que vim ao cinema porque assim quando chegar a casa estudo com mais vontade”.… no teu caso seria : “ainda bem que não comecei a ginástica porque senão esta semana não conseguiria ter feito nada”; “ainda bem que não arrumei nada porque preciso de umas estantes novas…”, “ainda bem que tenho roído as unhas porque assim poupo no verniz :-), .….
Mesmo sabendo que ando a reduzir a minha dissonância cognitiva por não ter iniciado um único dos meus propósitos, vou mesmo apostar no “Coelho”. Penso que 3 dias chegarão para voltar a definir resoluções tão inatingíveis quanto as já definidas dia 31 de Dezembro!
Fátima, sê muito bem aparecida!
O que eu gostei da ideia de “reduzir a dissonância cognitiva” — leiga que sou, costumo chamar a isto “lindas desculpas” ou mais juridicamente, “fortíssimas atenuantes”! Mas é mesmo, mesmo isso …
Boa sorte com o Coelho … só espero que não nos saia um apressado e atrasado como o da Alice no Pais das Maravilhas, sempre a stressar e a correr, enquanto amaldiçoa o relógio …
Bem, como o ano astrológico começa a 21 de Março, como o Equinócio da Primavera, ainda temos pelo menos mais essa hipótese para desejar o impossível e rejubilarmos com a nossa própria imperfeição. Muito bem notado (e escrito), Joana!
PS — mesmo assim, precisava mesmo de arrumar a casa e de perder uns quilos!
Marta, Marta, Marta! Não me desgrace. Tenho centenas de ficheiros por organizar, mais os concretos papéis, e ando ao largo da balança a ver se ela não me grita.
Anime-se, Eugénia, a minha balança sucumbiu faz tempo…nada pode ressuscitá-la.Já desisti.
Já tomei nota, Marta: ontem e hoje distraí-me das unhas e arrumei vários livros e papeis – tive uma derrocada em cadeia e já não conseguia passar para me sentar a trabalhar – pelo que estou à beira de ser desclassificada … e não sei se consigo ainda ir a tempo do Coelho!
Ó meninas, mas que desatino!!! Este canto do cemitério está aqui, está tipo muro das lamentações!!!
Você rói as unhas, Joana?!!!!…
É que acabo já-já o noivado! É que nem pensar!
(por favor devolva o esmalte e foto…)
Tudo culpa sua, Antóno Benedito: se em vez do esmalte, com uma irreconhecível reprodução da sua pessoa (a sépia, mon Dieu …. certas pessoas são meeeesmo antigas!!!) e mais o molho de fotos, ainda por cima já publicadas aqui no blog, me tivesse dado um anelinho de brilhantes à maneira, a ver se eu não andava aí toda catita, de unha comprida e vermelha, na maior ostentação!
E não, não devolvo nada: as fotos estão ali todas viradas de cabeça para baixo enquanto acabo de ler os últimos capítulos de um curso de voo-doo que ando a tirar online …
Ora acabe, acabe lá o noivado que eu digo-lhe! Mas que coisa!
Motim!!!
Sem muito esforço, mentalmente, no final do ano fiz uma lista de pequenas mudanças, principalmente de hábitos.Estamos em Fevereiro e não consegui mudar uma única vírgula. Pelo menos não retrocedi.Continuo fazendo tudo exatamente como fazia antes.Mas como a Marta, continuo desejando o impossível. Vou esperar o próximo trem, acho que o de março :o)
Turmalina, está no bom caminho, é o que importa. E Março ainda está bem longe … O não ter retrocedido também me parece uma excelente abordagem nestas matérias tão complexas … ;)
Já não sou temerária ao ponto de fazer resoluções de Ano Novo. Até porque ainda ando a treinar as que fiz há alguns anos atrás e que incluiam ser mais paciente e fazer mais elogios…
A oferta de ajuda na arrumação doméstica, mantém-se, já sabes que adoro um programa assim (se incluir chamar o lixo camarário, a minha alegria fica completa).
Ó Sofia, essa do ser mais paciente leva louvor e distinção, na escala das impossibilidades que definem a excelência de qualquer resolução de ano novo!
E tu não repitas isso da oferta de ajuda na arrumação doméstica mais vezes … viste, viste o que aquelas almas escreveram lá por cima? É que ainda te desgraças… Mas já que insistes, e porque da ultima vez que fui à arrecadação não só não consegui entrar, como me vi em apuros para fechar a própria porta…. sabes se lá no lixo camarário têm camiões TIR?
Senhora Doutora,
Subscrevo completamente. Discordo apenas de «publicada na edição online da Time confirma esta minha tese:» por que a tese já foi e falamos é da Vida, isn’t it? Grande beijo, minha amiga.
Claro que falamos da Vida, querida Teresa. Tão mais a sério, quanto mais a brincar o parecemos às vezes fazer … Grande beijo