A vida é uma festa

Charlie White, “Cocktail Party”, 2000

Ao contrário dos outros homens Dean Martin não tinha medo de si próprio.
É sabido que essa ausência do medo e da medida que ele nos dá, é uma força terrível, capaz, por exemplo, de permitir que um homem se sinta livre para disparar a eito sobre os transeuntes de um centro comercial. Os especialistas que nessa noite serão chamados à televisão para atribuírem explicações à tragédia, irão recorrer às fantasias mais populares, aquelas que confortam os espíritos ansiosos, evocando um indubitável problema no super-ego do furioso, ou convocando entidades mitológicas como a Sociedade, que é, como se sabe, a deusa da culpa.
O mais certo será, portanto, que ninguém conclua por dizer: aquilo foi alguém que perdeu o medo. Seria demasiado simples, demasiado próximo de nós, demasiado temível.
Ora Dean Martin não era assim. Por mais bêbado que estivesse, por mais embotado que ficasse ao fim de uma noite contínua de poker, nele se preservava um fundo de compostura que lhe permitia nunca descambar numa situação aviltante. Achavam-no engraçado, não o viam como desesperado. Nos círculos boémios de Las Vegas, nas cocktail parties da sociedade diletante e desafogada dos anos 70, nas pândegas entre rapazes de cadastro, Dean Martin era aquele que destoava sem contrastar, que estava sempre bem, sem pertencer, um alien afável e sem perigo. Já o conheciam.
Como desde muito cedo manifestou uma inclinação natural para o vício e fez dele um modo de vida, nada em Dean Martin parecia pervertido, apenas estouvado. O jogo, o tabaco e decerto outras substâncias menos legais, as más companhias, o music hall, as mulheres desinteressadas e, sobretudo, o álcool, todo o álcool huamanamente possível, tudo isso foi a vida que Dean Martin habitou e, por mais esquisito que seja ao senso comum, nada disso contribuiu decisivamente para a sua morte – faleceu aos 78 anos, bem mais velho do que muitos parcimoniosos.
Aos 15 anos Dino Paul Crocetti mudou de nome para Kid Crochet, bem mais ajustado à carreira de boxeur que pretendia; aos vinte e tais apresentava-se como Dini Martini de modo a tornar credível a sua actividade como croupier num casino ilegal. Só se converteu no eufónico Dean Martin, quando começou a ser reconhecido como crooner, no inicio da década de 40.
Um nome é apenas uma pele, capaz de se regenerar quando, por exemplo, é queimada, foi por isso de nome em nome que Dean Martin chegou àquilo que sempre quis ser: um homem em equilíbrio entre a intensidade e a nonchalance.
Esta trajectória permitiu a Dean Martin assumir a sua própria personagem com desprendimento, num rasgo que noutros seria de coragem e de temeridade. Foi assim que aceitou entrar nos filmes, Rio Bravo e Kiss Me, Stupid desempenhando dois papéis tão perfeitos para ele que só puderam ter sido desenhados à sua imagem – a de um alcoólico desamparado, sem credibilidade, amesquinhado, mas posto perante uma última hipótese de regeneração. Não deve ter havido figuras mais verdadeiras e mais opacas em toda a história do cinema.
Um homem sem medo de si, portanto, de se mostrar tal como não era mas fazia crer. Um estranho, refugiado numa vida estranha.

Comentários a “A vida é uma festa” (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A propósito da nonchalance martiniana, uma das citações que dele mais estimo é esta:
    “Milton Berle is an inspiration to every young person that wants to get into show business. Hard work, perseverance, and discipline: all the things you need…when you have no talent.”

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    As pessoas são exactamente como parecem ser, há apenas muitíssima falta de atenção, ou de tempo ou vontade para ser atento. Nem toda a tristeza é ácida, nem sempre exclui alguma felicidade, nem sempre o excesso é um ismo de doença. O higienismo é uma seca, aquele senhor doutor do laço e do coração de Becel dá-me vontade de fumar.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Talvez o D. Martin fosse afinal aquilo que parecia não ser. Os pequenos mitos que criamos e que deslizam para dentro do ser, fundindo-se exactamente.
    Acho que ele gostava de si próprio e do que fazia — mas a verdade é que nada conheço em termos biográficos.
    Sempre o achei um tipo divertido. Com talento natural.

  4. Turmalina diz:

    Eu sempre achei o D. Martin com cara de boêmio.Foi bom vê-lo assim da forma que descreve.Nem bem, nem mal. Muitos anos antes artistas morriam de tuberculose e nem por isso deixavam de ser brilhantes.Achei que foste justo com ele.

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