A refletir

Olafur Eliasson, “Spiegeltunnel”, 2009

Refletindo, portanto, porque a isso a lei nos convida, a primeira ilação, quase imediata, está em verificar que a vida das instituições é frágil e o sr. Hobbes tinha demasiada razão para demitirmos as suas cautelas da actualidade.
Logo a seguir a esta constatação, outra desponta de um modo claro, desenganando os literatos e demais impacientes que imaginam o Fim sempre em forma de apocalipse, com enxofres, desabamentos, mortandades, fragores e outras situações épicas assim. Não senhores, às vezes, o mais das vezes, o Fim é um movimento lento, uma decomposição, é esquivo, pois quando reparamos já aconteceu antes, sem termos dado por isso.
Não nasceram do ar tais reflexões, já que vêm a propósito das eleições presidenciais, creio que em consequência da evacuação ou fuga ou renúncia, de José Eduardo Bettencourt do cargo de Presidente do Sporting. Ele que fora ungido, mais do que eleito, com uns coreanos 90% dos votos expressos, imensamente legitimado para levar o mandato a seu bel prazer, de mãos livres para decidir todas as medidas urgentes e necessárias de forma a completar o projecto que havia iniciado quase uma década antes e regenerar, de uma vez por todas, as ambições do Sporting. Pois nada de nada e agora aqui estão os candidatos perfilados a suplicarem o voto, reclamando cada um trazer consigo a solução cabal, capaz de recolocar o Clube no caminho da luz e da abundância.
Mas, digo eu sem comprometer mais ninguém nas minhas palavras, nenhum deles me convence. Vejamo-los.
Um deles, o mais seco de todos, ninguém nega que sabe de cálculos e finanças em abstracto, é um emérito professor dessas artes, mas ninguém o viu no exercício diário e persistente de aplicar os altos pensamentos ao fecho de contas do ano, às previsões de P&L, aos balancetes do mês. Além disso, tão árida é a sua pose, etérea a sua atitude, tão avesso à explicação o seu comportamento, que não o vemos lidar com as massas populares, por norma ululantes, com as contingências do jogo, tão incongruentes que são, ou com os desaires injustos e inesperados mas constantes. Para além disso, já não é possível deixar de reparar nas companhias de muito má nota que há anos rodeiam a sua proba figura. O que intriga.
E é este o melhor dos pretendentes, pois o seu mais chegado opositor, aquele com ar de morgado bem nutrido e resguardado dos azares da vida, continuou a mostrar-se como um profícuo diletante, rebentando em generalidades. Tem boa voz para entusiasmar a bancada pois tem, mas recolhido ao gabinete onde lhe pedem para planear, decidir, resolver, continuará a emular por uma pena o Conselheiro Gama Torres de “O Conde d’Abranhos”:
Colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e bamboleando o seu crânio fecundo murmurava surdamente:  
– Ele há muitas questões! … Há questões terríveis. Há a prostituição… o pauperismo… Ele há muitas questões…
Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:
– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!..
.”
Na cauda deste curto pelotão de candidatos vem o pior deles, aquele que, ainda mais genérico do que o anterior, diz que não quer o que quer e não é o que está a ser. O que reclama ser contra aquilo a que se candidata, como se quisesse ser presidente de um clube desportivo detestando o desporto e nele só ver os meandros, dirigir uma equipa de futebol odiando o futebol, as caneladas, a grosseria dos jogadores, a má fé dos árbitros, dizendo que nisto não se mete metendo-se contra todos os outros.
Como se salvará o Sporting?

Comentários a “A refletir” (2)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    (…)«recolocar o Clube no caminho da luz», Zé? O Sporting estará sempre no caminho da Luz!
    Não desanimes.
    Olha, também vou reflectir ali e venho já!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Não tenho particular pachorra para instalações. Mas uma das coisas mais bonitas que vi/vivi foi com com esse Olafur Eliasson dum raio. (Cheguei a fazer um texto também sobre, por coincidência recentemente, mas não publiquei) Esse homem compreende a luz como só a gente do norte compreende, e, às vezes, faz-me muito feliz — tenho fraqueza por luz, dos candeeiros à pintura, na poesia. Outras vezes odeio-o: tem a minha idade e sabe tudo.

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