É, entrei na senda do crime. Enfim, do pequeno crime. Mais concretamente: do delito. E cheguei a uma conclusão esplêndida: a vida marginal torna-me mais afável.
Foi aqui e com todo o prazer
Arquivo | Janeiro de 2011
Findo que está o primeiro mês de 2011, é tempo de fazer o balanço das nossas resoluções de ano novo: importa apreciar a sua bondade e adequação para, sendo o caso, corrigir o rumo traçado. Como? Pois detendo-nos a avaliar o estado do seu cumprimento, melhor dizendo, da falta dele, que por esta altura deverá ser já uma realidade. E, a ser assim, um excelente indício. Estranho? De todo.
As resoluções de ano novo exprimem um ideal de disciplina, controlo e harmonia que, se cumprido, ainda que só em parte, faria de nós modelos inquestionáveis de perfeição. Mas seguramente não de felicidade — tão contrariados, aperreados e tensos andaríamos. Algo verdadeiramente nefasto, a evitar a todo o custo.
Para que servem então tais intenções e objectivos que, ano após ano, vamos reiterando, de forma mais ou menos explicita? Não decerto para nos pressionar, culpabilizar ou diminuir: para isso bem basta o que de sofrimento e aborrecimento a vida nos traz, sem que o possamos evitar. É outro o sentido destas resoluções: lembrar-nos que não somos, que nunca seremos, perfeitos, completos, exemplares. E é justamente nessa medida que contribuem para fazer de nós melhores pessoas — porque mais humildes, realistas e razoáveis no que exigimos de nós próprios e dos outros.
Que assim é mostra-o bem o facto de raras dessas resoluções respeitarem a aspectos verdadeiramente essenciais da nossa maneira de ser e de viver: do que se trata é de pormenores, quando não de meros retoques. Uma espreitadela à lista das Top 10 Commonly Broken New Year´s Resolutions, publicada na edição online da Time confirma esta minha tese: adquirir uma excelente forma física, fazer uma alimentação mais saudável, aprender algo novo, viajar para novos lugares, tornar-se voluntário, não stressar tanto… cherries to top the cake, nem mais, nem menos. Porque a verdade é que as grandes e definitivas mudanças (como deixar de fumar ou de beber) se devem em regra a razões bem mais prementes, que o singelo ano novo, vida nova…
Por tudo isto, as resoluções de ano novo serão tanto mais adequadas quanto mais inatingíveis, tanto mais bem escolhidas quanto mais difíceis de cumprir. O que vale por dizer que tudo o que seja fácil, exequível, agradável até, não vale. Para este efeito, claro.
Pela minha parte, o balanço não pode ser melhor: logo na primeira semana do ano recaí no péssimo hábito de roer as unhas, que por ora mantenho; ainda não fui ao ginásio e não sei quando o farei; a média diária de cafés excede o que mandaria o bom senso, as horas de sono, passado o estado de excepção que antecedeu a discussão da tese, têm vindo a decrescer para os lamentáveis níveis do costume. E não, não faz parte dos meus planos para as próximas semanas (leia-se meses) arrumar o que quer que seja aqui por casa. Pode dizer-se que comecei e estou a ir realmente bem.
Se, contudo, é outro o vosso caso, se estão a conseguir cumprir, no todo ou em parte, as vossas resoluções de ano novo, pois há que rapidamente arrepiar caminho: estas não servem. Urge substituí-las, quanto antes, por outras, bem fora do vosso alcance. Quais? Pois cada um saberá de si. A razão de tanta pressa? Aproxima-se o início de um novo ano — no calendário chinês, que o dedica ao Coelho. Uma ocasião a não perder: têm exactamente três dias.
As saudades que eu já tinha. Do lindo e animado cemitério e dos que o fazem assim. De uma lista e de um desafio. Foi, com rubro e intenso prazer que li este post do Manuel Fonseca e que durante dias e dias em que não podia, não devia, não conseguia escrever, antecipei este momento. Estou de volta. E trago comigo a listinha das coisas que me dão um rubro e intenso prazer. Ei-las.
Vento de mar. Sobretudo no Inverno. Quando me gela a cara e as mãos, me sabe e cheira a sal e a algas e a Verão, me revolve e me encaracola o cabelo, me leva para longe todos os sons, deixando-me só com o das ondas.
Vinho do Porto. À lareira, com nozes ou avelãs, que vou ou me vão partindo, as cascas atiradas ao fogo. Ou à mesa, tarde, noite fora, a prolongar uma refeição, uma companhia, uma conversa que não têm de acabar …
Ler. Com tempo, com todo o tempo pela frente. Quando o calor me faz fugir da praia, à sombra da minha árvore, o pé descalço apoiado no tronco. Ou na rede pendurada na imensa tília da minha avó, ao fundo do jardim, a espreitar a serra em frente e a ouvir lá atrás as vozes e as atarefações de uma casa cheia.
Ganhar. Não importa ao quê — às cartas ou aos dados, ao Stop ou ao Monopólio, uma aposta, uma corrida, uma discussão. Importa como: sem batota, sem truques, sempre playing by the rules. Pois nisso está boa parte do sweet taste of victory …
Chocolate. Preto, mas também pode ser do outro. Estimula e inspira, concentra e fortalece, cura desgostos e potencia alegrias – digo eu, devoradora convicta e impenitente, suportada em décadas de experiência.
Laços. De afecto e de amizade. Tão diversos quanto o são aqueles com quem os crio, os mantenho e os desfruto. Aquele momento único — uma conversa, um comentário, um gesto – em que se descobrem afinidades e empatias, gostos comuns e contrastes surpreendentes, em quem se não conhecia ou em quem sempre esteve por perto, e que marca the beginning of a beautiful friendship…
Rir. Muito. Abertamente ou à socapa, a propósito e também a despropósito, de uma piada certeira, de um aparte inesperado, de uma situação constrangedora, de um cenário absurdo. E sobretudo dos delirantes erros, gaffes e enredos que constantemente me acontecem, graças ao meu intensivo multitasking e ao meu desmedido optimismo.
Abraços. De dar e de receber. Abraços apertados, envolventes, quentes. Silenciosos ou ruidosos, mas sempre expressivos – sejam macios de ternura, de consolo e de protecção ou vibrantes de partilha, de triunfo e de alegria.
Presenteado logo pela manhã com um vídeo singular, enviado por mail pelo meu mais velho amigo (conhecemo-nos, se bem me lembro, desde os dois anos), sobreveio uma epifania regressiva que muito me perturbou.
Explico já de seguida: é que em 1947 eu, AEQ, ainda não era nascido; logo devia ser tecnicamente impossível lembrar-me dos acontecimentos (de todos, estava lá!) que este excelente filme denuncia com pormenor e eloquência.
Acontece que ao clicar no dito, que logo começou a correr como manda a pêga da lei, tive uma epifania regressiva: era, afinal, um jovem cantor da Jimmie Lunceford Orchestra, amante da querida tia Evita (sim, a Perón!, tratava-a assim porque ela era um pouco mais velha do que eu…), com quem me encontrava em Lisboa para despistar o palerma do marido — que a julgava em plena diplomacia paralela; e morri quando tentava provar que o meu querido amigo Jimmie tinha sido
envenenado por um peixeiro racista de Seaside – afinal, o mesmo sacana que acabou em definitivo com a minha ainda bem jovem tosse cerca de ano e meio mais tarde (o que por um lado foi bom pois assim não assisti à dolorosa sublimação do Anjo dos Descamisados…).
E sim, sei que o Varguitas me plagiou uns anos depois.
Mas voltemos ao presente – porque foi no presente que encontrei o catalisador necessário a esta viagem a memórias desencarnadas (gostei imenso desta tirada, tipo David Luís!).
Como alguns de vós estarão lembrados, há cerca de uma semana coloquei aqui (e aqui também) uma teoria sobre os Painéis de S. Vicente. Num ataquinho de simplicidade que não me é nada próprio julgava a teoria inédita. Mas a simplicidade em excesso pode pregar grandes partidas, como adiante se verá – naquele que foi certamente um dos primeiros filmes a cores feito em Portugal.
Vejam apenas até ao ponto em que aparecem os ditos Painéis de S. Vicente (são só dois minutos, vá, aproveitam e vêem a querida Eva, ao lado da D. Gertrudes!…). Aparecem destacados um do outro e são apresentados (em 1947!) como os dois Trípticos de Nuno Gonçalves.
Embora sejam cópias, uma delas particularmente má (o Painel do Arcebispo é uma simples prova de espelho), não deixam de testemunhar qual a sua disposição em pleno Estado Novo.
Logo entenderão a natureza do meu efipânico rewind transmigratório.
É ou não é a prova cabal de que já tinha visto aquilo em algum lado?!…
Mas assim levanta-se-me outra questão, que é esta: se os painéis já estiveram nesta organização (que não é exactamente a minha, como se percebe pela versão que acabei de montar ainda agora sob os auspícios dos rapazes do Património Nacional dos tempos de Salazar – que se fartaram de fazer asneiras, diga-se em abono da verdade) o que terá levado alguém a achar que o acavalamento das pranchas todas é que era bom?… E quando foi isso, no pós 25 de Abril?…
Adorava que alguém me soubesse explicar isso.

Como também gostava de saber se a obra alguma vez foi radiografada ou se alguma da sua tinta foi sujeita a testes de isótopos com Carbono 14.
Aposto que não.
O que se esconde por trás dos olhos de Miss Ruth Elizabeth Davis?
Há quem diga que é a maldade. Outros dizem ser puro génio, esse génio dos irascíveis, ou um outro, o dos sobredotados. Afinal, Miss Davis nasceu durante uma tempestade, no meio da ressonância dos trovões. Ela própria será um, vindo de estrela distante para nos mostrar que, afinal, o espírito tem razões que o corpo desconhece.
Certo é haver um animal inquieto, aprisionado atrás daqueles olhos, nos passos em volta de uma jaula de vidro, inviolável. Podemos admirar a besta, mas se olharmos fixamente viramos estátuas de pedra (a Inclemência), de mármore (a Frigidez), de madeira (o Despeito), jade (o Ciúme), onix (a Compaixão), bronze (a Vingança), espuma (a Hipocrisia). Miss Davis foi a única actriz – a única mulher? — capaz de ser o que todas as mulheres aspiram ser: as mulheres todas numa só.
O talento vinha tanto de uma perseverança devastadora como do engenho congénito, aquecidos nas faíscas do divórcio dos pais e do abandono paterno. Praticou ambos: o divórcio – quatro vezes – e o abandono – não há conta para os tipos que deixou sozinhos num restaurante –, na metodicidade própria a quem conhece demasiado bem o seu destino. “Nenhum dos meus maridos foi homem suficiente para se tornar Mr. Bette Davis” (num testemunho em tribunal, o primeiro deles, o músico Harmon Oscar Nelson Jr, viu provada a alegação de ‘crueldade mental’ infligida por Bette como motivo de divórcio).
A carreira e a arte eram o mais importante de tudo. A corrida de Miss Davis foi sempre uma corrida solitária. Contra os estúdios – foi o intérprete, masculino ou feminino, que mais lutou para se libertar dos contratos a longo termo da “Idade de Ouro” hollywoodiana. Contra o machismo — “o ego dos homens é elefantino”, dizia, não escondendo ter sido fisicamente agredida por cada um dos seus quatro maridos. Contra os ideais canónicos de beleza – Carl Laemmle Jr., o director da Universal que quase acabou com a carreira dela antes de ela a ter começado, disse que “um protagonista ficar com Bette no final do filme é tudo menos um ‘happy end’”. Contra, ainda, as outras actrizes da época, que tinham pavor de Miss Davis como as gazelas e as impalas têm pavor dos tigres. As suas quezílias com Miriam Hopkins ou Susan Hayward ficaram famosas, mas a guerra de três décadas com Joan Crawford, outro felino, tornou-se lendária. De Crawford disse, no sublime veneno que as suas veias bombeavam, “não lhe mijava em cima nem que ela estivesse a arder”. Génio, mau ou bom, mas sempre génio.
O animal por trás dos olhos, e atrás da jaula de vidro, trocava de forma todas as noites, mudando a pele. Em “Of Human Bondage” (John Cromwell, 1934), era um gato quente em telhado de zinco, essa prostituta com coração de enxofre que desgraça o sempre desgraçado Leslie Howard (recebeu a primeira de dez nomeações ao Óscar). Em “Jezebel” (de William Wyler, talvez o homem que mais amou – ele era casado e, pois claro, nunca deixou a mulher -, 1939), era um lobo com pele de cordeiro na antecâmara da Guerra da Secessão, depois arrependido por tanto manipular Henry Fonda – há algum vestido a preto-e-branco mais vermelho do que o usado por Miss Davis no baile central de “Jezebel”?
No “Dark Victory” de Edmund Goulding (1939) é um tigre subitamente exausto, a menina do jet-set diagnosticada com um tumor cerebral incurável, mas em “The Letter” (outra vez Wyler, 1940), transforma-se em coruja, ocultando a frustração e o desejo no calor impossível das plantações malaias. Com “The Little Foxes” (ainda Wyler, 1941, “with a little help from Lillian Hellman”) mostra-se tarântula, comendo os restos de uma família sulista na viragem do século passado, enquanto a solteirona Charlotte Vale de “Now Voyager” (Irving Rapper, 1942, com guião de Casey Robinson) passa de lagarta a borboleta pela varinha mágica de Claude Rains — “why ask for the moon when we have the stars?”. Os filmes, as grandes cenas, os números superiores de Miss Davis não param até meados dos anos 40, na melhor série consecutiva de interpretações por uma “leading lady” que Hollywood jamais conheceu.
Há depois um hiato, que só termina no popularíssimo “All About Eve” de Mankiewickz (1950), essa derradeira “bumpy ride” de um cisne negro disposto a não ceder o passo à nova rainha dos lagos, falsa inocente preparando a trapaça. A partir daí, faz um pouco de tudo para sobreviver: westerns de segunda, thrillers de vão de escada, melodramas de série B e até um par de incursões no mais puro grand guignol — o que é “What Ever Happened to Baby Jane?” (ao lado da velha rival Crawford, a quem fez a vida preta durante a rodagem) senão o preâmbulo do giallo?
É nos papéis de filmes menores, de meados dos anos trinta até ao final da década seguinte, que Miss Davis mostra o passo completo da cegonha. Os realizadores, ou os guiões, pouco importam face à evidência. Bette salta entre a caridade de Henriette Deluzy, crismada por uma França intolerante em “All This, and Heaven Too” (Anatole Litvak, 1940), e o narcisismo da Fanny Trellis de “Mr. Skeffington” (Vincent Sherman, 1944) com o desprendimento próprio à Natureza.
Os seus instintos são de peito feito, rugindo, grandiloquentes, mas o tom é igualmente certo, e os olhos tanto dão vontade de chorar por ela como de chorar dela. Quando desce as escadas da mansão no último acto de “Mr. Skeffington” (vi-a com onze anos e lembro-me como se fosse hoje), sente-se nos “Bette Davis Eyes” a fragilidade de uma vida entregue às aparências, e mesmo pelos setenta anos, no “Death on the Nile” de John Guillermin, aquelas pupilas, fabricadas nos trovões, metem medo.
Muitos só lhe viram o excesso e o egocentrismo. Só ouviram a gargalhada, ignorando o rigor, o controlo da energia, o milagre da metamorfose. Claro que o animal Bette Davis sempre devorou tudo: os planos, o guião, a decoupage, a contracena e a jaula de vidro de onde, ainda hoje, procura fitar-nos. Mas para a adorar é preciso adorar a febre, a faca, a flama, a fúria, a gente maior do que a vida. Para adorar Bette Davis é preciso adorar-se, e adorar o cinema.
Estou numa altura terrível, de crise, de decisão, de mudança. O entusiamo sucede-se ao desânimo e este de novo se impõe ao entusiamo num corpo que já não aguenta os excessos próprios de um adolescente. Mas é a vida. E a vida é boa. A vida é óptima.
No meio disto, tenho dado por mim, por razões que não vêm ao caso, a meditar numa oração de que gosto muito (pois é: rezamos sempre quando estamos aflitos), tal como, para nós, foi tradicionalmente fixada: o Pai-Nosso.
Não vou maçá-los com as minhas iluminações interiores neste processo — até porque, em rigor, não as sei quase nunca repetir de olhos abertos -, mas gostava de partilhar convosco uma, apenas uma, inocente descoberta: esta oração começa com a palavra Pai e acaba com a palavra mal.
Parece coisa pouca, mas o facto é que os seres humanos, na sua vida natural, são seres morais, que a partir das suas acções descobrem, ou impõem, ou descobrem e impõem (para o caso tanto faz) uma escolha entre o bem e o mal.
Na vida sobrenatural, ou espiritual, porém, e em especial na religiosa, a escolha não é já entre o bem e o mal, mas entre o Pai e o mal. E isto faz toda a diferença.
Porque o mal, afastando do pai, não se lhe opõe. Porque a escolha, aqui, implica o reconhecimento imediato e interior de duas ordens distintas, que misteriosamente coexistem sem se anularem: a do mal, que divide, que separa e que é, por isso, diabólica; e a do pai, da mãe, de uma nossa origem amorosa, de um colo que nos acolhe e une e contém (por isso é simbólico) e a partir do qual somos amados e capazes de ser amor, mesmo que, às vezes, até, se calhar, muitas vezes, sendo também escravos do mal.
Tenho andado, assim, no meio do entusiamo e do desânimo que se sucedem abruptamente nos meus dias, a tentar ver este Pai na minha vida. A tentar acreditar nele. A tentar acreditar em mim. A tentar acreditar em nós.
Mas Deus não se vê como Deus. Dele apenas dizemos que é Pai, que é nosso Pai, e que devemos manter este seu nome santo, puro, inviolado, pois que o seu nome é o único e fragilíssimo acesso racional que temos para o seu ser.
Acreditando, porém, vejo-o aparecer nas coisas pequeninas, inocentes, até descabidas, que todos os dias acontecem na minha vida e que vão ajudando a suportar o meu desânimo e a estruturar o meu entusiasmo, isto é (literalmente), a saber que tenho Deus dentro de mim, apesar de não saber o que ele é… a não ser, talvez, que é Pai, que é a nossa primeira e amorosa origem, a qual, porque nos antecede, não pode ser por nós exterior e objectivamente vista, mas, porque nos habita, pode intíma e amorosamente revelar-se.
Ainda não percebi se me divirto ou não nestas festas. E quando é em minha casa é pior ainda. Gosto que me venham visitar mas já sei que é sempre a mesma coisa. Eles até se portam bem, não costuma haver desastres, mas estou farto de crianças. Claro que, para mim, são todos crianças. Há anos ainda fazíamos encontros entre nós, os poucos que sabemos o que é ter esta idade, mas foram rareando. Fartámo-nos uns dos outros, as conversas, as queixas eram iguais. Perdemos a capacidade de nos surpreender. Vimos tudo, fizemos tudo, vivemos mil vidas numa só. Já não há novidades. Já não há… sabor, acho que é sabor o que falta.
Estão tão habituados a mim que nem reparam nas nossas diferenças…a verdade é que são incapazes de compreender a nossa real diferença. Não se faz mais o que eu fiz. Quando perceberam as consequências, o negócio acabou, os laboratórios foram selados e nunca mais se soube de nenhum caso. Ninguém quis voltar a tentar… acho que sobrevivemos uns mil. É o que dizem, mas talvez seja exagerado. Eu conheço 20 pessoalmente e sei de mais uns cem. O processo tinha as suas complicações. E nem todos aguentaram ficar com este aspecto. A mim é-me indiferente agora. No princípio era mais difícil, mas a transformação foi lenta. Demorou tanto que a memória do que erámos antes perdeu-se.…é claro que sabiamos que podia haver “efeitos secundários”. Como foram surgindo pouco a pouco foi quase natural. Para cada geração era como se tivessemos sempre sido assim… já cá estávamos. Eu não me esqueci, mas faço por isso…não sei se as festas ajudam ou não. Tento.
Eles são todos bonitos, feitos para a perfeição física e intelectual, nunca envelhecem, não perdem capacidades. Apagam-se quando chega a hora deles e, se quiserem mesmo, apesar de ser proibido, até podem saber quando é a tal hora. Todos sabem. Todos arranjam maneira de descobrir. É essa a grande diferença entre nós. Eu não sei, nunca vou saber. Nem sei se um dia…um dia… Ninguém conhece a verdade sobre nós, nem nós mesmos, humanos. Somos os primeiros e os últimos…os imortais.
Nota: Título de um conto de Aldous Huxley, inspirado num verso do poema Tithonus de Alfred Tennyson, ambos sobre a imortalidade
Sentado num grande sofá de veludo adamascado, em pleno Bunga Bunga, o seu clube privado, Sílvio olhava cansado à sua volta. Via as mesmas caras, as mesmas pernas e as mesmas mamas do costume. Novas, velhas, saídas do boletim meteorológico do Canale 5 ou das fileiras do Grande Fratello, pertenciam todas àquela raça de fêmeas insípidas que frequentavam a sua casa à anos. Che fastidio! Che noia!
Mas ali, agora que olhava melhor, no meio de toda aquela carne já tão usada e cheirada e gasta, estava decididamente algo de novo. Quem seria aquela estranha criatura? Uma mulher a quem uma operação estética teria corrido terrivelmente mal? Uma jovem adolescente com um sério problema de urticária? E de onde viria? Da Roménia? Das Filipinas? De uma favela de São Paulo? Não conseguia perceber. Tudo era possível. Mas uma coisa era certa. Daquela fruta nunca tinha provado.
Sílvio tinha tido um dia infernal. Um que começara em Bruxelas a aturar o pirla do Françês e a sechiona da Alemã, continuado em Roma com uma comissão parlamentar que não era mais do que uma corja de andicapatti e acabado em Milão a aturar o pezzente do advogado da ex-mulher, aquela vaca que a brincar a brincar levava para casa, todos os meses, quase três milhões de euros. Sentia que, hoje, por isso mesmo, merecia qualquer coisa de diferente. Sentia-se arzillo, pimpante, e com vontade de se portar mal. E que problema tinha uma noite um pouco mais bizarra? Seja. Esperava só que aquela ali não se fizesse de difícil. Também com aquele aspecto não poderia ir muito longe. E afinal de contas, com estas puttane, é tudo uma questão de champanhe e cash-flow e ele afinal chama-se Sílvio, e é só o rei incontestável desta grande Commedia all´Italiana.
Decido então deixar, definitivamente, o reboliço de Ginza. Para trás ficaram os arranha-céus e o trânsito, as hordas de gente e o seu ruído ensurdecedor. No parque imperial, aquela hora, não está ninguém. Sozinho, percorro alamedas sinuosas, que alguém cortou na relva com a ajuda de um bisturi. Passo por entre estreitas muralhas de pedra e descubro pequenos lagos preguiçosos onde nadam cardumes de Koy gigantescos, claramente ignaros de um reino que já não é. Só ao chegar lá a cima, onde repousam as ruínas do castelo de Edo, é que me apercebo que não estou só. Penso que terá entrado atrás de mim, a flutuar, rente ao chão, etéreo e silencioso. E foi até ali. Ali no que me parece ser, daqui de onde o vejo, o único sitio possível onde poderia alguma vez pousar.

Quando vi “The Hustler” não fazia a mínima ideia do que era o “film noir”, nem fazia a mínima ideia (e ainda hoje faço pouca) do que seria um director de fotografia. E embora soubesse, estava muito pouco convencido de que o que via no ecrã não fosse, lá no fundo, vivido assim, espontânea e realissimamente como as personagens o viviam.
“The Hustler”, belíssimo filme de Robert Rossen, com estarrecedora fotografia de Eugene Shufftan que lhe deu o Oscar, foi assim que o vi, sem saber de nada e a julgar que sabia que era tudo assim mesmo: aqueles ambientes escuros, a tão pouca luz, o tanto fumo, o desmesurado existencialismo.
Foi neste filme de loosers e pouco ganho que Paul Newman se me apresentou. A preto e branco, muito belo, mas sem os olhos azuis que só depois o technicolor, em que mais tarde vi os filmes que ele fizera mais cedo, me revelou.
Digo e faz de conta por ser de faz de conta um dos diálogos do filme de que não me consigo esquecer. Diziam-no, e eu achava que o viviam, Piper Laurie (Sarah) e Paul Newman (Fast Eddie), quando acordam na manhã “after”:
Sarah: How did you know my name was Sarah?
Eddie: You told me.
Sarah Packard: I lie. When I’m drunk I lie.
Fast Eddie: Okay, so what’s your name today?
Sarah Packard: Sarah.
Lembrei-me. “The Hustler”, o meu Newman favorito, hoje que faz anos de fazer ele anos por ter nascido. Lembrei-me por me ter lembrado que já não sei ver cinema assim.


Charlie White, “Cocktail Party”, 2000
Ao contrário dos outros homens Dean Martin não tinha medo de si próprio.
É sabido que essa ausência do medo e da medida que ele nos dá, é uma força terrível, capaz, por exemplo, de permitir que um homem se sinta livre para disparar a eito sobre os transeuntes de um centro comercial. Os especialistas que nessa noite serão chamados à televisão para atribuírem explicações à tragédia, irão recorrer às fantasias mais populares, aquelas que confortam os espíritos ansiosos, evocando um indubitável problema no super-ego do furioso, ou convocando entidades mitológicas como a Sociedade, que é, como se sabe, a deusa da culpa.
O mais certo será, portanto, que ninguém conclua por dizer: aquilo foi alguém que perdeu o medo. Seria demasiado simples, demasiado próximo de nós, demasiado temível.
Ora Dean Martin não era assim. Por mais bêbado que estivesse, por mais embotado que ficasse ao fim de uma noite contínua de poker, nele se preservava um fundo de compostura que lhe permitia nunca descambar numa situação aviltante. Achavam-no engraçado, não o viam como desesperado. Nos círculos boémios de Las Vegas, nas cocktail parties da sociedade diletante e desafogada dos anos 70, nas pândegas entre rapazes de cadastro, Dean Martin era aquele que destoava sem contrastar, que estava sempre bem, sem pertencer, um alien afável e sem perigo. Já o conheciam.
Como desde muito cedo manifestou uma inclinação natural para o vício e fez dele um modo de vida, nada em Dean Martin parecia pervertido, apenas estouvado. O jogo, o tabaco e decerto outras substâncias menos legais, as más companhias, o music hall, as mulheres desinteressadas e, sobretudo, o álcool, todo o álcool huamanamente possível, tudo isso foi a vida que Dean Martin habitou e, por mais esquisito que seja ao senso comum, nada disso contribuiu decisivamente para a sua morte – faleceu aos 78 anos, bem mais velho do que muitos parcimoniosos.
Aos 15 anos Dino Paul Crocetti mudou de nome para Kid Crochet, bem mais ajustado à carreira de boxeur que pretendia; aos vinte e tais apresentava-se como Dini Martini de modo a tornar credível a sua actividade como croupier num casino ilegal. Só se converteu no eufónico Dean Martin, quando começou a ser reconhecido como crooner, no inicio da década de 40.
Um nome é apenas uma pele, capaz de se regenerar quando, por exemplo, é queimada, foi por isso de nome em nome que Dean Martin chegou àquilo que sempre quis ser: um homem em equilíbrio entre a intensidade e a nonchalance.
Esta trajectória permitiu a Dean Martin assumir a sua própria personagem com desprendimento, num rasgo que noutros seria de coragem e de temeridade. Foi assim que aceitou entrar nos filmes, Rio Bravo e Kiss Me, Stupid desempenhando dois papéis tão perfeitos para ele que só puderam ter sido desenhados à sua imagem – a de um alcoólico desamparado, sem credibilidade, amesquinhado, mas posto perante uma última hipótese de regeneração. Não deve ter havido figuras mais verdadeiras e mais opacas em toda a história do cinema.
Um homem sem medo de si, portanto, de se mostrar tal como não era mas fazia crer. Um estranho, refugiado numa vida estranha.
Eu não sabia de nada e ainda não sei de nada a não ser do que ouvi, do que estou a ouvir. Quem, o Zan que já não vejo há 30 anos, foi o Zan quem me disse, por acaso, no facebook. Não interessa quem são, como se chama o tema. Só interessa ouvir.
http://www.youtube.com/watch?v=a-_IT7FkuDc&feature=related
Como é que um tipo que não vemos há 30 anos nos pode dar uma cardíaca alegria destas.
Gosto tanto que gostava que, neste cemitério, gostassem mais e melhor do que eu






















