
Os filósofos são, por definição, desajeitados. A origem desta ideia, tão antiga como a própria filosofia, está numa história, contada por Platão, no seu diálogo Teeteto, em que Tales de Mileto, por muitos considerado o primeiro filósofo, enquanto andava, olhando para o céu, observando os astros, não viu onde punha os pés, deste modo caindo a um poço, com o que provocou o riso de uma jovem (curiosamente, Diógenes Laércio dirá, mais tarde, que era uma velha) e bonita criada trácia. Este riso – conclui Platão – aplica-se a todos os que dedicam à filosofia, pois que têm o corpo, apenas, na cidade, enquanto o seu espírito viaja atá às profundezas das coisas.
Ora, se este riso espontâneo conhece bem a inutilidade imediata da tarefa do filósofo, que, vivendo com os pés numa dimensão da realidade, mas com os olhos postos noutra, não fará mais que causar o riso ou a raiva dos outros homens (do que a vida e a morte de Sócrates em Atenas é o exemplo por excelência), o facto é que a vida presa à superfície do mundo das coisas (é o que significa a personagem da criada trácia) não tem sentido em si mesma, pelo que, perante o pressentimento da morte dado na natural corrupção dos corpos (o facto da jovem criada se ter tornado velha nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes, é precioso), acontece também espontaneamente aos homens voltarem-se para os filósofos (aqui entendidos como sábios, ou homens das coisas do espírito), para que, embora aparentemente cegos, os guiem.
A tentação científica moderna de tudo constituir em problema que se possa resolver, ou dissolver, porém, elidiu esta natural tensão do caminhar do ser humano (que até então fora expressa por uma relação histórica entre os poderes temporal e espiritual), fazendo com que, hoje, já nem Tales caia no poço, nem a criada se ria. Este nosso mundo, triste e uniforme, faria bem em lembrar a proposta de Platão, que, na República, desde a sua primeira página, propõe uma constante subida e descida (anábasis e katábasis) entre a sensibilidade e a inteligibilidade das coisas e das ideias, bem no meio do livro expressa pela famosa alegoria da caverna, poço de onde Sócrates parte e ao qual regressa, correndo o risco de que se riam dele, ou de que o matem, como de facto, fizeram: porque, cá em baixo, precisamos que nos elevem; porque, também lá em cima, não podemos viver sozinhos.

















Gostei muito Gonçalo. Gosto da “inutilidade imediata do filósofo”,de poder cultivar uma galeria de saberes inúteis e assumi-los como inúteis quando o padrão de valor é o utilitário, o morno, o médio, o triste e uniforme modo que este nosso mundo, como diz, tantas vezes assume. Nesse mundo obcecado por soluções, convém haver quem continue a pensar nas perguntas.
Pois é Marta. E embora de nada servindo (neste mundo em que somos servos), só assim poderemos verdadeiramente carpere diem (num mundo em que sejamos senhores).
Ficando-me pela rama (ó que linda rama) diria que, sem desprimor para a lenda, há filósofos com jeitinho: Espinosa ganha a vida a polir lentes, Leibniz criou uma máquina de calcular e John Locke estou medicina tendo salvo a vida a um amigo com uma infecção de fígado que lhe podia ser fatal. Numa boa discussão com Karl Popper, Ludwig Wittgenstein provou ser capaz de manejar a tenaz com convicção.
Curiosamente, meu bom Manuel, todos os exemplos que dás vêm de um tempo em que a filosofia, do meu humilde ponto de vista, se transformou em algo diferente do que aquilo que verdadeiramente deve ser: sabedoria, meio termo entre a inspiração e a expiração, o sujeito e o objecto: metafísica do vir-a-ser. Todos eles eram já mais cientistas do que filósofos, ou, vá lá, cientistas-filósofos. Mas o filósofo que claramente permaneceu em todos eles foi certamente inútil para as lentes de Espinoza, para as máquinas de Leibniz, ou para a venda de escravos de Locke… já para não falar no fígado do seu amigo, do título inglês do austríaco Popper, ou da tenaz do ilógico Wittgenstein. E não só era inútil, como era mesmno prejudicial. Porque o sábio, na verdade, é desprendido, despreocupado, distraído… não vê onde põe os pés… e se tem de olhar para o chão, para esse chão do dia a dia cá de fora, fá-lo a contragosto e desajeitadamente, como julgo que concordarás.
“Viajar até às profundezas das coisas”, eis o que deixamos de fazer, e deixámos que as nossas crianças deixassem de fazer. Fazer as perguntas outra vez, só pelo gosto das possibilidades de viagem até às respostas, elas em si o menos importante.
É preciso salvar a filosofia da sofreguidão e voragem do presente.
~CC~
Viva CCFa (agora já a conheço um bocadinho mais). É verdade, deixámos de o fazer. E cada vez o fazemos menos e pior. Ou achando que não vale a pena, ou complicando o caminho com pseudo-erudições. Mas todos temos na vida momentos de intuição e de simplicidade inteira.
Dos clássicos gregos até hoje, o riso perante os que olham o céu, pode interpretar-se ou esquecer-se. Que saibem, os que se elevam, manter os pés no chão sem que o poço os engula nem o riso os negligencie. Excelente texto.
Obrigado Dobra. Ainda bem que gostou. Mas é claro que falar é fácil. Mais difícil é conseguir pôr dentro de mim estas palavras que às vezes esvrevo. Algumas, porém, lá vão entrando. :)
Gonçalo: Pôr dentro de si as palavras :) Usá-las nos braços e nas pernas e em todo o contentamento. Questão de treino. Risco: alguma solidão oferecida por uma sociedade virada para os pés. Vantagem: alguma lucidez que vem do céu. E agora? Escolho andar só, ou parar no meio da multidão? Complicado.
Responderia Platão que aqueles que acedem à contemplação do verdadeiro bem se mantêm obrigados a esta nossa existência apenas imperfeitamente boa, a qual têm que partilhar com todos os seus concidadãos. Na verdade, «à lei não importa que uma qualquer classe da cidade seja excepcionalmente feliz, antes procura que isso aconteça à totalidade dos cidadãos, harmonizando-os pela persuasão, ou pela coacção, e fazendo com que partilhem entre si o auxílio que cada um deles possa prestar à comunidade. A lei, com efeito, ao criar homens destes na cidade [– isto é, homens capazes de contemplar o verdadeiro bem e de viver de acordo com ele –], não pretende que cada um se volte para a actividade que mais lhe aprouver, mas que essa actividade contribua para a união da cidade.» PLATÃO, República, VII (519e-520a).
E Aristóteles, claro está, reforçaria a lição do seu mestre, dizendo que «a cidade faz parte do número das coisas que são naturais e o homem é naturalmente um animal político, que está destinado a viver em sociedade; e aquele que, pela sua natureza, e não por efeito de uma qualquer circunstância, não faz parte de nenhuma cidade, é uma criatura ou degradada ou superior ao homem: um bruto ou um deus.» ARISTÓTELES, Política, I, 2 (1253a).