O sagrado e a pornografia reclamam cor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A miséria fotografa muito bem a preto e branco. O erotismo também. A cor introduz quase sempre alguma obscenidade na miséria. Por maioria de razão no erotismo. O preto e branco oferece à miséria e ao erotismo uma beleza prudente, defendendo-os do luxo, da volúpia e do excesso.  A esquerda, se pudesse, faria toda a arte a preto e branco. Porventura abstracta. O descontrolo pagão, piedoso ou barroco – tanto faz – enxofra um bocadinho este clero secular.
O sagrado e a pornografia reclamam cor. Num e noutra pressente-se a mesma energia. Sexual. Que roça a violência. Nada é mais impuro do que o sagrado, nada é mais desconfortável do que a obscenidade da pornografia. E por isso, o sagrado e a pornografia, exigem uma intimidade inviolável.
Experimentei juntar alguma pintura ocidental que lida com temas religiosos e as misóginas fotografias do japonês Nobuyoshi Araki. Têm pelo menos um elemento em comum, o uso de cordas que amarram os seus modelos. Se, para além das suas prodigiosas utilidades, a corda for símbolo de alguma coisa, há-de ser de submissão. Outros dirão de humilhação. Lembraram-me, todavia, que nos ritos mágicos a corda é o precedente maternal do aparecimento de uma serpente e que, nas mitologias escandinavas, com cordas se prendem ventos tempestuosos.
Olho as reproduções destes quadros e destas fotografias e sinto que comungam no fascínio pelo corpo nu, flagelado, submetido a uma violência ritualizada.
Não paro de olhar: os nus masculinos da pintura quinhentista e os nus das fêmeas de Araki são o elemento mais poderoso destes quadros. Não são fracos, nem pedem ajuda.  Exibem corpos tensos que reencontraram a consciência da própria carne, da sua maleabilidade e dos limites que aceitam transgredir. 

As mãos







 

 

Adriaen Isenbrandt é um pintor flamengo do século XVI. Os clientes da sua oficina eram comerciantes abastados. Desculpem-me por, do seu “Cristo coroado com espinhos e a Virgem chorosa”, me fixar apenas neste pormenor. Poupo-vos à imagem do filho flagelado, coroado de espinhos, semi-nú e por isso constrangido, junto à mãe compungida.
As mãos do homem pintado fecham-se sobre o seu corpo, resignadas. Na fotografia de Araki (a preto e branco, hèlas), as mãos da mulher abrem-se, as palmas viradas para o exterior, os dedos numa agitação caótica, mais num delírio liberto do que prontas a segurar ou a servir.

A tensão









 

 

 

Este Cristo com uma corda à volta do pescoço data do século XVIII e é um belo exemplo de arte colonial. Será um trabalho piedoso dos índios paraguaios dos jesuítas, os que ficavam nas reducciones atingindo elevado grau de avanço social e fusão artística? A simetria dos braços, a simetria das pernas, o rigoroso alinhamento dos cabelos, a intensidade muda da figura, dizem que sim, que será certamente o trabalho de um artista guarani.
Este Cristo é um corpo que se libertou das cordas ou que aguarda – impaciente, dir-se-ia – essa coacção? O dela, o da modelo de Araki, é um corpo sereno, repete dele a simetria das pernas e dos braços, mas sem tensão, a pele lisa, macia, opondo-se às marcas de paixão do corpo masculino, a brancura asséptica da pele contrastando com a irrupção dos glóbulos vermelhos da pele crística.

A suspensão

 








 

 

 

Aqui, vemos São Jerónimo segurando dois enforcados pintados por Pietro Perugino que terá frequentado a mesma oficina onde Da Vinci foi, como ele, aprendiz. É um quadro do começo do século XVI.
A suspensão dos enforcados não é angustiante. A São Jerónimo, podemos imaginá-lo incorpóreo, apenas um rosto sobre uma túnica vermelha que disfarça o puro espírito que está por baixo. E é o amplexo do santo que impede que os dois rapazes sufoquem, conferindo aos enforcados uma graça serena e um erotismo apolíneo.
A mulher de Araki revela um desconforto maior. A ampla abertura das pernas, o bloqueio da circulação do sangue, as mãos amarradas atrás das costas, a pressão das cordas no pescoço e nos esmagados seios, não impedem, mesmo assim, que a boca se entreabra vermelha e os olhos se fechem antecipando a polpa de outros dedos, a coincidência de outra epiderme que lhe sussurre “ainda és melhor de frente do que de trás”.

A auréola











 

 

 

Este homem, aquele que foi mais do que todos ecce homo, é de autoria desconhecida, datado do século XVI, embora os padrões pareçam ser os do século XV. Suplício: a corda que vai do pescoço às mãos. As costelas riscadas no peito denunciam, tanto como a cova no ventre, a respiração agitada. A túnica cobre-lhe o olhar – olhos fechados, só olhar velado. O que faz ali a gloriosa auréola, o brilho dourado, o vermelho e veemente recorte da cruz?
Na jovem mulher japonesa, o olhar mortificado (porquê? pela impertinência da humilhação?) faz a ponte para a imagem crística. A flor no sexo é o equivalente à auréola sagrada, inesperado luxo e ademane exuberante no recato da pequena e liquida gruta.

Comentários a “O sagrado e a pornografia reclamam cor” (15)

  1. José Navarro de Andrade diz:

    Só um espírito pérfido como o teu poderia encontrar tanto luxo nesta dor retorcida. E ai de mim que também estou perdido!, pois só vejo infindável beleza nestas poses, pior será o seduzido do que o sedutor.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Zé, nem perfídia, nem perversidade. Apenas um gosto formado na profusão de imagens do catolicismo — santinhos, altares, mantos, halos, crucifixos, presépios, Virgens, Madonas, lava-pés, os negros cabelos de maria madalena. Confesso que me faz impressão a nudez do protestantismo.

  2. teresa conceição diz:

    Imagino o seu sorriso a escrever este texto, Manel.
    Que ousadia a comparação. E por isso mesmo, que achado.
    E que belo o diálogo entre as imagens.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Thérèse, foi mesmo isso, o diálogo, que fez nascer o post. Senti que não forçava e que não era gratuito. O sorriso é verdade, quase sempre sorrio a escrever.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Manuel Fonseca,

    talvez não possa acreditar na sincronia, mas, e por causa do Lucien Freud que o JNA postou, fui buscar esta fotografia do NA e ia usá-la para fazer um daqueles posts de título roubado ao PN: Livre Associação. Mas não o fiz por receio de chocar.

    Decidi então um texto sobre Mirabai e a expressão sexual como expressão da união mística, com fotografias do Araki e fui escolhê-las. Quando voltei, Zás!

    Só não me zango consigo porque nisto que nos mostrou, eu não tinha pensado.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sabe que lhe devo, dos tempos do seu Mátria, o gosto de ler os posts da Murasaki Shikibu que iluminava a castos Araki?!
      Agora quem se zanga sou eu se não publicar esse post de mística e carnal fusão.

  4. Marta Costa Reis diz:

    Muita sincronia realmente Eugénia… eu tenho uma para a troca com a Mirabai. E a flagelação, Manuel! Que dizer da flagelação, meu Deus! Ora aí está um mesmo acto claramente usado para os dois (?) fins… êxtase é sempre êxtase?

  5. Turmalina diz:

    As comparações são fantásticas, Manuel. Fico, mais ainda depois de ler o texto e observar as imagens, com a idéia da submisssão. Uma permitida, ensaiada, desejada e outra não. E no entanto vejo tudo como um tipo de jogo, de poder.

  6. diogo leote diz:

    Depois deste singular confronto sagrado-pornografia, agradeço a nova luz que me foi lançada sobre um dos polos do binómio — o “sagrado” claro está. E, quanto à pornografia, percebo agora (pois é) que faltava mesmo alguma dimensão intelectual (como alguém — quem será? — então nos disse meio subrepticiamente) às nossas anteriores excursões sobre o tema. Não tenho dúvidas de que, quando me atrever a voltar ao tema, pesará sobre mim o fardo pesado da responsabilidade deste brilhante texto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Diogo, o erro de Descartes, como diz o tão pouco nosso Damásio, foi separar o corpo da alma (ou vice-versa). Meter o corpo na escrita ou a escrita no corpo é do mais gostoso que há.

  7. pedro marta santos diz:

    Mais um texto vintage de herr doktor.

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