
É no primeiro verso que o poema nos ganha. No primeiro verso começa, fulgurante, a obscura experiência íntima do poema. Sabemos, nessas primeiras palavras do poema, se estamos perante uma linguagem original, se o seu frágil sopro promete um mundo novo, ou se anunciam uma tensão emocional que nos transfigure em liberdade e desejo.
A minha relação com a poesia é física. Não concebo outra. Pode, depois, ser conceptual, mas no primeiro encontro, quero assaltar e ser assaltado, roubar e ser roubado, pecar e ser pecado.
Tenho primeiros versos que estremeço. No diletantismo de listas que neste cemitério temos feito, lembrei-me de escolher os mais belos ou perturbantes primeiros versos dos poetas portugueses que foram ou são nossos contemporâneos.
1. “Às vezes despedimo-nos tão cedo…” começa assim o poema com o mesmo título que Gastão Cruz, seu autor, continua com quotidiana resignação:
Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste.
2. “De Joelhos” era o canto de Eugénio de Andrade, num poema que, inteiro, é só primeiro verso:
Considerai os joelhos com doçura
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.
3. Não era com voz emprestada, mesmo que o poema venha dedicado a Cesário e a António Nobre, que Ruy Cinatti, na “Memória Descritiva”, começava: “
Eu comi uma inglesa.
Foi em Sintra. Era feriado.”
Para, muitos versos adiante, terminar:
dei-lhe só o que ela quis.
Ou queria…
Com peitinhos de perdiz
e alguma poesia:
The air was cooling
And so very still.
4. Poeta de um discurso ultramarino crepuscular, Rui Knopfli, num pequenino volume, “O Escriba Acocorado”, escreveu “O Cão do Nilo” com estes primeiros versos:
Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto…
Agónico, o poema termina em desespero confessional:
…Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora.
5. Todos os primeiros versos de Herberto Hélder são os mais belos primeiros versos que a língua portuguesa disse. Escolho estes, primordiais, de “Um Amor em Visita”:
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Mas quem se importaria se, de “A Máquina Lírica”, escolhesse antes esta musicalíssima repetição?
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
6. Gosto muito da atenção de Vitorino Nemésio ao corpo, ao ritmo das suas estações:
A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Anos antes, na “Virgem Mulata”, Nemésio já era luminoso:
Tenho uma mulata de prata
A quem chamo Fortunata,
Mulata feita por mim…
E, para que saibam como terminava:
Minha pobre mulata…
De leve blusa intemerata
Que lembra o céu na minha vida!
7. De Jorge de Sena é inescapável não lembrar quanto é carnal a sua poesia:
Rígidos seios de redondas, brancas,
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias…
Ou de evocar a voz política e ética que escutamos na “Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya”:
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advêm
de nada haver que não seja simples e natural.
Carta que terminava com um conselho que o rumor dos dias tantas vezes me faz esquecer, mas gostaria de sempre lembrar:
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Escolhi sete. Podiam ser setenta. São os meus “primeiros versos” favoritos de poetas vivos. Ou que o eram quando eu, então, os li. Com esse ou outro critério, será que os co-mortos autores deste cemitério aceitam o desafio de publicar aqui os “primeiros versos” que os prenderam irremediavelmente aos seus poemas favoritos?

















Inebriada, pelo que já. Curiosa, pelo que vem.
Curioso e impaciente, eu também. A ver se estes mortos declamam!
Boa lista, boa ideia.
Ah, sim?! E de que é que estás à espera, alado dragão?
Da memória, Manuel. Nunca fui um leitor dilecto de poesia, mas também li, senti e gostei. Terei uma listinha, necessariamente breve, …
oh diabo, no que me meteste?
Zé Navarro, chamar «diabo» ao Manuel é muito bem observado — e os diabos metem-se sempre em coisas do diabo…
Zé,
A ti? Ou a todos? Honra me seja, em nada que não me tenha metido primeiro! Menos ai-ais e frou-frou e mais versos é o que é.
Caro Manuel S. Fonseca
Juro que não é uma provocação
mas então …?
e mulheres (senhoras poetas) que escrevem poesia?
…talvez não falem das mulheres da mesma maneira ( risos)
mas … convenhamos
reli o seu texto para ter a certeza que o seu repto não era só para poesia escrita por homens
( senhores poetas) …pois não?
:-)
Rita, fez muito bem em provocar. Mas no meu gosto não há quotas de género. Gosto, porque gosto. Há 3 poetas mulheres, das que pertencem às gerações dos que citei, de que gosto, mesmo se não lhes encontro nos poemas a mesma explosão imagética dos que referi. São a Sophia(que é tão grande), a Fiama e a Luiza Neto Jorge. Desta última, o “Prelúdio Para Sexo E Sonho” começa assim:
“A virilha verde congestionou-me o sonho. Relentado a par de mim e a voz, o eco. Há corpos de homens, rígidos, para deitar abaixo com uma bola vermelha, corpos, subitamente, numa barraca de feira.
A virilha verde retesou-me o sonho.”
sorrio
(… e tem razão, gostos não se discutem)
gostei de conhecer as ‘favoritas’
abraço
Como não sou poeta, sinto.
É mesmo isso, julgo, que poetas querem encontrar: alguém que leia e sinta.
Isto não é uma lista, é uma aula.E quanto mais conheço, mais aprecio Herberto Hélder.
Turmalina, é mesmo e só uma lista e pequena. Mas que continue a descobrir o HH, isso é que conta.
Falta Lady GaGa “We are the crowd, we’re co-coming out”.
Bom Natal a todos
Taxi, cheira-me que a Lady GaGa é fogo fátuo. Bom Natal, caro filósofo.
“O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê”
Sophia de Mello Breyner Andresen
“São os cães da infância os cães dementes
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado”.
J.C. Ary dos Santos
O da Sophia gostei. Passo no declamatório seguinte.
Manuel, quanto à lista logo se verá. Cultivo neste momento a terra com gestos de um outro tempo que (en)cobrem com outras flores a memória da poesia. Mas quero desde já concordar com a importância do primeiro verso. Ali está tudo. E nós também. Ou nada. E nós, apenas. Lembrei-me a esse propósito de um poema antigo. Escrevê-lo-ei ali em cima. Entretanto, obrigado pelo post. Fantástico.
Presumo que cultivar a terra, seja mesmo cavar e as árduas coisas a que a ingrata natureza obriga. Well done my friend.
e o fim dos versos?
e os últimos versos?
Bem lembrado. Fica para breve.
Vou aceitar o seu desafio, e não é só pelo tanto que gosto de listas. É também para discordar de si na importância do primeiro verso — escusa de franzir as sobrancelhas que concordo com tudo o resto, desde a expressão com que define dessa experiência íntima e até à atenção nos comentários que precedem os versos.
Aquele poema de Sena, como outros, bem sei, é o que deve ser. Até nisto. A nossa poesia sofre de um déficit carnal em linguagem justa — não estou a falar de sentimentalidades, nem de sentimentalidades sexuadas. Essa é uma das grandezas do Sena.
Eugénia, é uma boa notícia anunciar-nos lista sua. E, de franzida sobrancelha, fico curioso dessa teoria da “inutilidade do primeiro verso”.