Heresia sagrada

Não há como escarpar ao ânimo do encantador de acasos.

P – Lembro-me que manipulaste a encadernação de relieur, dizia-se que rara ou talvez bela, sem os cuidados canónicos dos alfarrabistas ou, diz-se, dos amantes dos livros…
O jogo dadaísta das frases que ali roubavas para lhe responder à pergunta que nem se adivinhava ter sido feita – e a fúria, a ira crescendo, a baba de insultos que se formava em gestos rápidos de lábios inacabados de falar a tropeçarem nas infâmias de que te cria colhido, e bem vazio.
Mas como não percebeu um jogo, sentindo antes no gume das palavras uma faca que logo a ele não era aplicável?
R – Porque na faca viu um espelho e nele viu-se lá ele.

Seja então o princípio dum poema, já que o fim também é bom, e o meio.

Ah! nom, pas encore d’homme! pas encore de l’âme humaine !
Que j’aie le droit au moins de rechercher sans eux,
Sans le viol de leurs pas, de leurs mortes haleines.
Um monde à mon désir insensé d’être heureux!
Si je fais des enfants, je veux les voir  s’enfuir
Très loin de leurs maisons, avec leurs jambes brèves,
Vers des pays perdus, ignorés et profonds:
Et si je les rejoins, en feignant la colère
Et les réprimandant, je veux qu’ils puissent dire:
Nous ne serons jamais ce que les hommes sont…

(Sept préludes au Jeu du Seul Patrice de la Tour du Pin)

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

(Conto de fadasFlorbela Espanca)

 

Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento,
têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.

(Mulheres à beira-marSophia)

A noir, E blanc, I rouge, U vert, voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes.
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombillent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre;

(VoyellesVerlaine)

A aurora! Felicidade e pureza!
Um imenso rubi cintila dentro de cada taça.
Toma este dois ramos de sândalo.
Transforma este em alaúde e beija o outro,
Para que o calor dos teus lábios lhe solte o seu
Perfume.

(RubaiyatOmar Khayyam)

 

Na crista das colinas
sem neve, a pedra; o seu esmeril;
aguça mais a luz:
como dormir
com estas flechas
brancas na memória?
flechas de catedrais;
como esquecer
este rumor de vidro e algodão
no céu? poema escrito
entre uma aresta e um gume,
entra nas veias, fere;
agulha de morfina fria;
como arde este cristal?

(Cristal em SóriaCarlos de Oliveira)

 

Faz uma chave, mesmo pequena.
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
Da matéria dos sonhos e das aves.

(Branco no brancoEugénio de Andrade)

Comentários a “Heresia sagrada” (9)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Escolha de luxo, volúpia e calma. Não ficaria mal juntar-lhe o escândalo baudelairiano. Gostei (saboreei?) das “jambes bréves” do la Tour du Pin e da “agulha de morfina fria” do Carlos de Oliveira.

  2. Turmalina diz:

    Omar Khayyam, que me transporta para um outro mundo, eu conheci aqui e sou grata.
    E hoje você apresenta-me um poeta de tirar o fôlego, o Carlos de Oliveira. Descobri o que me tira o sono algumas noites, são as flechas brancas na memória!
    Já Florbela sempre me espanca e nessa sua escolha ela assopra a dor para longe.Gosto de Shopia e ponto.
    Já a poesia francesa, vai ficar para a próxima encarnação, uma vez que simplesmente traduzí-las não teria a menor graça.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Baudelaire! Fui burro, entrava bem melhor que o Verlaine, claro…
    Turmalina, infelizmente não tenho arte que chegue para fazer uma boa tradução poética — por isso não a fiz… Mes excuses…

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Arrisco, António: escolhas que o tempo triou? Não me refiro, claro, ao seu mais que querido Patrice la Tour du Pin. Vou-lhe confessar, ainda não possa compreender, espero que possa, de cada vez que disse isto, herege senti-me eu: desgosto tudo de Florbela Espanca. Bem, quase tudo, tem um ou outro arranque.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Não está nada mal arriscado, pelo menos em parte: gosto muito da simplicidade afectiva de Eugénio, amo as pinturas aquáticas de Sophia, por vezes sinto-me afiado como Carlos Oliveira…
    A Florbela Espanca é sempre estranha, mas tem frases que eu gosto de me apropriar.
    Mas veja bem que eu não segui o guião: fiz um teatrinho.
    O Verlaine é que foi um tiro no pé!
    Era Baudelaire — ou, de sinal quase oposto, Prévert (mas noutra posição, diria o magister ludi).

  6. António Eça de Queiroz diz:

    E vês tu Manuel como sou ingrato, que nem uma amabilidade tive com ele ao falar do teatrinho?
    Suavidade, vinho e pele — logo ali à esquina do Paraíso Terreal.

  7. Pedro diz:

    Obrigado por ter trazido o Carlos de Oliveira, agora tão esquecido.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Pedro, tem toda a razão. Por vezes acho que o mundo (e não só Portugal) não consegue deixar de ser de modas — todas elas ginasticadas e bem cobertas de explicações, os fabricantes de necessidades. O Tempo também é um caminho muito esquisito.
      Obrigado pela visita.

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