François Villon
História Particular
da Infâmia

François Villon (1431−1463)

De François Villon, poeta francês do século XV, quase nada se sabe. Nascido enquanto a cleresia supliciava Joana d’Arc, sem adivinhar que assim permitiria que no século XX o dinamarquês Carl Th Dreyer filmasse em exacerbados grandes-planos a tortura da fêmea e da sua santidade, Villon foi orfão de pai, e alguém, que foi mais do que um pai para ele, enfiou-o na Faculté des Arts de Paris com o objectivo salutar de o converter num clérigo – expliquem-me, se puderem, o que é alguém ser mais do que um pai para nós, a não ser que seja a mãe, a ver se eu percebo.

Só que, quando ao que parece Villon estava certeira e conformadamente a encarreirar no consolo da vida académica, o rei, le roi Charles VII, sabe-se lá se com o FMI à perna, fechou a faculdade. A Villon, deu-lhe para a boémia e no meio dela matou um padre. A razão: saias. Não exactamente as do padre Phillipe, abatido ao activo, e muito menos as putativas, que seriam de Villon, se Villon tivesse feito o que aquele que foi mais do que seu pai queria. A causa, outras saias, irrelevantes para o curso da Grande História, saias que irritantemente nunca levantaremos, mas cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso Phillipe terão partilhado por turnos que, nalgum momento, foram indesejavelmente coincidentes.

A amante de Charles VII foi a modelo de Fouquet nesta Madona contemporânea de Villon

Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, estava no que à época seria metade da esperança de vida, mas o perdão era então mais fácil do que hoje o indulto presidencial. O rei perdoou-lhe no mesmo ano em que se reabilitava a heróica Joana, e no mesmo ano em que os navegadores portugueses (que por certo Villon olimpicamente ignorava) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje os seguidores de Pablo Escobar e doutro pessoal boliviano, só por ignorância não agradecem. Era Natal de 1456, e Villon, perdoado e regressado a Paris, assaltou o Collège de Navarre – com ajudas ou sendo ele uma delas – roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou fatídico futuro de crime e infâmia.

Do primeiro crime até à sua eventual morte (se é que algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), medidos em lenta ampulheta, escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido variado de roubos e violência culminando na sua prisão e condenação à morte por enforcamento. Estes 8 anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que fizeram de François Villon, começando na “Ballade des Contre-Véritès” e quase terminando justamente na “Ballade des Pendus”, o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média que já não conseguia esconder o quanto esperava que um Rinascimento lhe chegasse da mediterrânica Itália.

Num tempo de penúria e de epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que a literatura de todos os tempos nos deu a ler. Tomara Rimbaud. Digo eu, que li Villon no fim dos meus exaltados 20 anos, um mês antes dos 21, quando, Angola a ferro e fogo, comprei na livraria ABC de Luanda – que então atendia no telefone 25343 – um minúsculo exemplar de 80 páginas com as “Poésies Choisies”, editado nos “Classiques Larousse”. E que capa tão bonita de simples.

Nos poemas de Villon, encontramo-nos com o esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou debaixo de tudo, les femmes

Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
– Para a boca, só de Paris

as femmes de Villon, “ma demoiselle au nez tortu”, ou essas “dames du temps jadis” (“Dictes moy où, n’en quel pays, / Est Flora la belle Rommaine…”) que me ensinaram saudade dos amores do passado quando de amor mal sabia o presente: “mais où sont les neiges d’antan”. Ou ainda, e dessa maneira de que fiquei fiel devoto: “corps féminin, qui tant est tendre / Poli, soeuf et précieux”.

 Prometeram-lhe a morte na forca. Villon escreveu, nesse momento, um dos mais angustiantes epitáfios que as línguas europeias registam. Por piedade comutaram-lhe a pena e, logo a seguir libertaram-no. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Terá, 31, 32 anos, morrido nessa altura. Estes versos ficaram, imortais:

 http://www.youtube.com/watch?v=XQThin6haxo&feature=related

Balada dos Enforcados ou Epitáfio Para Si Mesmo

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis–
Nos de pêlos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

tradução Augusto de Campos

Comentários a “François Villon” (17)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Já tinha ouvido falar do senhor, mas nada sabia e não me interessei.
    Um patife excelente! Cheio de skills…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Maldito, criminoso (a condenação à forca terá sido por ferir brutalmente mais um pobre de Cristo), obsceno (carregou os seus poemas com um argot de fazer corar paredes), este “pauvre Villon” foi, António, um dos mais glorioso poetas da língua francesa. E como tudo o que escreveu cabe em menos de 100 páginas, é facílimo conhecer-se-lhe e gozar-se-lhe a obra. Jorge de Sena traduziu-lhe dois poemas — by the way, a quadra que inseri no post é parte duma dessas baladas que Sena traduziu. Também traduziu a Balada dos Enforcados, mas não consegui encontrá-la na “rede” e dava-me um trabalhão fazer de monge copista…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Sabes o fantástico? Acabei de descobrir o nosso flamboyant Monsieur Villon na minha biblioteca!
      Les Cent Meilleurs Poèmes (Lyriques) da la Langue Française, escolhidos por M. Auguste Dorchain (1909). À Paris.
      E é assim: começa com um Rondel de Charles d’Orléans (uma coisa gélida!), e logo o segundo é uma vasta Ballade do estimado François Villon (fit a la requête de sa mère pour prier Notre Dame).
      Vou ter de investigar bem este livrinho…

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Eh pá, não há justiça no mundo. Fico para aqui a roer-me de inveja e a dar murros no “mince livre” que roubei no tempo em que não se limpavam armas… É assim mesmo António, depois hás-de contar.me se as eventuais notas biográficas contêm revelações!!!

  3. Luciana diz:

    Manuel, estou começando a me perguntar se ainda devo ler os seus escolhidos para a História Particular da Infâmia… Não bastam os dúbios personagens que questionam meus rigorosos (cof, cof) padrões morais, ainda tem sua escrita peculiar que me faz perder toda a compostura e cair em gargalhada (o que gostei da questão da saias e da referência a Escobar!).

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Ó Manuel, tu de copista ainda vá, agora de monge?!…
    Uma delícia o vilão Villon.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Já cá venho, com calma, Manuel Villon, perdão, S. Fonseca. Temos muito o que conversar.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Seja muito bem regressada, Eugénia. Esta vida dos mortos que somos, sem si, já estava a dar cabo de nós. E já vejo que vem vilã, como é seu hábito. Vai ouvi-las, está claro.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Merci pelas boas vindas. O resto não ouvi nada… tenho os ouvidos entupidos de Jingle Bells ou Parabéns a Você, ou lá o que é.

  6. Marta Costa Reis diz:

    Muito bem nomeado este Villon! E vê lá que descobri que lhe conhecia os versos sem lhe conhecer a figura… as “neiges d’antan” fazem parte dos meus tempos francófonos. Quanto à bela figura que ilustra a memória do vilain Villon, merece por direito próprio um cantinho neste cemitério. Julgo que me inspiraste!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pois é Marta, as neiges d’antan foram cantadíssimas e muito citadas pela segunda metade do século XX francês. Fico à espera da surpresa que, com Agnès Sorel, amante de rei, rainha do seu corpo, nos prometes.

  7. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Pronto, agora com calma e sem ninguém ouvir que o blog já está às moscas de ante véspera natalícia: isto está bem amanhado, Mr. Villon. O bom humor com que me fez andar às voltinhas desde o início, é um rally paper original que me contextualizou a ignorância, mesmo temporalmente. Sim, desde o pretexto para a expôr a maminha da menina de Fouquet e até à Luanda de fogo temporariamente suspenso na livraria ABC.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó que gentileza sua! A Eugénia quando é boa é mesmo boa.

      ps — Na maminha de Agnès não fui eu que pus a mão, foi Jean Fouquet que pôs o pincel.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Ficava-me bem aproveitar a deixa para responder à Mae West, mas, ó azarucho, nem loura quanto mais platinada e má como uma rapariga deve ser. Sou uma santa… que hei-de fazer?

  8. pedro marta santos diz:

    Vilão Villon, patife a investigar melhor, sem dúvida.

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