Ernâni Rodrigues Lopes
Queridos Mortos


Conheci-o na altura em que me conheci a mim mesmo. Mais coisa, menos coisa. Eu era dois palmos de gente, um bibe azul de gola branca e uma gravata muito fininha e pintada de encarnado. De elástico. Porque essas coisas dos nós, os das gravatas mas sobretudo os mais metafóricos, são marca e são privilégio da passagem à idade adulta. Ele, já se vê, era um gigante. Um gigante que só desajeitadamente escondia os afectos por trás daquele ar severo. Mas era, apesar de tudo, um gigante. Era o pai, imagine-se o respeitinho imenso, da minha amiga Sofia. E a minha amiga Sofia era o único amparo que eu tinha naquele recreio de tempo infinito, cheio de pigmeus selvagens a gritar a preto e branco e a chorar em francês. Ele era um dos raríssimos amigos do amigo misterioso que era o meu pai. E todos os Natais que foram verdadeiramente Natais, e que foram todos quantos vivi em casa do eterno herói da minha meninice, foram pontuados pela sua visita fugaz. Faltavam sempre poucos minutos para o jantar. O ritual, tal como o recordo, era solene, brevíssimo, tímido. E a troca de presentes fazia as vezes de embrulho de uma amizade que era de gerações.

Até que veio a revolução. Aquela coisa simultaneamente assustadora e esperançosa, aqueles amanhãs que cantam que eram sobretudo proletários pretextos para eu faltar à escola. E ele, a Sofia e o resto da família rumaram, sem aviso prévio, a um lugar estranho. Uma capital tão estranha de um país tão estranho que acabariam por deixar de sê-lo. E nós lá fomos. Ver o Reno, ver o Mundo que se tinha feito infinitamente mais pequeno, mas sobretudo vê-los a eles. Numa casa branca e enorme, num relvado sem fim e no primeiro de todos os sótãos onde dormi. Lá fora, no incompreensível inverno dos adultos, tudo mudava, tudo girava, tudo era angústia, tudo era futuro. Só no particularíssimo mundo que era o nosso, tudo continuava acolhedoramente na mesma. O gigante de voz pausada e de eterno cachimbo continuava de uma imponência suave. A Sofia continuava a ser a amiga de sempre. E foi de resto assim, que os reencontrei, enormes, amigos, e amigos enormes, anos volvidos, na capital mais cinzenta do país mais cinzento de uma Europa que, mais do que ninguém, ele quis fazer nossa.

Boa parte do resto desta história é verdadeiramente História e eu passei a vivê-la a uma respeitadora e cuidadosa distância. Que é a distância que deve guardar-se de um amigo do pai que se fez pessoa verdadeiramente importante. Não tanto porque ele se sentisse coisa diferente, mas porque os meus olhos espantados de adolescente teimavam em ver o Ministro onde ele sempre quis que estivesse apenas o Homem. A minha sageza era tão pouca, que ao Ministro deixei aliás que se seguisse, no lugar que era o meu espírito, o Professor. Distante, analítico, tremendista, austero. Tudo era gravidade, tudo era cinzento, o mundo parecia não ter solução e até o privilégio imenso das sessões individuais de tutoria eram rituais de uma frugalidade que então me parecia assustadoramente densa.

Quis o destino que lhe fizesse, já a faculdade e o mestrado tinham ficado para trás, aquele telefonema. Precisei de uma ajuda. A paixão era marítima e era comum e ele, generoso, estendeu-me a mão com a simplicidade que sempre foi sua. Dias depois, foi a sua vez de me fazer um pedido. Sabedor (desconfio) do meu militante ateísmo, “gostava que me viesses ouvir, logo à noite, na Igreja das Mercês”. Era Julho, a cidade adormecia sob um céu de chumbo. Mas a resposta só podia ser uma e eu lá rumei, desconfiado, a um lugar onde nunca tinha posto os pés. O tema era o “Futuro da Europa”, o lugar, convenhamos, era insólito e o tempo propício a mais tropicais devaneios. Mas tudo isso foi nada. Porque foi a assistência que verdadeiramente me deixou siderado. Professores? Académicos? Estudantes? Desenganem-se. Naquela noite improvável de Verão, a palestra, metodicamente preparada, laboriosamente estruturada, apaixonadamente esbracejada, longa de duas horas e meia, foi dirigida à mais humilde das plateias que possam imaginar. O Ministro era nenhum, o Professor parecia nunca tê-lo sido e ele era de novo o gigante simples dos afectos escondidos. Uma das mais sólidas referências éticas da minha vida.

Quis o destino que pudesse, para sempre, recordá-lo assim.





Comentários a “Ernâni Rodrigues Lopes” (31)

  1. Turmalina diz:

    Fiquei feliz em saber que meu avô paterno tinha o mesmo nome que a tão digna referência. Eu gostaria de ter homônimos assim.Posso dizer que tirando meu pai e minha mãe, eu não tive muitas pessoas para me servir de referência, todas (as que valiam a pena) partiram cedo demais, justamente quando eu começava a aprender.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Que bela homenagem, Pedro, eu que não o conheci pessoalmente sempre o vi de olhos limpos — o que é uma raridade se não humana pelo menos política. Ainda há dias estive a ouvir um dueto com ele e com o Medina sobre aquilo que devia ser o nosso paradigma…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Na alarmante falta de heróis de que acusamos o nosso tempo, é uma benção poder celebrar-se o oásis de honestidade e de rigorosa e incansável busca de conhecimento deste seu amigo de referência. E ainda por cima, não “disse” apenas, também “fez”!

  4. José Navarro de Andrade diz:

    Tive o privilégio de embaraçar este Senhor em público. Eu era o mais velho da turma, porque me deu para fazer o curso bem fora de horas, ele era professor de um dos módulos. Os meus condiscípulos conheciam-no de respeito, mas não tinham idade histórica para lhe saber dos feitos. E o Professor falava de Portugal como se sempre tivesse sido um analista. Até que pedi a palavra, apontei o dedo na sua direção e disse à plateia que ele era o principal culpado dos momentos de prosperidade que vivíamos, que foi responsabilidade dele termos entrado na CEE, que se não fosse ele o país tinha afundado — ele, ali, em pessoa e nominalmente. Nunca vi ninguém tão embaraçado, perante uma turma de repente boquiaberta por ter esbarrado na História. Olhou para mim e disse: “já desabafou?” — e continuou, como se não tivesse sido nada.
    Mas que merecidíssima homenagem lhe fizeste, Pedro.

  5. teresa conceição diz:

    Que tocante esta viagem ao incompreensível inverno dos adultos.
    E que homenagem tão bonita e sentida, Pedro.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Permita-me, Pedro, reforçar na sua homenagem a linha fixa, a última: esses incalculáveis valores que são os da permanência no lado incorruptível de ser e fazer, e o da humanização do conhecimento.

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Era um homem notável.

    Por tudo quanto disse e, sobretudo, fez e que de forma tão justa e tão merecida foi unanimemente recordado nestes dias que passaram desde a sua partida.

    E pela forma corajosa e desassombrada como assumiu a grave doença que o atingiu, a força e a dignidade com que a combateu e com que insistiu em continuar a viver da forma plena e produtiva, que era a única que concebia. Praticamente até ao fim.

    Era também – e para mim sê-lo-á sempre — esse mesmo gigante que a princípio me intimidava mas que depressa descobri afável, afectuoso e próximo. E a quem sempre apreciei e admirei a inabalável coerência, a enorme exigência, acima de tudo consigo próprio, a total entrega a tudo em que se envolvia e, last but not the least, a profunda e tocante dedicação à família e aos amigos.

    Pedro, este seu texto encantou-me e comoveu-me. E não me canso de olhar a imagem, tão bem escolhida. É muito assim que o vou recordar: o cachimbo, o olhar e o gesto, únicos e inconfundíveis. Envolto em música. Às vezes ópera. Principalmente sacra. Sempre belíssima.

  8. Marta Costa Reis diz:

    Há pessoas cuja vida marca mais que muitas, ele foi um desses raros seres que, sem cedências e sem intransigências, olhou a realidade e procurou torná-la melhor, não só para ele, mas para todos nós. Tive a sorte de ele ter sido meu professor e, não tendo a anterior proximidade do Pedro, não lhe notei a distância. Tinha a autoridade de ter sido um dos redactores das histórias que contava e, dentro do famoso pessimismo, uma enorme admiração por Portugal e muitas ideias para propor.
    Essa foi também a imagem que escolhi para escrever duas linhas sobre ele noutro sítio, acho que diz tudo. Fiquei com muitas saudades…

    • Pedro Norton diz:

      Eu também tenho saudades Marta. E uma aguda sensação de vazio. Tão mais aguda quanto a consciência de que a sua voz fará muita falta nos tempos que vivemos e viveremos.

  9. Teresa Teixeira Motta diz:

    Pedro, que bonita homenagem aqui fez a tão marcante pessoa!
    Tive o privilégio de o ter tido como Professor logo no primeiro semestre do Curso. Recordo-o como um Professor excepcional e como um homem muitíssimo dedicado — às aulas, ao País e à transmissão do seu conhecimento e das suas ideias para que Portugal e o Mundo pudessem ser melhorados.
    Como acontecia com os colegas do José, também eu e os meus colegas éramos demasiado novos para lhe conhecermos os feitos (a não ser pelo relato de familiares e amigos mais velhos) e, também nós, “esbarrávamos” na História a cada aula. Foram, certamente, das aulas em que menos apontamentos tirei, mas foram também daquelas em que mais aprendi e nas quais mais me encantei a ouvir a História contada na primeira pessoa e relatos de reuniões e experiências com uma graça que não esquecerei.

    Lembrá-lo-ei essencialmente como Professor, devo-lhe — ao homem e ao político — grande parte do Mundo como sempre o conheci.

  10. Ana Rita Seabra diz:

    Não o conheci pessoalmente, mas como dizes era um gigante! Para mim gigante em vários sentidos. Um SENHOR GRANDE!
    Há pessoas que nos marcam para a vida, até com pequenos gestos!
    Comoveu-me o teu texto.
    Senti a falta do meu pai.
    beijos

  11. Teresa EQ diz:

    Para lhe agradecer, Pedro, a partilha.

  12. Horácio de Sá Viana Rebelo diz:

    E o “bumby”.…..Excelente e merecida homenagem ( Parabéns ) a um grande Homem que recentemente afirmou ‚numa avalizada análise da actual sociedade portuguesa ‎”…Trabalho desde a década de 60 e nunca vi nada assim.A primeira década do séc. XXI mostrou uma percepcäo materialista da sociedade portuguesa ‚sem rasgo para o futuro e sem verdade,numa atitude vulgar e interesseira,vazia e sem horizontes.Mais do que uma década perdida,é uma década históricamente perdida”.
    Como poucos saberia o que estava a afirmar,devido á sua rectidäo e carácter, e sempre como alguém interveniente e atento sobre o que se passava na sociedade portuguesa.

  13. Eduardo Marçal Grilo diz:

    Meu Caro Pedro
    Bela homenagem a um grande amigo e companheiro de tantas lutas como foi o Ernâni.
    Trabalhei com ele durante cerca de três anos na elaboração de um trabalho que no final deu origem a um livro interessantíssimo, hoje esquecido, que teve o título de “PORTUGAL — Os desafios dos anos 90″.
    O Ernâni era assim, rigoroso, exigente, muito empenhado, mas sobretudo um Homem de princípios e de valores com uma grande cultura humanista, sabendo muito de economia e sempre disponível para analisar e debater as grandes questões que o Mundo e o País têm pela frente.
    A última vez que estive com ele foi num almoço na SAER, já ele estava bem doente, em que praticamente só falámos de exploração de petróleo.
    Era um bom amigo. Vamos ter saudades dele e muitas…
    Seu Amigo
    Eduardo

  14. Manuel Norton diz:

    Lindo e comovente .
    O Amigo Misterioso

  15. MJ LOPO C diz:

    Lembro-me dos seus Natais, também la estava minuscula …um beijo Comovido com maiuscula
    MJ

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