E salta mais um episódio quentinho de “Um Sonho No Deserto”

 

A entrada estava protegida por guarda-muros imponentes.

Quem vem lá? Gritaram. Quem manda aqui sou eu, disse Kamal suave. E os guardiões ficaram logo com ar de corso carnavalesco.

Lá dentro, os bichos fitavam-nos em desafio. Para eles, Kamal tinha outra estratégia: ignorou-os e subiu as escadarias como um rei. Os bichos ficaram brancos. A cidade do cinema sou eu. Agora. Porque antes era o meu pai.

 

Voz de Kamal com olhos de montanha distante:

O meu pai era um visionário. Um dia teve o sonho de construir aqui em Ouarzazate estúdios de cinema. Os realizadores e produtores que conhecia  sempre lhe disseram que a qualidade da luz era excepcional, muito generosa. Mágica. Temos vista para as montanhas do Atlas. No inverno há neve, temos o deserto e montes alvos em fundo. Não há muitos locais no mundo que forneçam este cenário natural.

        Os deuses fazem vénia. Kamal fala muito baixinho. O meu pai sempre gostou de arriscar muito alto. E eu, serei capaz?

Comentários a “E salta mais um episódio quentinho de “Um Sonho No Deserto”” (7)

  1. diogoleote@hotmail.com diz:

    Teresa, e eu que já estive tão perto e não dei por nada. Com este salvo-conduto especial em forma de história ilustrada, talvez acompanhado por uma fotografia sua, talvez consiga franquear as portas da entrada no “sonho”. Mas, antes, quero saber como acaba a história…

  2. Luciana diz:

    Teresa, se em mais nada houvesse aqueles encantos que eu suspeitava (e há!) ainda se poderia ficar um tempo imaginando este Kamal em que se junta à voz com chá de menta, uns olhos de montanha e uma tão vulnerável pergunta…

  3. teresa conceição diz:

    Há sempre momentos em que se fica mais solitário, não é?
    E o não conseguir sair da sombra pode ser um drama para os filhos que têm ou tiveram pais maiores do que eles…

    • fui-me lembrando devagar
      aos poucos
      baixinho
      que há uns anos atravessei uma pequena parte deste deserto a pé.
      À noite dormíamos em tendas e de dia caminhávamos em silêncio até ao anoitecer.
      No fim dessa ‘viagem’ cansados e num jeep lento o guia levantou o braço e explicou-nos que ali ao fundo era a Hollywood do deserto.
      Olhámos … mas estávamos tão cansados … !
      Agora me lembro que passei por lá
      ao longe
      devagarinho

      {obrigada Teresa por me ajudar a lembrar]

  4. teresa conceição diz:

    Rita,
    deve ter sido bonita essa experiência, apesar do cansaço:)

    Mas sabe, eu só me liguei a esta história e a este lugar por me ter surgido como um presente, em circunstâncias peculiares. E por ter conhecido de perto pessoas a ele ligadas.

    Se estivesse de passagem, não sei se prestaria atenção. Talvez. De qualquer modo, por fora não parece nada de especial.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Teresa, não consigo deixar de pensar, apesar de Kamal ser de veludo, que foi uma pena não teres conhecido o pai. Pela grandeza, claro. Além de que os homens mais velhos são sempre muito melhores narradores do que os mais novos.

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