A entrada estava protegida por guarda-muros imponentes.
Quem vem lá? Gritaram. Quem manda aqui sou eu, disse Kamal suave. E os guardiões ficaram logo com ar de corso carnavalesco.
Lá dentro, os bichos fitavam-nos em desafio. Para eles, Kamal tinha outra estratégia: ignorou-os e subiu as escadarias como um rei. Os bichos ficaram brancos. A cidade do cinema sou eu. Agora. Porque antes era o meu pai.
Voz de Kamal com olhos de montanha distante:
O meu pai era um visionário. Um dia teve o sonho de construir aqui em Ouarzazate estúdios de cinema. Os realizadores e produtores que conhecia sempre lhe disseram que a qualidade da luz era excepcional, muito generosa. Mágica. Temos vista para as montanhas do Atlas. No inverno há neve, temos o deserto e montes alvos em fundo. Não há muitos locais no mundo que forneçam este cenário natural.
Os deuses fazem vénia. Kamal fala muito baixinho. O meu pai sempre gostou de arriscar muito alto. E eu, serei capaz?




















Teresa, e eu que já estive tão perto e não dei por nada. Com este salvo-conduto especial em forma de história ilustrada, talvez acompanhado por uma fotografia sua, talvez consiga franquear as portas da entrada no “sonho”. Mas, antes, quero saber como acaba a história…
Só falta mais um bocadinho, um tudo-nada. Beba mais um copo por aqui, Diogo!
Teresa, se em mais nada houvesse aqueles encantos que eu suspeitava (e há!) ainda se poderia ficar um tempo imaginando este Kamal em que se junta à voz com chá de menta, uns olhos de montanha e uma tão vulnerável pergunta…
Há sempre momentos em que se fica mais solitário, não é?
E o não conseguir sair da sombra pode ser um drama para os filhos que têm ou tiveram pais maiores do que eles…
fui-me lembrando devagar
aos poucos
baixinho
que há uns anos atravessei uma pequena parte deste deserto a pé.
À noite dormíamos em tendas e de dia caminhávamos em silêncio até ao anoitecer.
No fim dessa ‘viagem’ cansados e num jeep lento o guia levantou o braço e explicou-nos que ali ao fundo era a Hollywood do deserto.
Olhámos … mas estávamos tão cansados … !
Agora me lembro que passei por lá
ao longe
devagarinho
{obrigada Teresa por me ajudar a lembrar]
Rita,
deve ter sido bonita essa experiência, apesar do cansaço:)
Mas sabe, eu só me liguei a esta história e a este lugar por me ter surgido como um presente, em circunstâncias peculiares. E por ter conhecido de perto pessoas a ele ligadas.
Se estivesse de passagem, não sei se prestaria atenção. Talvez. De qualquer modo, por fora não parece nada de especial.
Teresa, não consigo deixar de pensar, apesar de Kamal ser de veludo, que foi uma pena não teres conhecido o pai. Pela grandeza, claro. Além de que os homens mais velhos são sempre muito melhores narradores do que os mais novos.