Cromos da Nação

Há dias o Zé Navarro de Andrade deu, com a melhor das intenções certamente, uma quase-última machadada no que ainda resta do meu orgulho nacional. A bem dizer não foi coisa que não desconfiasse de forma abstracta, mas a aridez daqueles números invadiu-me como um veneno lento. Entre garfadas gulosas de polvo assado com arroz do mesmo o Zé Navarro lembrou-me que de Camões a Garrett — ou seja, entre os séculos XVI e XIX — apenas um vulto sobressaíra verdadeiramente na literatura portuguesa: o Padre António Vieira!
Fiquei chocadíssimo, mas pensei logo em boas explicações — como por exemplo os afazeres coloniais, a ocupação Filipina, o comércio…
«Bolas, é muito pouco», pensei, tentando comparações num rápido e resumido inventário da produção europeia desse naco dos séculos.
Nada a fazer. Resumamo-nos portanto à nossa dimensão e espaço: pequeno, periférico, atlântico, africanista, orientalista e afins.
Ok, mas porque será que gosto tanto de ser português? As expectativas não são brilhantes, o passado já lá vai e o presente é uma trampa. Será a paisagem que me enternece ao absurdo? As pessoas — no seu conjunto?! …
Gosto da língua, muito. Gosto de estar na Galiza e vê-la na língua assumidamente. E a verdade é que gosto da dimensão provincial dos pequenos países. Cada vez gosto menos de grandes aglomerados — seja do que for.
Encontrei estes cromos, apenas uns cinco duma colecção denunciadamente maior dos inícios do Estado Novo, e dei comigo a pensar que realmente já cá andamos há muito como país inteiro.
Talvez também goste disso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários a “Cromos da Nação” (16)

  1. Mas o “problema” cultural português está resolvido. No século XX-XXI são polícias e padres os depositários dessa cultura.

    Um bom ano para todos

  2. AI TI ANU diz:

    é preferível a ser haitiano

  3. Luciana diz:

    Antonio, você me perdoa? Não comentarei seu post agora, mas uso o espaço que ele produziu pra dizer a minha estima por você e pelos demais mortos deste cemitério — em grau e proximidade distintos, mas sempre com uma honesta admiração. Já é o último dia de 2010 e uma das alegrias que este ano me proporcionou foi vadiar entre as tumbas e, ainda mais, terminar o ano como convidada aqui. Gostei muito, obrigada. Que sejam plenas de riso as festas dos autores do ETGM. Meu abraço especial a você, daqui, de além mar.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Querida Luciana, não lhe posso perdoar porque você não peca…
      Um grande abraço transatlântico para si, minha amiga!
      Bom 2011!

  4. Gosto de textos destes: lembram-me porque é que me esqueço porque me fiz portuguesa. (da língua: já gostei menos, é difícil como o raio, esqueço-me a cada instante, enrola-se e desmultiplica-se para dizer um nada, mas acho piada a essas circunvoluções, dão-lhe um certo ar aristocrático).
    Bom Ano!

  5. She diz:

    Bom ano, António! O meu raio-X, afinal, detectou aí uma boa Alma :), sem que isso tenha algo a ver com os cromos, ainda que lhes ache um piadão! :)

  6. gb diz:

    Senhor Queiroz,

    O futuro é já, daqui a 5 minutos. Pode ser amanhã. É um horizonte que se vai perdendo à medida que perto dele chegamos. Só o hoje interessa e muito mais quando vamos juntando à nossa colecção de cromos uns tantos, que de tão antigos e bons, vale a pena guardar. Gostei dos seus. Mas não me cansei de gostar deles. Não me canso é de gostar das suas fotografias colhidas em Seara tão bem cuidada.
    É usual dizer-se que um cemitério é um campo de igualdade. Talvez, por este aqui não ser um cemitério a preceito, essa assertiva não é correcta. Há os enterrados em cova rasa, os cobertos por campas de aspecto assim-assim e os que, mesmo “mortos” nos olham de soslaio lá de cima, colocados que estão sobre seus sumptuosos mausoléus (com o perdão pela redundância). Mas como nesta vida nada é perfeito, aqui também não poderia ser diferente, embora isso me irrite um pouco. Mas, assim mesmo, por aqui caminho às vezes, pensando que a este ETGM assentaria bem o nome de ETGC (*). Aprende-se bastante aqui. Eu aprendo muito aqui.
    A todos vós, especialmente a si, senhor Queiroz, desejo um amanhã preenchido de novas ideias, de profícuas letras e de plena felicidade.

    margarida

    (*) Como vocês tanto gostam destas notas de rodapé .… ETGC = É Tudo Gente Culta

    • António Eça de Queiroz diz:

      Tem toda a razão, Margarida, o futuro é apenas o próximo passo.
      Agradeço-lhe as suas palavras tão amáveis, e retribuo os desejos de um bom 2011!

  7. José Navarro de Andrade diz:

    Caríssimo: Nem por sombras queria gerar em ti tristeza com a afirmação que fiz e defendo. É que vendo as coisas por outro lado, a nossa língua é bem maior que a nossa dimensão e importância. Compara-nos com os holandeses ou com os romenos e, pelo menos, não lhes ficamos atrás. Não tivemos pintura flamenga? mas tivemos o singularíssimo Vieira, o mais luso-brasileiro de todos os escritores, talvez o primeiro grande escritor de todas as Américas. E neste século a língua teve Pessoa, Guimarães Rosa e Drummond, mesmo que o Nobel tenha ido, afinal, para Saramago em vez de Jorge Amado. Não lamentes, amigo, o copo está meio cheio.

    PS — a GB (Margarida): muito obrigado pela parte que me toca.

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Tens toda a razão, Zé (e o polvo estava óptimo!)
    Bom ano para ti e para os teus!

  9. Alberto Nogueira diz:

    Caro amigo, gostei dos cromos, não gostei do moribundo 2010, e desejo-te (nos) que 2011 seja bem melhor.

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