O belíssimo texto de Manuel S.Fonseca, chamou-nos a atenção para a importância da cor no sexo e no sagrado, cor que, como ele diz: “introduz quase sempre alguma obscenidade na miséria. Por maioria de razão no erotismo.”
A cor dá demasiada realidade a imagens com as quais só a preto e branco conseguimos lidar.
O preto e branco guarda o mistério. A sombra acolhe-nos e conforta-nos quando não suportamos o excesso da cor. Dizem-nos os místicos que já viram tudo, que o fundo da luz é negro. Mas para lá chegar temos de passar por todas as tonalidades da cor. Temos, como Antígona, ”de queimar os pés no fogo ardente”. E de viver, no corpo, o sexo e o sagrado.
O mundo não é simples, não é depurado, não tem contornos claros.
Mas tem alternativas, que normalmente não são a preto e branco.
Na iconografia religiosa cristã, o cinzento simboliza o dualismo entre o corpo mortal e o espírito imortal e também o arrependimento das cinzas que cobrem os pecadores.
O que é legítimo e ilegítimo? Há escolha entre o bem e o mal, porque ambos existem e não são indiferentes: o mundo não é cinzento. Há muitas opções, mas algumas matam-nos o corpo e a alma.
Diz-nos o Pedro Marta Santos, num outro belo trabalho de muita intensidade, que a violência do sexo não acontece nas margens do “equilíbrio social”. E mais: “O sexo é a forma mais óbvia, e mais intensa, de poder. Logo, reclama sempre submissão”. E parece que reclama cordas que manifestem essa submissão, instrumentos de uma paixão profana.
Mas mostram-nos sempre o feminino aprisionado. Então lembrei-me, se o homem quer envolver a mulher, a mulher quer perfurar o homem ?
Estes desejos vão além do sexo, além mesmo da submissão ou da violência, são uma espécie própria, como se apelassem a uma dor maior para calar a dor da vida. Auto-mutilação no outro. O Amor e a Morte. Amorte.
Não há aqui nada de divino, a não ser a beleza.
Nem aqui:
- Matador, Pedro Almodovar
Mas há cor. E morte e sexo. Que são sempre sagrados.
Pensamos mal o papel do corpo na espiritualidade. A Igreja Católica, em particular, parece ter adoptado o pior dos gnósticos que sempre combateu: a dualidade entre corpo e espírito, que leva à tentativa de anulação do corpo para viver só do e no espírito. A prática dos monges invadiu o século, a mulher foi diminuída, calada, anulada. E o sexo virou procriação. E perversão.
Escondida, a sexualidade sagrada manteve os seus símbolos. A mandorla, cuja genital origem é bem evidente, foi interpretada como porta do céu.
A matriz abre-se para a iluminação. Abre as consciências para a Glória. Algo que está além dos contrastes do branco e do negro, além da luz e da sombra, as trevas supraluminosas onde se ouve o silêncio de Deus. E onde os homens, mesmo os santos, mesmo os místicos, só acedem num estado alterado de consciência, que lhes permite o contacto com o numinoso. A questão passa a ser o que suscita essa alteração.
Ao longo dos tempos e das época têm sido muitas as respostas. Algumas repetem-se em mundos separados por quase tudo o resto:
- drogas sagradas e intoxicações várias (do soma pré-védico ao ayahuasca sul-americano)
- dança (dos índios norte-americanos ao giro sufi)
- música (tambores xamânicos e canto gregoriano)
- repetições ininterruptas de mantras ou orações (no hinduísmo, budismo, cristianismo e Islão)
- técnicas de respiração (que no mundo cristão se conhecem pouco, mas são usadas pelos hesicastas)
- posturas específicas (yoga e as técnicas ancestrais estudadas pela antropóloga Felicitas Goodman)
- privação de sono (vigílias)
- jejuns (Quaresma,Ramadão)
- dor (cilícios, flagelação)
–amor (o amor transporta-nos, não é?)
–sexo
Alguns deste métodos são característicos de religiosidades marcadas pela ascese, outros das que procuram o extâse, sem culpas nem mortificações. Enquanto instrumentos e técnicas sagrados, todos tendem para o mesmo fim: o encontro do homem com a esfera do divino. Quase todos eles têm aplicações e usos profanos e recreativos. Outros são usados como castigo (“vais para a cama sem comer!”) e tortura.
O que faz a diferença? O que muda no uso do chicote por João Paulo II para se flagelar, em relação aos castigos em Singapura ou no Irão e ao gozo de qualquer dominatrix.
Como resposta só encontro a intenção. O foco da alma que nos diz como receber o acto físico para eventualmente a conduzir ao espírito e não se perder nos sub-mundos astrais. A anulação do eu, a dor da morte do ego, necessária, ao que dizem, para se chegar a Deus, é a dor psíquica do santo, a noite escura em que a consciência da separação tem de desaparecer. E os flagelos são o instrumento dessa via dolorosa, que procura a Anastasis.
Senão tudo é deboche, violência e doença.
O sexo, sendo corpóreo, é, na verdade, muito pouco material – essa é a maior perversão da pornografia. Talvez aí pelos 15 ou 20 anos seja sobretudo física a sexualidade, mas em adultos, depois de atraversarmos as nossas noites escuras, o sexo é, deve ser, sobretudo, uma questão espíritual, intimidade total, fusão e individuação num mesmo acto, transcendência e transfiguração. Nada que a pornografia permita alcançar. Em comum, têm talvez só mesmo a cor.
Porneia é o amor mais primitivo, animal, da criança pela mãe que a alimenta, é uma necessidade física, o amor que nasce da necessidade de satisfação da fome. Pothos, é o nome dado à paixão amorosa, possessiva, mas que é também a forma de amar das crianças, que, centradas como estão no seu mundo pessoal, querem apropriar-se da coisa amada, normalmente a mãe. É o amor-necessidade, necessidade emocional. Estas são as primeiras formas de amor que vivemos, mas são mais pulsões. O problema surge quando pothos e porneia se prolongam para idades mais tardias, quando não se faz a educação do amor para as suas formas adultas, onde eros (o amor erótico entendido como impulso vital para alcançar o que está além de nós), a filia (a amizade entre iguais) ou a ágape (a caridade dos cristãos), se podem desvendar.
Abandonados os sagrados ritos tântricos, só permanece o estremecimento do Om.
E quando desaparece o som, só permanece a consciência.
Quando a consciência se vai, nada mais está separado;
O vácuo regressa ao Vácuo.
(Lalla – poetisa do século XIV,Caxemira)
Notas:
- O título do texto – Cor, Cordas – brinca com Cor, Cordis (coração, em latim).
- A frase “Te quiero más que a mi misma muerta” é do filme de Almodovar, mas achei que ficaria muito bem também a Santa Teresa!
- Já não tive coragem para avançar para o Oriente, fica para outras núpcias, com a poesia de Lalla como amostra
























este cemitério está bem vivo
’ I want my money back’
:-)))
Marta,
tudo o que seleccionou para este seu levantamento, é interessante. Mais que o resto, gostei de ouvir a pergunta que colocou a si mesma e a chicotada de humor que vai do Irão ao Vaticano com volta SM. E, previsivelmente, Lalla.
Fiquei a perguntar-me, porque aí desagua o seu texto, o que é que há no sexo, entre dois adultos que se amam, que seja tão baixo que precise de se elevar? Essa dicotomia sujo/limpo, não será ela a verdadeira adolescente de 15–20 anos que refere? Porque é que é preciso sobrecarregar o sexo com funções que nos cabem pessoalmente, como a desse processo de crescimento do eu? Ou a função religiosa?
A empatia, a capacidade de aliar o sexo e a ternura, a integração do elemento agressivo despojado de hostilidade, a dependência madura, a activação de uma vida inconsciente de fantasia e a idealização da relação são os constituintes que permitem o desenvolvimento completo do erotismo. Ou se preferir, o investimento completo da pulsão libidinal, espelho da integração da pulsão sexual com a relação de objecto. Mas isto são apenas psicologices que só servem para traduzir assepticamente aquilo que o sexo entre dois adultos que se amam é: a coincidência do sentimento com o pensamento e o corpo.
A pornografia é, penso que seja, o terceiro, o intruso, o que assiste, olhos ou câmara. O sexo mais conjugal pelo mais amante dos casais, se ocultamente filmado e lançado no YouTube, é um vídeo pornográfico caseiro.
Eugénia, engana-se. Não falei de baixeza nem sujidade nem, sinceramente, as consigo vislumbrar no que escrevi. Nem sequer quanto à pornografia em relação à qual a minha única objecção é ser uma espécie amputada de sexo, puramente mecânica. Mas reconheço que pode estar muito no olhar do intruso. Lembro-me ‚no entanto, de outras possibilidade, do sexo que se faz a contra-gosto ainda que não obrigado, daquele que se faz por dever e obrigado por uma certa ideia de moral e bons costumes. Poderíamos debater se estas são ou não pornografias, ainda que não visionadas.
As potencialidade do sexo que realço — fusão, intimidade total, transcendência, etc. — não têm sequer a ver com a empatia e a ternura, ou com adultos que se amam. Podem acontecer entre quaisquer pessoas que se entreguem, no tal “investimento completo da pulsão libidinal” de que fala. Não é preciso amar para fazer amor.
Pergunta porque é que sobrecarrego o sexo com funções que nos cabem pessoalmente e aqui confesso-me perplexa, por não perceber a separação entre o eu em processo, a entidade a quem cabem essas funções e o sexo, que há de ser o de alguém, heteronómico talvez, mas uma única pessoa em alguma parte de si.
O meu texto desagua na ideia de que o sexo entre dois adultos que se amam não é apenas “a coincidência do sentimento com o pensamento e com o corpo”, acrescentando nessa equação o espírito e que é no espírito que se resolve o mistério da ligação que identificámos entre a pulsão sexual e a tensão espiritual. A santidade não está num qualquer céu — ou inferno, já agora — vive-se ou não na terra e, sem a vivência sexual, é estéril. Não falo de uma elevação às alturas, mas sim de interiorização e, essa, faz-se no corpo. De resto, nada tenho contra o sexo aos 20 anos (ou, já agora,aos 80) apenas registo que a pulsão sexual não é apenas física, mas é essencialmente, porque vital, uma pulsão espiritual.
Marta,
fui eu, com toda a certeza, que me expressei precariamente, em tudo. As perguntas e considerações eram apenas as que o seu texto me deixou, e que gostei tanto que o seu texto deixasse. Não me passaria pela cabeça fazer-lhas, só pensá-las consigo. Ainda bem que tenho este hábito de passar aqui à hora da Cinderela, assim desfaz-se o equívoco.
Não, não! Não é nada precária. É nestas linhas que os textos procriam (parece que já não consigo sair desta imagética!) e se geram novas perspectivas! Só tenho a agradecer todos os filamentos de ideias que me deixou.
Lança pistas altamente estimáveis, Marta, e que gostaria de ver mais exploradas. Gostei de a ler. Os meus cumprimentos.
Obrigada Pedro. É um dos responsáveis! Deu-me muito trabalhinho. E deixo-lhe um repto/pedido: fartei-me de procurar e não encontrei um filme alemão cujo nome original não sei e que era, em Portugal, “A mulher em chamas”. Conhece?
Marta, o filme era Die flambierte Frau, assinado por Robert van Ackeren. Era um filme com uma visão transgressora da prostituição. Na altura, morria-se convulsivamente a olhar para a Gudrun Landgrebe, de uma beleza provocatória e sorridente.
Quando — se — voltar, como prometi acima, ao tema, tenho de ver onde é que encaixo os estados místicos a que te referes — mas faço notar que a anulação do eu é um elemento chave da pornografia.
É isso mesmo! Mil obrigados! Lembro-me muito bem de ver o filme mas não havia maneira de o recuperar.
Fico à espera que cumpras a promessa quando — se — tiveres tempo e vontade. Descobri um bailado intitulado “La petite mort” mas já não dava para o incluir.