Começar pela etimologia

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A etimologia da palavra “pornografia” pode ajudar-nos a situar do que é que estamos a falar nos três textos (este do JNA,  este do PMS, e o meu inicial) a que se juntou um quarto, da Marta, que ainda não li, mas já lá vou a correr e comentar.
Pornografia deriva da palavra grega “porné” que significa prostituta. Grafia, como sabemos, deriva doutro termo grego, “graphein”, que significa escrita. Ou seja, a pornografia é, quando nasce, um tratado sobre a prostituição, definição que, aliás, os dicionários conservam. Posteriormente, o campo semântico da palavra alargou-se, passando a designar as gravuras ou pinturas obscenas (artísticas ou não), bem como as publicações obscenas (artísticas ou não). Em qualquer dicionário a definição é clara. Leio o meu “Aurélio”: “Figura(s), fotografia(s), filme(s), espectáculo(s), obra literária ou de arte, etc., relativos ou que tratam de coisas ou assuntos obscenos ou licenciosos, capazes de motivar o lado sexual do individuo.” Outra definição, mais breve: “Devassidão, libidinagem”.
Ou seja, as descrições de Sade — artísticas embora — são pornográficas. Michelangelo fez pornografia (alguma da qual está, e bem, no Vaticano). O mesmo vale para a arte contemporânea, a começar em Araki ou Jeff Koons e a acabar em Mapplethorpe. Eu já vi ou li as obras a que aludi e, confesso, elas motivaram o lado sexual do indíviduo que eu sou.  Em suma, o dicionário confere! Logo, escamotear a componente pornográfica a essas obras de arte – o que tem de facto sido feito por ideologias várias – é um processo de emasculação. Cabe-me, bem sei, o ónus da prova, o que tentarei fazer em breve.
Por ser eu um defensor da pornografia, defesa que começa na defesa da prostituição (para começar por onde os gregos começaram), estes textos do José Navarro de Andrade e do Pedro Marta Santos, e o diferencial moral e estético que neles se procura traçar, abriram-me o apetite para voltar ao tema. Mas hoje estou pouco sadiano e amanhã não posso (uma vida pornográfica, é o que é!). Na quarta-feira, quem sabe, hei-de voltar. Não há pressa. O mundo não acaba hoje.

Nota — A imagem acima é da designer portuguesa Inês Freitas que realizou, entre Janeiro e Março de 2006, uma série de representações combinando obras artísticas com o seu próprio corpo.

Comentários a “Começar pela etimologia” (6)

  1. Marta Costa Reis diz:

    Tens razão Manuel, há que começar pelo princípio. Todos nós demos ideias diferentes de pornografia –e não definições,como agora fazes. Eu explico a minha versão da palavra e, com a ajuda da Eugénia, expandi-a nos comentários. Não me apetece rever o que lá digo, mas tenho de concordar com a tua opção e a discriminação como pornográficos dos objectos e etc. “capazes de motivar o lado sexual do individuo”, sem nenhum lado pejorativo, pelo menos segundo o “Aurélio”. Mas fica a faltar-me palavra para o que eu quero dizer:pornográfico seria o acto sexual apenas material, mecânico, praticado a contra-gosto ou por dever profissional. Na verdade não foge muito da etimologia, mas não é a mesma coisa. Libidinoso, obsceno, devasso ou licencioso não servem. O que é que sugeres? Pornofilia?

  2. Marta Costa Reis diz:

    (Eu, em etimóloga amadora) outra hipótese: pornopatia.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Marta, eu não sou especialista de coisíssima nenhuma — ou seja, não sei!
    Creio que o problema começa na tentativa de se usar um substantivo — pornografia — como se fosse um adjectivo (com o mesmo sentido de, por exemplo, “degradante”). Os substantivos limitam-se a descrever, a enunciar. Os adjectivos valorizam.
    Mas, Marta, o que mais me intrigou no teu texto foi a definição que deste de “porneia”. Gostava de saber a fonte. Usualmente porneia designa os actos libidinosos, adúlteros, de prostituição, e por aí adiante. Que possa cobrir o grato e egoísta impulso animal da criança pelo seio materno que a alimenta, deixou-me em revolução.

  4. Marta Costa Reis diz:

    São notas que tirei de um livro que agora me escapa mas que recuperei online. Voilá!
    http://www.jeanyvesleloup.com/fr/texte.php?type_txt=2&ref_txt=77

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Chegou a lei — chegou a ordem!
    Nem sei se gostei mais do texto se do comentário, Manuel.
    Saltando o fim deste último, a parte que te deixou em revolução (a mim também, que ainda não a tinha lido, Marta), chega-se então a algo que se poderia classificar de ‘artes visuais a propósito de gente da vida’ — ou, simplificando muito com bom vernáculo, ‘putovisão’ (termo potencialmente homófobo, pelo menos em parte…).
    Sempre achei a pornografia isso mesmo: shows de putanhice — sejam eles planos ou profundos. Mas uma cena de paixão (e amor que se pretenda real) pode com facilidade ser um belo momento sem nada de horny. Parece-me uma linha, provavelmente ténue, mas também me parece que existe. E aqui concordo com o PMS na sua divergência pontual: que o sexo amoroso pode e deve ser pornográfico. Porque transfere para esse momento o grafismo da palavra, dando posse a parte dessa grande teoria quase ancestral onde a «verdadeira» mulher surge definida como uma cozinheira na cozinha, uma senhora na sala, e, por maioria de razões, uma puta na cama.
    A minha querida mãe, que por vezes rasgava o véu puritano da sua cultura de época, sempre me disse: o que um casal faz na cama é assunto exclusivo dos dois.
    Tinha toda a razão.
    Já a série ‘Swingers’, por exemplo, que nada de extraordinário mostra, tem uma intenção pornográfica na sua matriz.

  6. Teresa Font diz:

    Lá me pus eu, que devia estar enfronhada no desporto nacional, terminadas que são as tarefas que me têm distraído de tão nobre missão, a espreitar em campa alheia.
    E eis que tenho uma epifania-é o olhar dos outros. O que faz a pornografia é o voyeur, é o homem que olha.
    Porque o que se passa entre dois seres é sagrado. Num quarto com portas fechadas. Podia acrescentar: adultos e mutuo consentimento, mas mas mas mas. Tambem aqui se pode levar um bocadinho, só um bocadinho, mais longe os conceitos.
    Cor, preto e branco, cordas, mãos dadas, lirios ou serenatas à varanda, é a representação do desejo que o faz pornográfico, ao destiná-lo a ser visto por outros.

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