
Como em tudo na vida, é preciso sorte. E Portugal teve sorte. Talvez a melhor coisa que aconteceu ao nosso país, no seguimento da Segunda Guerra Mundial, foi a vinda e radicação de Calouste Gulbenkian em Lisboa. Gente não antipática, baixos impostos, um clima mais propício à sua bronquite e um erro dos ingleses que se lhe opuseram devido a acusações de colaboracionismo, levaram a que Gulbenkian se tenha instalado no nosso país.
A sua história é por demais conhecida: descendente de uma família Arménia influente, tornou-se um magnata do petróleo, o senhor cinco por cento, de grande influência na Europa. Decidido a radicar-se nos Estados Unidos, sentindo que a sua fortuna poderia estar em risco após dificuldades levantadas pelos britânicos no pós-guerra, Gulbenkian, de passagem por Lisboa, acabou por fazer dela a sua morada final.
Há uns tempos, se não me falha a memória, publicou Maria Filomena Mónica no Público, um extenso artigo sobre a vida do filantropo. Fiquei a saber que Calouste Gulbenkian não era pessoa fácil. Terá proibido a sua mulher de doar dinheiro à comunidade arménia que fosse usado de forma meramente caritativa, e não produtiva. Nós os portugueses, tivemos também sorte, quando, ao inspeccionar as contas, em detalhe, dos seus negócios, descobriu que o filho cobrou à empresa do pai (onde estava empregado sem salário) um almoço mais ostensivo que as vontades do pai permitiam — e o comeu à sua secretária. Este recusou-se a pagar, sendo que o filho mais tarde o processou, tendo tudo isso contribuído para que Calouste Gulbenkian deixasse o grosso da sua fortuna à Fundação.
Apesar do nome ser familiar, não sei se Calouste Gulbenkian é, para nós portugueses, um querido morto. Para mim significa formidáveis exposições, um lindo jardim, Laliques fabulosos, horas e horas de música sinfónica e extraordinárias conferências. Tudo isto simbolizado pelo senhor, sentado em frente a Hórus, o falcão, ali à entrada de Lisboa. E Gulbenkian simboliza ainda milhares de bolsas que permitiram enriquecer-nos de cultura e ciência, de sabedoria. Poucos terão feito, no nosso país, pelo conhecimento e pela cultura o que Gulbenkian, por mera casualidade duma paragem, fez por Portugal.
Claro, não seria justo fazer esta homenagem sem relevar os homens e mulheres que fazem da Fundação Calouste Gulbenkian o que ela foi, é e será, deixando apenas o nome de José Azeredo Perdigão, que corporizou a instalação da Fundação, ainda antes do 25 de Abril, e que é hoje uma das mais ricas fundações filantrópicas do mundo.

















Eu só soube de Gulbenkian por causa da minha admiração pelo trabalho de René Lalique! Eu gosto dos cristais, das jóias, dos vasos…e adoro as libélulas!!!
Querido não, queridíssimo morto – digo eu, que subscrevo tudo o que o Francisco referiu no texto.
E acrescento que se sou uma ávida e encantada exploradora de museus, dos maiores e consagrados aos mais pequenos, criados a partir de colecções particulares, onde quer que vá, ao Museu Gulbenkian o devo: foi o primeiro que me lembro de visitar inteirinho, ainda criança e de me sentir orgulhosa do feito. Ainda hoje acho graça rever o quadro que primeiro me encantou: as bolas de sabão de Manet (http://www.museu.gulbenkian.pt/obra.asp?num=2361&nuc=a9&lang=pt). E, lá bem perto, o naufrágio no mar, que tanto fascinava o meu irmão. Com o tempo veio o encanto por Ghirlandaio (http://www.museu.gulbenkian.pt/obra.asp?num=282&nuc=a9&lang=pt) e tantos outros, as louças chinesas e, claro, o extraordinário Lalique (http://www.museu.gulbenkian.pt/nucleos.asp?nuc=a11&lang=pt=).
A Calouste Gulbenkian devo ainda, entre tantas outras coisas:
– o ter aprendido quem eram Vasarely e Henry Moore
– os divertidíssimos momentos que passei com as minhas filhas a alimentar (à socapa, claro) as imensas e vorazes carpas com bigodes que povoam os lagos dos jardins da Fundação
– a fabulosa celebração da obra de Amadeo de Sousa Cardoso
– e ainda há bem pouco tempo, a experiencia absolutamente única e suspeito que irrepetível, de ouvir Evgeny Kissin a tocar Chopin como jamais imaginei que fosse possível …
Desconhecia em absoluto a história do fatídico almoço, adoro estes desconcertos da história. É realmente um muito querido morto e muito bem (re)lembrado, Francisco!