Agora serei eterno

 

Drummond eternizado em Copacapana

 

E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno.

 

Ainda em resposta ao desafio do Manuel: se existem primeiros versos que me interpelam são estes, que abrem e dão o mote para “Eterno”, poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no seu livro Fazendeiro do Ar, publicado em 1954.

Ou melhor: mais do que me interpelarem, dividem-me, racham-me ao meio. Porque não é justo obrigar ninguém a optar entre o moderno e o eterno, como se fossem duas noções que se excluíssem mutuamente, que fossem o oposto uma da outra. E não são? Não, segundo Baudelaire, o moderno e o eterno são as duas metades do belo. Ou as duas metades da arte, que, na altura em que Baudelaire escreveu sobre o assunto (O pintor da vida moderna, em 1863), era o outro nome que se podia dar ao belo, muito antes de Malevitch e Duchamp terem vindo baralhar o que todos davam por adquirido. Dizia Baudelaire, à propos, que “o belo é feito de um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é demasiadamente difícil de determinar, e de um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, de cada vez e em conjunto, a época, a moda, a moral, a paixão”, e que “a modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável”.

Há quem diga que o objectivo de Drummond era mesmo o de se livrar da dualidade baudelairiana, ou seja, o de se demarcar do transitório e do fugitivo para se fixar no imutável e no permanente. Mas outros dizem que talvez não seja nada disso, que talvez a chave esteja no qualificativo “chato” aplicado a “moderno”. Se o moderno ficou “chato”, então é porque passou de moda e já não é moderno. E o eterno, por sua vez, teria passado a estar na moda. O que é o mesmo do que dizer que ser eterno é tão moderno como ser moderno. Isto porque, segundo Baudelaire, ser moderno é o que está na moda ou, quanto muito, o que nunca passa de moda. E o eterno acabaria, assim, não como o oposto do moderno, não a moda a passar de moda, mas simplesmente uma nova categoria da moda.

Nessa leitura que uns quantos fizeram do “Eterno” de Drummond, ficaria resolvido o dilema entre moderno e eterno. O que poema faz é, simplesmente, dissolver o eterno no moderno. Ou, por outras palavras, modernizar o eterno. Mas nada como cada um ler os outros versos do “Eterno” para julgar por si próprio.

 

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
……………………………….

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Comentários a “Agora serei eterno” (7)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Acho eu, Diogo, que Drummond é o eterno moderno de seu avô:

    Oh! Sejamos pornográficos
    (docemente pornográficos).
    Por que seremos mais castos
    Que o nosso avô português?

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Acho eu, Manuel Fonseca, que a dualidade que o Diogo aqui trouxe com o meu rico Drummond não é a dessa eterna modernidade!

      Há quem veja la vie en rose e há quem seja um perverso… sim, já sei, agora vai-me dizer que, em qualquer dos casos, a culpa é das lentes dos óculos.

      • Diogo Leote diz:

        Não era, acredito, a essa eterna modernidade a que o Drummond se referia. Mas agora que o Manuel nela falou, não me parece mesmo nada descabida a alusão. Como não me parece descabido ultrapassar o dilema entre la vie en rose e o perverso usando a mesma técnica…

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Ora aqui está uma situação em que estou à vontade: nunca usei óculos, nem penso usar óculos! Ou seja, olhar mais genuíno e inocente — o grau zero do olhar, claro — não podia haver. Tenho testemunhas: todos os autores do blog que não falharam um jantar! Ah, pois.

    • Diogo Leote diz:

      Ora nem mais, Manuel, o truque para a dissolução do pornográfico no eterno, esta simplesmente, em sermos doces, docemente pornográficos.

  2. Marta Costa Reis diz:

    Não conhecia este poema e, depois dos versos iniciais que têm o seu quê de ironia (pareceu-me) espantou-me a seriedade do resto… mas se calhar é impressão minha e o pérfido MSF, é que tem razão: é tudo uma doce brincadeira. Em todo o caso, bela escolha de primeiros versos, Diogo!

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