A Presença dos Ausentes

Estou exausto. De aqui estar, para sempre fixado a óleo, para sempre suspenso, para sempre bom ladrão, para sempre ao teu lado. “Para dar presença aos ausentes”, dizias que dizia Alberti. Uma porra. A eternidade é tempo de mais e ninguém tem direito a condenar-nos à perpétua prisão de um simples instante.
Estou exausto. De fingir sem fim a presença quando é obviamente de ausência infinita que se faz o teu olhar vazio, o meu mundo latido. Ninguém tem direito a emparedar-nos assim. Transparentes de insignificantes, espessos de arcanos significados.
Estou exausto. De vazio. De não ser o pai sofrido que se adivinha tatuado no sudário translúcido que é o teu desconsolado espírito. De não ser o teu cristíco filho, afogado, horizontal e azul, em mares nunca antes prometidos. De não ser epifania nem aparição mas simples consolo de uma fé em trompe l’oeil que finges ser tua.
Estou exausto. De aqui estar mas sobretudo de lá ter sido. Foram, antes destes que são anos de eterna crucificação, anos longe demais.Como se ontem houvesse amanhã. Como se não fosses Pai e ele não fosse inteiro de ti. Como se eu não fosse absoluta e destemperadamente só. Estou exausto. Amar cansa. E a eterna impossibilidade de ser amado cansa mais ainda.
Não é preciso voltar a citar-te Alberti, pois não? O Pai sempre presente, o Filho eterno ausente, e o Cão sou logo eu.

Comentários a “A Presença dos Ausentes” (23)

  1. Agata diz:

    bem…! que espectáculo…

  2. Marta Costa Reis diz:

    Belíssimo, Pedro. Fez-se esperar mas chegou inspirado, grandioso e também tão simples, directo e profundo, intenso, sofrido…gostei-mesmo-muito.

    • Pedro Norton diz:

      Aina bem que gostou, Marta. Dez horas num avião dão nisto. Pode ser que a chuva quente de Angra dos Reis justifiquem mais uns posts. Se a Internet colaborar, claro.

  3. também gostei mesmo muito …

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Sintético, intenso, excelente.

  5. É por posts deste calibre que faz do ” é tudo gente morte”, o melhor blogue nacional.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Esta “presença dos ausentes” obrigou-me a procurar e parafrasear outro poema de Alberti. Que nomes pôr ao cão? Cão equivocado? Cão sem saída? Mentira de cão em bosque?

    Releio o poema:

    A embestidas suaves y rosas, la madrugada te iba poniendo nombres:
    Sueño equivocado, Ángel sin salida, Mentira de lluvia en bosque.
    Al lindero de mi alma, que recuerda los ríos,
    indecisa, dudó, inmóvil:
    ¿Vertida estrella, Confusa luz en llanto, Cristal sin voces?
    No.
    Error de nieve en agua, tu nombre.

    Ou seja, exaustos de eternidade erramos sempre os nomes.

    ps — bela nieve en agua, Pedro.

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Forte e belo, este seu texto, Pedro. Apesar ou por causa, não decidi ainda, da desoladora eternidade de tantas dores (a crucificação, a impossibilidade de se ser amado, a ausência, a solidão), tão perturbadora para quem, como eu, vive agarrada à convicção de que tudo na vida tem de ter um lado bom, mesmo as coisas muito más, quanto mais não seja porque um dia acabam … ou afinal não?

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    As pessoas nunca dizem, ou tendem a não dizer: não percebi, não sei e outras coisas que as fazem não. Por muitas razões. Algumas são boas razões.

    Eu não percebi tudo do seu texto, e se calhar até errei no que julguei perceber como la paloma que creyó que el mar era el cielo, mas vi beleza nele, e assim, porque incompreendido, sempre regresso a um lugar onde se fala em mares nunca antes prometidos.

    • Pedro Norton diz:

      Eugenia,
      Acho que já um dia lhe disse isto: acredito que os textos deixam de pertencer-nos assim que os publicamos. O sentido que lhe der está, por definição, certo. É o sentido que o texto tem para si e que faz dele seu.
      Bom ano!

  9. Luciana diz:

    Pedro,
    não li seu texto como deveria, só sei — dele — que é belo e me inquietou e eu o esqueci assim que terminei de ler, letra por letra, incômodo por incômodo. E, isso, porquê? Justamente: estou exausta. Amar cansa. Foi uma difícil semana. Mas acabou. Seu texto permanece, leio de novo em 2011.

  10. maria diz:

    A mesinha de cabeceira alberga os instantes eternos que colecciono faz anos…

    Belíssimo texto.

    Bom ano

  11. Turmalina diz:

    Acho que a mente humana, e talvez a canina também, faz umas conexões muito interessantes. Conforme o seu texto foi tomando corpo vi, pela lente de Leone, Robert de Niro, com seu sorriso de ópio, murmurando:
    – Estou exausto…

  12. Inês diz:

    Pois… a seguir a uma dose destas de spleen que a net, inadvertidamente me pôs à frente, apetece-me acrescentar outro ponto de vista e lembrar que a eternidade não “é tempo demais” basicamente porque não é uma linha infinita de tempo. Não se trata de um progresso frente a uma linearidade simplista, na qual no fim, aquilo que já não é tempo simplesmente se coloca depois do tempo, tornando-se assim temporal (!). É outra coisa, que assenta em pressupostos de transcendência que o racionalismo proíbe aos seus seguidores, como sistema último de controlo baseado na mediação do real.

    Os “espectadores” que analisam, distinguem, dividem e tentam explicar exaustivamente o que os rodeia, auto-excluídos da dimensão extra-racional da percepção e cheios de um inevitável tédio, vão vendo avançar o sentido do vazio, prisioneiros da razão elevada a medida única. Incapazes de suportar o embate da contradição que ensopa uma realidade essencialmente paradoxal, encontram-se perdidos e sozinhos com a sua impotência, esmagados pela suspeita devastadora de que “tudo é nada”.

    E depois há os outros, os “admiradores”, que dispensam o controlo e aceitam ser tomados por aquilo que vêem, o entendem fora de si mesmos e se rendem diante do assombro para lá de todas as conceptualizações, num estado integrador que os faz celebrar sempre. Estes, que também andam por aí, distinguem-se por causa da alegria e da paz que se entorna escandalosamente das suas vidas duras e mais ou menos provadas, como todas.

    É sempre um prazer para mim encontrar uns e outros e ir constatando com eles a escolha dramática que é a vida. A nitidez das suas diferenças afina a minha liberdade neste tempo de palavras tão doentes, baças e quebradiças. Quase inoperantes. Uma das que a cultura moderna ocidental fez mais frágeis vai-se tornando, diante destes exemplos tão claros, a minha preferida: JESUS

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