Arquivo | Dezembro de 2010


2010


Aqui fica a lista que faço todos os anos — “à volta, em volta, os passos à solta” — sobre os filmes que mais gostei de (re)ver ao longo dos doze meses anteriores. Entre séries de televisão, longas de animação, documentários e ficção, foram mais de 500, o que lança sérias dúvidas sobre o que andei a fazer em 2010.

À excepção dos primeiros quatro (os meus favoritos por um conjunto de razões que mais tarde explicarei), a lista corre sem particular ordem de grandeza. Acrescentei a disponibilidade nas salas, em DVD ou Blu-Ray, para quem estiver interessado em provar alguma entrada do menu.

Pois assim:

 

“There can be only one”, dizia o outro, antes de perder a cabeça a golpe de espada

1 — “Un Prophète”, de Jacques Audiard (2009, disponível em dvd nacional)

Será que ter escolhido um filme centrado numa prisão pelo segundo ano consecutivo diz mais de mim do que dos filmes?


2 — “El Secreto de Sus Ojos”, de Juan José Campanella, (2009, DVD nacional)

3 — “The Killer Inside Me”, de Michael Winterbottom (2010, Blu-Ray Região 2 via Amazon, a estrada de tijolos amarelos para a felicidade)

4 — “Io Sono l’Amore”, de Luca Guadagnino (2009, DVD Região 2)

E depois

5 — “The Messenger”, Oren Moverman (2009, DVD Região 1)

6 — “Des Hommes et des Dieux”, Xavier Beauvois (2010, nos cinemas)

7 — “Inception”, Christopher Nolan (2010, Blu-Ray nacional)

8 — “The Box”, Richard Kelly (2009, Blu-Ray Região 2)

9 — “Walk the Line”, versão alargada, James Mangold (2005, Blu-Ray nacional)

10 — “Cranford:Complete BBC Series”, 1º episódio, Sue Birtwhistle e Suzie Conklin (2007, DVD Região 2)

11 — “Le Conseguenze dell’ Amore”, Paolo Sorrentino (2004, DVD nacional)

12 — “Somersault”, Cate Shortland (2004, DVD Região 2)

13 — “Boomerang!”, Elia Kazan (1947, DVD Região 2, edição espanhola)

14 — “Last Train Home”, Lixin Fan (2009, exibição no doclisboa, disponível em DVD em Fevereiro)

15 — “Sous le Sable”, François Ozon (2000, DVD Região 2, edição espanhola)

16 — “The Ghost Writer”, Roman Polanski (2010, DVD nacional)

17 — “Medium Cool”, Haskell Wexler (1969, DVD Região 1)

18 — “Klute”, Alan J. Pakula (1971, DVD Região 2, edição espanhola)

 

19 — “The Kids are Alright”, Lisa Cholodenko (2010, nos cinemas)

20 — “Le Concert”, Radu Mihaileanu (2009, nos cinemas)

21 — “Winter’s Bone”, Debra Granik (2010, DVD Região 1)

22 — “A Single Man”, Tom Ford (2009, DVD nacional)

23 — “In the Loop”, Armando Ianucci (2009, DVD Região 2)

24 — “The Believer”, Henry Bean (2001, DVD Região 2, edição espanhola)

25 — “The Unknown”, Tod Browning (1927, “Lon Chaney Collection”, DVD Região 1)

26 — “The Rapture”, Michael Tolkin (1991, DVD Região 1)

27 — “Senso”, Luchino Visconti (1954, Blu-Ray em — magnífica — edição francesa)

28 — “Tyson”, James Toback (2008, DVD Região 1)

29 — “Vendredi Soir”, Claire Denis (2002, DVD Região 2, edição francesa)

30 — “The Pervert’s Guide to Cinema”, Sophie Fiennes (com Slavoj Zizek, 2006, DVD Região 0, NTSC)

31 — “The Road”, John Hillcoat (2009, Blu-Ray nacional)

32 — “John Adams”, mini-série tv, Tom Hooper (2008, DVD edição espanhola)

33 — “The Servant”, Joseph Losey (1963, DVD nacional)

34 — “Vincere”, Marco Bellocchio (2009, DVD nacional)

35 — “The Mortal Storm”, Frank Borzage (1940, DVD Região 1, muito difícil de encontrar — posso emprestar, sob protesto, a minha cassete VHS)

36 — “The Walking Dead”, série tv, episódio-piloto, (escrito e realizado por) Frank Darabont (2010, nos canais cabo)

37 — “Gainsbourg, Vie Heroique”, Joann Sfar (2010, nos cinemas, DVD edição francesa)

38 — “The Fallen Idol”, Carol Reed (1948, DVD Região 1 da Criterion)

39 — “Madame Curie”, Mervin LeRoy (1943, outra cassete velhinha)

40 — “XXY, Lucía Puenzo (2007, DVD edição espanhola)

“Senso”, ou o livro das horas da Condessa Alida Valli Serpieri

As explicações seguem em 2011.

Voltaaomundo

 


The Secret Garden


VoltaaomundoemvintefilmesparaoscompanheirosdoETGMverememcasacomosfilhoseossobrinhosnodiadeAnoNovo.


1 – The Secret Garden (1993, da polaca Agnieszka Holland)

 

2 – Gabbeh (1996, do iraniano Mohsen Makhmalbaf)

 

3 – Little Miss Sunshine (2006, dos norte-americanos Jonathan Dayton e Valerie Faris)

 

4 – In America (2002, do irlandês Jim Sheridan)

 

5 – The Fall (2006, do indiano Tarsem Singh)

 

6/7 – Planes, Trains and Automobiles ( 1987) e Curly Sue (1991, ambos do norte-americano John Hughes)

 

8 — Cool Runnings (1993, do norte-americano Jon Turteltaub)

 

9 – Mononoke-hime (1997, do japonês Hayao Miyazaki)

 

10 – Juno (2007, do norte-americano Ivan Reitman)

 

11 – Oliver Twist (1948, do inglês David Lean)

 

12 – El Espíritu de la Colmena (1973, do espanhol Víctor Erice)

 

13 – Hellboy II: The Golden Army (2008, do mexicano Guillermo del Toro)

 

14 – Mitt liv som hund (1985, do sueco Lasse Hallstrom) — este só com “Parental Guidance”…

 

15/16 – Lat den Ratte komma in (2008, do sueco Tomas Alfredson) / Near Dark (1987, da norte-americana Kathryn Bigelow) – idem

 

17 – Korova (1989, do russo Aleksandr Petrov)

 

18 – The Wedding Singer (1998, do norte-americano Frank Coraci)

 

19 – Badkonake sefid (1995, do iraniano Jafar Panahi, condenado a semana passada por “incitamento à desordem”)

 

20 – A High Wind in Jamaica (1965, do escocês Alexander Mackendrick)

 


Gabbeh


Bom Ano.

 

 

Me.Tube

Imaginem cowboys (e cowgirls). Imaginem pradarias, páginas e páginas em branco de erva fresca, planuras claro-escuro de estranhas sombras, ao longe o horizonte sem fim. Trazemos connosco o que deixámos  e o que não sabemos é o que nos guia… o novo mundo que nos espera em cada esquina. Outras fronteiras, desconhecidas, que vamos nós fixar.

Hoje um crítico de cinema reclamou um Óscar para um filme do YouTube. O primeiro filme lançando no YouTube a ser “nomeado” para um Óscar. Este filme:

O crítico — Robert Ebert, que até é famoso e respeitado – justifica-se. Podem ver directamente toda a história na sua página ou apenas este resumo:

1)Because of its wonderful quality. (2) Because of its role as homage. It is directly inspired by Dziga Vertov’s 1929 silent classic “Man With a Movie Camera.” (3) Because it represents an almost unbelievable technical proficiency. It was filmed during the New York blizzard of Dec. 26, and Jamie Stuart e-mailed it to me with this time stamp: December 27, 2010 4:18:18 PM CST.

Não sei nada sobre nomeações para Óscares e sobre cinema tão pouco. Gostei do filme. Achei-o belo e inspirado. Achei-o comovente na maneira como nos revela a beleza do mundo. É uma obra de uma nova era que sentimos chegar sem sabermos bem o que significa. Não é arte efémera, porque perdurará tal qual enquanto houver memória digital. Poderá ser arte instântanea – rápida a fazer, rápida a apreciar, rápida a esquecer talvez, mas arte. Real, física, apaixonante. 3m35s de arte.

Somos já o futuro mas não o sabemos ainda. Feliz 2011!

Cromos da Nação

Há dias o Zé Navarro de Andrade deu, com a melhor das intenções certamente, uma quase-última machadada no que ainda resta do meu orgulho nacional. A bem dizer não foi coisa que não desconfiasse de forma abstracta, mas a aridez daqueles números invadiu-me como um veneno lento. Entre garfadas gulosas de polvo assado com arroz do mesmo o Zé Navarro lembrou-me que de Camões a Garrett — ou seja, entre os séculos XVI e XIX — apenas um vulto sobressaíra verdadeiramente na literatura portuguesa: o Padre António Vieira!
Fiquei chocadíssimo, mas pensei logo em boas explicações — como por exemplo os afazeres coloniais, a ocupação Filipina, o comércio…
«Bolas, é muito pouco», pensei, tentando comparações num rápido e resumido inventário da produção europeia desse naco dos séculos.
Nada a fazer. Resumamo-nos portanto à nossa dimensão e espaço: pequeno, periférico, atlântico, africanista, orientalista e afins.
Ok, mas porque será que gosto tanto de ser português? As expectativas não são brilhantes, o passado já lá vai e o presente é uma trampa. Será a paisagem que me enternece ao absurdo? As pessoas — no seu conjunto?! …
Gosto da língua, muito. Gosto de estar na Galiza e vê-la na língua assumidamente. E a verdade é que gosto da dimensão provincial dos pequenos países. Cada vez gosto menos de grandes aglomerados — seja do que for.
Encontrei estes cromos, apenas uns cinco duma colecção denunciadamente maior dos inícios do Estado Novo, e dei comigo a pensar que realmente já cá andamos há muito como país inteiro.
Talvez também goste disso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Presença dos Ausentes

Estou exausto. De aqui estar, para sempre fixado a óleo, para sempre suspenso, para sempre bom ladrão, para sempre ao teu lado. “Para dar presença aos ausentes”, dizias que dizia Alberti. Uma porra. A eternidade é tempo de mais e ninguém tem direito a condenar-nos à perpétua prisão de um simples instante.
Estou exausto. De fingir sem fim a presença quando é obviamente de ausência infinita que se faz o teu olhar vazio, o meu mundo latido. Ninguém tem direito a emparedar-nos assim. Transparentes de insignificantes, espessos de arcanos significados.
Estou exausto. De vazio. De não ser o pai sofrido que se adivinha tatuado no sudário translúcido que é o teu desconsolado espírito. De não ser o teu cristíco filho, afogado, horizontal e azul, em mares nunca antes prometidos. De não ser epifania nem aparição mas simples consolo de uma fé em trompe l’oeil que finges ser tua.
Estou exausto. De aqui estar mas sobretudo de lá ter sido. Foram, antes destes que são anos de eterna crucificação, anos longe demais.Como se ontem houvesse amanhã. Como se não fosses Pai e ele não fosse inteiro de ti. Como se eu não fosse absoluta e destemperadamente só. Estou exausto. Amar cansa. E a eterna impossibilidade de ser amado cansa mais ainda.
Não é preciso voltar a citar-te Alberti, pois não? O Pai sempre presente, o Filho eterno ausente, e o Cão sou logo eu.

Dez pares de tartarugas não o podem negar

Dorian Gray retratado por Santa-Rita Pintor? Nada disso, nem Lúcio no confessionário de Pessoa – embora a imagem possa ter mais a ver com o caso.
Sim, senti por momentos que me preparava para mais uma heresia, talvez mesmo para algo simplesmente excessivo. Como um presente pretensioso. A meio achei que tinha misturado as tintas do país com outras minhas e com elas pintado um quadro que nada tinha a ver com os propósitos iniciais. Depois, lentamente, algumas peças encaixaram entre si. E então todo o oráculo se encaminhou para uma imagem mais depurada.
O que fiz?
Bem, a propósito do nosso blogue consultei o I Ching (ou Yijing, Yi King, I Ging, Zhou yi…) – o Livro chinês das Mutações.
Já depois de ter manipulado as moedas para obter os hexagramas sobre a situação investigada (neste caso o processo de amadurecimento do É Tudo Gente Morta, ou se quisermos o seu movimento interior) senti-me um pouco alarmado: Chieh, o hexagrama que indica o ponto de partida, significa na sua divisão em trigramas a Limitação. Acima encontra-se o Abissal, Água, e em baixo a Alegria, Lago.
A leitura da imagem é simples: o lago é um espaço limitado que transborda quando recebe água em excesso. Ora se há água em cima e em baixo existe uma desproporção que só a Limitação poderá reequilibrar. Chieh refere-se aos nós que dividem uma vara de bambu, à contenção nas despesas do dia-a-dia e, já na esfera moral, às regras da lealdade e do desinteresse.
No Julgamento sobressaiu a frase de abertura: «Não se deve perseverar no exercício duma limitação amarga» – ou, em linguagem menos simbólica, até nos limites deverão existir limitações, realidade que no Livro das Mutações surge exemplificada de forma cabal no exercício da política e na reacção do povo a tal exercício.
E foi aqui que comecei a ver as tintas do país, é claro…
A finalizar Chieh, o oráculo aconselha que «assim, o homem superior cria número e medida, examina a natureza da virtude e da conduta correcta». Ou, em linguagem ocidental, procede a um discernimento selectivo: «A pessoa humana só adquire relevância enquanto espírito livre, quando se impõe limites e determina de forma espontânea o seu dever». E foi aqui que me «vi» a mim…
Como a partir das flutuações da quinta e sexta linhas obtive um novo hexagrama era de admitir que este revelasse o processo de mutação do ETGM. Resultou Sun, que significa Diminuição!
Mau! Primeiro Limitação e depois Diminuição?! Pareceu-me mania…
Tínhamos agora acima a Quietude, Montanha, e em baixo a mesmíssima Alegria e Lago, também presentes em Chieh.
No Julgamento lia-se: «Diminuição unida à veracidade promove suprema boa fortuna – livre de culpa. É favorável empreender algo. Como levá-lo a cabo? Podem-se usar duas pequenas tigelas de sacrifício».
Ressalve-se que «não é motivo de preocupação caso a beleza de uma civilização, ou mesmo a elaboração das formalidades religiosas, tenham de sofrer em virtude da simplicidade».
Estranhamente, na Imagem lê-se: «Assim, o homem superior controla a sua ira e refreia os seus instintos».
O mais enigmático surgiu na leitura das linhas flutuantes, de que resulta a transformação de Limitação em Diminuição. Yin velho (seis) na quinta posição: «Alguém sem dúvida aumenta, dez pares de tartarugas não se podem opor a isso. Suprema boa fortuna». Yang velho (nove) na sexta posição: «Quando se é aumentado sem que os outros por isso sejam diminuídos não há culpa. A perseverança traz a boa fortuna. É favorável empreender algo. Auxiliares são encontrados, mas não se dispõe de morada própria».
A montanha cresceu e o firmamento deixou de estar entre a água dos ares e a do lago; o benefício do movimento não se ficará pela casa, antes se espalhará em todas as direcções.
Quando acabei de ler tudo já não achava que o oráculo tivesse feito paralaxe em mim ou no país.
Só não afirmo que tenha percebido tudo – porque para tanto precisava duma semana inteira, e isso…

O teaser pop do ano

Está claro que não vou resistir à tentação de vir para aqui com uma lista dos meus álbuns do ano. Mas, por agora, quero apenas deixar-vos um aperitivo. Um teaser para preparar a festa. Uma espécie de pátio de entrada onde os dez magníficos de 2010 serão recebidos com foguetes e serpentinas. E com bailarinas em pontas a abrirem alas para a red carpet que os levará ao pódio. Uma canção para por uma multidão de curiosos em passo de dança acelerado até à apoteose final. Com estes requisitos todos, tem mesmo de ser a grande canção pop do ano. No melhor que a pop tem, que é de dar a entender aquilo que não é. Que é deliciosamente descartável quando, afinal, tem muito mais para oferecer do que uns breves minutos de puro gozo. Quem tem dúvidas que uma canção destas não acontece por acaso, basta que ouça o álbum todo para deixar de as ter. Que, depois de vibrar despreocupadamente com este “Runaway”, ouça bem todas as restantes canções de “My beautiful dark twisted fantasy” antes de concluir que Kanye West se está a transformar num caso sério. E que limitarmo-nos a tratá-lo, simplesmente, como estrela do hip-hop é pouco, muito pouco, para quem parece estar incuravelmente possuído pelos melhores genes de Jackson e Prince.

Em rede: lemos; somos lidos

Fomos escolhidos. Basta ver onde, para se perceber que foi por gosto. A Sofia Loureiro dos Santos fez o elenco dos 7 blogues que mais a tocaram ou animaram este ano. E explicou porquê. Quando disse que a nós nos elegia porque “eles” (somos nós!) “nos temas abordados rompem a rotina do dia-a-dia” percebeu melhor o que nós gostaríamos de ser do que nós seríamos capazes de explicar e, ainda mais difícil, de fazer. Obrigado.

Derrotando Ebenezer Scrooge
Michael de Brito, “Setting the Table”, 2006

Fui gratificado com um Natal de Normam Rockwell como sempre imaginei e desejei, embora só recentemente tenha alcançado. Quarenta pessoas numa casa rodeada do frio estaladiço dos remotos ermos alentejanos; conversas interrompidas por outras conversas em rede; lareiras em labaredas e rabos gelados, com a pilha de casacos nas cadeiras da entrada, qual é de quem?; ralhos constantes contra os miúdos a praticarem correrias e turbulências nos corredores, a entrarem em casa enlameados e o cão a ladrar por eles a pedir atenção e a manifestar autoridade; a estafa da cozinha partilhada mais ou menos por todos em ordem unida, noitadas a provar álcoois raros e o jantar e o almoço pantagruélicos, quase burlescos se não ofensivos ao estado geral da nação, com tardes prostradas a ver filmes na televisão enquanto chove e não chove lá fora.
Claro que foi sôfrega a cerimónia dos presentes, com as crianças inflamadas pela alegria súbita e instantânea de não haver surpresas desagradáveis, ao confirmarem a realização dos pedidos insinuados em conversas dilatórias na semana anterior. Não houve peúgas de tias sem imaginação, nem prendas utilitárias das que deixam um rasto de insatisfação em nome da prudência; todos os embrulhos revelavam objectos inúteis e propícios ao prazer imediato, que é a finalidade suprema de um presente de Natal.
Isto contado é trivial porque corresponde ao que se se espera, mas os natais são como os anúncios da coca-cola, sempre mais imaginados do que concretizados, ou como as fotos dos quartos de hotel, bem mais estreitos e soturnos do que o sugerido.
Mas foi assim mesmo. Sem um pingo de má consciência, como se não houvesse amanhã. Se calhar nem há, mais vale agora que nunca. E quando ao princípio da noite de 26 fui à vila comprar tabaco, o mundo interrompera-se, ninguém na rua a sofrer os zero graus; tive que deixar o motor a trabalhar pois pela primeira vez o sinal de gelo acendera-se no tablier do automóvel. 

 

Agora serei eterno

 

Drummond eternizado em Copacapana

 

E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno.

 

Ainda em resposta ao desafio do Manuel: se existem primeiros versos que me interpelam são estes, que abrem e dão o mote para “Eterno”, poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no seu livro Fazendeiro do Ar, publicado em 1954.

Ou melhor: mais do que me interpelarem, dividem-me, racham-me ao meio. Porque não é justo obrigar ninguém a optar entre o moderno e o eterno, como se fossem duas noções que se excluíssem mutuamente, que fossem o oposto uma da outra. E não são? Não, segundo Baudelaire, o moderno e o eterno são as duas metades do belo. Ou as duas metades da arte, que, na altura em que Baudelaire escreveu sobre o assunto (O pintor da vida moderna, em 1863), era o outro nome que se podia dar ao belo, muito antes de Malevitch e Duchamp terem vindo baralhar o que todos davam por adquirido. Dizia Baudelaire, à propos, que “o belo é feito de um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é demasiadamente difícil de determinar, e de um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, de cada vez e em conjunto, a época, a moda, a moral, a paixão”, e que “a modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável”.

Há quem diga que o objectivo de Drummond era mesmo o de se livrar da dualidade baudelairiana, ou seja, o de se demarcar do transitório e do fugitivo para se fixar no imutável e no permanente. Mas outros dizem que talvez não seja nada disso, que talvez a chave esteja no qualificativo “chato” aplicado a “moderno”. Se o moderno ficou “chato”, então é porque passou de moda e já não é moderno. E o eterno, por sua vez, teria passado a estar na moda. O que é o mesmo do que dizer que ser eterno é tão moderno como ser moderno. Isto porque, segundo Baudelaire, ser moderno é o que está na moda ou, quanto muito, o que nunca passa de moda. E o eterno acabaria, assim, não como o oposto do moderno, não a moda a passar de moda, mas simplesmente uma nova categoria da moda.

Nessa leitura que uns quantos fizeram do “Eterno” de Drummond, ficaria resolvido o dilema entre moderno e eterno. O que poema faz é, simplesmente, dissolver o eterno no moderno. Ou, por outras palavras, modernizar o eterno. Mas nada como cada um ler os outros versos do “Eterno” para julgar por si próprio.

 

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
……………………………….

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

O telegrama

Com precisão matemática e timing irrepreensível, o nosso muito prezado Jorge Buescu, na sua página do facebook, deixou vazar o primeiro, espero, de mais de um milhar de telegramas. O mundo não voltará a ser o mesmo:

Dear kids, there is no Santa. Those presents are from your parents.
Love, WikiLeaks

Nascer

Foi em Belém da Judeia (ou Cisjordânia, como agora se deve dizer) que o vi pela primeira vez. Um mural numa Igreja Católica Oriental, uma das muitas igrejas que nos surpreendem nesta terra em que tudo aconteceu e tudo e todos por lá passaram e de uma forma ou de outra se misturaram.


Escola de Moscovo, Século XVI


O ícone da Natividade.  Os ícones são orações materializadas. Rituais. Estáticos. As cores, os temas, as figuras, tudo está escrito, descrito, feito há muito tempo, não há inovação perceptível ao olhar comum, não há originalidade nem individualidade para serem notadas a não ser pelos estudiosos.  Não é o autor que interessa aqui, é a qualidade da oração. São como as palavras sempre iguais de um “Credo” que só variam no fervor de quem as diz.

Mas, de repente, movem-se…

Este moveu-me a mim.  Gosto dos anjos que vão anunciar ao mundo o Nascimento, gosto dos raios de Luz Divina que descem da Trindade Celeste sobre o Menino, gosto do velho-demónio que tenta José com dúvidas sobre Maria e a Criança, mas gosto sobretudo daquelas figuras totalmente novas e surpreendentes: as parteiras que lavam o Menino Jesus.

Como pode ser  estranho haver parteiras numa cena de nascimento?

Foi-o para mim,  que cresci com Presépios de Senhoras compostas em rosa e azul celeste, com uma Virgem Maria muito sem parto. Como nasceu esta Criança?  Que a Mãe fosse e permanecesse Virgem somos livres (felizmente) de o acreditar ou não. Mas e o parto, senhores?

Esta Natividade foi que a primeira que me deu essa dimensão carnal, física e real de um nascimento humano. Um parto de sangue, de líquidos e placenta e fezes, um parto de dores sim, e cansaço. Claro que Maria tem de descansar reclinada a seguir, e no centro da imagem. Claro que a Criança tem de ser lavada; se nasceu como Homem tudo isto tem de acontecer…e, no entanto, fui surpreendida!

Este ícone trouxe-me a Maternidade, como ela é para as mulheres reais, um momento iniciático de abandono do nosso ser para dar vida a outro, um tempo em que vida e morte se roçam mais do que ao de leve. Um momento de necessária e total aceitação.

Tendemos a esquecer tudo isto em hospitais bem higienizados. Não há nada de asséptico no parto.

As duas parteiras deste ícone descoberto em Belém trouxeram-me essa dor suprema e essa sublime alegria que é nascer, como os humanos nascem, mesmo quando são Deus, afinal.