Teúda e Manteúda, a outra legítima
História Particular
da Infâmia

TEÚDA E MANTEÚDA

(1 de Julho de 1867 — 3 de Novembro de 1910)

 Amante. Amásia. Concubina. Manceba. A outra. Mas não qualquer outra. Teúda e manteúda, porque de casa posta, sustentada pelo seu casado benfeitor, o qual provia a todas as suas necessidades materiais, a troco da sua constante e plena disponibilidade e da exclusividade dos seus favores.  

A teúda e manteúda fazia parte do modelo social da época. Reflectia a prosperidade e alimentava a vaidade daquele que a tomava e mantinha, permitindo-lhe exibir ao círculo em que se movia a sua virilidade e o seu domínio dos ways of the world. E, não faltava quem o sustentasse, seria também o sustentáculo de muitos casamentos, ajustados e mantidos por conveniências várias, da continuidade de nomes e títulos, à consolidação de património, passando pelo mutuamente vantajoso intercâmbio de prestígio social e conexões relevantes por desafogo económico, assente em fortuna recente.    

Por tudo isto, mais que tolerada, era aceite. Pela sociedade, que nela não via, muito pelo contrário, uma ameaça à harmonia conjugal e à paz doméstica. Pela mulher casada, desde tenra idade instruída para ser boa esposa e mãe, logo bem ciente dos deveres que lhe cabia cumprir, se não com entusiasmo, ao menos com boa cara — e dos quais fazia parte o não tomar conhecimento de certas coisas. Porque o homem, já se sabe, tem necessidades.   

Sucede, porém, que entre nós se foi além, muito além, nesta matéria. E durante mais de 40 anos a teúda e manteúda beneficiou de um raro e extraordinário estatuto, que não só lhe reconhecia e banalizava a existência, como a legitimava, enquanto ocorrência normal na vida de um homem casado. Dentro de certos limites, impostos pela decência e pela razoabilidade, claro. Eu explico.

O nosso primeiro Código Civil, aprovado por Carta de Lei de D. Luís, de 1 de Julho de 1867, impunha a mulher e marido a obrigação de “guardar mutuamente fidelidade conjugal”, mas modelava o conteúdo desta bem ao sabor dos padrões vigentes. Donde, se permitia o divórcio perante o “adultério da mulher”, sem mais, exigia, para o mesmo efeito, sendo o homem a cometê-lo, além do propriamente dito adultério, que este envolvesse “escândalo público”, “completo desamparo da mulher” ou, pior, que se consumasse “com concubina teúda e manteúda no domicílio conjugal”*. O Código Penal de 1886 confirmava esta desigual valoração dos adultérios, punindo a mulher prevaricadora e o seu cúmplice com prisão “de dois a oito anos” enquanto aplicava ao “homem casado” que tivesse “manceba teúda e manteúda na casa conjugal” uma singela multa**.  

Da primeira destas esclarecedoras normas resultava, antes de mais, que fora dos casos nela descritos, em que o adultério marital ocorria em circunstâncias inaceitáveis, porque especialmente embaraçosas ou indignas, o mesmo era irrelevante. Ainda que decorresse de forma continuada, estável e organizada, com uma amante fixa e oficial. E resultava também a atribuição a esta de uma posição própria, como mulher de facto, com o seu espaço e os seus deveres bem definidos: desde que soubesse ser discreta e moderar as suas expectativas, i.e., manter-se no seu lugar, a teúda e manteúda gozava do beneplácito e da protecção da lei, enquanto amante legítima — tão legítima quanto a legitima esposa, cuja existência e papel social lhe cabia respeitar e em momento algum questionar ou cobiçar.

Mas porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, este estado de graça da teúda e manteúda haveria de chegar ao fim.  

A Lei do Divórcio, elaborada nos primórdios do regime republicano, sob forte pressão das organizações feministas que, tendo contribuído para o triunfo da revolução, exigiam a adopção das mudanças por que haviam lutado, traçava um regime todo ele baseado na igualdade entre mulher e marido – quanto à designação daquele com quem ficariam os filhos, à partilha de responsabilidades com a sua educação e sustento, à prestação de alimentos entre ex-cônjuges e, inevitavelmente, quanto aos motivos do divórcio.   

A complacência do Código Civil novecentista em matéria de adultério masculino deu lugar à estrita aplicação ao marido do que valia já para a mulher. O elenco legal de causas de divórcio litigioso passou a referir, ao lado do “adultério da mulher”, o “adultério do marido” – sem contemplações, graduações ou nuances. No plano criminal, o adultério deste foi expressamente “igualado em carácter e gravidade ao da mulher” e como este punido com prisão***. Do adúltero e da sua cúmplice, claro.  

Estas novas regras tiveram um impacto tremendo na pacata e confortável existência que levava a teúda e mantéuda. Por via da triunfal preponderância nelas assumida pela mulher casada — doravante a única legítima parceira, não mais forçada a suportar a sua vexante concorrência – foi remetida à clandestinidade e desqualificada, numa degradante equiparação, dentro da torpe categoria das “outras”, às mulheres fáceis e promíscuas e às imorais mancebas de portas adentro. Porque não há duas sem três, passou a estar em risco de humilhação pública, como co-ré num divórcio litigioso ou, pior, e sendo essa a opção da esposa ultrajada, ser presa, como cúmplice de adultério criminoso, porque cometido “durante a vida dos cônjuges em commum”****.

Ou seja, de uma assentada passou de elemento estabilizador do casamento, a co-responsável pela ruína do mesmo. Derrotada em toda a linha, a teúda e manteúda não deixou, evidentemente de existir. Mas, porque o seu tempo passara, a sua vida mudou. Muito e para muito pior.

Foi a 3 de Novembro de 1910. Faz hoje 100 anos.


* Artigos 1184.º, § 1.º, e 1204.º, §§ 1.º e 2.º, respectivamente, do Código Civil de 1867.
** Artigos 401.º, § 1.º, e 404.º, § único, respectivamente.  
*** Artigos 4.º, §§ 1.º e 2.º, e 61.º, § 1.º, respectivamente, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910, o último dos quais alterou o Código Penal, reduzindo para dois anos o prazo máximo da pena de prisão aplicável.
**** Artigo 61.º, corpo e § 1.º, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910: tal como sucedia já no direito anterior, “o cônjuge offendido” teria “de optar pela acção criminal de adulterio ou pela civil de divórcio (…) com base em adulterio, não podendo cumulá-las em caso algum”.

Comentários a “Teúda e Manteúda, a outra legítima” (38)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Coitadas das pistoleiras, coitados dos pistolinhas…
    (Estou a brincar!)
    Gostei muito desta infame, mas não gosto de adultério criminalizável — é coisa de árabe integralista.
    Agora já não é crime, pois não Joana?

    • No Golfe ‘pistoleira’ ou ‘pistoleiro’é todo o jogador que joga abaixo do seu handicup garantindo um número de pontos acima do merecido.
      Pergunto António se ‘Teúdas e Manteúdas’ também merecem ser referenciadas da mesma forma pois nunca tinha ouvido.

      :-)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Não é crime António … mas apenas desde a entrada em vigor, em 1983, do Código Penal de 1982. Infamous, isn’t it?

      E porque de infâmia aqui se trata, não resisto a pôr mais uns torozinhos de lenha na fogueira: só em Maio de 1975 foi revogado o artigo 372 do mesmo Código Penal de 1886, que dispunha nos inqualificáveis (já para a época) termos que se seguem:

      “o homem casado que achar sua mulher em adultério (…) e nesse acto matar ou a ela ou o adúltero, ou ambos ou lhes fizer algumas das ofensas corporais declaradas nos artigos 360, n.ºs 3 a 5,361 e 366 será desterrado para fóra da comarca por seis meses”.

      A mesma suave pena era aplicada à mulher casada que matasse >“a concubina teúda e mantéuda pelo marido na casa conjugal, ou ao marido ou ambos ou lhes fizer as referidas ofensas corporais” … mas só neste restrito cenário e caso os apanhasse “no acto declarado neste artigo”, claro.

      Para que nada fique por esclarecer, acrescento apenas que as ofensas corporais declaradas no artigo 366 correspondiam — nem mais nem menos — ao crime de castração, aquele pelo qual alguém amputa a outrem qualquer órgão necessário à geração”…

      Que bom que gostou desta minha incursão pelo nosso infame passado legislativo!

  2. Teresa Teixeira Motta diz:

    Gostei muitíssimo! É incrível a diferença de tratamento e o papel atribuído à mulher – quer a mulher casada que, como diz, “era instruída para ser boa esposa e mãe” e portanto devia ignorar as relações extraconjugais do marido, quer a teúda e manteúda, legitimada social e legalmente. Verdadeiramente infame esta teúda e manteúda e também infame o modo como era pacificamente aceite!
    Passaram 100 anos, e felizmente, mudou-se a lei. Mas será que a consciência social mudou assim tanto? Será que a sociedade não continua a valorar de maneira diferente o adultério cometido por homem e o mesmo cometido por mulher? Foi dado um importantíssimo passo mas talvez continue a valer a pena fazer um esforço para mudar consciências…
    Muito obrigada por assinalar mais uma data histórica!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Teresa, sua grande cusca, ainda bem que gostou – e ainda bem que eu consegui manter o mistério em torno da coisa, mas foi mesmo, mesmo por um triz, como imagina …

      O seu comentário toca na questão fulcral: a indignidade da posição da mulher, não apenas da oficialmente respeitável, mas não de todo respeitada — pelo legislador e pelo marido – esposa legítima, mas da própria teúda e manteúda, cujo estatuto legal de impunidade e de alguma legitimação não era senão o reflexo da impunidade e da legitimação que verdadeiramente se pretendia conceder às maritais indiscrições, das quais eram co-protagonistas…

      Porque bem vistas as coisas, nisto começava e acabava o interesse do nosso legislador pela teúda e manteúda: em momento algum criava obrigações, mínimas que fossem, relativamente a esta ou a eventuais filhos que esta viesse a ter, por parte do homem por conta de quem podia estar anos e anos … até ser trocada por outra mais nova, mais fresca, mais apetecível e mais vistosa …

  3. A ‘outra’ ainda faz correr muita tinta , talvez menos sangue.

    100 anos passaram … é incrivel.

    .. e quando a legítima se torna na ‘outra’ … lol … também acontece!
    :-)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Decerto, Rita, que a outra ainda faz correr, seja o ardente mancebo, ao seu encontro, sejam as lágrimas da mulher enganada.

      Mas os tempos são definitivamente outros. Por muito intensa e intemporal que seja a dor de quem sofre a traição, é bom saber que muita coisa mudou, que se não pode impunemente matar ou mutilar, que se não pode obter consolo desgraçando na cadeia aqueles que lhe dão causa. Ainda bem.

      … e conheço casos desses de que fala da legítima se tornar na outra … num ou noutro é o arranjo perfeito para o ex-casal, que não foi feito para os desgastes do quotidiano, noutros a vingança perfeita e gelada da mulher ultrajada … qualquer que sejam os contornos, fantástico enredo. Digo eu. Lol mesmo.

  4. Orcama diz:

    Este “filme” está demasiado a preto e branco. A história, no real, passa-se mais em muitos tons de cinzento.
    A Lei e a velha questão: deverá ela plasmar costumes ou encaminhar comportamentos? Curioso, noutros tempos, li um interessante texto de Enver Hoxa sobre isso (sim, esse mesmo que bem merece aqui ser enterrado naquele lugarzinho mesmo ao lado da mulher do Ceausescu).

    (humorizando):
    A ser como diz “Mas,…, a sua vida mudou. Muito e para muito pior”, acho isso incompatível com a melhoria geral das condições de vida da sociedade. Uma marcha com cartazes tipo daquela da “Teresa Batista cansada de Guerra”, de Jorge Amado, seria um auspicioso começo… penso eu de que…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Orcama, seja muito bem reaparecido!!! Que falta nos faz sempre que desaparece!!!

      Absolutamente de acordo quanto às múltiplas tonalidades com que se passa a realidade — nem todas cinzentas, estou mesmo disposta a conceder, tal como já o disse ao nosso MSF.

      A verdade é que no plano da lei — e é a nossa lei pretérita que é por mim visada e enterrada neste infame recanto do cemitério — tudo era a preto e branco. Mais exactamente negro no que à mulher respeitava, branco e bem branqueado no que tangia e interessava ao marido.

      É indiscutível que a lei reflecte sempre a sociedade que a gera e que se propõe reger, os seus valores e os seus anseios. E que visa sempre modelar comportamentos, às vezes alterá-los mesmo — seja dissuadindo práticas e convicções tão arreigadas quanto inaceitáveis, seja estimulando atitudes e práticas que se têm como desejáveis. Mas deve fazê-lo norteada por valores de justiça, de razoabilidade e de proporcionalidade. Que no quadro legal que produziu a infame figura da teúda e manteúda estavam patentemente ausentes, sendo chocante, e não creio que apenas para os padrões actuais, a desproporção da complacência e da tremenda severidade com que eram valorados os mesmos comportamentos, consoante adoptados por marido e mulher.

      Basta recordar o caso de Camilo Castelo Branco, que passou o que passou justamente por via desta mesma lei. E que deu brado na época, estando as reacções ao caso bem longe da unanimidade no apoio ao que estabelecia tal lei.

      Ou o enredo do Primo Basílio, em que o desmedido terror de Luísa e o imenso ascendente de Juliana sobre esta de modo algum se explicam pelo mero temor de um escândalo no meio social em que vivia o casal… havia mais quaquer coisa, e quem tão bem escreveu sobre o tema sabia-o bem, porque bem conhecia a mesmíssima lei…

      PS — Muito bem lembrado o incomparável Enver Hoxha … acaso me será legítimo antever grandes escavações neste mesmo talhão?

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    O que é bom nas histórias dos humanos é que há sempre outra história. É interessantíssima a história legal dos afectos, do sexo, do amor, que a Joana conta. Mas há outra história paralela a esta e que não se fez apenas de ostentação e vaidade, mas também de sentimentos e dos sentimentos vividos no seu tempo, na sua época.
    Não é terno o legítimo olhar jurídico. Mesmo quando é justo, e ainda por cima com a justa visão da Joana. Mas eu gosto de pensar que essas mulheres e os intermitentes homens delas viveram histórias de ternura e de amor. Mais arrebatadas umas vezes, superando humilhações outras. E roçando o sublime mesmo quando era sórdida a cama em que se deitavam. Também essa outra história é a história desses humanos.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel, por muito que me agrade – e bem pode imaginar como agrada, a mim que sempre faço por pintar de rosa e/ou vermelho a mais sombria realidade – essa sua visão do que era a vida dessas mulheres, não posso infelizmente subscrevê-la.

      Terá decerto havido, como diz, histórias de ternura e de amor. Mas foram, não duvido, raras.

      Porque o amor exige liberdade e essas mulheres não eram livres. Não eram livres na escolha de se tornarem “a outra”, de se colocarem sob a protecção e à mercê de um homem que jamais mudaria a sua (dele) vida por elas, de serem a mulher “de segunda”. Não eram livres de sonhar ou aspirar a uma visibilidade e a uma respeitabilidade que sabiam que jamais haveriam de possuir, de serem elas próprias, sem viver no temor de desagradar e de se verem abandonadas, preteridas, trocadas. E claro que a situação só piorava à medida que os anos passavam e se desvaneciam os encantos em que repousava essa sua frágil e equívoca situação…

      Tal como não eram livres as respeitáveis mulheres casadas, encerradas em casamentos sem amor ou afecto, impedidas de deles se libertar, a não ser em casos extremos, e fortemente inibidas, com justificado temor, de buscar fora da alcova conjugal – tal como faziam os seus maridos – tudo aquilo que nela lhes faltava.

      Nada me move – muito pelo contrário – contra as concretas mulheres que em cada momento foram a amante de casa posta do próspero e respeitável homem casado.

      A minha sanha, que motiva este texto, é contra a figura da teúda e manteúda, contra o seu infame estatuto, talhado à medida, não daquelas mulheres e das suas fragilidades – e Deus sabe como as tinham, elas e os filhos que evidentemente nasciam destas relações – mas dos homens que as tomavam e delas faziam sua pertença.

      A estes garantia tal estatuto, em primeira linha, a referida imunidade civil e penal. Depois, a submissão de todas as mulheres envolvidas: da amante, porque desprovida de quaisquer direitos e protecção, logo totalmente à sua mercê para literalmente sobreviver, sendo mais que certo o negro destino que a esperava em caso de repúdio ou de abandono, da esposa porque impedida social e legalmente de fazer valer a sua indignação ante uma situação que a vexava, para além de coagida a um comportamento irrepreensível sob pena de graves castigos. Por último, a plena irresponsabilidade do homem para com tais mulheres e seus (e dele também) filhos, que para a lei não interessavam senão como elementos instrumentais e secundários de um modelo social e familiar centrado no homem.

      Foi esse modelo, personificado na teúda e manteúda, que chegou ao fim faz hoje 100 anos. Ainda bem, digo eu.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ó Joana,

        Agradeço-lhe as explicações, a veemência e o sentimento delas. Acho que a minha breve nota nem sequer é digna da sua correctíssima argumentação. O seu post sustenta uma tese, a sua argumentação no contra-comentário também. A minha nota não. Limita-se apenas a dizer de forma paupérrima o que está dito nos romances, na poesia, na pintura e na ópera de um século. Que aquelas pessoas foram felizes e infelizes, sublimes e canalhas, que é isso afinal a humanidade que somos. E provavelmente a que temos de ser, se é que Darwin tem algum valor.

        Insisto num ponto: há sempre outra história na história dos humanos. Acrescento: a história de um tempo dá depois, nos outros tempos, muito mais histórias do que as que teve no seu tempo — algumas delas, se as ouvissem, matariam de susto os que as viveram.

        Discordo de um ponto seu: “porque o amor exige liberdade”, diz a Joana. É o que toda a gente diz hoje e ai jesus. Não tenho essa certeza. Há mesmo quem pense que só há amor onde e quando se prescinde da liberdade. Como narrativa e estética prefiro esta segunda hipótese.

        Também discordo que se pense um tempo não com as suas categorias mentais e morais, mas com as nossas que esse tempo não tinha ou desconhecia. Como discordo das generalizações que apresenta e que garantem que eram infelizes todas as mulheres, as casadas e as teúdas e manteúdas. É o mesmo que dizer, hoje, que o casamento é apenas uma fonte de permanente infelicidade (e é-o em tantos casos, mas…). Será? Seriam?

        Pronto, Joana, não discordo de mais nada. E como a Joana saúdo a efémeride e nela o fim de um tempo que nós hoje olhamos da mesma maneira que, daqui a 100 anos, alguém olhará, compungido e progressivo, para os terríveis tempos sentimentais, económicos, espirituais que nós hoje vivemos. O que não há-de ser totalmente mentira, nem totalmente verdade.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Manuel, é só para dizer que concordo consigo no que diz discordar de mim. Estranho? Vou tentar explicar sem exceder 10 linhas…

          1 — Nada me aflige, bem ao contrário na ideia de que “só há amor onde e quando se prescinde da liberdade”: mas que para que tal ocorra, é preciso tê-la, e eu não tenho a certeza de que muitas daquelas mulheres a tivessem.
          2 – Se do que escrevi resulta a garantia de que “eram infelizes todas as mulheres, as casadas e as teúdas e manteúdas” não era essa a intenção: foi decerto excesso de, como diz, veemência e sentimento, dos quais aqui mesmo me penitencio.
          3 – Acredito no casamento como no dia em que me casei: não o tomo como “fonte de permanente infelicidade” porque vejo diariamente que não é assim e porque, é como dizem, “por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”.

          Ainda tenho 1 linha: é para dizer o quanto gostei dos seus comentários! Yesss! Coube!

          • Manuel S. Fonseca diz:

            Joana,

            Estava a ir muito bem no seu comentário até ter entrado em excesso de velocidade na linha 10. Cometeu aí grave infracção, desarmando o adversário de forma inapelável que é o mesmo que reduzi-lo à sua insignificância. Fica-me de emenda? Fica, mas com ps, já a seguir ao obrigado que lhe deixo.

            ps — não ficaria de bem comigo se não dissesse que algumas dessas amásias, e mesmo falando só do século XIX, sem me meter noutras arqueológicas escavações, foram mulheres assombrosamente livres. Pelos critérios da época, claro, mas mesmo pelos de hoje, quando conscientes de ser retrospectivo o nosso olhar. Gostava de lhes dizer, daqui do “sanitário” século XXI, que amo muito o amor com que tanto amaram.

            • Orcama diz:

              Estou consigo Manuel “Socorrista” Fonseca.

              Apresenta-se o mancebo Orcama!

              Tem que haver quem tome a causa das “fracas damas”.

              Noutros tempos doze intrépidos Lusitanos cavaleiros houve…

              “A feminil fraqueza, pouco usada,
              Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua
              de forças naturais convenientes,
              Socorro pede a amigos e parentes.”

  6. Luciana diz:

    “Ele é casado e eu sou a outra,
    Que o mundo difama,
    Que a vida, ingrata, maltrata,
    E, sem dó, cobre de lama…”

    Cantado por Bethania: http://www.youtube.com/watch?v=QU69EGEMaTQ&feature=player_embedded#!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fantásticos — letra, Bethânia e vestido vermelho!
      Mas esta outra é mesmo outra conversa: quais discrição, quais ocupar o seu lugar, quais dependência!
      Claramente nesta história só há lugar para uma e está-se mesmo a ver quem o vai ocupar …

      • Luciana diz:

        Nesta pauta não tenho discordância das suas palavras, mas não queria nem fazer renascer a tartaruga nem fazer-me ausente do tema…assim, eis Bethania. Que bom que gostou.

  7. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Joana, mais um fantástico texto. E a efeméride impotante. Do meu particular ponto de vista sobretudo pela diferença de tratamento entre homens e mulheres perante uma mesma situação. Coisa hoje evidentemente injusta e mesmo errada e, no entanto, naquele tempo, há tão pouco tempo, era essa injustiça ainda absolutamente inconsciente. Muito caminho temos nós, os humanos, feito. E muito temos por fazer…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Gonçalo, agadeço a simpatia e aprecio muito a sábia ponderação do seu comentário: esse ponto que sublinha e que o Manuel igualmente tão bem apontou é crucial para nos dar a real dimensão do quanto se evoluiu nestes e noutros pontos. Não se trata apenas das opções de fundo e das soluções em que estas se concretizaram, mas das concepções, das valorações, dos juízos, das mentalidades … O que mostra bem que toda e qualquer destas mudanças se dá a um nível muito mais profundo, constatação que as torna ainda mais significativas e dignas de apreço e registo.

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Se há coisa que me chateia neste feminismo de modelo chapa 4 marxista, é o machismo: a forma como descrimina negativa e exactamente o mesmo que os homens, e no caso apontado, a mulher mais frágil socialmente. Não a dota de poder, enfraquece-a. Repugna-me a força que se constrói em cima da fraqueza. Creio mesmo que tem sido muitíssimo prejudicial à mulher esta subalternalização de que se tem feito a dita igualdade. De cada vez que a mulher se subtrai de pensar o seu papel e os seus direitos clonando o papel e direitos dos homens, está a elevá-lo, ao homem, a paradigma de si mesma. Ora isto é tão pateta quanto a ocidentalização dos costumes dos povos colonizados para se reclamarem independentes dos colonialistas: não se pensa melhor por se usar cartola.

    O que a lei deve reflectir não é o seu tempo, mas o melhor tempo, só assim se pode inaugurar a futuridade.

    E já que estamos nisto, completamente a despropósito: que palhaçada é esta do regozijo por uma mulher presidente da república – e por favor não me venham dizer presidenta que eu não estou a chamar maricas ao taxista por não o tratar por taxisto! -?! Estou-me bem lixando para o género, como me estou lixando para a orientação sexual, o que quero é que seja competente — a Maria de Lurdes Pintasilgo era uma mulher extraordinária porque era uma pessoa extraordinária, não porque era mulher.

    • Luciana diz:

      Eugênia,

      talvez não seja significativo aí como é significativo por estas bandas, que se possa eleger uma mulher presidente ou presidenta, o dicionário aqui permite ambos. Não que o seu (dela, Dilma) gênero lhe confira algum talento especial, mas porque ser mulher ainda é tratado — por estas bandas e por tantos — como um demérito. Não são poucas as pessoas que não querem ser tratadas por médicas ou odontólogas, não são poucas as vezes que se ouve que mulher no volante é perigo constante e outras frases da mesma conotação. Durante a campanha muito se ouviu que a candidata só tinha sido indicada pra não ser concorrente quando o presidente decidisse voltar e muitas vezes se insinuou que ela não seria competente por não ter um homem que a guiasse. Esta concepção da mulher como acessório do homem é muito enraizada e ainda gera episódios como o lastimável Rodeio de Gordas ou que o candidato à presidência possa sugerir que as moças bonitas andem a mandar email pedindo que votem no 45 e, em troca, oferecendo favores. Que Dilma tenha sido eleita a despeito disso tudo, que tenham votado nela, isso me alegra, porque parece indicar, ainda que de maneira leve, uma tendência a superar esta visão limitante. Não sei se consegui expressar a contento as coisas que sentimos e vivemos por esses dias e, parece, não chegaram a cessar.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Não me entenda mal, Luciana. Não se trata de Dilma, podia ser Margareth Thachter, Indira Gahndi, Golda Meir ou Lurdes Pintasilgo. Mas da redução de uma presidência a um panfleto de um tipo de feminismo reprodutor da dinâmica marxista: nem a mulher é o proletário, nem o homem o opressor capitalista. Sequer uma mulher que se exclua daquela categoria, uma alienada. O debate deve ser político e ideologicamente ancorado, não em questões de género: a Dilma não se elegeu presidente das mulheres brasileiras, nem das mulheres abusadas brasileiras, seja pelos maridos ou pelos costumes, elegeu-se presidente do Brasil. E tudo o que seja menos que isto, ainda que seja parte disto, é desrespeitar isto.

        Não é o que o dicionário permite: cedo ou tarde nele constará o que a língua consagrar pelo uso — bem se vê com o famoso e incluído desprezível, de inexistente verbo desprezir, enquanto o desprezável de sempre usado desprezar, de sentido desprezo, vai ao fundo como o Titanic. A questão é a da correspondência entre língua e pensamento: o presidente e a presidente não bastam à necessidade de presidir da presidenta. Ou ao desejo de chefia da chefa. Pergunto-lhe: também há no dicionário o presidento? o chefo, o motoristo? O taxisto de ainda há pouco conduz em que entrada?

        O ataque ad hominem, talvez seja politicamente oportuno dizê-lo contra a mulher, qualquer que seja a sua natureza, nunca será argumento político.

        Claro que se expressou lindamente.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Eugénia,

      Sempre acreditei, e a vida tem-mo confirmado, que a felicidade de uma vida é feita de pequenas alegrias, muitas e intensas; que o sucesso se atinge por pequenos passos, certos e seguros; que as grandes vitórias se conseguem através de pequenas conquistas, relevantes e irreversíveis.

      Essa ideia, que reprova, de a mulher almejar “ao papel e aos direitos” do homem, tornando-o “paradigma de si mesma”, é uma etapa na longa caminhada que é a das mulheres neste nosso mundo. Uma primeira e importantíssima etapa, que entre nós demorou e custou a atingir em tantos domínios – do direito de voto ao acesso a profissões como juiz ou diplomata, passando pelo ingresso nas forças armadas. Etapa que está, ainda hoje, infelizmente longe de se poder considerar atingida — basta pensar na desigualdade salarial, que em tantas profissões subsiste, bem arreigada, entre homens e mulheres, num país cuja Constituição proclama, vai para 35 anos, que “a trabalho igual, salário igual”.

      É claro que a mera equiparação não é um fim em si e carece de ser completada com partilha de responsabilidades, em casa, de poder económico e político, fora dela, e com uma profunda mudança de paradigmas, mentalidades e modelos de organização familiar e social. Mas é um passo que não pode ser menosprezado, pois nele radica a eliminação das mais inaceitáveis formas de discriminação.

      A lei, goste-se ou não, é inevitável que reflicta o seu tempo, os seus valores e inquietações, os seus anseios. E bem andamos quando assim é não nasce já ultrapassada, como o nosso Código Civil, que entrou em vigor no ano em que ambas nascemos, submetendo as nossas recém-casadas mães ao “poder marital”, proibindo-as de utilizar contraceptivos sem autorização do marido e atribuindo-lhes o “governo doméstico”, ao mesmo tempo que cometia as decisões “de interesse conjugal comum”, em exclusivo, ao “chefe da família”.

      Quanto à ideia de que a lei deve reflectir “o melhor tempo” visto que “só assim se pode inaugurar a futuridade”, não tenho como não exprimir o cepticismo de quem há já demasiados anos vê serem publicadas e reiteradamente inaplicadas demasiadas leis, por serem … demasiado avançadas para o seu tempo – refiro apenas como exemplo a Lei de Protecção da Maternidade, de 1984, cujas soluções em matéria de conciliação de trabalho e família e de partilha de responsabilidades familiares entre homens e mulheres estavam ao nível dos mais avançados países nórdicos … e que, quando quase vinte anos depois, foram literalmente transpostas para o articulado do Código do Trabalho, muitos saudaram como arrojadas opções do nosso legislador de 2002/2003 …

      Este post pretendia ser um “dois em um”: a pretexto de marcar o primeiro centenário da Lei do Divórcio e do inquestionável progresso que esta — digo eu — representou para todas as mulheres de então, aproveitar para zurzir, enterrando-o em lugar apropriado, o modelo familiar e social a que o nosso legislador até então dera plena cobertura e que, já o referi em comentários anteriores, se centrava no homem, subalternizando, por modos diferentes é certo, as “suas” várias categorias de mulheres. Tentei dar-lhe um tom sarcástico e torná-lo divertido, sem cair em excessos de “juridicismo”, de moralismo ou de feminismo.

      Lamento profundamente que a tenha desgostado e deixado aborrecida.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Ó Joana!.. Não me passou pela cabeça que me julgasse desgostada ou aborrecida com o seu post “dois em um”. Ainda que haja uma polarização que me incomoda no feminismo de há 100 anos, sequer seria capaz da injustiça de não lhe reconhecer o que conquistou.

        Assim quem lamenta profundamente sou eu.

        • Joana Vasconcelos diz:

          A sério que não? :)
          Então às malvas com as profundas lamentações!!! ;)

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            Às malvas, Joana..

            Fiquei mais que maçada quando percebi que podia ter sobressaído não o argumento, mas a posição mais extremada. Prefiro, em regra e até a um limite do qual poucas vezes me aproximei, que a polémica — a cheia de boas ainda que distintas razões — seja subalterna do afecto, não o contrário.

      • André Andrade diz:

        Goodness Gracious Me! É muito bom ler textos com esta qualidade –conteúdo e forma– na blogosfera! Isto é que é garra.
        Jolly Good, Joana!

  9. Teresa EQ diz:

    Leitora que sou do blog e mulher que — por muito gostar — ‘estuda’ o Homem (começando por mim, claro!), chamaram-me à atenção os textos da Eugénia do dia 30 e o da Joana. Bom, aprendi imenso e isso é bom.

    Cá do meu cantinho:
    É uma efeméride a assinalar, claro!
    Tenho para mim que há sempre um testo torto para uma panela torta. Por que de complementaridade se trata.
    Ouvi, há muito pouco tempo, que todo o ser que respira é imperfeito. Considero a essência da expressão mais exacta do que «todo o ser humano erra».
    Porque cada ser é um ser único, o caminho faz-se caminhando e cada ser tem o seu tempo. E quanto tempo leva o Homem a percorrê-lo… Mas fá-lo!
    Isto é como na farmácia…: há de tudo.
    Keep on going!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Teresa, é um gosto imenso receber o primeiro comentário seu!

      Mas não foi só isso que o tornou especial: tenho, já por aqui o confessei, uma certa embirração à perfeição e um certo correspondente fascínio pelo que é imperfeito. E essa sua citação de que todo o ser que respira é imperfeito é sensacional: vou ficar a pensar nela, porque dá mesmo muito que pensar e explica tão melhor, como diz, tantas coisas …

      E we will, of course, keep on going … hoping that after today you will keep on coming here … ;)

  10. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Teresa, olá.

    Fui cuscar o dia 30 na esperança de ser, vá, um texto daqueles melhorzinhos. Mas só escrevi aquela tontice supersticiosa que fiz, e gostei tanto de a fazer!, em miúda. Se a sua atenção esteve ali naquele dia, que tenha sido com benevolência adolescente.

    Também acredito no testo e na panela.. tortos, claro, como convém.

  11. Turmalina diz:

    Li, gostei, mas achei melhor não comentar :o)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina!!! Quer matar-me de curiosidade??? Condenar-me à improdutividade???
      É que não vou conseguir trabalhar direito a pensar no tal do comentário que você com esse sorrisinho safado omitiu …

      • Turmalina diz:

        Hhahaha.…dou-lhe uma dica: existem mulheres e “mulheres”. Num mesmo contexto encontramos vítimas e algozes.
        Daí que acho complicado julgar e mais ainda condenar essa ou aquela, isso ou aquilo.Hoje vou me limitar à essas poucas palavras só para deixá-la trabalhar direito :o)

  12. - Oportuno, muito oportuno essa matéria para dizer algumas verdades. Sem desprezar o pitoresco tema aqui tratado da teúda e manteúda — que delícia para nós, homens — vige atualmente um ranço do feminismo exarcebado que passou, mas deixou a sua indelével marca, e que a Eugência de Vasconcelos nos trouxe à tona. Realmente não existem as expressões: o chefo, o presidento, o taxisto, o motoristo, o maquinisto, o foguisto. Nem os homens se sentem afeminados quando ocupam essas funções nominadas. Já as mulheres — que ironia! Não é somente a primeira mandatária da Nação que EXIGE que se lhe intitule: “presidenta”. Há muito uma eleita para o Sindicato de determinada categoria até devolvia os ofícios que recebia exigindo que lhe chamassem “senhora presidenta” e não senhora presidente, como ensina a douta norma culta. E já tinha visto em outros carnavais as designadas dizerem-se “chefas”. Até a componente de determinada comissão se auto-intitulou “membra” (que pessoa besta!). São palavras comuns-de-dois gêneros! (todos os tratados de Literatura Portuguesa, Comunicação e Expressão, Academia Brasileira de Letras). Como também não existem os nomes próprios: Consuela, Conceiçona, etc. Não sei como ainda não obrigaram a isso. Ou ainda não elegeram Djalma, Ventura, Boaventura, Ubirajara como nomes de mulher. Mas a sociedade e a Academia Brasileira de Letras “abriram o rabo” a essas maluquices, e já adotaram as expressões exigidas como certas, desprezando as normas consagradas da Grmática. Que os céus tenham piedade de nós!

  13. Samuel de Barros diz:

    Prezadas e doutas senhoras.

    Foi-me bom ler a maioria dos textos postados sobre a “teúda e a manteúda”. Lastimo não poder prosseguir com o deleite acadêmico. Também, findado o debate com o não menos ilustre Manuel S. Fonseca, gostei da guinada produzido pela Eugénia de Vasconcellos. Creio que esta, enriqueceu o tema anterior, colocando uma pimentinha nas questões feministas.
    Não sou machista e nem feminista.
    Como criacionista bíblico que sou, a minha visão sociológica, antropológica e jurídica das questões familiares e, seus desdobramentos vivenciados nos usos e costumes de cada geração, devem ser visualizados dentro de perspectiva não filosófica, mas sim, teológico judaico-cristã. Creio que as nuances antropocêntricas nunca saem de uma espiral centrípeta. São úteis para conhecermos a natureza caída da raça humana, mas inúteis para trazer a PAZ para as relações humanas, em qualquer um de seu viés.
    Sou convicto quanto a necessidade de buscarmos no Criador o fundamento imutável para a paz e harmonia relacional da sociedade desenvolvida pelo ser humano.
    Samuel. BH, MG — 19÷08÷14

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