Secretários de Estado assim…
Um Morto
em Visita

Hoje, o nosso convidado de Novembro leva-nos a uns bastidores que talvez adivinhássemos parecidos, mas não tanto. Uma visita de luxo. Pela mão de Eduardo Marçal Grilo.

Ainda antes de chegar ao fim desta minha estada no Vosso Cemitério de Memórias não posso deixar de contar uma pequena história  passada durante o período em que fiz, em Portugal, a coordenação dos Projectos de Educação do Banco Mundial.
Numa certa altura veio a Portugal uma delegação do Banco que trazia como objectivo fazer o levantamento das áreas prioritárias em que o Banco deveria apoiar o investimento, o que implicou uma delegação muito alargada e dirigida por um dos seus altos quadros, um economista sul-coreano, muito competente e pessoa de grande qualidade pessoal. A delegação incluía mais uns três ou quatro elementos, com formações diversas que eu acompanhei numa longa visita a diversos pontos do nosso país.
No final, como era prática corrente com estas delegações, o Chefe da Missão produziu um pequeno relatório, muito sucinto, mas muito bem feito que era apresentado a diversas entidades designadamente Directores Gerais, Secretários de Estado e Ministros envolvidos nestas negociações entre Portugal e o Banco Mundial.
Acontece que numa dessas visitas a um Secretário de Estado dei-me conta, no início da reunião de que este membro do Governo não falava, nem compreendia inglês pelo que eu me ofereci para fazer de intérprete nos dois sentidos.
A reunião iniciou-se com o Chefe da Missão (que era o Sr. Man He You, pessoa por quem eu tinha uma grande simpatia e com quem tinha trabalhado numa missão à Jordânia) fazendo uma apresentação muito bem estruturada, identificando problemas, definindo estratégias e apontando prioridades para a Educação em Portugal, que eram enquadradas numa visão muito global e integrada dos problemas que a Missão tinha detectado durante as cerca de três semanas passadas no nosso país e durante a qual tinham contactado e ouvido dezenas e dezenas de pessoas, não apenas na Administração Central, mas também em escolas, empresas, universidades , institutos de investigação e “tutti quanti”.
Eu lá traduzi para português o que o Sr. Man He You tinha dito e a resposta do Secretario de Estado deixou-me perplexo e sem saber o que fazer a seguir porque este o que queria que eu dissesse à Missão cito: “Sabe Senhor doutor o que eles deviam apoiar era a obra do senhor Padre… onde se ensinam raparigas a trabalhar com as máquinas de costura e os rapazes a escrever à máquina.”
Fiquei sem saber o que dizer, mas decidi-me por fazer uma intervenção tirada da minha cabeça dizendo que o Senhor Secretário de Estado concordava basicamente com a estratégia definida e com as prioridades estabelecidas tendo eu próprio procurado de imediato dar por terminada a reunião o mais rapidamente possível. E assim aconteceu. O Secretário de Estado estava também certamente desejoso que tudo acabasse sem mais questões.
Quando saímos e nos reunimos ainda no passeio do edifício desse Ministério onde estava colocado o Secretário de Estado, um dos membros da Missão que tinha vivido uns tempos no Brasil e percebia qualquer coisa de português perguntou-me assim – “Oh! Eduardo tu não nos disseste exactamente o que o Secretário de Estado disse pois não! Ele falou num padre e tu não referiste isso.”
Nessa altura falei sério e disse-lhes – Meus Caros esta reunião é como se não tivesse existido. Com padres ou sem padres risquem das vossas agendas esta reunião porque houve em toda esta reunião um equívoco que não vale a pena revelar-vos.
Já houve Secretários de Estado assim!…

Comentários a “Secretários de Estado assim…” (3)

  1. José Navarro de Andrade diz:

    temo que o tempo pretérito da última frase seja desadequado.

    • Eduardo Marçal Grilo diz:

      Não comento. Quero cumprir com a tradição de não me meter na política actual, mas se calhar é capaz de ter razão.……

  2. Luiz Felipe diz:

    Que boa estoria,Eduardo!

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