Nasceu no País de Gales, de pais noruegueses que lhe deram o nome do herói da sua terra distante que o nosso Francisco aqui gelidamente sepultou. Media quase dois metros de altura e gostava de snooker, de orquídeas, de chocolate e de histórias. Sobretudo de histórias — de as ouvir, ainda pequeno, à mãe, que lhe falava dos gigantes e de outros seres fantásticos da mitologia nórdica; de as contar aos seus cinco filhos, à noite, antes de lhes apagar a luz. Participou numa expedição científica à Terra Nova, trabalhou para a Shell em África e foi piloto da RAF e espião ao serviço de Sua Majestade durante a II Guerra Mundial. Só depois começou a escrever, numa cabana ao fundo do jardim, no cadeirão que herdara da mãe, com uma prancha de madeira a servir de mesa. E sempre a lápis.
É antiga a minha história com Roald Dahl. E desenrola-se de trás para a frente, o que faz todo o sentido, sendo ele o incomparável master dos twisted plots e dos surprise ends.
Lembro-me de ver na televisão, teria uns treze ou catorze anos, Tales of the Unexpected, uma série cujos episódios eram antecedidos de um extraordinário genérico com música de realejo de feira e de uma provocatória e desconcertante introdução, muito ao estilo do Hitchcock Presents*, pelo próprio Roald Dahl, autor das short stories em que aqueles se baseavam. Os enredos eram imaginativos, estranhos, tortuosos, muitas vezes macabros, quando não perversos — mas sempre negra e irresistivelmente divertidos. Descobri entretanto lá por casa vários volumes das ditas short stories que a minha mãe, completamente addicted, trazia das viagens de trabalho a Inglaterra. Comecei pelas conhecidas, só para ver se eram mesmo assim. Eram so much better, so much more wicked and bizarre and spinechilling que as li todinhas. Porque, como dizia o próprio Dahl, “what’s horrible is basically funny – in fiction”. Ainda hoje as relembro amiúde e as revisito com gozo: Lamb for the Slaughter, Man from the South, William and Mary, The Way up to Heaven, The Great Switcheroo, Skin, Bitch, to name just a few …
Só muito depois descobri o delicioso Matilda, que devorei num ápice. De leitora do Dahl para crescidos, rapidamente me tornei — também — leitora do Dahl juvenil. Seguiram-se The Witches, Charlie and the Chocolate Factory, The Big Friendly Giant, The Magic Finger, The Twits, Esio Trot, Fantastic Mr. Fox e todos os outros. Muitos deram origem a filmes, altamente apreciados por estas bandas. Mas são os livros que são objecto de adoração – minha e das filhas, todas três, e também da vasta trupe de filhos de primos e de amigos, a quem a Tia Joana fez questão de iniciar neste estimulante vício. Porque não são muito grandes e até se conseguem ler bem e depressa, dizem os mais relutantes, surpreendidos, convertidos e já prontos para o próximo. Porque as histórias são fantásticas, dizem todos. E têm razão. Roald Dahl escreve para os mais pequenos como se fosse do tamanho deles: é pelos olhos límpidos e atentos dos seus protagonistas, quase sempre crianças, que vemos o mundo, aquilo que lhes sucede e, claro, os adultos. Que, com contadas e honrosas excepções, raramente saem bem no retrato: são insensíveis, insensatos e injustos. Pior, não percebem nem tentam perceber as crianças, tratam-nas sem afecto nem cuidado, gritam-lhes e metem-lhes medo. À conta disto, adultos há — estes reais, não de ficção — que alegam serem estes livros subversivos, logo impróprios para crianças. Decerto nunca tiveram professores retorcidos, vigilantes de recreio prepotentes, parentes assustadores, vizinhos antipáticos — digo eu. Porque não me ocorre outra explicação para que por completo lhes escape, não só o que de comicamente catártico têm tais histórias, mas sobretudo o que nelas mais importa: que os miúdos levam sempre a melhor porque são corajosos, optimistas, resilientes, lúcidos e inteligentes. É este, aliás, um ponto que me fascina e me encanta em Roald Dahl: ter sido capaz de produzir, às vezes em simultâneo, das mais tortuosas e arrepiantes histórias para adultos que li e estas deliciosas e tocantes histórias para crianças, a todas cunhando com a sua marca: uma portentosa e às vezes impiedosa combinação de agudo sentido crítico e de corrosivo humor.
Há ainda as obras in between, catalogadas como infantis, mas em bom rigor para adultos, como as Revolting Rhymes, uma hilariante e politicamente incorrecta reelaboração dos tradicionais contos infantis — na qual o Capuchinho Vermelho mata o lobo a tiro e faz um casaco de peles e a Branca de Neve, exasperada porque os Sete Anões, jogadores inveterados, não acertam uma, surripia à madrasta o Espelho Mágico, para ter tips acarca dos cavalos vencedores … e acabam todos milionários.
E, last but not the least, as ilustrações de Quentin Blake, que numa parceria feliz com a escrita criativa e exuberante de Dahl, que ainda hoje perdura, apreendeu a essência das figuras criadas por este e, ao desenhá-los, tornou-os ainda mais reais e adoráveis ou execráveis, conforme o caso. Gosto delas todas, mas, a ter de escolher uma, sem hesitar a menina leitora, de Matilda.
Fez esta semana vinte anos que Roald Dahl morreu, a 23 de Novembro de 1990. Há muito que andava para o trazer para aqui. Pareceu-me ser esta uma boa ocasião.
* Foi aliás Hitchcock quem primeiro filmou algumas das short stories de Roald Dahl, entre 1958 e 1961, a saber: Lamb to the Slaughter, Dip in the Pool, Poison, Man from the South, Mrs Bixby and the Colonel’s Coat, The Landlady.


















Que bonita homenagem aqui faz a Roald Dahl! Ele que tantas vezes me acompanhou, divertiu, comoveu, fez pensar e sempre me levou a querer ler mais e mais sem parar as suas histórias!
Gosto muito de várias de Roald Dahl, sem que, porém, consiga eleger uma como preferida. E gostei também muito deste seu lindo texto, que tão boas memórias me trouxe e que me fez sair disparada em direcção à estante para escolher um para reler. A dúvida é saber qual deles…
Muito obrigada pelo texto dedicado ao bom gigante que faz mais felizes pequenos, médios e grandes!
Olá Teresinha, que bom sabê-la leitora (e releitora) de Dahl e, claro, gostadora deste meu texto!
O Dahl a que se refere é o dos mais pequenos, I presume? Ou já se lançou também no retorcido e arrepiante outro? Se não, fica a sugestão: http://www.amazon.co.uk/Collected-Short-Stories-Roald-Dahl/dp/0140158073/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1291031143&sr=8–1. Só espero que não lhe cause (ainda mais) insónia, entre a leitura voraz e os macabros e bizarros enredos… ;)
Sim, o Dahl a que me referia é o dos mais pequenos. O outro ainda não conheço mas agradeço muito a sua sugestão! Vou já tratar de encomendar para ser presente de Natal de mim para mim :)
Vai saber mesmo bem lê-lo entre os — alguns também arrepiantes — livrinhos (claramente é eufemismo) com que serei obrigada a entreter-me algures lá para Janeiro!
Estranho como a mera evocação de Janeiro causa arrepios também a moi …
É sempre boa altura para falar de Roald Dahl de quem eu, e os meus alunos, gostamos muito. Tanto, que os livros «lá» da biblioteca precisam urgentemente de ser substituídos: estão entre os mais gastos.
E, depois, é óptimo deixá-los na dúvida, “I am not, of course, telling you for one second that your teacher actually is a witch. All I am saying is that she might be one. It is most unlikely. But –here comes the big “but” –not impossible.” (The Witches).
Hello Sofia, que bem aparecida! Esse teu profundamente sabedor trecho fez-me ir buscar e reler deliciada The Witches ainda ontem, até às tantas! A completar o festim que foram os serões destes últimos dias agarrada às Shorts.
E sim, parece-me especialmente apropriado como approach pedagógico, tipo logo na primeira aula… I’ll give it some really serious thought, eu que tanto gosto de abrir os semestres com uma citação estimulante e, se possível, edificante e que ando sempre à coca para renovar e variar o reportório! Thks!!!
Joana,
Como não refere expressamente não sei se leu o “My Uncle Oswald”. Vale a pena.
JP Guimarães
Olá João Pedro, My Uncle Oswald aguarda leitura que todas as minhas extremely reliable sources — às quais acabo de o juntar — me garantem divertidíssima.
Tenho uma ideia do que trata o plot e conheço os traços essenciais deste delirante “Tio” de Roald Dahl: cruzei-me com ele e com o seu extraordinário motto (“I never return to a female a second time”) nas Shorts … desde logo no hilariante Bitch que refiro no texto (aquela do perfume que causava nos homens um ancestral sexual frenzy, seguido de amnésia, e da enormous e hopelessly unatractive Mrs. Ponsonby, vestida de stars and stripes …)
Bem, eu não conheço o Dahl… E pelo que li aqui já perdi muito — aquela do capuchinho tirar a tosse ao lobo e fazer casaco de peles…, não sei onde já vi isso acontecer mas já (ainda que alegoricamente…)
Muito bom, tenho de investigar!
Hello António, ainda vai mais que a tempo!
Aqui ficam uns links para as tais versões surrealmente divertidas da Branca de Neve e os Sete Anões (http://www.funny-poems.biz/roald_dahl/revolting-rhymes-by-Roald-Dahl-Snow-White-and-the-Seven-Dwarfs.html) e também dos Três Porquinhos, onde reaparece, armed and dangerous, a menina Capuchinho Vermelho, bem ataviada no seu casaco de peles … (http://oldpoetry.com/opoem/61676-Roald-Dahl-The-Three-Little-Pigs)…
Mas eu arriscava uma incursãozinha nas shorts … esta, por exemplo (http://homepage.mac.com/georgepratt/iblog/B44581127/C1898775419/E637754559/Media/ManfromSouth.pdf) ou, então, esta(http://www.miguelmllop.com/stories/stories/thewayuptoheaven.pdf).
Tia Joana!!!! Adorei esse seu gigante…e também o short movie do Hitchcock…
Que bom que gostou, Turmalina, minha querida e transatlântica “sobrinha”!
E sim, o filme é um sonho (o Man from the South, com o Steve Mc Queen também é excelente e também se “apanha” no You Tube, mas em versão fatiada, todo aos pedaços, o que tira um tanto a graça …)
Joana, adorei este seu texto. É contagiante.
E fiquei cheia de inveja, por não conhecer os textos de um autor que tem tudo para me deliciar.
Adoro o ilustrador, esse já conhecia e, pelos vistos, vão a matar um com o outro.
Obrigada pela partilha.
Teresa, fico mesmo contente de saber que gostou! E vai mais que a tempo de descobrir Dahl, seja o dos mais pequenos, inconcebível sem as adoráveis ilustrações de Quentin Blake e também o dos crescidos, em que as narrativas, de tão imaginativas, tortuosas e bem carregadas de traços de humor negro nos fazem literalmente ver as cenas como se estas se desenrolassem diante de nós …